Peter – 3 anos antes

Ele repassava os detalhes de seu projeto no computador, enquanto escutava no fone de ouvido as notas pesadas de sua banda favorita de rock. Mesmo que, naquele projeto em específico, tivesse um parceiro, Peter preferia trabalhar assim: sozinho. Josh quase nunca o perturbava, sabia que ele rendia melhor se fosse deixado quieto no seu canto e só acabavam se encontrando quando realmente era necessário. Ele gostava de Josh, apesar de seu pavio curto, era um bom sujeito e entendia as particularidades dele sem questionar, além disso, era um ótimo profissional. Engraçado, agora que pensara no assunto, percebera que já fazia algum tempo que não o via, o que será que estaria tramando? Deu de ombros, logo mais apareceria. Estavam em um momento crucial do projeto e ele não deixaria de cumprir com sua parte. Peter olhou para o relógio no canto direito de sua tela, já era tarde, mais uma vez ele perdera a noção do tempo, era o quarto dia, só naquela semana, que tinha ficado além do horário, se continuasse nesse ritmo ia acabar pegando um bom tempo de folga só de horas extras. Desligou o computador, pegou sua mochila e foi embora para casa.

Peter gostava do que fazia em sua empresa, mas sua paixão mesmo era o que fazia fora dela, em suas horas vagas. Hackear tinha começado como um hobby, invadia pequenas redes por diversão, só para testar se conseguia, porém percebeu que era bom nisso e logo outras pessoas também e com isso começou a fazer alguns bicos para empresas que o contratavam somente para testar suas barreiras virtuais. Contudo, as habilidades de Peter com o computador eram nada se comparadas ao seu alter ego: StreamingP. Esse sim era uma celebridade no mundo virtual. Cada competição, oficial ou não, cada trabalho arriscado ou invasões ousadas que surgiam na boca da comunidade, o StreamingP estava envolvido. Peter gostava disso, era como se fosse um super herói ou um justiceiro, que todos conhecem, mas ninguém sabe sua real identidade. Ele estava logado usando o seu alter ego em um dos fóruns da comunidade quando alguém lançou um desafio: hackear os sistemas da NASA. Isso seria moleza! Já tinha invadido sistemas muito mais complexos que esse. StreamingP aceitou o a empreitada e começou a fazer suas manobras, em menos de dez minutos já estava dentro dos sistemas da Agência Espacial. Não satisfeito com o feito, ele começou a varrer os computadores em busca de algo que realmente valesse a pena. Passou por um, dois, três firewalls, mas nada do que via lhe chamava a atenção, até que se deparou com um tal Projeto SIRIUS. Caramba! Esse sim estava bem protegido. Tentou abrir caminho por aqui e por ali sem muito sucesso. A adrenalina do esforço crescendo a medida que se frustrava com algum comando dado, era isso que queria sentir desde o começo, era disso que gostava. Ficou nesse jogo de gato e rato por alguns bons minutos até que finalmente venceu as barreiras de seu adversário. Tudo aquilo para esconder mais um projeto de viagem ao espaço? Que decepção! Aquilo era tão velho quanto o homem pisar na lua. Mas, espere, o que era aquilo? Tinha algo de diferente com esse projeto. A animação voltava ao seu ser a cada palavra lida. Seria mesmo possível que estivessem planejando tal coisa? Aquilo era grande! Mais do que depressa Peter saiu dos sistemas e apagou todos os seus rastros, não queria que soubessem que ele esteve bisbilhotando tais informações, isso poderia lhe trazer muitos problemas.

Josh não tinha aparecido novamente na empresa? Que estranho! Será que tinha sido demitido? Improvável, teriam lhe avisado ou já colocado outro em seu lugar, o projeto em que estavam trabalhando era muito importante para que não o fizessem. O que será que tinha acontecido com ele então? Peter sentou em sua mesa e assim que começou a acessar os arquivos em que estava trabalhando no dia anterior percebeu que a parte que cabia ao seu parceiro estava toda ali. Quando foi que ele tinha conseguido inserir os dados se nem estava vindo ao serviço? Não era de sua conta, o importante era que o projeto estava pronto. Ele salvou as últimas alterações na rede e avisou seu gerente, que ficou extremamente animado com a notícia dizendo que passaria o quanto antes o trabalho para o contratante. Sem muito mais o que fazer, Peter passou o resto do dia analisando alguns projetos menores que ainda estavam em andamento e pesquisando algumas informações na internet.

– Peter, tem como você vir a minha sala um minuto? O nosso cliente daquele projeto está aqui e ele quer tirar algumas dúvidas com você. – Peter levou um susto quando seu gerente apareceu de repente atrás dele. Nossa, já estavam ali? Aquele pessoal realmente estava com urgência no serviço.

Ele se levantou e seguiu seu gerente até sua sala. Enquanto caminhava o outro homem começou a contar-lhe um pouco mais sobre o cliente.

– Sei que tínhamos mantido em sigilo a informação até agora, pois assim nos foi solicitado, mas como requisitaram sua presença, acredito que não tenha mais porque esconder. – Peter olhou indiferente para o homem ao seu lado, não lhe importava saber quem tinha contratado os serviços, mas o seu gerente pareceu não notar o óbvio e continuou. – Nosso cliente é a Agência Espacial.

O sangue de Peter gelou. Seria somente coincidência ele ter hackeado a NASA na noite anterior e justamente eles estarem ali, em seu local de trabalho, para falar com ele agora? Não era possível que tivesse sido descoberto tão rapidamente, ele tinha certeza que havia coberto todos os seus rastros. Eles chegaram a sala e seu gerente abriu a porta, entrando sem cerimônias. O coração de Peter ainda batia acelerado quando o seguiu ao interior do recinto. Um homem pomposo, vestido em um terno bem cortado, se aproximou de Peter e estendeu sua mão em um cumprimento.

– StreamingP? Sou Joshua Kane e acredito que precisamos conversar.

O Nascimento

Maria ajudava a mãe e a tia na cozinha com os preparativos da festa. A ceia deste ano seria simples, pois a maioria da família tinha ido viajar, deixando poucos na cidade para as comemorações de final de ano. Ela puxou uma das cadeiras da mesa e sentou-se. Um pouco ofegante, colocou a cabeça para trás, fechando os olhos. Depois olhou para a barriga enorme, evidência de que logo uma nova vida estaria neste mundo, e a acariciou.

– Você está bem? – sua mãe disse se aproximando.

– Claro! Só queria descansar um pouco os pés – ela respondeu já pedindo a mão da mãe para ajudá-la a levantar. – Vamos, ainda temos muita coisa a fazer. – As duas sorriram uma para outra. Assim que ficou de pé ela sentiu o líquido escorrer por suas pernas, olhou para o chão e sorriu. Depois voltou a olhar para mãe com lágrima nos olhos. – Chame o João! A bolsa estourou.

Todos corriam de um lado ao outro da casa tentando resolver coisas como quem iria, o que levariam e como fariam. Maria já esperava sentada no banco do passageiro de um dos carros, respirando fundo a cada contração que vinha, engraçado como era ela quem estava em trabalho de parto, mas era  justamente a mais calma em toda aquela situação. Por fim decidiram ir todos juntos ao hospital. Maria, sua mãe e João ocupavam o carro que encabeçava a fila, logo atrás vinham seus tios e primos e mais um terceiro automóvel com seus avós. A rodovia estava completamente parada, já tinha se passado mais de meia hora que estavam ali e mesmo assim pouco foi o avanço feito. Era estranho pensar naquele fluxo tão grande justamente na véspera da virada do ano, quem é que arriscaria passar o feriado no congestionamento? Aparentemente muita gente! E lá vinha mais uma contração. Maria segurou no banco e respirou fundo, segurando o grito de dor.

– Não acredito que isso está acontecendo justo hoje! Já era para estarmos lá – João lamuriou inconformado enquanto andava mais uns poucos quilômetros para logo em seguida parar novamente. Ele tentou pensar em outro trajeto, mas a cidade era pequena, e infelizmente o único caminho disponível para o hospital era aquele, o que não seria problema em um dia qualquer, porém para o seu infortúnio, aquela era também uma estrada muito utilizada para destinos turísticos diversos naquela época do ano e o resultado não poderia ser outro. Ele começou a buzinar. Maria soltou outro gemido de dor, o espaçamento entre as contrações estavam diminuindo.

– Pare com isso João, esse barulho todo só está atrapalhando! Não está vendo que ela está com dores? – sua sogra disse segurando a mão de Maria por entre os bancos.

– É justamente por isso que estou fazendo, temos que chegar lá rápido, a senhora tem uma sugestão melhor? – ele respondeu emburrado. O congestionamento ia de ponta a ponta da estrada e nenhuma das filas com dúzias e mais dúzias de carros dava sinal de que iria avançar. Maria viu pelo retrovisor que seu tio saia do carro de trás, enquanto sua tia assumia o volante, e correu até a janela de João. O que mais poderia estar acontecendo agora?

– Tem uma ambulância logo ali na frente, vou correr lá e explicar a situação, enquanto isso tente chegar até ela – ele disse e sem esperar por uma resposta saiu em direção ao veículo.

João começou a buzinar freneticamente e a jogar o carro para cima dos outros para que estes abrissem caminho para ele. As pessoas começaram a xingá-lo, mas ele não se importou, bom mesmo era que a tática estava funcionando, logo chegariam a ambulância. Maria gritou novamente de dor, estava vindo cada vez mais rápido e demorando mais para passar. Ela já não conseguia mais controlar os ânimos. Ao longe, seu tio voltava seguido de um paramédico, que se apresentou e sem cerimônias abriu a porta do passageiro pedindo para que o outro homem o ajudasse a colocar Maria deitada no banco de traseiro do carro e assim que a acomodaram, ele começou a examiná-la.

– Não temos mais tempo, ela terá o bebê aqui! – ele anunciou. Todos olharam espantados para o paramédico que já se arrumava para o procedimento.

– Não, por favor, eu aguento! – Maria implorou – Me coloque na ambulância e ligue a sirene – ela completou ofegante.

– A ambulância está ocupada! Estávamos prestes a ligar a sirene quando esse homem apareceu contando do seu caso. Mesmo que vocês nos sigam, não vai dar tempo, seu bebê está prestes a nascer!

Maria gritou mais uma vez de dor, desta vez o paramédico não esperou por uma resposta e correu até a ambulância, voltando com uma maleta cheia de aparatos médicos. Ele pediu para que a levantassem um pouco, cobriu suas pernas com um pano e colocando sua cabeça abaixo do tecido pediu para que ela fizesse força assim que sentisse o próximo movimento. Maria não sabe quanto tempo passou ali, se fora minutos ou horas. No começo até conseguiu ver sua família e os estranhos que se acumulavam ao redor do carro para ver o que acontecia, ainda conseguia conjecturar, mesmo com as dores e ao esforço, se perguntando o porquê daquilo estar acontecendo com ela. Ainda conseguia pensar que não queria que seu bebê viesse ao mundo daquele jeito. Mas em um dado momento, suas forças se esvaíram e ela somente repetia, mecanicamente, o que lhe era pedido, até que finalmente, como em um passe de mágica, não sentiu mais a necessidade de fazer força, deixando-se cair no banco com a cabeça para o lado. O barulho dos estrondos dos fogos explodiu forte em seus ouvidos e suas luzes invadiram o céu escuro da noite. Ela escutou pessoas gritando de felicidade e se cumprimentando. Que coisa mais linda! Pensou enquanto assistia as luzes coloridas explodirem no céu. Parecia que todos estavam comemorando a chegada de seu bebê ao mundo! Maria mal conseguia escutar o choro de sua criança tanto era o alvoroço feito do lado de fora do veículo e foi por este motivo que somente quando o paramédico aconchegou o pequeno pacote quentinho em seu peito e ela conseguiu olhar diretamente nos olhos de sua filha que percebeu do que tudo aquilo se tratava.

– Parece que você e o novo ano nasceram juntos, minha pequena – ela disse sorrindo. – Bem vinda ao mundo! – falou, beijando a testa de seu neném e aconchegando a pequena criança em seu corpo. Mesmo exausta, seu coração se encheu de alegria e esperança. Mas que ironia aquela, o pior dos cenários possíveis para um final de ano acabou se tornando o melhor dos começos.

Helder – 3 anos antes

Ele estava sentado na cafeteria terminando sua refeição antes de começar o plantão da noite no hospital. Estava cansado, acabara de vir de uma cirurgia longa de emergência e tentava repor suas energias para o turno que estava por vir. Duas enfermeiras vinham conversando e assim que o viram começaram a cochichar.

– Aquele não é o médico da televisão? – uma delas disse tapando a boca para tentar abafar a pergunta.

– É ele sim. Não te falei que ele trabalhava aqui! – As duas deram uma olhada de canto na direção de Helder e começaram a rir, cochichando mais alguma coisa antes de se afastarem.

Ultimamente, em todo lugar que ia, sempre tinha alguém que o reconhecia. No começo era engraçado, mas agora esse tipo de situação estava começando a lhe perturbar. Lógico que não teria deixado de fazer o que fez, mas se soubesse no que daria, talvez tivesse evitado tanta exposição. Há umas duas semanas, Helder estava na clínica, onde trabalha como voluntário, em um dos bairros mais carentes da Breslávia, quando uma mãe entrou gritando desesperada enquanto paramédicos traziam seu filho, que tinha sido atropelado, em uma maca. Uma equipe de filmagens de uma emissora local que tinha recebido autorização para gravar dentro do prédio e fazia uma matéria sobre os resquícios da segunda guerra que ainda existiam na região, aproveitou o furo de reportagem e acompanhou todo o atendimento que Helder fez a criança vitimada. Não fora um caso fácil, o menino estava muito ferido, foi operado as pressas e sofreu duas paradas cardíacas no processo, mas felizmente sobreviveu. Tudo isso foi televisionado no jornal local na mesma noite e reprisado em alguns outros programas posteriormente, fazendo com que o médico virasse o “Herói de Nadodrze”. Era ridículo! Afinal não estava fazendo mais do que sua obrigação, mas aparentemente quase todos os que assistiram ao noticiário não pensavam da mesma forma que ele. Helder se levantou, pegando a bandeja e a devolveu ao balcão. Pensando bem, ele não teria como ter feito nada de diferente na ocasião, porque na hora não tinha cabeça para mais nada além do garoto, o problema todo foi tudo ter acontecido justamente no dia em que a equipe de televisão estava lá e esta, ao invés de fazer seu trabalho, ter voltado seu foco ao grande médico e seu pequeno paciente prestes a morrer. Mas o que não tem remédio, remediado está! Logo todo o alvoroço produzido pela matéria desapareceria e ele voltaria a sua vida normal, pelo menos assim esperava. Passou pelas portas da cafeteria indo em direção ao vestuário, precisava pegar algumas de suas coisas antes de começar a segunda jornada de trabalho do dia.

Helder estava dentro de seu carro indo para a clínica, eram mais de quatro horas de viagem, motivo pelo qual somente agora tinha conseguido tempo para voltar ao local desde que tudo acontecera. Alguns de seus colegas de trabalham diziam que ele era louco, que se quisesse fazer caridade que fosse em um lugar mais perto, mas ele não se importava com isso, gostava da cidade e da comunidade, sentia que ali era seu lugar. Lógico que no começo não fora assim, sua residência tinha sido em um hospital em uma cidade próxima de onde a clinica se situava e foi quando aceitou o emprego atual que a distância se tornou um problema, mas apesar disso ter diminuído sua disponibilidade consideravelmente, ele não havia desistido, sempre que podia voltava para a cidade e continuava com seu trabalho voluntário. Ele chegou e viu uma fila enorme de pacientes que lotava a recepção em seu aguardo. Suspirou. Era de se imaginar que os efeitos do caso televisionado seriam muito maiores naquela região, parecia que todos queriam um minuto com o famoso “Herói de Nadodrze”. Educadamente passou pelas pessoas e pegou as fichas com a recepcionista, que as entregou com um sorriso aberto sem tirar o olhar de admiração que sustentava no médico. Respirou fundo, admitindo para si mesmo que estava um pouco decepcionado com a situação e foi para a sua sala. Bem, quem sabe todos ali realmente precisassem do médico e não do herói? Pensou, tentando se animar enquanto chamava o primeiro paciente.

Mesmo cansado decidira que retornaria para casa, sem permanecer na cidade. Dava para contar nos dedos todos os pacientes que viu no dia que realmente precisavam de atendimento, aquilo tinha saído do controle. Cortava seu coração, mas pensou que talvez fosse melhor dar um tempo da clínica até que a poeira abaixasse. Helder percebera que o carro que ia a sua frente na estrada ocasionalmente invadia a outra faixa para logo em seguida retornar ao seu ponto de origem, como tinha um caminhão liderando a fila, imaginou que o condutor do veículo estivesse escolhendo o melhor momento para ultrapassagem, mesmo assim, por via das dúvidas, resolvera deixar certa distância do mesmo. Lá ia ele, mais uma vez, invadir a pista contrária, parecia que desta vez tinha decidido fazer a manobra arriscada que tanto ansiara. Mas tinha algo de errado, o automóvel não seguiu paralelamente ao caminhão como era esperado, ele atravessou diretamente a faixa reversa indo parar para além do acostamento e só parou quando bateu de frente em uma árvore. Helder rapidamente fez sinal para fazer o retorno e estacionou no acostamento do outro lado, deixando o carro ligado com o pisca alerta acesso e correu até o outro veículo. A mulher que ocupava o banco do condutor se contorcia convulsivamente presa ao assento pelo cinto de segurança. Helder soltou o equipamento de segurança pegando-a com cuidado e deitando-a de lado no chão, depois tirou o próprio casaco para que servisse de apoio a sua cabeça e protegeu a mesma até que a crise passasse. Aos poucos a contração foi diminuindo e a consciência da mulher retornando.

– Onde estou? O que foi que aconteceu? – ela disse um pouco atordoada.

– Calma! Você teve uma crise convulsiva e sofreu um acidente de carro. Meu nome é Helder, sou médico, posso te examinar? – A moça ainda confusa acenou com a cabeça positivamente, Helder ajudou-a a se levantar e colocou-a sentada no banco para que verificasse se havia algum outro trauma, sorriu satisfeito quando concluiu que todos os outros ferimentos provenientes do acidente eram somente superficiais. – Meu carro está logo ali, venha, eu te levo para o hospital mais próximo.

Não conversaram muito durante o caminho. A mulher agora dormia virada de lado no banco do passageiro de Helder. Ela tinha dito que seu nome era Julia e insistira para que fossem direto para Varsóvia, como estava certo de que o caso não era urgente, aceitou seu pedido sem questionar. Ele tinha ligado para o hospital avisando que estava levando uma paciente para ser examinada, então não estranhou quando viu dois enfermeiros o esperando na porta do hospital com uma cadeira de rodas.

– Então o herói atacou novamente! – um deles falou debochado, cutucando o obro de Helder. Ele sorriu um pouco sem jeito. Julia olhou de um para outro e posou seu olhar no médico.

– Sabia que te conhecia de algum lugar, você é o herói de Nadodrze! – a moça exclamou surpresa enquanto o enfermeiro voltava a rir. A face de Helder corou ligeiramente. – Não gosta do apelido não é? – ela disse percebendo sua reação. – Mas deveria se acostumar, cai bem para você! – Helder arregalou os olhos surpreso enquanto o enfermeiro caia na gargalhada.

– Tudo bem! Vou tentar lembrar disso – ele disse um pouco sem jeito. O enfermeiro, ainda rindo, bateu no ombro do médico em consolo e virou a cadeira de rodas para entrar no hospital. Helder já alcançava o carro quando escutou o outro homem gritar.

– Ei, super homem, esqueci de falar que o diretor pediu para que fosse a sua sala antes de ir embora.

Helder ainda processava a conversa que tivera com o diretor de seu hospital, tudo era muito surreal para ser verdade e mesmo assim ele aceitara a oferta sem nem pestanejar. Qualquer oportunidade de aprender algo novo lhe fascinava. Deitado em sua cama, sorriu consigo mesmo com a ironia de tudo aquilo: ele não era herói de lugar algum, mas quem diria que justamente ele iria voar?

Só mais um conto de Natal

Sou antiga, nasci em 1530, na Alemanha, quando em uma determinada noite, um jovem chamado Matinho Lutero em uma de suas caminhadas pela floresta achou bonita a imagem dos pinheiros sob as estrelas, cobertos de neve, e resolveu reproduzir o que vira dentro de sua casa com galhos de árvores, algodão e outros ornamentos. Desde então faço parte de todas as comemorações em todas as casas do mundo neste tal dia 25 de Dezembro. Posso ser pequena ou grande, natural ou de plástico, posso ainda ser simples com poucos ornamentos ou majestosamente produzida. Não importa realmente a versão em que eu apareça, pois em qualquer forma eu simbolizo a paz, a alegria e a esperança.

Apesar de esse ter sido meu nascimento no cristianismo, a verdade é que estou ai desde os pagãos e perdurei por gerações, sendo que até hoje não pertenço a nenhuma religião de fato. Então não tenha medo de mim, pois irei respeitar sua casa, sua família e suas crenças.

Já vi muitas comemorações, aquelas com a nave caindo do lado de fora da casa e aquelas em que até mesmo as noites são quentes com o ardor do verão. Vi ceias fartas, com pratos variados, onde famílias inteiras se reuniam ao redor da mesa enquanto eu esperava sozinha do outro lado da sala até que todos estivessem satisfeitos e fosse hora de se juntarem a mim para a troca dos presentes espalhados por toda a minha base. Este sempre foi o momento de que eu mais gostava, pois todos pareciam felizes e realizados em minha presença e a sensação de dever cumprido me enchia. Infelizmente nem sempre é assim, tinham lugares onde as pessoas não tinham recursos para tanta fartura, ou quase nenhuma na verdade, porém eu sempre acreditei que eram nessas ocasiões que minha presença era mais importante, pois era nesse momento que o propósito da minha existência brilhava mais do que nunca. Não podia ter todos aqueles presentes ou toda aquela comida, mas eu estava lá para mostrar-lhes o significado da vida.

Já está chegando a época da minha aparição novamente, as pessoas estão me colocando em suas casas desde o final de Novembro. Minha visita não é longa, dura um pouco mais do que um mês e nunca chega a dois, mas acredito que é o suficiente para fazer a diferença, afinal escuto algumas pessoas dizerem que é o período mais gostoso do ano. Depois vou embora de novo e só retorno na mesma estação do outro ano. Então aproveite minha presença, me enfeite como queira e me encha de luzes e cores, pois minha estadia é bem passageira. Enquanto isso estou aqui, silenciosamente na espreita, tentando cumprir o meu papel de encher seu coração de paz, esperança, alegria e vida para o outro ano que se inicia, assim minha falta não será tão grande.

Não sei quem é esse tal de Natal, mas onde estou com frequência ouço desejarem um deles feliz e sempre me pareceu algo positivo a se dizer já que o espírito de renovação que trago enche o ambiente quando ele está por perto. Por isso desejo à vocês um “Feliz Natal” e tudo que ele pode lhe trazer de bom, assim como minha presença.

Alexia – 3 anos antes

“Aceito!”, era a palavra que Alexia repetia para si mesma há mais de três meses. Fora tudo tão lindo, parecido com um daqueles filmes românticos. Seu restaurante favorito com vista para a cidade, um ótimo jantar, um bom vinho e ao final Maik abrindo a pequena caixinha preta acima da mesa fazendo com que o anel de brilhantes dentro dela reluzisse com o reflexo das velas. Ela estava tão empolgada! Estava correndo com todos os preparativos, tinha menos de um mês para organizar a festa dos seus sonhos. Seu noivo insistira para que fosse o mais rápido possível e ela não viu problema nenhum em atender seu pedido, estavam apaixonados, já moravam juntos, para que esperar? Sua família tinha um bom capital financeiro e seu pai se oferecera para ajudar nas despesas, mas havia muito que Alexia tinha cortado o cordão umbilical, queria caminhar com os próprios pés, e não era agora que ela mudaria tal situação.

– Alexia, você pode vir um minuto a minha sala? – sua gerente chamou rapidamente do outro lado da porta de vidro, já se afastando sem esperar uma resposta. Alexia depositou os tubos de ensaio no suporte ao seu lado e correu atrás dela.

“Absurdo!”, era essa a palavra que pipocava em sua mente agora. Como é que haviam lhe proposto uma insanidade daquelas? Tudo bem, sejamos francos, não era bem uma insanidade e sim algo fantástico, ela nunca imaginaria fazer parte de tal empreitada. Mas justo agora? Impossível! Ela não largaria sua vida, seu noivo e seu casamento para ir se aventurar nas Américas e participar daquele experimento, por mais que a ideia lhe atraísse muito. Sua gerente tinha lhe dado alguns dias para pensar, inclusive, neste exato momento, estava fazendo seu caminho de volta para casa, pois tinha sido liberada mais cedo para “digerir a ideia com calma”. Não tinha no que pensar, já estava decidido, ela não iria e pronto! Mas estava feliz com o tempo livre, poderia fazer uma surpresa para Maik. Ele ainda não estaria no apartamento, talvez ela pudesse cozinhar algo legal para os dois jantarem mais tarde e quem sabe, durante este, até lhe contaria a loucura em que a queriam colocar, o assunto renderia umas boas risadas, com certeza.

Ela entrou e foi direto para a cozinha verificar os mantimentos, quando escutou um barulho. Não era para ter ninguém ali aquele horário! Meio relutante e com um pouco de medo, pegou uma das panelas que estava na lava louças e caminhou silenciosamente até a origem do som. Segurava cada vez mais forte o cabo do objeto que segurava nas mãos a medida que se aproximava da porta do quarto. O que era aquilo? Gemidos? Ela empurrou de vagar a porta entreaberta e entrou. Mal conseguiu reconhecer Maik com a mulher ruiva que cobria seu corpo na cama. O sangue de Alexia começou a ferver. Ela deixou a panela que carregava cair no chão e o barulho fez com que os dois parassem o que estava fazendo. Maik olhou atônito por um momento para Alexia. A estranha que o acompanhava puxou as cobertas para cobrir o corpo exposto.

– Não é o que você está pensando, eu posso explicar! – Maik falou debilmente. Alexia balançou um pouco a cabeça e começou a caminhar pelo quarto, recolhendo todas as coisas de Maik que encontrava pela frente: relógio, celular, roupas espalhadas. Depois foi até a janela, abriu e jogou tudo para fora. – Você está louca? Minhas coisas! – ele disse se levantando e indo até a janela.

– Você tem sorte de serem suas coisas e não você Maik – Alexia respondeu friamente. – Eu vou sair daqui e quando eu voltar eu não quero mais ver nem você, nem suas coisas e nem essa inhazinha ai no meu apartamento. – Ela olhou de lado para a mulher que ainda estava sentada em sua cama, engoliu o ódio que crescia dentro dela e foi caminhando em direção a porta.

– Seu apartamento? – ele rebateu irônico.

– É um direito seu provar o contrário, mas acho que terá um pouco de dificuldades em fazê-lo com os advogados do meu pai envolvidos no caso. – Alexia olhou para a mão e tirou o anel de brilhantes do dedo. – Tome, talvez precise disso se for querer tentar. – Jogou o objeto no chão. O rapaz ainda sustentava um sorriso malicioso no rosto. – Estou falando sério Maik! Quando eu voltar não quero mais ver nenhum sinal de que você um dia existiu aqui, se não a preocupação com a posse do imóvel será o menor de seus problemas – ela disse batendo a porta e deixando os dois sozinhos.

Alexia encarava a metade vazia do armário, sentada no chão com lágrima nos olhos. Já tinha recolhido os lençóis, fronhas e tudo o que tinha na cama e jogado no lixo, mesmo assim não conseguia chegar perto dela sem sentir nojo. Como ela pode ter sido tão burra? Por quanto tempo ele a estava enganando e ela não havia percebido? De repente sentiu que a vida dela era como aquele armário, vazia. Todos seus planos, suas metas e seus sonhos tinham sumido. Ela limpou o rosto com o dorso da mão e se levantou. Mas não seria assim. Se Maik pensava que a vida dela pararia por causa dele estava muito enganado! Ela sabia exatamente que caminho tomar, talvez tivesse sido coisa do destino. Foi até a sala e pegou seu celular dentro da bolsa e discou, não demorou muito para que a outra pessoa atendesse a ligação.

– Oi, sou eu. Pode contar comigo para o experimento!

Aquele que tinha tudo

Dizer que tem tudo pode soar como exagero para muitos e realmente é em vários casos, mas não acredito que este seja um desses. Você deve estar se perguntando se esta é mais uma história com a moral de que bens materiais não completam a vida e que a verdadeira felicidade vem de dentro, certo? Porém é quase o oposto na verdade! Ou pelo menos deveria ser… deixa-me parar de rodeios e explicar logo o caso, assim poderão entender.

                De fato ele tinha tudo, a começar por esse tal interior que todo mundo procura, afinal seu ser sempre irradiou vida. Mesmo nos cantos mais remotos e nos lugares mais desacreditados, sua essência era contaminante e fazia com que a esperança brotasse. Então, vejam bem, seu problema nunca foi e nunca será seu interior. Ele também tinha uma vasta cultura. Sabia costumes, danças, comidas típicas, dialetos e tantas outras coisas de norte a sul e de leste a oeste. Do frevo pernambucano ao fandango gaúcho, da festa de Parintins ao carnaval no Rio, ele sempre esteve presente e na verdade até exerceu um papel importante em suas criações. Mas acha que suas qualidades paravam por ai? Claro que não! Ele tinha muitos recursos, recursos infinitos: pedras preciosas, petróleo, terras férteis com os mais variados tipos de fauna e flora e abundantes rios que as banhavam. Como se não bastasse tudo isso, ele ainda era lindo! Todos o elogiavam por sua beleza peculiar e única. Alguns ficavam sem fôlego ao vê-lo no pôr do sol de uma praia em Noronha, na majestosa floresta amazônica ou nos inconfundíveis lençóis do Maranhão. Não é possível, todos tem um defeito, ele não é exceção! Talvez seja mesquinho ou esnobe. Sozinho ou cruel? Não! Enganados novamente. Eu já estava quase chegando lá! Afora todos estes atributos, ser generoso e acolhedor em demasia eram suas principais características. Oferecia tudo o que tinha para todos que necessitavam de sua ajuda e nunca, nem sequer um dia de sua vida, pedira algo em troca por isso. Nunca cuspia fúria como um vulcão ou destruía tudo com sua frustração igual a um terremoto. Era calmo, tranquilo e sereno, sempre se manteve assim, não importando a situação que o expusessem. Era perfeito! Bem, quase, afinal realmente todo mundo sempre tem um defeito e a ele lhe faltava uma única coisa, um entendimento.

                Mesmo com todos esses atributos, ele sempre fora maltratado e machucado. Abusavam de sua bondade e roubavam seus recursos. Sempre dava tanto, porém recebia muito pouco em retorno, de fato quase nada, nem mesmo gratidão nunca lhe fora oferecida. Não entendia o que estava fazendo de errado, o porquê de seus filhos, amigos e compatriotas nunca pensarem em suas necessidades, seus gostos, seu bem estar. Tinha certeza que estava fazendo o possível e o impossível para cuidar de seus queridos, mas eles continuavam a boicotá-lo e judiá-lo. Seu próprio sangue o difamava, e, por isso, era conhecido pelos de fora como o pervertido, corrupto e perigoso. Sempre fora tratado como um caso e nunca para casar. Continuava ainda a fazer o melhor que podia, mas não sabia até quando poderia sustentar tal situação.

                Perceberam agora? Nunca fora um problema de auto estima ou de auto conhecimento. Pelo contrário, ele sempre soube de sua grandiosidade e fora humilde o suficiente para aceitá-la e usá-la a favor dos outros. Mas mesmo tentando mostrar isso dia após dia, as pessoas simplesmente não o entendem. Ele anda confuso e até um pouco doente, está morrendo pouco a pouco com a indiferença que lhe é dada. Então, se vocês souberem como ajudá-lo ou como resolver o seu problema, não deixem de comunicá-lo, antes que seja tarde demais! Ele está logo ali ao sul, cercado por vizinhos fluentes em castelhano, entre o Atlântico e o Pacífico, e seu nome é Brasil.

Enzo – 3 anos antes

Enzo estava debruçado em seu aeromodelo ajustando os últimos retoques, depois de muito aperta daqui, aperta de lá e alguns contorcionismos para alcançar os lugares mais difíceis, ele levantou, esticou os braços para o alto se espreguiçando, olhou para o objeto e deu um suspiro de satisfação. Contemplava sua obra, a nave não era muito grande, tinha um pouco menos de um metro de comprimento com quase dois de largura, mas tinha potencial para fazer um estrago dentro daquele espaço fechado. Ele passou a mão na testa limpando o suor enquanto pegava o controle em cima da mesa. Com um ruído agudo o motor da nave começou a funcionar e esta lentamente levantou no ar, planando de início, porém em pouco tempo já estava dando voltas pelo galpão. Um homem, magro com a barba tão comprida que compensava a falta de cabelo, vinha em sua direção e levou um susto quando a aeronave passou raspando por sua cabeça, Enzo começou a gargalhar.

– Fazendo isso de novo? – ele disse mal humorado.

– Não é pra isso que somos pagos? – Enzo respondeu ainda olhando para o objeto que agora sobrevoava a estação de trabalho de outra equipe.

– Não exatamente para isso! – o outro respondeu bufando. Enzo ia contra argumentar quando escutou um barulho e virou para ver o que estava acontecendo. O avião soltava uma fumaça branca em engasgos contínuos, o italiano tentou controlá-lo mais um pouco, mas o objeto caiu em linha reta, como uma flecha, bem em cima da mesa de trabalho que sobrevoava, causando um pequeno estouro ao fazê-lo. Todos os presentes no galpão viraram para encarar os dois rapazes que olhavam estupefatos o acidente. – Meus Deus, Enzo, agora sim seremos demitidos – o barbudo falou alarmado.

– Relaxa Luigi, eu resolvo isso! – Enzo disse entregando o controle para o colega e já indo em direção à estação de trabalho que acabara de danificar. – Não me olhe assim Paolo! Tenho certeza que não foi nada demais, a gente dá um jeito nisso! Não somos todos uma grande equipe, forte e unida? A propósito, como vai a esposa? E os filhos? – ele disse se aproximando do homem enfurecido na outra estação, Luigi balançou a cabeça em negativa e começou a rir. Certas coisas nunca mudavam!

Enzo caminhava emburrado pelo corredor, tinha sido advertido e também fora cortado do projeto importante em que trabalhava com o protótipo por conta do incidente com o aeromodelo. Paolo idiota! Precisava ter ido fofocar para a gerência sobre isso? Já tinha arrumado o estrago, bem, parte, mas o que eram algumas partes queimadas? Ele não ligava para a advertência, mas o chateava não poder mais trabalhar no projeto, sabia que algo importante sairia de lá, tinha percebido todo o alvoroço que aquilo tinha gerado na empresa inteira. Agora ele estava de fora de qualquer que fosse o benefício gerado por conta do ataque de um cara de meia idade! Sacudiu a cabeça e respirou fundo, bem, não adiantaria nada chorar o leite derramado. Chegou à sala e apertou o botão para abrir a porta de vidro. Não poderia mais trabalhar no protótipo, mas pelo menos estaria lá para vê-lo funcionar. A máquina era enorme para os padrões fabricados por eles, quase do tamanho real de uma cápsula espacial, e ela estava acomodada em um espaço amplo e fechado do prédio. Desde que o projeto fora lançado Enzo se perguntava os motivos por trás daquilo, afinal seu país não era reconhecido por viagens espaciais, então por que fazer um protótipo como aquele? Hoje seria o primeiro teste de muitos do projétil e somente seria verificado se a nave estava ligando corretamente e se todas suas funções estariam acessíveis. Apesar de ser um teste simples a euforia de Enzo só aumentava enquanto via a equipe fazer os últimos ajustes para começar os trabalhos. A verdade era que não se importava se aquilo tudo era muito estranho, queria mesmo era ver o treco funcionando. Ficou imaginando uma viagem a bordo de algo parecido com aquilo, seria sensacional! A equipe terminou e foi até os controles externos começar os procedimentos. Tentaram algumas vezes sem sucesso até que a sala se encheu com o barulho dos motores. Estava tudo indo muito bem até que o objeto começou a deixar de responder alguns dos controles. Os técnicos mexiam nos computadores tentando resolver o problema quando um estouro ecoou por toda a sala. Uma fumaça escura tomou conta do espaço reservado e algumas pessoas que estavam no auditório começaram a sair da sala correndo em desespero. Enzo pulou a barreira de segurança que dividia os dois espaços e correu em direção da máquina.

– Ei, o que você pensa que está fazendo? – um dos técnicos gritou.

Enzo não deu satisfação e segurou sua camiseta no nariz para conter a fumaça enquanto se aproximava do painel de controles do protótipo. Ele tirou a placa de metal que cobria a placa principal da máquina e começou a mexer. Tinha algo ali que estava em curto, tinha que resolver o problema antes que todos ali fossem pelos ares com uma explosão. Ele procurou por fios danificados ou manchas até que conseguiu achar, em um canto bem escondido um emaranhado de condutores derretidos. Como fazer para isolar a corrente sem nenhuma ferramenta disponível? Ele pensou até que lembrou que trazia em seu bolso um grampo de borracha que ele guardara no bolso na hora do incidente com o aeromotor. Até que o acidente veio bem a calhar no final das contas, pensou. Ele fez os ajustes necessários e conseguiu com que a corrente elétrica fosse cortada da parte danificada. Pronto! Sua parte estava feita, a equipe poderia continuar os ajustes agora sem qualquer perigo. A fumaça começava a sufocá-lo, então ele correu seu caminho de volta para fora da área de trabalho. Quando ele apareceu os poucos que ainda restavam no ambiente o olhavam atônitos. Luigi correu ao seu socorro.

– Você é mesmo muito louco, sabia disso? – o barbudo disse enquanto apoiava o colega no ombro.

– Alguém tinha que ser! Pelo menos agora estamos a salvo – Enzo respondeu dando uma piscadela enquanto tossia.

No dia seguinte Enzo fora chamado no primeiro horário na sala da diretoria. Luigi pensara que agora que aquele maluco estava encrencado, quantas advertências mais um funcionário poderia receber antes de ser demitido por justa causa? Achou estranho quando Enzo entrou na estação de trabalho com um sorriso de orelha a orelha.

– E ai? – perguntou incerto.

– Luigi, meu amigo, Neil Armstrong que me aguarde, porque o Enzo aqui está indo para o espaço! – respondeu debochado se sentando em sua cadeira.