Conto Macabro

Estava escuro, quase não via um palmo a sua frente. Os galhos secos das árvores arranhavam sua pele toda vez que passava por algum lugar estreito demais dentro daquele jardim há tanto esquecido por todos. Lucas não estava gostando nada daquilo, não sabia o motivo de precisar cumprir aquele desafio idiota, não tinha nada a provar para ninguém. Um pássaro negro passou por suas cabeças, soltando um grito grotesco e fazendo com o menino pulasse de susto.

– Deveríamos voltar para casa. Isso é estúpido! – ele anunciou emburrado para os amigos, passando a mão na roupa que tinha sujado.

– Acho que tem alguém aqui com medo – Paulo comentou, aproximou-se de Lucas e deu um soco leve em seu ombro. – Vamos lá! É só passarmos uma noite nessa casa velha e seremos os reis da escola – acrescentou sorrindo.

Aquele casarão existia na cidade desde muito antes de Lucas sequer existir, e sempre fora daquele jeito: uma construção decrépita rodeada por um jardim cheio de ervas daninha e árvores mortas; onde ninguém ousava entrar. Os rumores diziam que há muitos anos houvera um assassinato no local, um caso extremamente bizarro, cuja história ninguém sabia ao certo, já que cada um a contava de um jeito. Porém, o único ponto que todas elas tinham em comum era que, desde então, a casa era assombrada pelo espírito da vítima.  Alexandre já tinha alcançado a porta da residência e aguardava os outros dois rapazes para adentrá-la. Acenderam a lareira da sala de estar e arrumaram os sacos de dormir em volta da mesma, logo em seguida, com ajuda das lanternas de seus celulares, foram explorar os outros cômodos da casa. Depois da inspeção, Lucas ficou mais aliviado, por tudo que já escutara a respeito da casa, esperava encontrar algo realmente assustador, mas, tirando o rangido de madeira velha ao pisar e o barulho que a tubulação antiga fazia, o ambiente não tinha nada além de sujeira e teias de aranha.

Os meninos tiraram algumas fotos, postaram nas redes sociais, comeram, conversaram por um bom tempo e finalmente foram se deitar. Era madrugada quando Lucas levantou-se para tomar um pouco de água e escutou um som do que parecia ser correntes arrastando-se no chão. Assustado, correu para o lado de Paulo e o cutucou.

– Ei, Paulo, tem alguém aqui! Precisamos ir embora – sussurrou, mas o amigo apenas virou para o lado, ignorando o rapaz. O som das correntes, agora mais alto, ressurgiu, parecia que quem quer que fosse que estivesse as arrastando estava vindo em sua direção. Lucas sacudiu o amigo com força. – Acorda, cara! Tem alguém aqui. – O amigo esfregou os olhos desleixado.

– Cara, vai dormir. Você está surtando!

Lucas estava prestes a retrucar quando um estrondo forte como uma explosão, vindo de outro cômodo da casa, seguido por um grito de agonia, acordou seus amigos. Os três rapazes, agora em alerta, levantaram-se e olharam ao redor. Lucas começou a reunir freneticamente suas coisas.

– Eu estou indo embora daqui! – anunciou.

Quando alcançou a porta de entrada, a mesma bateu com força, fechando-se sozinha. Os meninos tentaram abri-la, mas esta estava trancada. Procuraram por outras saídas, porém nenhuma funcionou, estavam encarcerados.

– As janelas! Vamos tentar as janelas – Alexandre disse desesperado.

– Não adianta! Estão todas bloqueadas – Paulo respondeu.

Nesse momento, uma figura indistinta formou-se no meio da sala, tomando forma à medida que se aproximava. Os cabelos negros, longos e bagunçados, cobriam o rosto pálido e sem vida de uma mulher vestida no que parecia ser uma camisola branca. Ela estendeu a mão em direção aos meninos e soltou um som gutural de dor:

– Nunca irei lhe deixar! – a figura fantasmagórica anunciou.

Os rapazes saíram correndo, com o coração saltando pela boca, e trancaram-se em um dos quartos do andar superior da casa. Procuraram por algo que pudesse ajudá-los a sair daquele lugar, revistaram cada canto do aposento, mas não encontraram nada. As palavras choramingadas da moça ressoaram novamente nos ouvidos de Lucas:

– Volte para mim! Volte para mim!

O espírito ressurgiu no quarto e tentou alcançá-los, porém, os meninos, mesmo assustados, conseguiram recuar.

– Some daqui! – Lucas gritou. A mulher olhou confusa em sua direção e uma fúria a dominou. Chamas surgiram por todos os lados.

– Nunca irei lhe deixar! – ela gritava raivosa.

Alexandre reparou que as janelas do quarto não estavam bloqueadas e, rapidamente, agarrou uma das gavetas da escrivaninha e arremessou com toda a força por uma delas, fazendo com que o vidro se despedaçasse em mil pedaços.

– Vamos pular!

Sem delongas, os outros dois obedeceram a sua ordem e, assim, os três meninos jogaram-se, aterrissando com força no chão do outro lado. Mesmo machucados, levantaram-se e correram até o portão da propriedade. Assim que se sentiram a salvo, pararam para olhar o casarão. As chamas consumiam pouco a pouco a propriedade e o grito de agonia que acompanhava o espetáculo ecoou na noite escura.

Lucas acordou em sua cama, molhado de suor. Sentou-se e, respirando fundo, tentou se acalmar. Talvez tivesse sido apenas um sonho, um fruto de sua imaginação assustada. Lavou-se, preparando-se para ir à escola. Sentiu uma dor em seu ombro direito ao pegar sua mochila, porém não se importou. Saiu do quarto, apagando a luz. E a mulher de cabelos negros, segurando em seu ombro, o acompanhou.