O mundo que não se vê

Alice estava cansada, mas precisava continuar, os destinos da cidade e de Artur seriam selados com aquela viagem. Seu companheiro desembainhou a espada das costas e assumiu uma posição de ataque, preparando-se para combater o inimigo. A batalha no povoado estava sendo sangrenta e Alice sabia que Artur precisaria vencer mais aquele obstáculo se quisesse salvar o seu povo e sua amada. O dragão surgiu dentre as montanhas e alçou voo, tomando os ares, para logo em seguida fazer uma curva e, com um rasante, rumar na direção do guerreiro. O coração de Alice acelerou aflito, sabia que aquela seria a batalha derradeira de Artur, pois o tempo estava correndo e a salvação do reino residia naquele confronto. Agora seria tudo ou nada!…

Ela agora estava dentro de uma sala fria, com gavetões de metal que se estendiam por toda a extensão da parede dos fundos. Acompanhava a investigadora Rodriguez, a qual escutava atentamente às explicações que o legista lhe dava sobre as possíveis causas da morte do corpo na maca à sua frente. Quando saíram do necrotério, Alice já sabia, assim como a investigadora, que aquele rapaz era só mais uma vítima dos misteriosos assassinatos em série que estavam assolando a cidade nos últimos anos. Eram homens, na faixa dos 20 à 30 anos, com um comportamento de vida específico. As mortes eram limpas, sem marcas de agressões físicas aparentes. Um furo profundo na nuca da vítima e um símbolo deixado no local do crime, cujo significado ninguém sabia ao certo ainda, eram as únicas pistas que ligavam as mortes ao serial killer…

Era muito interessante descobrir sobre a vida daquele empresário tão famoso! Ali conseguia vê-lo como uma pessoa de carne e osso e não uma celebridade. Todo aquele esforço para conseguir criar o império que tem hoje? Era admirável! Alice achou sua história de vida um tanto quanto inspiradora…

Naquele momento, Alice era Amanda. Sabia exatamente como ela estava se sentindo: o coração acelerado, o suor frio, as borboletas no estômago; o alívio e o prazer que compartilhavam o seu ser; aquele desejo… Tudo resumido em um único beijo. Foi um ato demorado e terno; o qual demonstrava toda a paixão que estava guardada por tanto tempo nos corações de Amanda e Jorge, esperando somente o momento certo para se manifestar. E que manifesto! Quase lhe tirando o folego…

Alice realmente precisava daquelas palavras e naquele momento. Ajudaram- na a atravessar uma fase difícil de sua vida. Autoestima, confiança, o poder do pensamento positivo, o universo conspira a favor de todos aqueles que sabem usufruir de seu poder. Nunca todos aqueles conceitos lhe fizera tanto sentido…

Já estava tarde. Alice retirou o aparelho de leitura e o colocou ao lado da cama, arrumando-se para deitar. Era verdade que preferia dar seu próprio tom a história que lia, mas nem todos os livros tinham suas versões em braile e o aparelho era uma boa alternativa para o problema. De um jeito ou de outro, no final, acabava se aventurando da mesma maneira. Alguns poderiam dizer que o mundo de Alice tornou-se escuro desde que a menina perdera a visão naquele acidente de carro, mas estavam enganados. Ela aprendeu a ler de novo e, a cada noite, um personagem se oferecia para levá-la a um lugar diferente, cheio de novas aventuras e tantas tramas. O mundo de Alice, na verdade, nunca fora tão colorido!

 

*Crédito de imagem:

<a href=”https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/escola”>Escola vetore desenhado por Freepik</a>

Série Profissões – A Diarista

Segunda-feira – Dona Dulce acordou às cinco da manhã, fez café, deixou tudo preparado para o marido e os filhos, se arrumou e saiu. Ainda estava escuro quando pegou o ônibus que a levaria para o centro da cidade. Não conhecia muito sobre sua nova patroa, já que fazia pouco tempo que começara a trabalhar naquela casa. Porém considerava aquele serviço um achado. O apartamento era pequeno, a proprietária morava sozinha e quase não ficava em casa, portanto, Dona Dulce conseguia concluir suas tarefas com apenas metade do dia, o que lhe dava tempo suficiente para passar as roupas de outra cliente durante a tarde. Não pensou que pegaria mais um trabalho nesta altura do campeonato, tinha uma certa idade e já não rendia mais como antigamente, contudo, sabia que faria alguns sacrifícios para conseguir pagar sua tão sonhada casa própria, por isso, não poderia reclamar, pois esse dinheiro extra acabou vindo bem a calhar. Terminou o dia pegando o filho mais novo na escola ao voltar para casa. Fez a janta, arrumou a cozinha e preparou-se para outro dia.

Terça-feira – Acordou às quatro horas da manhã, tinha que sair mais cedo para levar seu filho ao médico antes de deixá-lo na escola e pegar no batente. Antes, arrumou a marmita do marido. Mesmo que ele não fosse trabalhar, Dona Dulce deixaria a comida pronta, pois era sua obrigação cuidar da família. Mas daquela vez fazia a tarefa com gosto, pois depois de ter passado meses sem arranjar um serviço o esposo estava finalmente empregado. A patroa não havia ficado muito feliz com o atraso de Dona Dulce, o qual não fora pouco naquele dia, já que, além dos imprevistos da manhã, aquela era uma de suas casas mais distantes. Tudo bem! Ficaria até mais tarde para compensar a hora e ainda deixaria brilhando o rejunte dos azulejos da cozinha. Teve que pedir para a irmã pegar seu filho na escola. Chegou em casa já eram mais de nove horas e não havia nada para comer, então fez uma janta rápida, arrumou a cozinha e preparou-se para o outro dia.

Quarta-feira – Acordou às cinco horas, fez café, deixou tudo preparado para o marido e os filhos e saiu. Era dia de limpar a casa de uma de suas patroas mais antigas e somente por isso ainda aceitava trabalhar no local por aquele preço, já que aquela era uma das residências mais trabalhosas que tinha em sua lista. Um casal com duas crianças e dois cachorros, sendo o marido, um acumulador. A casa estava sempre um caos quando Dona Dulce chegava e ela somente conseguia se encontrar no lugar por conhecê-lo tão bem. Passava o dia limpando todos os cômodos, os quintais, a sujeira dos cachorros, recolhendo os brinquedos e tirando o pó dos milhares de bibelôs; mal conseguia sair a tempo de pegar seu filho na escola. As quartas-feiras eram sempre puxadas, mas não poderia reclamar, este era o seu serviço e aquela era uma de suas melhores clientes. Chegou em casa, fez a janta, arrumou a cozinha e preparou-se para o outro dia.

Quinta-feira – Acordou no mesmo horário de sempre. Todas as quintas-feiras, Dona Dulce sentava no ônibus e pensava que sua vida poderia ser diferente se as circunstâncias fossem outras. Aquela patroa, outrora, havia lhe feito uma oferta generosa. Iria contratá-la por tempo integral, todos os dias da semana, com carteira assinada e tudo mais, porém, a faxineira recusara. Na época, não havia como ela dormir no trabalho, tinha uma criança pequena e uma família para cuidar, além do mais, o salário era bom, porém a quantia não cobria o que ganhava somando todas as outras casas. Pensava, mas não reclamava. Afinal, era o que sabia fazer desde os dezesseis anos de idade, pular de casa em casa limpando a bagunça dos outros, não serviria para outra coisa. Aos olhos de Dona Dulce aquilo era uma mansão e, por este motivo, sentia que não fazia bem o seu trabalho naquele lugar, já que era impossível para uma só pessoa, em um único dia, limpar uma residência tão grande. Mas sua patroa parecia discordar e sempre repetia:

– Não sei o que seria de mim sem você, Dulce querida! Tem certeza que não quer vir morar aqui?

A diarista toda vez abria um sorriso sem graça e começava a se explicar até ser interrompida pela mulher, dando risada e dizendo que estava só a brincar.

Sexta-feira – Pegou o ônibus antes de o Sol raiar novamente. Era mais um dia de jornada dupla para Dona Dulce, desta vez de manhã passava e fazia o almoço e a tarde limpava outra casa. A propriedade do segundo turno não era particularmente difícil, porém a dona do lugar era uma de suas patroas mais meticulosas. A mulher tinha algumas manias e várias regras, sendo que algumas delas eram totalmente descabidas no olhar experiente da faxineira, mas sua missão era deixar suas clientes felizes e não argumentar, então aprendeu como a dona queria e fazia sem reclamar.

Sábado – Acordou às cinco horas. Os filhos ainda dormiam e o marido levantaria mais tarde para trabalhar, então deixou seus cafés preparados e tomou cuidado para não fazer barulho enquanto se arrumava. A última casa da semana era, também, de uma cliente antiga e, por ser um final de semana, a dona sempre estava por lá. Por um lado era bom ter a patroa por perto, pois tinha alguém com quem conversar durante o dia, mas ela não conseguia deixar de lado a sensação de estar sendo vigiada. Começava lavando a louça e ariando as panelas, depois limpava toda a cozinha: armários, chão, mesa, todas as superfícies e eletrodomésticos. Lavava os quintais e os banheiros do chão ao teto. Arrumava a sala, os quartos e os corredores. Tirava o pó e passava pano. No final do dia, Dona Dulce voltava moída para casa. Cada músculo de seu corpo doía, pelo acúmulo do esforço de toda a semana. Todo sábado era a mesma coisa, chegava em casa no final da tarde, o marido, no sofá, assistia televisão tomando uma cerveja, enquanto o filho mais novo brincava no quintal e o mais velho nunca estava em casa. A louça do almoço ainda estaria lá e a mesa do café não teria sido tirada. Então, Dona Dulce daria um trato na cozinha antes de tomar o seu banho e ter o seu merecido descanso.

Domingo – Já estava acostumada a acordar cedo, não como quando ia trabalhar, mas o suficiente para ser a primeira na casa a se levantar. Dona Dulce fez um café e esquentou na chapa com manteiga um pão amanhecido, depois sentou-se relaxada na mesa e ligou a televisão. Nem sabia em que canal estava, mas deixou porque passava a reprise de um daqueles programas matinais de entrevistas os quais eram comuns durante a semana. O assunto debatido eram mães e suas profissões. A apresentadora pediu a opinião de uma adolescente na plateia:

– Qual é a profissão da sua mãe? – ela perguntou.

– Nenhuma! Ela é dona de casa – a jovem respondeu indiferente.

Dona Dulce olhou para o relógio na parede e todo o serviço por fazer a sua volta, desligou a TV. Sentiu os músculos reclamarem de dor quando levantou da cadeira, mas não poderia perder mais tempo, mesmo que hoje fosse somente dona de casa.

Conto Macabro

Estava escuro, quase não via um palmo a sua frente. Os galhos secos das árvores arranhavam sua pele toda vez que passava por algum lugar estreito demais dentro daquele jardim há tanto esquecido por todos. Lucas não estava gostando nada daquilo, não sabia o motivo de precisar cumprir aquele desafio idiota, não tinha nada a provar para ninguém. Um pássaro negro passou por suas cabeças, soltando um grito grotesco e fazendo com o menino pulasse de susto.

– Deveríamos voltar para casa. Isso é estúpido! – ele anunciou emburrado para os amigos, passando a mão na roupa que tinha sujado.

– Acho que tem alguém aqui com medo – Paulo comentou, aproximou-se de Lucas e deu um soco leve em seu ombro. – Vamos lá! É só passarmos uma noite nessa casa velha e seremos os reis da escola – acrescentou sorrindo.

Aquele casarão existia na cidade desde muito antes de Lucas sequer existir, e sempre fora daquele jeito: uma construção decrépita rodeada por um jardim cheio de ervas daninha e árvores mortas; onde ninguém ousava entrar. Os rumores diziam que há muitos anos houvera um assassinato no local, um caso extremamente bizarro, cuja história ninguém sabia ao certo, já que cada um a contava de um jeito. Porém, o único ponto que todas elas tinham em comum era que, desde então, a casa era assombrada pelo espírito da vítima.  Alexandre já tinha alcançado a porta da residência e aguardava os outros dois rapazes para adentrá-la. Acenderam a lareira da sala de estar e arrumaram os sacos de dormir em volta da mesma, logo em seguida, com ajuda das lanternas de seus celulares, foram explorar os outros cômodos da casa. Depois da inspeção, Lucas ficou mais aliviado, por tudo que já escutara a respeito da casa, esperava encontrar algo realmente assustador, mas, tirando o rangido de madeira velha ao pisar e o barulho que a tubulação antiga fazia, o ambiente não tinha nada além de sujeira e teias de aranha.

Os meninos tiraram algumas fotos, postaram nas redes sociais, comeram, conversaram por um bom tempo e finalmente foram se deitar. Era madrugada quando Lucas levantou-se para tomar um pouco de água e escutou um som do que parecia ser correntes arrastando-se no chão. Assustado, correu para o lado de Paulo e o cutucou.

– Ei, Paulo, tem alguém aqui! Precisamos ir embora – sussurrou, mas o amigo apenas virou para o lado, ignorando o rapaz. O som das correntes, agora mais alto, ressurgiu, parecia que quem quer que fosse que estivesse as arrastando estava vindo em sua direção. Lucas sacudiu o amigo com força. – Acorda, cara! Tem alguém aqui. – O amigo esfregou os olhos desleixado.

– Cara, vai dormir. Você está surtando!

Lucas estava prestes a retrucar quando um estrondo forte como uma explosão, vindo de outro cômodo da casa, seguido por um grito de agonia, acordou seus amigos. Os três rapazes, agora em alerta, levantaram-se e olharam ao redor. Lucas começou a reunir freneticamente suas coisas.

– Eu estou indo embora daqui! – anunciou.

Quando alcançou a porta de entrada, a mesma bateu com força, fechando-se sozinha. Os meninos tentaram abri-la, mas esta estava trancada. Procuraram por outras saídas, porém nenhuma funcionou, estavam encarcerados.

– As janelas! Vamos tentar as janelas – Alexandre disse desesperado.

– Não adianta! Estão todas bloqueadas – Paulo respondeu.

Nesse momento, uma figura indistinta formou-se no meio da sala, tomando forma à medida que se aproximava. Os cabelos negros, longos e bagunçados, cobriam o rosto pálido e sem vida de uma mulher vestida no que parecia ser uma camisola branca. Ela estendeu a mão em direção aos meninos e soltou um som gutural de dor:

– Nunca irei lhe deixar! – a figura fantasmagórica anunciou.

Os rapazes saíram correndo, com o coração saltando pela boca, e trancaram-se em um dos quartos do andar superior da casa. Procuraram por algo que pudesse ajudá-los a sair daquele lugar, revistaram cada canto do aposento, mas não encontraram nada. As palavras choramingadas da moça ressoaram novamente nos ouvidos de Lucas:

– Volte para mim! Volte para mim!

O espírito ressurgiu no quarto e tentou alcançá-los, porém, os meninos, mesmo assustados, conseguiram recuar.

– Some daqui! – Lucas gritou. A mulher olhou confusa em sua direção e uma fúria a dominou. Chamas surgiram por todos os lados.

– Nunca irei lhe deixar! – ela gritava raivosa.

Alexandre reparou que as janelas do quarto não estavam bloqueadas e, rapidamente, agarrou uma das gavetas da escrivaninha e arremessou com toda a força por uma delas, fazendo com que o vidro se despedaçasse em mil pedaços.

– Vamos pular!

Sem delongas, os outros dois obedeceram a sua ordem e, assim, os três meninos jogaram-se, aterrissando com força no chão do outro lado. Mesmo machucados, levantaram-se e correram até o portão da propriedade. Assim que se sentiram a salvo, pararam para olhar o casarão. As chamas consumiam pouco a pouco a propriedade e o grito de agonia que acompanhava o espetáculo ecoou na noite escura.

Lucas acordou em sua cama, molhado de suor. Sentou-se e, respirando fundo, tentou se acalmar. Talvez tivesse sido apenas um sonho, um fruto de sua imaginação assustada. Lavou-se, preparando-se para ir à escola. Sentiu uma dor em seu ombro direito ao pegar sua mochila, porém não se importou. Saiu do quarto, apagando a luz. E a mulher de cabelos negros, segurando em seu ombro, o acompanhou.

Vida de Solteira – Speed Dating

Mais uma tentativa, mais uma chance para o amor. Desta vez Valentina estava empolgada. Já tinha visto esse tipo de encontro em filmes e sempre teve curiosidade de passar pela experiência, por isso, quando sua amiga lhe disse que havia encontrado um grupo que promovia tal evento, ela não pensou duas vezes em aceitar o convite. O conceito era simples: as mulheres ficariam sentadas nas mesas enquanto os homens revezariam entre elas; o objetivo era fazer com que todos tivessem a oportunidade de conversar e se conhecer melhor para, quem sabe, rolar uma afinidade.

A amiga de Valentina foi até a sua casa para que seguissem juntas ao local onde estava marcado o encontro. Procuravam pelo número do endereço, quando, de repente, sua companheira olhou para o lado, deixando o queixo cair, com surpresa.

– Com certeza é esse lugar com um cupido na porta! – ela comentou horrorizada.

Valentina seguiu o olhar da amiga e imediatamente seu coração acelerou em pânico. Sim, lá estava ele, na frente do bar. Por que haveria um homem seminu com asas brancas e até uma auréola em frente a um estabelecimento se não fosse justamente para receber os participantes do evento, humilhando-os ao demonstrar para a sociedade a que ponto tiveram que chegar para conseguir um amor? Aquilo só poderia ser brincadeira! Toda sua empolgação de outrora foi substituída pela vergonha. As duas meninas ficaram em silêncio por algum tempo dentro do carro até que Valentina, respirando fundo, declarou:

– Vamos logo com isso! Já pagamos e viemos até aqui, não será um cara com uma fantasia ridícula que irá nos impedir! – A outra garota sorriu para ela nervosa. – Além do que, quem está pagando mico vestindo aquilo é ele, não estamos fazendo nada de errado – completou determinada e ambas saíram do carro. Ficou satisfeita consigo mesma, afinal o discurso tinha funcionado com a amiga, ela parecia confiante. E era verdade, quem tinha que sentir-se vergonhado por usar aquilo era o rapaz e não elas só porque estavam prestes a participar de um evento em sua presença. Respirou fundo. A quem queria enganar? Pelo menos ele estava sendo pago para fazer aquilo.

Deram seus nomes ao cupido e receberam um crachá, depois seguiram o querubim até uma sala reservada nos fundos do estabelecimento. A menina tentou ignorar o fato de que todos no bar viraram para encará-los e provavelmente estavam pensando o que aquelas duas queriam seguindo um cara só de calças e com asas nas costas. Mas, para seu alívio, Valentina sentiu-se mais confortável ao ver que não fora somente ela a passar por tal vergonha. O recinto estava cheio! Havia pelo menos umas quinze meninas e o mesmo número de rapazes. O moderador apresentou-se, explicou como funcionavam as regras e depois deu um jogo de perguntas e respostas para os participantes interagirem um pouco antes do evento principal, o qual acabou servindo bem o seu propósito que era o de quebrar o gelo entre as pessoas. Finalmente cada mulher tomou uma mesa para si e os homens escolheram com quem queriam se sentar. Valentina teria quatro minutos para conversar com quem estava na sua frente até que o sino tocasse e o próximo participante viesse. No começo ela achou ser pouquíssimo tempo para desenvolver um assunto interessante com alguém e, de fato, com alguns deles, realmente foi. Porém a garota percebeu que, dependendo da pessoa que lhe fizesse companhia, aquilo poderia ser muito, mas muito tempo… quase uma eternidade!

Valentina anotava na ficha que deveria entregar ao final do evento suas preferências sobre os rapazes que já haviam passado por sua mesa quando o próximo se aproximou. Ele trazia consigo uma caixinha de água de coco e, assim que se sentou, jogou o cabelo para o lado, olhando fixamente para a moça. Qual era o problema daquele cara? Será que ele estava tentando seduzi-la? Os quatro minutos começaram a ser contados e o rapaz passou os três primeiros deles só falando sobre seus feitos, não dando espaço para que Valentina abrisse sua boca para argumentar. Em dado momento ele parou e Valentina pensou: “Será que agora finalmente posso falar?”, mas antes mesmo que tivesse tempo de expressar qualquer coisa o garoto debruçou-se na mesa e, aproximando-se da moça, pegou sua caixa de água de coco e chupou o canudinho de um jeito engraçado, com os olhos meio arregalados e os lábios formando um bico em um ângulo esquisito. Depois, lentamente, colocou a caixinha de lado, sem desviar nem por um segundo o olhar de Valentina. Era a primeira vez que via alguém tentar ser sexy com uma caixinha de água de coco e ela teve que reunir todas suas forças para não gargalhar na cara do sujeito. Salvo pelo sino e com o ego inabalado o rapaz pulou para a próxima mesa e Valentina pode respirar aliviada novamente. Seguiram-se mais uma dúzia de moços, alguns interessantes e outros nem tanto. Ela já estava rouca e com a garganta seca de tanto falar, tinha se cansado das mesmas perguntas: qual seu nome, onde mora, o que faz da vida, o que faz nas horas livres, por que veio até aqui ou já veio em outro evento desses antes?  Até que, finalmente, chegaram à última rodada. Definitivamente não poderia dizer que aquele pretendente era mais do mesmo. Perguntas como: se você tivesse em uma ilha com sua mãe e seu namorado e precisasse matar um dos dois para sobreviver qual seria? Você prefere ser morta ou se matar? Qual sua opinião sobre a legalização do porte de arma? Fizeram com que Valentina terminasse a conversa aconselhando o rapaz a procurar ajuda psicológica com um profissional.

O saldo da noite fora uma garganta arranhada, muitos nãos, alguns talvez e nenhum sim. Contudo, Valentina e sua amiga divertiram-se com a experiência e até já faziam planos para tentar uma segunda vez, pois, no mínimo, o evento lhes renderiam boas gargalhadas.

Depoimento de uma Autora

Tudo começou com um sonho, e não estou usando aqui uma figura de linguagem, foi, literalmente, um sonho. Daqueles tão vívidos que ficam na nossa mente ainda por muito tempo depois que levantamos da cama. Coincidentemente, na mesma época, eu estava escrevendo um “diário” com uma porção deles, anotava todos aqueles os quais me lembrava, mesmo que fossem somente pequenos fragmentos. As exatas palavras que usei para começar o meu registro deste sonho em específico foram:

            ”Preciso relatar esse sonho, porque ele foi como um filme… muito parecido! Acordei várias vezes durante a noite ainda sentindo as sensações que ele me trouxe (medo, frio, etc) e sempre que voltava a dormir, retornava a ele, não perdi a sequência.”

Porém este foi diferente dos demais, eu estava animada, não conseguia tirá-lo da cabeça e só anotá-lo não havia sido o suficiente, minha mente ainda estava inquieta. Foi quando eu pensei: “Vou escrevê-lo como uma narrativa!” e foi assim que nasceu o prólogo do que mais tarde, para a minha surpresa, se tornaria um livro. O mais engraçado foi que, depois disto, aquilo não era mais o meu sonho e sim uma história com outros protagonistas e eu queria mais! Queria saber como começou, o porquê de tudo aquilo, o que aconteceu depois e quem eram aquelas pessoas; então continuei a escrever. Eu precisava de personagens, muitos deles! Pensei exatamente no que queria e fui atrás de cada um destes indivíduos: suas nacionalidades, nomes e características. Jovens adultos atrás de uma conquista, com personalidades diferentes e conflitantes, mas que acabariam encontrando um laço dentro de um objetivo em comum. E é nesta parte do depoimento que vem uma curiosidade: o único deles que migrou do meu sonho para a história foi John, todos os outros surgiram com a própria. Ele é uma chave importante dentro do enredo e talvez tenha sido meu guia desde o começo. Com os personagens criados, o resto fluiu naturalmente: cenários, conflitos; o enredo em si. As ideias vieram como uma enxurrada e eu precisava organizá-las se quisesse que algo saísse daquilo tudo. Sempre achei importante o vínculo que alguns autores criam entre seus personagens e quem está consumindo a trama, pois, pessoalmente, acho que é isso que traz a emoção para a mesma; é o que faz você torcer pelo mocinho, se apaixonar pela princesa, desejar a morte do vilão, e foi por isso que resolvi começar minha história por ai. Acredito que quem já teve a oportunidade de ler o livro percebeu essa progressão dentro do conteúdo, um começo mais ameno com apresentações, explicações e descrições do dia a dia, e uma trama que vai esquentando a medida que coisas inesperadas acontecem com aqueles cujo o leitor já tem um envolvimento. No início, eu não imaginava no que tudo aquilo se tornaria, eu só queria dar vazão às ideias que estavam surgindo e, quando dei por mim, eu tinha páginas e mais páginas escritas com aquele material, foi naquele momento que tive a consciência de que sim, aquilo era um livro!

Se eu lhes dissesse que o processo foi sempre fácil, estaria mentindo! Tive muitos altos e baixos ao longo do percurso. Passei de momentos onde eu só queria saber de escrever, já que as ideias não paravam de brotar, para outros de total bloqueio. Comecei nos tempos livres, depois passei uma temporada em que transformei isso em prioridade e logo em seguida questionei o porquê de desperdiçar minha atenção e esforços naquilo, então deixei tudo de lado. Mas acabei retornando, uma, duas, três vezes! Porque algo sempre me chamava de volta. Pesquisei bastante, principalmente os conceitos básicos de alguns elementos essenciais da trama, como: viagens espaciais e seus treinamentos. Porém, sempre será um pingo de realidade em um oceano de ficção, pois o intuito quando procurei algum conhecimento não era o de informar e sim de trazer um pouco de veracidade ao conteúdo. Li e reli o texto mais do que assisti o filme Titanic, e quem me conhece sabe que foram muitas vezes! Perdi as contas de quantas alterações, acréscimos ou exclusões fiz dentro da história. Achei algumas partes geniais, já outras… nem tanto. Sempre escrevi para mim, pelo simples prazer de fazer. Contudo, em um determinado momento, peguei-me imaginando o que outras pessoas diriam se também tivessem a oportunidade de ler aquilo. Será que gostariam tanto quanto eu? Ou seria a única?

E depois de muito tempo, eu finalmente terminei! Lembro-me, como se fosse ontem, que quando coloquei aquele último ponto final senti um orgulho o qual jamais conseguiria explicar aqui sem que parecesse um drama de novela mexicana. Meu próximo pensamento foi: “E agora? O que faço com isso?”. Porque eu gostei e pensava que outros também poderiam se interessar, veio-me o desejo de compartilhar, então dei o manuscrito para algumas pessoas lerem. Eu não tinha grandes pretensões com este ato, somente queria saber outras opiniões. Mas, qual não foi minha surpresa ao receber tantos elogios e o incentivo de levar a história para frente? Muitos acreditaram mais do que eu mesma no potencial do livro e, com este gatilho, resolvi tentar seguir em frente. Mal tinha terminado de escrever minha obra e a inscrevi no prêmio Kindle, sem revisão, diagramação ou mesmo uma capa. Lógico que não tive a mínima chance de ganhar, mas valeu a experiência. Além de aprimorar um pouco o material durante o concurso, com revisão e diagramação básicas e uma capa, conheci muitos autores no processo e entendi melhor o mundo editorial. Continuei a vender o livro digital de forma independente na Amazon e investi nas redes sociais para divulgá-lo. Aventurei-me em águas que nunca antes havia explorado e achei sensacional. Neste ano, decidi que ia mandar o original para algumas editoras e assim fiz, até que uma delas interessou-se pela obra, fez uma proposta e fechamos um acordo.

Ainda estou engatinhando em um mundo que mal comecei a conhecer, mas digo, desde já, que está valendo muito a pena! Pois hoje, ao abrir uma caixa cheia com “meus” livros, criei um daqueles momentos que ficam para sempre registrados na memória. Não sei aonde isso irá me levar, mas estou ansiosa para ver!

Pulando Amarelinha

Do inferno ao céu eram dez casas. Um caminho relativamente longo para alguém com pernas tão curtas quanto Antônio. O menino ajeitou-se, mirou e jogou a pedra que segurava entre as mãos na primeira casa. Essa havia sido fácil, nem precisou fazer esforço para que o objeto parasse bem no meio do quadrado. Feliz com o feito, ele começou a pular.

O “um” era o ponto inicial, a origem de tudo. E quando seria isso exatamente? Não se sabe ao certo.Gravuras da brincadeira nos pavilhões de mármore nas vias da Roma antiga indicavam que ela havia sido inventada pelo povo romano. Porém, as primeiras referências concretas que temos sobre o jogo são datadas no século XVII.

Antônio passou bem pelos números dois e três, mas, ao chegar ao quatro, depositou muita força em seu braço e sua pedrinha foi parar para além do quadrado.

– Errou, Toni! Minha vez. Agora você vai ver como se joga! – a menininha com um longo rabo de cavalo na cabeça anunciou confiante.

Antônio amarrou um bico, pois, em sua opinião, a menina não sabia do que estava falando. Como é que alguém poderia não saber jogar aquilo? As regras eram simples: arremessar a pedra dentro do quadrado indicado, pular entre as casas até chegar ao topo sem pisar naquela que contivesse o objeto atirado e sem passar as delimitações das demais. Fazer o seu caminho de volta, pegar a pedra, sem cair, ao passar por sua casa e terminar o resto do percurso. Ao conquistar um número, você ia para o próximo e ganhava quem completasse o diagrama.

O menino logo percebeu o que Maria quis dizer quando assistiu ela passar graciosamente pela primeira, segunda, terceira, quarta, quinta e sexta casa de uma só vez. Para a sorte de Antônio, a garota desequilibrou-se enquanto tentava completar sua sétima jogada. Agora ele teria que correr, pois faltavam apenas quatro números para que a vitória de Maria fosse consagrada. Concentrou-se e passou por todas as casas até empatar com sua oponente e, assim que a ultrapassou, sorriu satisfeito. Não perderia para alguém que nem o nome correto da brincadeira sabia.

O nome do jogo era Marelle, de origem francesa. Os portugueses, achando que a palavra soava com o diminutivo de amarelo, começaram a chamar a brincadeira de Amarelinha. O que Antônio não sabia era que, apesar de ser este, o nome mais popular, havia variáveis dele em todas as regiões do Brasil. Pula macaco no nordeste, academia no Rio de Janeiro, casa da boneca no Ceará, sapata no Rio Grande do Sul ou maré em Minas Gerais. Até mesmo dentro dos países de língua portuguesa a variação se tornava presente, sendo, por exemplo, o jogo chamado de avião ou neca na Angola.

Antônio passou bem por todas as casas restantes e quase ganhou o jogo, mas quando estava terminando a volta da última casa, caiu e perdeu a vez. Maria soube aproveitar sua oportunidade com destreza e terminou os números que lhe faltavam em um piscar de olhos.

Do inferno ao céu eram dez casas. Se o paraíso quisesse alcançar, Antônio, de uma próxima vez, haveria de se esforçar.

O Candidato Honesto

Esta é a história de José, um senhor um tanto quanto ilustre em sua cidade, seja por sua simpatia ou generosidade. Dono de uma pequena quitanda localizada em uma esquina do centro comercial, seus produtos sempre foram de ótima qualidade; frutas e verduras tão frescas que, literalmente, saiam da horta e iam direto para as prateleiras. Conhecido por: “seu zé”, “dono da quitanda”,homem das frutas e verduras”, ou simplesmente pelo bom e velho“zé”. Contudo, apesar da prosperidade de seu pequeno empreendimento, não era isso o motivo de sua fama. Ele ali nasceu, cresceu, tivera seus amores e desafetos, casou-se e criara seus filhos;não conhecia outra vida, nunca havia saído daquelas terras e, talvez por isso, fosse tão engajado nos problemas da cidade e de seus conterrâneos. Não distinguia credo, raça ou classe social, sempre estava disposto a ajudar quem quer que fosse. Uma alma boa; era o que todos diziam. As pessoas da cidade tinham absoluta certeza de que, em qualquer que fosse o projeto social, a obra de caridade, o ato de bondade ou mesmo o milagre operado, a mão do homem das frutas e verduras estava presente. Sua notoriedade era tanta dentro da comunidade que, certo dia, alguém bateu em sua porta oferecendo-lhe uma candidatura à prefeitura da cidade. Á princípio, José rechaçara a ideia de tão estapafúrdia, porém, quanto mais a novidade era espalhada, mais apoio ele ganhava, o que fez com que o homem da quitanda reconsiderasse sua escolha.

A eleição fora uma das mais tranquilas já registradas na história da cidade, pois seu rival não tivera a mínima chance. Todos sabiam quem escolher e, segundo boatos, até mesmo o candidato da oposição no homem das frutas e verduras, sua fé depositou.

Os primeiros anos do mandato de José foram extremamente prósperos. Ele não se rendera a corrupção e nem aos desejos daqueles que não pensavam no bem comum, seguiu cuidando de suas obrigações do modo simples como sempre fez: sanando os problemas e ajudando a comunidade. Sua gestão fez com que a pequena cidade crescesse, trazendo novas oportunidades e com estas, outros desafios. O vilarejo já não era mais um lugar despercebido pelo mundo, atraía atenções e olhos gananciosos viram o seu potencial, fazendo de tudo para usufruir disso. Homens vestidos em seus ternos caros iam e vinham do escritório de José com propostas descabidas e destilando ameaças quando não conseguiam o que queriam. O comerciante não se rendera, apegara-se firmemente aos seus princípios, enfrentou todos que iam de encontro aos seus ideais, porém, como consequência, não conseguia mais desenvolver o seu trabalho, todos os seus projetos perdiam-se no meio de tanta burocracia e interesses pessoais. O pouco que conseguia passar pelo filtro da politicagem não era o suficiente para satisfazer a população, a qual, agora, sempre queria mais e nunca se dava por satisfeita. Seus colegas de administração, percebendo a decadência de sua influência perante a comunidade, aproveitaram a oportunidade para tentar corrompê-lo e adequá-lo ao sistema afim de conseguirem angariar algum benefício próprio. O prazer que o cargo lhe proporcionara no início não mais existia; vivia frustrado, pois sentia que estava deixando muito a desejar como pessoa e como prefeito.

Apesar de tudo, quando chegou nova eleição,José candidatou-se ao cargo uma vez mais. Tinha esperança de que, com mais tempo, pudesse resolver tudo aquilo que havia saído de errado no mandato anterior. Tomou a decisão pensando somente no bem estar de seu povo e no que ainda poderia fazer em prol de sua comunidade, entretanto, mal sabia ele que, se o objetivo era cumprir tais metas, essa haveria de ser a pior iniciativa que poderia ter tomado.Seus oponentes não mediram esforços para ganhar a corrida rumo ao poder; com todas as falsas acusações e propagandas difamatórias, José foi de salvador para escória em um piscar de olhos, mal teve tempo de pensar em uma estratégia para limpar o seu nome e já havia sido derrotado nas urnas.

O tempo passou e ele voltou a ser o famoso comerciante de frutas e verduras que a todos ajudava. Aos poucos a vida de José voltara aos eixos, tudo graças à curta memória do povo, o qual não mais se lembrava de seu mandato ou não se importava. Eventualmente as sugestões para que ele entrasse na política retornaram, mas agora José já sabia que não havia sido moldado para essa vida. Sua ingenuidade e integridade não o preparavam para todos os jogos de interesses que existiam dentro do meio. Sem dúvidas, o homem das frutas e verduras percebera que fazia mais pela cidade sendo simplesmente o dono da quitanda.