Amor que se multiplica

Talvez quem nunca teve um animal de estimação não saiba do que eu estou falando, mas tenho certeza que grande parte dos leitores irão se encontrar neste texto. Afinal, o sucesso de romances como: “Marley e eu” ou “Sete vidas de um cachorro” não é por um acaso. Podem comer todos os seus sapatos e móveis, roubar sua comida, fazer sujeira onde não deviam, dar gastos e preocupação, te prenderem em casa, entre tantos outros contratempos, porém, como resistir às peraltices inocentes, à explosão de alegria que acontece quando você chega em casa, ao companheirismo e amor incondicional? Éh! Como diz uma amiga minha: “Quem é cachorreiro se identifica!”.

Minha história com esses serezinhos de quatro patas começou muito cedo, tanto que se passei algum ano da minha vida sem a companhia de um deles eu nem me lembro! Afinal, minha mãe pegou minha primeira cachorra quando eu ainda era um bebê.

– Tia, fica com ela. Se você não pegá-la, ela vai morrer!

Frase usada pelo menino que bateu na porta de casa com uma bola minúscula de pelos dentro de uma caixa. Não sei se minha mãe ficou com mais dó da criança que implorava ou do animalzinho acanhado que a olhava e, mesmo tendo uma criança pequena, acabou pegando a cadela. O menino não era só marqueteiro, ele realmente falava a verdade, pois a pequena, assim como toda sua ninhada, estava com parvovirose e, por pouco, não morreu. Foi batizada de Xuxa, nome dado a ela em homenagem a minha apresentadora favorita (acredito que tenha sido um nome muito popular nos anos 90), e essa cadelinha reinou absoluta por toda a minha infância e de meu irmão. Naqueles tempos, não era costume criar animais dentro de casa, mas nem por isso os amávamos menos. Ela era dócil, muito amável e inteligente; aguentou duas crianças que a apertavam, esfregavam e cutucavam, sem reclamar. Cresceu junto com a gente e quando já estava entrando em sua terceira idade, para a sua felicidade, meu avô comprou uma chácara e ela começou a nos acompanhar nos passeios até lá. Mas, em uma dessas viagens, no auge de seus setenta anos humanos, a Xuxa resolveu engravidar. Ninguém a avisou que uma gestação em sua idade poderia ser perigosa e, de fato, foi. O parto foi complicado, vários filhotes nasceram mortos e Xuxa teve que fazer uma cirurgia de emergência para tirar o útero. Depois disso, ela não conseguiu mais alimentar sua cria e acabamos fazendo esse serviço por ela. Apesar de toda a tragédia, para nós, que éramos crianças, a situação toda era uma festa. A casa estava cheia de filhotinhos fofos e nós podíamos os alimentar de verdade com chuquinhas de bebê! Que criança não iria gostar disso? Mas, para minha mãe não deve ter sido nada fácil! Lembro um dia que ela teve que correr com a Xuxa para o hospital porque seus pontos se abriram.  Com certeza, foi difícil achar um taxista que aceitasse levar uma cachorra com a barriga aberta no banco do passageiro. Felizmente, mesmo com todos os percalços, tudo deu certo, Xuxa ainda viveu muitos anos mais e nós ficamos com duas de suas filhas: a Docinho e a Lalesca.

Docinho teve uma passagem rápida pela Terra, assim como sua mãe, as duas cadelinhas contraíram parvovirose e ela, infelizmente, não sobreviveu, ao contrário de sua irmã, Lalesca, ou para os mais íntimos, só Lesca mesmo. Seu nome foi dado graças a uma personagem da novela “Sonho meu” (não me pergunte que folhetim era esse, porque não vou me lembrar) e ela foi um dos animais mais inteligentes que já tivemos em casa. Tinha muita força física e pulava alturas enormes. A vizinha morria de medo que a Lesca fosse parar do lado dela do quintal, já que a danada pulava e se pendurava no muro de quase três metros de altura. Ela viveu muito bem com sua mãe em nossa casa e também fez visitas regulares à chácara de meu avô. Se tinha uma cachorra que gostava daquele lugar, era, com certeza, a Lalesca. Já na primeira vez que a levamos para lá, não quis mais voltar. Meu pai teve que, literalmente, correr atrás dela o terreno todo por mais de meia hora para conseguir coloca-la dentro do carro. E foi lá, na chácara da “fertilidade”, que ela também ficou prenha. Mas, ao contrário da Xuxa, sua gravidez e parto foram ótimos, fazendo com que, para o desespero da minha mãe, ela tivesse nove filhotinhos fortes e saudáveis. Foi uma festa vê-los crescer enquanto atingiam uma idade boa para serem doados. Meu irmão e eu colocávamos os bichinhos no chão em fileira para que eles apostassem corrida, como eles ainda não sabiam andar, se arrastavam pelo quintal igual aquelas tartaruguinhas que nascem e fazem seus caminhos para o mar. Quando minha mãe precisava lavar a bagunça, ela os colocava em uma caixinha e prendia a mesma dentro do carrinho de feira, só que a caçula sempre conseguia abrir a portinhola do carrinho, e guiar seus irmãos para a liberdade. Tivemos sorte de todos eles serem adotados, mas foi dolorido vê-los partir. De toda a ninhada, ficamos com uma, justamente com a caçula revolucionária.

Laila ainda teve tempo de conviver com sua avó, Xuxa, e sua mãe, Lesca. Xuxa não tinha sido muito paciente com seus filhos, mas vó é vó, não é mesmo? Então ela deixava com que a Laila mordesse o dia inteiro sua orelha, sem reclamar. Elas ainda eram criadas no quintal, mas agora já tinham mais liberdade de ir e vir, praticamente só dormiam fora de casa. A que minha janela do quarto dava para o quintal, então nós amarrávamos um petisco no final de um barbante e jogávamos do segundo andar para cair em cima do varal e assim conseguíamos controlar a altura em que as iscas ficavam penduradas, enquanto as cachorras tentavam pegar. Chamávamos a brincadeira de “pesca cachorros”, mas, na maioria das vezes, somente a Laila tinha energia suficiente para ser pescada. A Xuxa teve um tumor e acabou falecendo. Engraçado foi parecer que ela havia pressentido sua hora, porque estava conosco na sala e do nada só levantou e se afastou, como se não quisesse nos incomodar com a sua partida. Anos mais tarde, a Lalesca pegou uma doença grave, da qual conseguimos curá-la, mas que a deixou com sequelas e um ano depois ela acabou indo se encontrar com sua progenitora. A morte dela não foi fácil, ela acabou sofrendo um pouco para partir. Eu já estava na faculdade nesse tempo e ficava estudando para as provas enquanto fazia companhia a ela em sua internação. O caso dela era tão delicado que chegamos a cogitar a possibilidade de sacrificá-la, mas só de pensar nisso já doía o coração, então conversei com ela uma noite, agradecendo por tudo e dizendo que ela poderia ir embora, que se fosse sua hora seria melhor assim. No outro dia, ela já havia partido. Com isso só sobrou a Laila, e depois de muitos anos com mais de um cachorro em casa, ela voltou a reinar absoluta. Foi ela que acabou fazendo a transição entre ser criada no quintal e ir para dentro de casa em definitivo, já que ficamos com dó de que ela dormisse sozinha do lado de fora. Mesmo não sendo castrada e frequentando a chácara da “fertilidade” com regularidade, a Laila não teve cria e talvez essa tenha sido a maior frustração de sua vida. Todo cio Laila tinha gravidez psicológica, suas mamas enchiam de leite que tínhamos que secar para não empedrar, ela criava em sua casinha vários ursinhos de pelúcia como se fossem filhotes. Em uma destas ocasiões, até mesmo um rato morto ela chamou de seu filho. Foi duro conseguir tirar o corpo do animal de perto dela, afinal ela era uma mãe super protetora.

Quando já estava em sua terceira idade e achando que iria usufruir de uma velhice com todo o conforto e regalia, surgiu em nossas vidas o Marley. Sim, seu nome foi dado graças ao filme, pois assim como o caos que a tempestade de granizo a qual o trouxe deixou na cidade, ele também o fez em nossa casa e nas nossas vidas. O bicho era incontrolável! Acabou com todos os móveis da casa, derrubava tudo o que via pela frente, mordia nossas pernas insaciavelmente, abusava de todas as almofadas que via, nos enfrentava se tentávamos lhe impor limites, foi expulso de três petshops seguidos por acabar com o banho e tosa, além de, é claro, querer mostrar que era o macho da casa fazendo xixi em cada canto possível. A Laila rosnava para ele mesmo que esse passasse a metros de distância dela, talvez por isso ela tenha morrido de infarto. Mas não podemos reclamar, porque de todos os cachorros que passaram por nossas vidas até o momento, foi ela quem teve uma morte mais tranquila. O Marley foi castrado, mas nem isso melhorou seu comportamento, continuava terrível. Foi só anos mais tarde, talvez tenha sido a maturidade ou a quantidade de remédios que ele toma, que ele acabou ficando mais tranquilo. Com seus quatro anos de idade canina, descobrimos que o Marley era epilético e para controlar suas crises de convulsão o levamos a vários veterinários e especialistas. Hoje em dia ele está estável e, apesar de ser um gorducho rabugento e manco, tem uma qualidade de vida muito boa. Também, fazendo acupuntura toda semana até eu, não é mesmo?! Brincadeiras a parte, o Marley com certeza foi e ainda é o maior desafio que tivemos até então. Mas o amor não se escolhe, ele simplesmente acontece!

E para encerrar essa lista que provavelmente não terá seu fim aqui, não posso deixar de falar da Mel. Ela surgiu dois anos após o Marley, quando um dia resolveu me acompanhar do serviço até em casa. Eu entrei e ela ficou sentada do lado de fora olhando para mim. Minha mãe ficou alucinada porque não queria mais cachorros em casa então ligou para o meu pai pedindo para que ele desse um jeito naquela situação. Eu fui para um curso que fazia na época e quando voltei, mais de onze horas da noite, minha mãe olhou para mim e disse:

– Vai ver lá no fundo o fim que seu pai deu na cachorra…

Quando eu saí, lá estava a Mel, toda feliz abanando o rabo para mim. Ela é possivelmente a cachorra mais meiga e simpática que eu já tive até o momento. Faz amigos por onde passa, as pessoas vão até o portão de nossa casa só para visita-la, acho que se ela concorresse ao cargo de vereadora da cidade, ganharia. É caçadora nata, tudo que se move ela corre atrás e até bem pouco tempo, todas as vezes que precisamos leva-la ao veterinário foi por conta de alguma coisa que ela comera. Em uma destas ocasiões, a Mel apareceu com a boca toda inchada e descobrimos que foi por causa de uma abelha que a picou durante sua caçada. Assim como a Lesca, ela é muito inteligente, só que, ao contrário da primeira, a Mel é extremamente obediente. Meu vô vendeu a chácara, mas mesmo que a propriedade ainda existisse na família, ela não engravidaria lá, porque foi castrada. Porém, com certeza, iria adorar aquele lugar! Atualmente, ela e o Marley são meus filhos peludos do momento e por mais que nos deem gastos e preocupações eu não iria querer a vida de nenhum outro jeito. Afinal, esse amor que se multiplica só quem é “cachorreiro” explica!

Amor de Consumo

Talvez lá no começo, bem no início mesmo, as relações fossem um tanto quanto simples: eu precisava, você tinha e me oferecia e eu comprava. Fazia-se tudo ali mesmo, em estabelecimentos locais. A oferta era de porta em porta e a fama vinha do boca a boca. O “seu” Zé da quitanda sabia sobre sua vida e seus gostos, não porque ele investiu muito tempo e dinheiro para traçar o seu perfil, mas simplesmente, porque você era um morador do bairro e cliente constante. O anúncio era um cartaz feito à mão com as ofertas do dia na porta do estabelecimento e o crediário era o caderninho de fiados que, supostamente, seriam pagos ao final do mês. Ah! Estamos falando aqui do primeiro amor… Que, assim como uma criança a qual começa a descobrir o significado deste sentimento, mostra-se tímido, inocente e fiel. E, para manter-se, não era preciso muita coisa, bastava estar por perto.

A guerra acaba e com ela vem a revolução industrial. A produção em grande escala faz com que as empresas cresçam e, por isso, a concorrência aumenta drasticamente. A relação que até então era pura e pessoal, passou a ser mais determinada e banal, pois já não bastava só estar presente, eram necessários grandes gestos para que as marcas fossem notadas. A criança havia se tornado um adolescente e como tal, o drama e a popularidade eram partes essenciais de sua vida. Os anúncios deixaram de ser caseiros e passaram a ser veiculados em grandes meios, como: jornais, revistas, rádio e televisão. Foi nesta fase também que as serenatas surgiram, ou melhor, os jingles, como eram mais conhecidos no meio. Feitos para a grande massa, sem um público tão determinado, os mesmos fizeram um sucesso estrondoso e mantiveram-se por anos a fio, afinal quem não se sentiria seguro com o frio batendo em sua porta e as Casas Pernambucanas estando lá para aquecer o seu lar? E este relacionamento ganhou um nome, passou a se chamar marketing.

De tanto tentar ter o seu amor e de chamar sua atenção, o marketing acabou tornando-se um namorado ciumento. Para melhor satisfazer e entender o seu público, ele resolve dividir o mesmo em nichos específicos com características em comum, como: gênero, idade, grau de escolaridade, entre outros. E para obter essas informações ele constantemente te perguntava o que você estava fazendo, quais eram os seus gostos, suas preferências e vontades e o que mais fosse interessante saber. Passaram a te ligar frequentemente, fosse para oferecer produtos, fosse para saber um pouco mais sobre você. Não havia um lugar em que fosse onde ele não estivesse presente, fazendo-se notar, sendo isso necessário ou não. Algumas vezes esta sua atitude poderia até ser um pouco irritante, porém, no fundo, tal atenção te mantinha sempre ao lado dele.

A revolução digital mudou o mundo novamente e novos relacionamentos começaram a ser construídos em níveis globais com apenas um clique e o mínimo de interação. A quitanda do “seu” Zé virou um grande hortifrutti que atende não só seu bairro, como o estado inteiro. Ele não conhece mais, pessoalmente, nenhum de seus clientes, porém sente falta daquele relacionamento próximo, onde sabia tudo sobre você e como satisfazê-lo. O marketing então percebe que ele não poderia mais focar somente em nichos, porque mesmo colocando as pessoas dentro de um grupo, cada indivíduo é único. Então como fazer para entender e atender a cada um deles em meio a tantos? Fácil! Basta monitorar todos individualmente. E foi desta maneira que o marketing deixou de ser um namorado ciumento e tornou-se um stalker. Hoje em dia, ele sabe de tudo sobre sua vida sem ao menos precisar lhe perguntar. Com um levantamento de dados, ele consegue descobrir do que você gosta, seus receios, desejos, planos para o futuro, o que assiste, come, escuta; com quem fala, suas opiniões, suas preferências, para onde viajou este ano ou no ano anterior, seus relacionamentos, suas frustrações e tantas outras coisas. Afinal, a internet e seus recursos estão aí para todos. Ou seria somente coincidência aquele anúncio aparecer em suas redes sociais logo após você ter mostrado algum interesse sobre o assunto? Então, não se surpreenda se a sua marca preferida saber mais sobre você do que sua própria mãe. Mas não se preocupe em discutir a relação ou mesmo se questionar se ela é saudável ou não, porque na maioria das vezes esse relacionamento acaba em casamento.

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Vidas Cruzadas

Dona Dulce é uma mulher simples de 54 anos. Casada há trinta anos com o homem que foi o seu primeiro namorado, mãe de três filhos. Saiu do interior para tentar a vida na cidade grande. Batalhou bastante e continua se esforçando, mas, graças ao seu bom Deus, a vida sempre lhe sorriu. Acorda bem cedo todos os dias, antes de o sol nascer, e chega à casa da patroa antes mesmo de qualquer um que lá reside levantar. Há alguns anos, é a empregada fixa dos Mendonças e, como tal, cuidar da rotina doméstica da residência é a sua função.

– Bom dia, Dona Glória! – comenta ao ver a outra mulher adentrando a cozinha. – Pode sentar que já passo um café para a senhora.

– Obrigada, Dulce! Seu café é o melhor de todos!

Glória, mulher independente de 43 anos. Mora com o segundo marido e a filha de seu primeiro casamento em um bairro de classe média alta da cidade. É psicóloga e tem o próprio consultório, o que possibilita, dependendo de sua agenda, que seus horários sejam flexíveis. Mas, nem por isso, seus dias são tranquilos, pois muitas vezes acaba agendando mais pacientes do que, de fato, poderia aceitar. Mas o que fazer já que, depois da família, o trabalho é sua vida?

– Vitória também irá descer? – Dona Dulce pergunta enquanto serve o café para Glória. Esta, descrente, solta um sorriso.

– Não, Dulce. Acredita que ela está levando a sério aquela história de se tornar uma celebridade da internet? Não sei para quem essa menina puxou! Saiu logo cedo para ir à academia.

Vitória é uma patricinha de 21 anos. Solteira, filha única de pais separados. Está cursando o segundo ano da faculdade de direito, mas isso não lhe interessa, já que seu maior sonho é tornar-se uma influência digital no mundo da saúde e boa forma. Treina todos os dias, mantém uma dieta rigorosa e tem um canal na internet sobre o assunto, onde sempre atualiza seus “fãs” com dicas de moda, saúde e beleza. Apesar de seu namorado e família acharem tudo isso uma loucura, os seus fiéis quinhentos inscritos lhe dizem o contrário. Segundo seus cálculos, não levará muito tempo para que ganhe dinheiro com isso. O problema é que ela nunca foi boa em matemática.

Sente o celular vibrar com uma mensagem e bufa ao lê-la:

“Não esquece que o trabalho de penal é para hoje! Beijos, Letícia.”

Letícia, jovem batalhadora de 22 anos. Solteira, veio sozinha aos dezoito para a cidade e cursa com Vitória o segundo ano da faculdade de direito. Seu sonho é de tornar-se, um dia, uma juíza. Trabalha durante o dia e estuda a noite. Já que precisa pagar suas próprias contas, está sempre atarefada. Se não é o serviço ou a faculdade, são os bicos ou o voluntariado. Não se importa em esforçar-se, pois tem um objetivo e irá alcançá-lo.

Assusta-se quando Valéria, dona da empresa, entra na sala e anuncia:

– Pessoal, precisamos fechar a meta até o final desta semana. Então vamos lá! Conto com a colaboração de todos.

Valéria, uma viciada em trabalho de 38 anos. Divorciada, empresária e bem sucedida. Começou muito cedo no mundo dos negócios e nunca mais parou. Sua vida e prioridades giram em torno do trabalho, talvez por isso seu casamento não tenha dado certo. Está sempre viajando e cuidando de assuntos relacionados à sua empresa, nunca está em casa. Rosa, sua mãe, sempre lhe diz para parar um pouco, talvez construir uma família, mas ela não tem tempo nem para cuidar de um animal de estimação, quanto mais filhos e marido.

Rosa, uma senhora dona de casa de 72 anos. Viúva e mãe de quatro filhos. Aposentada, passa seu tempo cuidando da casa, dos netos e indo ao clube de terceira idade. Faz comidas e doces como ninguém, tanto que se vendesse ganharia um bom dinheiro com isso, mas esse nunca foi seu objetivo. Toda sua vida fez o gosta e sempre lhe deu prazer: cuidar da casa e da família. Passa as tardes com Joana, sua vizinha, trocando receitas ou fofocas.

Poderia, agora, descrever o dia-a-dia de Joana. E continuar contando as histórias de todas as Marias, Adrianas, Carlas, Antônias, Fernandas, Amandas, Julianas, Vanessas, Anas e tantas outras, afinal, somos muitas! Mas, irei parar por aqui, pois, se assim não fosse, este texto não teria fim, já que cada mulher possui uma narrativa e deixa com ela, sua marca no mundo.

Do outro lado

Edu era um rapaz legal. Tinha poucos amigos, verdade, porém estes lhe eram fieis e, mesmo com seu jeito estranho, estavam sempre presentes. Era educado, calado e tinha uma tendência em ver o lado negativo das coisas. Seus amigos o chamavam de “Do Contra”, sabe aquele personagem do Maurício de Souza que sempre pensa diferente de todo mundo? Esse mesmo! Mas Eduardo não concordava com tal apelido. Novidade! Isso só acontecia porque a maioria das pessoas ao invés de se prepararem para a vida, iludiam-se com a positividade, descartando todo o resto.

Não levava uma vida ruim. Tinha boa saúde, um emprego estável e bem remunerado; casa, carro, estudos, um relacionamento… enfim, tudo o que uma pessoa padrão poderia considerar como satisfatório. E é lógico que Edu atribuía todo o seu “sucesso” ao seu jeito precavido de ser, pois sempre se preparava para as possíveis eventualidades da vida.

– Fique calmo, Du! Vai dar tudo certo! – A namorada o consolava enquanto seguiam para uma viagem não programada com os amigos em uma Van alugada.

Certo não era a palavra que escolheria para aquilo. Nada de planejamento, organização prévia, planos de contingência… tudo aconteceu com um simples telefonema na noite anterior. E como se não bastasse, ainda havia os atenuantes da própria natureza da viagem: alugar um veículo velho de última hora, ir para longe com ele e ainda acampar em um lugar isolado. Aquilo tinha tudo para dar errado. Muito errado!

Eduardo não se surpreendeu quando, no meio do caminho, tiveram que parar por conta de um pneu furado. Mesmo estando eles em seis, o serviço demorou mais do que era de costume para uma troca, isso porque os parafusos que prendiam a roda estavam totalmente enferrujados, fazendo com que fosse quase impossível tirá-los. Tiveram que revezar o trabalho, de tão exaustivo que aquilo se tornou. Edu não parava de pensar que nada daquilo aconteceria se tivessem planejado a viagem com calma e não buscado uma locadora qualquer de última hora.

Já era começo da noite quando finalmente conseguiram chegar ao local onde iriam levantar acampamento. Só de dar uma olhada em volta, Edu novamente se frustrou. Tinha pensado que, no mínimo, ficariam dentro de um camping com alguma estrutura, mas não, estavam ao relento. Quem, em sã consciência, acamparia daquele jeito nos dias de hoje? Poderiam sofrer um acidente, ser assaltados, sequestrados ou coisa pior! Se as baterias dos celulares acabassem, não conseguiriam nem pedir socorro. Sem contar a falta de estrutura que poderia ocasionar uma série de infortúnios, desde pequenos aborrecimentos até a contração de alguma doença grave proveniente de possíveis machucados ou da falta de higiene.

Quando terminou de montar sua barraca, juntou-se ao grupo que estava reunido em volta da fogueira. Eduardo sentou-se ao lado da namorada e viu que seus amigos já aqueciam a comida nas brasas.

– Que palito de churrasco mais estranho! – comentou. – Os caras realmente levaram a sério essa história de ambiente selvagem. – Sua namorada começou a rir.

– Esquecemos os palitos, então tivemos que improvisar.

Ela o observou por um momento e ele tentou parecer calmo, mas por dentro fervilhava. Improvisar como? Usando coisas nada higiênicas que estavam jogadas naquela mata?

Seus amigos ficaram até altas horas conversando em volta da fogueira. Estavam empolgados com o momento que passavam e, até mesmo Edu, se divertia. Exceto o tormento que era quando precisavam “usar o banheiro” ou a ocasião em que pensaram que um animal feroz iria atacar o acampamento quando na verdade era somente um porco do mato passando, tinha que admitir que para um passeio totalmente sem planejamento, aquele até que estava se passando sem maiores problemas. Eduardo afastou-se um pouco do grupo e sentou-se na beira do rio. Sua namorada, ao vê-lo, juntou-se a ele.

– O que está fazendo aí tão quietinho? – ela disse com um sorriso no rosto.

– Você percebeu quantas estrelas conseguimos ver aqui? Na cidade quase não as vemos! – ele disse admirando o céu noturno. A namorada confirmou com um aceno.

– Sim, é lindo! – respondeu, também contemplando a paisagem. Ele olhou para ela. Seu sorriso leve na boca, os olhos brilhando quase tanto quanto os astros que observavam, a luz do luar refletindo em sua pele. Sentiu-se estranhamente satisfeito.

– Talvez não tenha sido uma ideia tão ruim assim vir para cá – comentou. Ela voltou o olhar, em choque, para ele, mas logo se recompôs. Deitou a cabeça em seu ombro e não sentiu a necessidade de dizer mais nada.

Na manhã seguinte Eduardo acordou revigorado, fazia muito tempo que não se sentia tão disposto. Sentia-se outra pessoa! Pensou que talvez pudesse relaxar um pouco, afinal aquela viagem não foi, nem de longe, como teria planejado, mas havia saído melhor do que o esperado. Sua convicção de que tudo o que não é planejado acaba em um desastre iminente, havia caído por terra. Desmontaram o acampamento, colocaram as coisas na Van e se aprontaram para partir. Seu amigo tentou uma, duas, três vezes dar a partida no veículo, mas sem sucesso.

– Acho que a bateria deve ter arriado – o motorista disse incerto, tentando, em vão, ligar o carro. – Alguém tem um celular para pedirmos ajuda? O meu descarregou ontem à noite.

Todos trocaram olhares nervosos acenando negativamente com a cabeça. Provavelmente ficaram tirando fotos e gravando vídeos a noite toda, usando toda a bateria que tinham para postar as aventuras vividas em suas redes sociais, porém esqueceram-se de que estavam no meio do nada e poderiam precisar do aparelho para uma eventualidade.

– Vou ligar para o seguro – disse Eduardo, sacando o celular do bolso e já procurando o número de emergência no contrato de locação. Enquanto esperava ser atendido, pensou em como era inadmissível as pessoas não se programarem para fazer as coisas e aquela viagem era só mais um exemplo clássico do que sempre falava.

O mundo que não se vê

Alice estava cansada, mas precisava continuar, os destinos da cidade e de Artur seriam selados com aquela viagem. Seu companheiro desembainhou a espada das costas e assumiu uma posição de ataque, preparando-se para combater o inimigo. A batalha no povoado estava sendo sangrenta e Alice sabia que Artur precisaria vencer mais aquele obstáculo se quisesse salvar o seu povo e sua amada. O dragão surgiu dentre as montanhas e alçou voo, tomando os ares, para logo em seguida fazer uma curva e, com um rasante, rumar na direção do guerreiro. O coração de Alice acelerou aflito, sabia que aquela seria a batalha derradeira de Artur, pois o tempo estava correndo e a salvação do reino residia naquele confronto. Agora seria tudo ou nada!…

Ela agora estava dentro de uma sala fria, com gavetões de metal que se estendiam por toda a extensão da parede dos fundos. Acompanhava a investigadora Rodriguez, a qual escutava atentamente às explicações que o legista lhe dava sobre as possíveis causas da morte do corpo na maca à sua frente. Quando saíram do necrotério, Alice já sabia, assim como a investigadora, que aquele rapaz era só mais uma vítima dos misteriosos assassinatos em série que estavam assolando a cidade nos últimos anos. Eram homens, na faixa dos 20 à 30 anos, com um comportamento de vida específico. As mortes eram limpas, sem marcas de agressões físicas aparentes. Um furo profundo na nuca da vítima e um símbolo deixado no local do crime, cujo significado ninguém sabia ao certo ainda, eram as únicas pistas que ligavam as mortes ao serial killer…

Era muito interessante descobrir sobre a vida daquele empresário tão famoso! Ali conseguia vê-lo como uma pessoa de carne e osso e não uma celebridade. Todo aquele esforço para conseguir criar o império que tem hoje? Era admirável! Alice achou sua história de vida um tanto quanto inspiradora…

Naquele momento, Alice era Amanda. Sabia exatamente como ela estava se sentindo: o coração acelerado, o suor frio, as borboletas no estômago; o alívio e o prazer que compartilhavam o seu ser; aquele desejo… Tudo resumido em um único beijo. Foi um ato demorado e terno; o qual demonstrava toda a paixão que estava guardada por tanto tempo nos corações de Amanda e Jorge, esperando somente o momento certo para se manifestar. E que manifesto! Quase lhe tirando o folego…

Alice realmente precisava daquelas palavras e naquele momento. Ajudaram- na a atravessar uma fase difícil de sua vida. Autoestima, confiança, o poder do pensamento positivo, o universo conspira a favor de todos aqueles que sabem usufruir de seu poder. Nunca todos aqueles conceitos lhe fizera tanto sentido…

Já estava tarde. Alice retirou o aparelho de leitura e o colocou ao lado da cama, arrumando-se para deitar. Era verdade que preferia dar seu próprio tom a história que lia, mas nem todos os livros tinham suas versões em braile e o aparelho era uma boa alternativa para o problema. De um jeito ou de outro, no final, acabava se aventurando da mesma maneira. Alguns poderiam dizer que o mundo de Alice tornou-se escuro desde que a menina perdera a visão naquele acidente de carro, mas estavam enganados. Ela aprendeu a ler de novo e, a cada noite, um personagem se oferecia para levá-la a um lugar diferente, cheio de novas aventuras e tantas tramas. O mundo de Alice, na verdade, nunca fora tão colorido!

 

*Crédito de imagem:

<a href=”https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/escola”>Escola vetore desenhado por Freepik</a>

Série Profissões – A Diarista

Segunda-feira – Dona Dulce acordou às cinco da manhã, fez café, deixou tudo preparado para o marido e os filhos, se arrumou e saiu. Ainda estava escuro quando pegou o ônibus que a levaria para o centro da cidade. Não conhecia muito sobre sua nova patroa, já que fazia pouco tempo que começara a trabalhar naquela casa. Porém considerava aquele serviço um achado. O apartamento era pequeno, a proprietária morava sozinha e quase não ficava em casa, portanto, Dona Dulce conseguia concluir suas tarefas com apenas metade do dia, o que lhe dava tempo suficiente para passar as roupas de outra cliente durante a tarde. Não pensou que pegaria mais um trabalho nesta altura do campeonato, tinha uma certa idade e já não rendia mais como antigamente, contudo, sabia que faria alguns sacrifícios para conseguir pagar sua tão sonhada casa própria, por isso, não poderia reclamar, pois esse dinheiro extra acabou vindo bem a calhar. Terminou o dia pegando o filho mais novo na escola ao voltar para casa. Fez a janta, arrumou a cozinha e preparou-se para outro dia.

Terça-feira – Acordou às quatro horas da manhã, tinha que sair mais cedo para levar seu filho ao médico antes de deixá-lo na escola e pegar no batente. Antes, arrumou a marmita do marido. Mesmo que ele não fosse trabalhar, Dona Dulce deixaria a comida pronta, pois era sua obrigação cuidar da família. Mas daquela vez fazia a tarefa com gosto, pois depois de ter passado meses sem arranjar um serviço o esposo estava finalmente empregado. A patroa não havia ficado muito feliz com o atraso de Dona Dulce, o qual não fora pouco naquele dia, já que, além dos imprevistos da manhã, aquela era uma de suas casas mais distantes. Tudo bem! Ficaria até mais tarde para compensar a hora e ainda deixaria brilhando o rejunte dos azulejos da cozinha. Teve que pedir para a irmã pegar seu filho na escola. Chegou em casa já eram mais de nove horas e não havia nada para comer, então fez uma janta rápida, arrumou a cozinha e preparou-se para o outro dia.

Quarta-feira – Acordou às cinco horas, fez café, deixou tudo preparado para o marido e os filhos e saiu. Era dia de limpar a casa de uma de suas patroas mais antigas e somente por isso ainda aceitava trabalhar no local por aquele preço, já que aquela era uma das residências mais trabalhosas que tinha em sua lista. Um casal com duas crianças e dois cachorros, sendo o marido, um acumulador. A casa estava sempre um caos quando Dona Dulce chegava e ela somente conseguia se encontrar no lugar por conhecê-lo tão bem. Passava o dia limpando todos os cômodos, os quintais, a sujeira dos cachorros, recolhendo os brinquedos e tirando o pó dos milhares de bibelôs; mal conseguia sair a tempo de pegar seu filho na escola. As quartas-feiras eram sempre puxadas, mas não poderia reclamar, este era o seu serviço e aquela era uma de suas melhores clientes. Chegou em casa, fez a janta, arrumou a cozinha e preparou-se para o outro dia.

Quinta-feira – Acordou no mesmo horário de sempre. Todas as quintas-feiras, Dona Dulce sentava no ônibus e pensava que sua vida poderia ser diferente se as circunstâncias fossem outras. Aquela patroa, outrora, havia lhe feito uma oferta generosa. Iria contratá-la por tempo integral, todos os dias da semana, com carteira assinada e tudo mais, porém, a faxineira recusara. Na época, não havia como ela dormir no trabalho, tinha uma criança pequena e uma família para cuidar, além do mais, o salário era bom, porém a quantia não cobria o que ganhava somando todas as outras casas. Pensava, mas não reclamava. Afinal, era o que sabia fazer desde os dezesseis anos de idade, pular de casa em casa limpando a bagunça dos outros, não serviria para outra coisa. Aos olhos de Dona Dulce aquilo era uma mansão e, por este motivo, sentia que não fazia bem o seu trabalho naquele lugar, já que era impossível para uma só pessoa, em um único dia, limpar uma residência tão grande. Mas sua patroa parecia discordar e sempre repetia:

– Não sei o que seria de mim sem você, Dulce querida! Tem certeza que não quer vir morar aqui?

A diarista toda vez abria um sorriso sem graça e começava a se explicar até ser interrompida pela mulher, dando risada e dizendo que estava só a brincar.

Sexta-feira – Pegou o ônibus antes de o Sol raiar novamente. Era mais um dia de jornada dupla para Dona Dulce, desta vez de manhã passava e fazia o almoço e a tarde limpava outra casa. A propriedade do segundo turno não era particularmente difícil, porém a dona do lugar era uma de suas patroas mais meticulosas. A mulher tinha algumas manias e várias regras, sendo que algumas delas eram totalmente descabidas no olhar experiente da faxineira, mas sua missão era deixar suas clientes felizes e não argumentar, então aprendeu como a dona queria e fazia sem reclamar.

Sábado – Acordou às cinco horas. Os filhos ainda dormiam e o marido levantaria mais tarde para trabalhar, então deixou seus cafés preparados e tomou cuidado para não fazer barulho enquanto se arrumava. A última casa da semana era, também, de uma cliente antiga e, por ser um final de semana, a dona sempre estava por lá. Por um lado era bom ter a patroa por perto, pois tinha alguém com quem conversar durante o dia, mas ela não conseguia deixar de lado a sensação de estar sendo vigiada. Começava lavando a louça e ariando as panelas, depois limpava toda a cozinha: armários, chão, mesa, todas as superfícies e eletrodomésticos. Lavava os quintais e os banheiros do chão ao teto. Arrumava a sala, os quartos e os corredores. Tirava o pó e passava pano. No final do dia, Dona Dulce voltava moída para casa. Cada músculo de seu corpo doía, pelo acúmulo do esforço de toda a semana. Todo sábado era a mesma coisa, chegava em casa no final da tarde, o marido, no sofá, assistia televisão tomando uma cerveja, enquanto o filho mais novo brincava no quintal e o mais velho nunca estava em casa. A louça do almoço ainda estaria lá e a mesa do café não teria sido tirada. Então, Dona Dulce daria um trato na cozinha antes de tomar o seu banho e ter o seu merecido descanso.

Domingo – Já estava acostumada a acordar cedo, não como quando ia trabalhar, mas o suficiente para ser a primeira na casa a se levantar. Dona Dulce fez um café e esquentou na chapa com manteiga um pão amanhecido, depois sentou-se relaxada na mesa e ligou a televisão. Nem sabia em que canal estava, mas deixou porque passava a reprise de um daqueles programas matinais de entrevistas os quais eram comuns durante a semana. O assunto debatido eram mães e suas profissões. A apresentadora pediu a opinião de uma adolescente na plateia:

– Qual é a profissão da sua mãe? – ela perguntou.

– Nenhuma! Ela é dona de casa – a jovem respondeu indiferente.

Dona Dulce olhou para o relógio na parede e todo o serviço por fazer a sua volta, desligou a TV. Sentiu os músculos reclamarem de dor quando levantou da cadeira, mas não poderia perder mais tempo, mesmo que hoje fosse somente dona de casa.

Conto Macabro

Estava escuro, quase não via um palmo a sua frente. Os galhos secos das árvores arranhavam sua pele toda vez que passava por algum lugar estreito demais dentro daquele jardim há tanto esquecido por todos. Lucas não estava gostando nada daquilo, não sabia o motivo de precisar cumprir aquele desafio idiota, não tinha nada a provar para ninguém. Um pássaro negro passou por suas cabeças, soltando um grito grotesco e fazendo com o menino pulasse de susto.

– Deveríamos voltar para casa. Isso é estúpido! – ele anunciou emburrado para os amigos, passando a mão na roupa que tinha sujado.

– Acho que tem alguém aqui com medo – Paulo comentou, aproximou-se de Lucas e deu um soco leve em seu ombro. – Vamos lá! É só passarmos uma noite nessa casa velha e seremos os reis da escola – acrescentou sorrindo.

Aquele casarão existia na cidade desde muito antes de Lucas sequer existir, e sempre fora daquele jeito: uma construção decrépita rodeada por um jardim cheio de ervas daninha e árvores mortas; onde ninguém ousava entrar. Os rumores diziam que há muitos anos houvera um assassinato no local, um caso extremamente bizarro, cuja história ninguém sabia ao certo, já que cada um a contava de um jeito. Porém, o único ponto que todas elas tinham em comum era que, desde então, a casa era assombrada pelo espírito da vítima.  Alexandre já tinha alcançado a porta da residência e aguardava os outros dois rapazes para adentrá-la. Acenderam a lareira da sala de estar e arrumaram os sacos de dormir em volta da mesma, logo em seguida, com ajuda das lanternas de seus celulares, foram explorar os outros cômodos da casa. Depois da inspeção, Lucas ficou mais aliviado, por tudo que já escutara a respeito da casa, esperava encontrar algo realmente assustador, mas, tirando o rangido de madeira velha ao pisar e o barulho que a tubulação antiga fazia, o ambiente não tinha nada além de sujeira e teias de aranha.

Os meninos tiraram algumas fotos, postaram nas redes sociais, comeram, conversaram por um bom tempo e finalmente foram se deitar. Era madrugada quando Lucas levantou-se para tomar um pouco de água e escutou um som do que parecia ser correntes arrastando-se no chão. Assustado, correu para o lado de Paulo e o cutucou.

– Ei, Paulo, tem alguém aqui! Precisamos ir embora – sussurrou, mas o amigo apenas virou para o lado, ignorando o rapaz. O som das correntes, agora mais alto, ressurgiu, parecia que quem quer que fosse que estivesse as arrastando estava vindo em sua direção. Lucas sacudiu o amigo com força. – Acorda, cara! Tem alguém aqui. – O amigo esfregou os olhos desleixado.

– Cara, vai dormir. Você está surtando!

Lucas estava prestes a retrucar quando um estrondo forte como uma explosão, vindo de outro cômodo da casa, seguido por um grito de agonia, acordou seus amigos. Os três rapazes, agora em alerta, levantaram-se e olharam ao redor. Lucas começou a reunir freneticamente suas coisas.

– Eu estou indo embora daqui! – anunciou.

Quando alcançou a porta de entrada, a mesma bateu com força, fechando-se sozinha. Os meninos tentaram abri-la, mas esta estava trancada. Procuraram por outras saídas, porém nenhuma funcionou, estavam encarcerados.

– As janelas! Vamos tentar as janelas – Alexandre disse desesperado.

– Não adianta! Estão todas bloqueadas – Paulo respondeu.

Nesse momento, uma figura indistinta formou-se no meio da sala, tomando forma à medida que se aproximava. Os cabelos negros, longos e bagunçados, cobriam o rosto pálido e sem vida de uma mulher vestida no que parecia ser uma camisola branca. Ela estendeu a mão em direção aos meninos e soltou um som gutural de dor:

– Nunca irei lhe deixar! – a figura fantasmagórica anunciou.

Os rapazes saíram correndo, com o coração saltando pela boca, e trancaram-se em um dos quartos do andar superior da casa. Procuraram por algo que pudesse ajudá-los a sair daquele lugar, revistaram cada canto do aposento, mas não encontraram nada. As palavras choramingadas da moça ressoaram novamente nos ouvidos de Lucas:

– Volte para mim! Volte para mim!

O espírito ressurgiu no quarto e tentou alcançá-los, porém, os meninos, mesmo assustados, conseguiram recuar.

– Some daqui! – Lucas gritou. A mulher olhou confusa em sua direção e uma fúria a dominou. Chamas surgiram por todos os lados.

– Nunca irei lhe deixar! – ela gritava raivosa.

Alexandre reparou que as janelas do quarto não estavam bloqueadas e, rapidamente, agarrou uma das gavetas da escrivaninha e arremessou com toda a força por uma delas, fazendo com que o vidro se despedaçasse em mil pedaços.

– Vamos pular!

Sem delongas, os outros dois obedeceram a sua ordem e, assim, os três meninos jogaram-se, aterrissando com força no chão do outro lado. Mesmo machucados, levantaram-se e correram até o portão da propriedade. Assim que se sentiram a salvo, pararam para olhar o casarão. As chamas consumiam pouco a pouco a propriedade e o grito de agonia que acompanhava o espetáculo ecoou na noite escura.

Lucas acordou em sua cama, molhado de suor. Sentou-se e, respirando fundo, tentou se acalmar. Talvez tivesse sido apenas um sonho, um fruto de sua imaginação assustada. Lavou-se, preparando-se para ir à escola. Sentiu uma dor em seu ombro direito ao pegar sua mochila, porém não se importou. Saiu do quarto, apagando a luz. E a mulher de cabelos negros, segurando em seu ombro, o acompanhou.