Diário de um Cão – Chegada da Irmã Gêmea

Querido diário (sempre quis dizer isso!), estou de volta para continuar os relatos da minha vida de cão. Onde é que eu tinha parado mesmo? Ah, sim, com a chegada da minha irmã gêmea: Lilica. Esse foi o nome que a minha família deu para ela, pois, antes de viver conosco ela era chamada por outra coisa. Eu não sei bem o que significa Liminar e nem entendo direito os critérios que os humanos usam para nos batizar, mas tenho quase certeza de que isso é um palavrão porque vovó e mamãe falaram que era um absurdo chamá-la por esse nome e trataram logo de trocar. Em minha opinião, Lilica ficou melhor mesmo para ela. Enfim, como ia dizendo, estávamos em uma bela tarde de sábado, pelo menos era bela até a moça anterior a minha família, que faz parte do grupo que dá caminha, comida e carinho, vir nos visitar e trazer com ela, acreditem se quiser, a minha irmã gêmea e o meu irmão cabeçudo. O fato é que achei que nunca mais os veria e eles mudaram tanto que eu quase não os reconheci. Ela, só pele e osso e ainda cheia da nossa sarna hereditária e ele… como pôde aquele magricela ter ficado maior do que eu? Pareciam até outros cachorros, mas o cheiro era inconfundível, definitivamente eram eles. Aquilo tudo era uma afronta! Vir visitar sem avisar, trazer aquela coitada caindo aos pedaços e o outro… ainda não me conformo que ele está maior do que eu! Tive que expressar minha indignação, então lati a visita toda, sem parar.


A moça boazinha foi embora e levou com ela meu irmão, mas esqueceu da Lilica. Por mais magrela que ela estivesse, foi muita falta de atenção da parte dela não ter visto que deixou a minha irmã para trás. O pior foi que Lilica nem se importou com o esquecimento, achou-se dona da casa. Pegou meus brinquedos sem permissão, tomou do meu pote de água, comeu toda a minha comida (e parecia uma louca fazendo isso!), roubou a minha caminha e ainda brigou comigo quando eu quis retomar o meu lugar de direito. Naquela época, eu dormia de conchinha com o meu vovô em sua cama e em sua primeira noite conosco, minha irmã resolveu roubar o meu lugar no meio dos meus avós. Eu fiquei inconformado! Então, novamente, tive que expressar minhas emoções e lati a noite inteira só para passar um recado: se eu não durmo, ninguém dorme!
Os dias foram passando e nada da moça, que agora eu já não sabia se era tão legal assim, lembrar-se de pegar minha irmã de volta. Coitada! Talvez eu não devesse culpá-la tanto pela minha infelicidade, pois, provavelmente, ela sofria de algum problema de memória. Eu finalmente tive esperanças de que tudo voltaria ao normal quando a vovó e a mamãe saíram com a minha irmã sem mim, afinal, aquilo significava que ela não mais voltaria, não é mesmo? Não foi assim com o tio Marley? Mas Lilica não só voltou como estava toda estranha. Tinha uma roupa e um cheiro engraçado e só queria saber de dormir. Meus humanos realmente estavam testando a minha paciência, então, pela terceira vez em menos de uma semana, eu lati. E, desta vez, para me fazer escutar, ladrei meu manifesto por dois dias consecutivos, sem parar. Não adiantou nada! E ela continuou lá. Uns quinze dias depois desse episódio, foi a minha vez de sair com a mamãe e a vovó sem ela. Eu finalmente ia descobrir que lugar era esse que os cachorros iam sem mim, que uns voltavam e outros não. Qual foi a minha decepção quando descobri que o lugar mágico que eu imaginava era somente o consultório da moça de jaleco branco? Elas me colocaram deitado na maca fria e a moça me picou, logo em seguida comecei a ficar sonolento. Antes de me entregar por completo ao sono, vi que mamãe saiu da sala e eu fiquei com medo. Será que desta vez era eu que não iria mais voltar? Mas não, quando acordei mamãe estava lá me esperando. Eu estava muito tonto e com uma dorzinha chata nas partes de baixo, parecia que haviam me tirado alguma coisa… Percebi que estava acontecendo comigo o mesmo que fizeram com a Lilica dias antes e meu barrigão se encheu de remorso. Se ela estava tão ruim quanto eu estava naquele momento, foi uma injustiça de minha parte eu ter latido tanto no ouvido dela. Sorte minha que ela não é rancorosa e não retribuiu minha atitude com a mesma moeda.


No final das contas, Lilica veio para ficar. Com o tempo eu me acostumei com a sua presença e entendi que ela não era uma cachorra má, só um pouco sem noção. Ela não sabia comer, mamãe teve até que comprar um prato engraçado para ela, cheio de coisas no meio que dificultavam pegar a comida, só para ver se ela comia mais devagar. Funcionou. Apesar de eu achar que o problema real dela era o medo de passar fome. Assim que ela soube que sempre se alimentaria, não ficou mais desesperada com isso. Que tonta! Como se fosse possível mamãe não nos dar o que comer. Ela também era muito estabanada. Não tinha noção de espaço, corria e pulava de qualquer jeito e em qualquer lugar, sempre acabava batendo em alguma coisa ou alguém. Para falar a verdade, eu não deveria contar isso como se estivesse no passado, porque até hoje ela é assim! Mamãe sempre diz que o treinamento militar que ela teve com a outra família não adiantou de nada, só fez com que ela adquirisse traumas. Minha humana pode ter razão quanto a isso, porque minha irmã é sim, um tanto quanto medrosa. Apesar da minha resistência, no final foi bom a moça ter esquecido ela com a minha família. A gente brinca, se morde e se diverte, mesmo com todas as nossas diferenças. Lá no fundinho do meu barrigão, eu amo ela e se alguém perguntar eu vou negar até a morte que disse isso.


E quando eu já estava me acostumando com a nova rotina, a vida ficou bagunçada novamente e eu e a mamãe nos mudamos da casa dos meus avôs. Mas isso é história para outro dia…

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