Prêmio Guarulhos de Literatura

           Quem mora na região, com certeza, já ouviu falar em Guarulhos. Mas o mais provável é que tenha, no mínimo, feito uma visita rápida à cidade pelo menos uma vez na vida, seja passando de carro por uma das principais rodovias que cortam a mesma ou para utilizar o seu aeroporto. Essa fama não é para menos, já que o município é o mais populoso, depois das capitais, e o 13º mais rico do país.

            Por esses e tantos outros motivos, muitos residentes do local acreditam que passou da hora de Guarulhos perder os hábitos de cidade dormitório e começar a caminhar com as próprias pernas. E foi pensando justamente na valorização e crescimento da cultura na cidade que surgiu o Prêmio Guarulhos de Literatura.

            Tive o privilégio de acompanhar o lançamento da terceira edição do evento que ocorreu no sábado (30/03/19) no espaço Novo Mundo da Livraria Nobel e posso dizer, em primeira mão, que o entusiasmo e a dedicação do idealizador Auriel Filho e seus parceiros eram contagiantes. Na noite em questão, conheci autores e jovens que tinham interesse em participar da premiação, bem como revisores, tradutores e até mesmo alguns patrocinadores do projeto e pude perceber que a iniciativa era algo sério e genuíno.

            O prêmio conta com três categorias: poesia, livro do ano e escritor do ano; além da premiação independente Jovens Escritores. Esta última voltada para estudantes de 11 a 18 anos que queiram ter seus textos publicados em uma coletânea.

            Projetos como esse, que se originam através das mãos da própria população e com recursos privados, nos ensinam que qualquer um pode fazer a diferença, basta ter a vontade de lutar pelo que se acredita.

      Os interessados que residam no estado de São Paulo poderão ler o edital dos concursos e se inscrever gratuitamente até o dia 17 de Maio no site: pgliteratura.com.br.

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Amor de Consumo

Talvez lá no começo, bem no início mesmo, as relações fossem um tanto quanto simples: eu precisava, você tinha e me oferecia e eu comprava. Fazia-se tudo ali mesmo, em estabelecimentos locais. A oferta era de porta em porta e a fama vinha do boca a boca. O “seu” Zé da quitanda sabia sobre sua vida e seus gostos, não porque ele investiu muito tempo e dinheiro para traçar o seu perfil, mas simplesmente, porque você era um morador do bairro e cliente constante. O anúncio era um cartaz feito à mão com as ofertas do dia na porta do estabelecimento e o crediário era o caderninho de fiados que, supostamente, seriam pagos ao final do mês. Ah! Estamos falando aqui do primeiro amor… Que, assim como uma criança a qual começa a descobrir o significado deste sentimento, mostra-se tímido, inocente e fiel. E, para manter-se, não era preciso muita coisa, bastava estar por perto.

A guerra acaba e com ela vem a revolução industrial. A produção em grande escala faz com que as empresas cresçam e, por isso, a concorrência aumenta drasticamente. A relação que até então era pura e pessoal, passou a ser mais determinada e banal, pois já não bastava só estar presente, eram necessários grandes gestos para que as marcas fossem notadas. A criança havia se tornado um adolescente e como tal, o drama e a popularidade eram partes essenciais de sua vida. Os anúncios deixaram de ser caseiros e passaram a ser veiculados em grandes meios, como: jornais, revistas, rádio e televisão. Foi nesta fase também que as serenatas surgiram, ou melhor, os jingles, como eram mais conhecidos no meio. Feitos para a grande massa, sem um público tão determinado, os mesmos fizeram um sucesso estrondoso e mantiveram-se por anos a fio, afinal quem não se sentiria seguro com o frio batendo em sua porta e as Casas Pernambucanas estando lá para aquecer o seu lar? E este relacionamento ganhou um nome, passou a se chamar marketing.

De tanto tentar ter o seu amor e de chamar sua atenção, o marketing acabou tornando-se um namorado ciumento. Para melhor satisfazer e entender o seu público, ele resolve dividir o mesmo em nichos específicos com características em comum, como: gênero, idade, grau de escolaridade, entre outros. E para obter essas informações ele constantemente te perguntava o que você estava fazendo, quais eram os seus gostos, suas preferências e vontades e o que mais fosse interessante saber. Passaram a te ligar frequentemente, fosse para oferecer produtos, fosse para saber um pouco mais sobre você. Não havia um lugar em que fosse onde ele não estivesse presente, fazendo-se notar, sendo isso necessário ou não. Algumas vezes esta sua atitude poderia até ser um pouco irritante, porém, no fundo, tal atenção te mantinha sempre ao lado dele.

A revolução digital mudou o mundo novamente e novos relacionamentos começaram a ser construídos em níveis globais com apenas um clique e o mínimo de interação. A quitanda do “seu” Zé virou um grande hortifrutti que atende não só seu bairro, como o estado inteiro. Ele não conhece mais, pessoalmente, nenhum de seus clientes, porém sente falta daquele relacionamento próximo, onde sabia tudo sobre você e como satisfazê-lo. O marketing então percebe que ele não poderia mais focar somente em nichos, porque mesmo colocando as pessoas dentro de um grupo, cada indivíduo é único. Então como fazer para entender e atender a cada um deles em meio a tantos? Fácil! Basta monitorar todos individualmente. E foi desta maneira que o marketing deixou de ser um namorado ciumento e tornou-se um stalker. Hoje em dia, ele sabe de tudo sobre sua vida sem ao menos precisar lhe perguntar. Com um levantamento de dados, ele consegue descobrir do que você gosta, seus receios, desejos, planos para o futuro, o que assiste, come, escuta; com quem fala, suas opiniões, suas preferências, para onde viajou este ano ou no ano anterior, seus relacionamentos, suas frustrações e tantas outras coisas. Afinal, a internet e seus recursos estão aí para todos. Ou seria somente coincidência aquele anúncio aparecer em suas redes sociais logo após você ter mostrado algum interesse sobre o assunto? Então, não se surpreenda se a sua marca preferida saber mais sobre você do que sua própria mãe. Mas não se preocupe em discutir a relação ou mesmo se questionar se ela é saudável ou não, porque na maioria das vezes esse relacionamento acaba em casamento.

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Tirinhas Entre Dois Mundos

Bom dia, leitores! Segue mais uma tirinha da aventura de nossos personagens em Entre Dois Mundos.

Crédito de imagem: <a href=”https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/negocio“>Negócio vetore desenhado por Freepik</a>

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Vidas Cruzadas

Dona Dulce é uma mulher simples de 54 anos. Casada há trinta anos com o homem que foi o seu primeiro namorado, mãe de três filhos. Saiu do interior para tentar a vida na cidade grande. Batalhou bastante e continua se esforçando, mas, graças ao seu bom Deus, a vida sempre lhe sorriu. Acorda bem cedo todos os dias, antes de o sol nascer, e chega à casa da patroa antes mesmo de qualquer um que lá reside levantar. Há alguns anos, é a empregada fixa dos Mendonças e, como tal, cuidar da rotina doméstica da residência é a sua função.

– Bom dia, Dona Glória! – comenta ao ver a outra mulher adentrando a cozinha. – Pode sentar que já passo um café para a senhora.

– Obrigada, Dulce! Seu café é o melhor de todos!

Glória, mulher independente de 43 anos. Mora com o segundo marido e a filha de seu primeiro casamento em um bairro de classe média alta da cidade. É psicóloga e tem o próprio consultório, o que possibilita, dependendo de sua agenda, que seus horários sejam flexíveis. Mas, nem por isso, seus dias são tranquilos, pois muitas vezes acaba agendando mais pacientes do que, de fato, poderia aceitar. Mas o que fazer já que, depois da família, o trabalho é sua vida?

– Vitória também irá descer? – Dona Dulce pergunta enquanto serve o café para Glória. Esta, descrente, solta um sorriso.

– Não, Dulce. Acredita que ela está levando a sério aquela história de se tornar uma celebridade da internet? Não sei para quem essa menina puxou! Saiu logo cedo para ir à academia.

Vitória é uma patricinha de 21 anos. Solteira, filha única de pais separados. Está cursando o segundo ano da faculdade de direito, mas isso não lhe interessa, já que seu maior sonho é tornar-se uma influência digital no mundo da saúde e boa forma. Treina todos os dias, mantém uma dieta rigorosa e tem um canal na internet sobre o assunto, onde sempre atualiza seus “fãs” com dicas de moda, saúde e beleza. Apesar de seu namorado e família acharem tudo isso uma loucura, os seus fiéis quinhentos inscritos lhe dizem o contrário. Segundo seus cálculos, não levará muito tempo para que ganhe dinheiro com isso. O problema é que ela nunca foi boa em matemática.

Sente o celular vibrar com uma mensagem e bufa ao lê-la:

“Não esquece que o trabalho de penal é para hoje! Beijos, Letícia.”

Letícia, jovem batalhadora de 22 anos. Solteira, veio sozinha aos dezoito para a cidade e cursa com Vitória o segundo ano da faculdade de direito. Seu sonho é de tornar-se, um dia, uma juíza. Trabalha durante o dia e estuda a noite. Já que precisa pagar suas próprias contas, está sempre atarefada. Se não é o serviço ou a faculdade, são os bicos ou o voluntariado. Não se importa em esforçar-se, pois tem um objetivo e irá alcançá-lo.

Assusta-se quando Valéria, dona da empresa, entra na sala e anuncia:

– Pessoal, precisamos fechar a meta até o final desta semana. Então vamos lá! Conto com a colaboração de todos.

Valéria, uma viciada em trabalho de 38 anos. Divorciada, empresária e bem sucedida. Começou muito cedo no mundo dos negócios e nunca mais parou. Sua vida e prioridades giram em torno do trabalho, talvez por isso seu casamento não tenha dado certo. Está sempre viajando e cuidando de assuntos relacionados à sua empresa, nunca está em casa. Rosa, sua mãe, sempre lhe diz para parar um pouco, talvez construir uma família, mas ela não tem tempo nem para cuidar de um animal de estimação, quanto mais filhos e marido.

Rosa, uma senhora dona de casa de 72 anos. Viúva e mãe de quatro filhos. Aposentada, passa seu tempo cuidando da casa, dos netos e indo ao clube de terceira idade. Faz comidas e doces como ninguém, tanto que se vendesse ganharia um bom dinheiro com isso, mas esse nunca foi seu objetivo. Toda sua vida fez o gosta e sempre lhe deu prazer: cuidar da casa e da família. Passa as tardes com Joana, sua vizinha, trocando receitas ou fofocas.

Poderia, agora, descrever o dia-a-dia de Joana. E continuar contando as histórias de todas as Marias, Adrianas, Carlas, Antônias, Fernandas, Amandas, Julianas, Vanessas, Anas e tantas outras, afinal, somos muitas! Mas, irei parar por aqui, pois, se assim não fosse, este texto não teria fim, já que cada mulher possui uma narrativa e deixa com ela, sua marca no mundo.

Dizem por aí…

Olá, pessoal! Tudo bem?

Hoje eu vou iniciar uma série de vídeos com as opiniões de quem já leu o Entre Dois Mundos para vocês conferirem o que estão dizendo por aí. Eles podem ser de blogueiros, instagrans literários ou leitores…

O dizem por aí de hoje é o depoimento da Amanda, do blog e Instagram @eurekamundo . Ela foi uma das minhas primeiras parceiras, quando o livro ainda se chamava apenas Dois Mundos e nem havia a versão física!!! Obrigada Amanda por seu carinho e confiança!!!

Do outro lado

Edu era um rapaz legal. Tinha poucos amigos, verdade, porém estes lhe eram fieis e, mesmo com seu jeito estranho, estavam sempre presentes. Era educado, calado e tinha uma tendência em ver o lado negativo das coisas. Seus amigos o chamavam de “Do Contra”, sabe aquele personagem do Maurício de Souza que sempre pensa diferente de todo mundo? Esse mesmo! Mas Eduardo não concordava com tal apelido. Novidade! Isso só acontecia porque a maioria das pessoas ao invés de se prepararem para a vida, iludiam-se com a positividade, descartando todo o resto.

Não levava uma vida ruim. Tinha boa saúde, um emprego estável e bem remunerado; casa, carro, estudos, um relacionamento… enfim, tudo o que uma pessoa padrão poderia considerar como satisfatório. E é lógico que Edu atribuía todo o seu “sucesso” ao seu jeito precavido de ser, pois sempre se preparava para as possíveis eventualidades da vida.

– Fique calmo, Du! Vai dar tudo certo! – A namorada o consolava enquanto seguiam para uma viagem não programada com os amigos em uma Van alugada.

Certo não era a palavra que escolheria para aquilo. Nada de planejamento, organização prévia, planos de contingência… tudo aconteceu com um simples telefonema na noite anterior. E como se não bastasse, ainda havia os atenuantes da própria natureza da viagem: alugar um veículo velho de última hora, ir para longe com ele e ainda acampar em um lugar isolado. Aquilo tinha tudo para dar errado. Muito errado!

Eduardo não se surpreendeu quando, no meio do caminho, tiveram que parar por conta de um pneu furado. Mesmo estando eles em seis, o serviço demorou mais do que era de costume para uma troca, isso porque os parafusos que prendiam a roda estavam totalmente enferrujados, fazendo com que fosse quase impossível tirá-los. Tiveram que revezar o trabalho, de tão exaustivo que aquilo se tornou. Edu não parava de pensar que nada daquilo aconteceria se tivessem planejado a viagem com calma e não buscado uma locadora qualquer de última hora.

Já era começo da noite quando finalmente conseguiram chegar ao local onde iriam levantar acampamento. Só de dar uma olhada em volta, Edu novamente se frustrou. Tinha pensado que, no mínimo, ficariam dentro de um camping com alguma estrutura, mas não, estavam ao relento. Quem, em sã consciência, acamparia daquele jeito nos dias de hoje? Poderiam sofrer um acidente, ser assaltados, sequestrados ou coisa pior! Se as baterias dos celulares acabassem, não conseguiriam nem pedir socorro. Sem contar a falta de estrutura que poderia ocasionar uma série de infortúnios, desde pequenos aborrecimentos até a contração de alguma doença grave proveniente de possíveis machucados ou da falta de higiene.

Quando terminou de montar sua barraca, juntou-se ao grupo que estava reunido em volta da fogueira. Eduardo sentou-se ao lado da namorada e viu que seus amigos já aqueciam a comida nas brasas.

– Que palito de churrasco mais estranho! – comentou. – Os caras realmente levaram a sério essa história de ambiente selvagem. – Sua namorada começou a rir.

– Esquecemos os palitos, então tivemos que improvisar.

Ela o observou por um momento e ele tentou parecer calmo, mas por dentro fervilhava. Improvisar como? Usando coisas nada higiênicas que estavam jogadas naquela mata?

Seus amigos ficaram até altas horas conversando em volta da fogueira. Estavam empolgados com o momento que passavam e, até mesmo Edu, se divertia. Exceto o tormento que era quando precisavam “usar o banheiro” ou a ocasião em que pensaram que um animal feroz iria atacar o acampamento quando na verdade era somente um porco do mato passando, tinha que admitir que para um passeio totalmente sem planejamento, aquele até que estava se passando sem maiores problemas. Eduardo afastou-se um pouco do grupo e sentou-se na beira do rio. Sua namorada, ao vê-lo, juntou-se a ele.

– O que está fazendo aí tão quietinho? – ela disse com um sorriso no rosto.

– Você percebeu quantas estrelas conseguimos ver aqui? Na cidade quase não as vemos! – ele disse admirando o céu noturno. A namorada confirmou com um aceno.

– Sim, é lindo! – respondeu, também contemplando a paisagem. Ele olhou para ela. Seu sorriso leve na boca, os olhos brilhando quase tanto quanto os astros que observavam, a luz do luar refletindo em sua pele. Sentiu-se estranhamente satisfeito.

– Talvez não tenha sido uma ideia tão ruim assim vir para cá – comentou. Ela voltou o olhar, em choque, para ele, mas logo se recompôs. Deitou a cabeça em seu ombro e não sentiu a necessidade de dizer mais nada.

Na manhã seguinte Eduardo acordou revigorado, fazia muito tempo que não se sentia tão disposto. Sentia-se outra pessoa! Pensou que talvez pudesse relaxar um pouco, afinal aquela viagem não foi, nem de longe, como teria planejado, mas havia saído melhor do que o esperado. Sua convicção de que tudo o que não é planejado acaba em um desastre iminente, havia caído por terra. Desmontaram o acampamento, colocaram as coisas na Van e se aprontaram para partir. Seu amigo tentou uma, duas, três vezes dar a partida no veículo, mas sem sucesso.

– Acho que a bateria deve ter arriado – o motorista disse incerto, tentando, em vão, ligar o carro. – Alguém tem um celular para pedirmos ajuda? O meu descarregou ontem à noite.

Todos trocaram olhares nervosos acenando negativamente com a cabeça. Provavelmente ficaram tirando fotos e gravando vídeos a noite toda, usando toda a bateria que tinham para postar as aventuras vividas em suas redes sociais, porém esqueceram-se de que estavam no meio do nada e poderiam precisar do aparelho para uma eventualidade.

– Vou ligar para o seguro – disse Eduardo, sacando o celular do bolso e já procurando o número de emergência no contrato de locação. Enquanto esperava ser atendido, pensou em como era inadmissível as pessoas não se programarem para fazer as coisas e aquela viagem era só mais um exemplo clássico do que sempre falava.