Choque Cultural

Em 2009 eu tive a oportunidade de realizar um dos meus sonhos de infância, o de morar em outro país. Assim como a maioria dos meus desejos da época, me tornar uma atriz famosa, viajar o mundo, ter um pense bem da tec toy; essa era uma daquelas vontades muito intensas, porém distantes de acontecer. Mas, com o incentivo de uma amiga e depois de um ano e meio investindo meu magro salário da época na viagem, realmente conseguimos embarcar para nossa aventura na Austrália.

            Para marinheiras de primeira viagem, escolhemos um destino realmente desafiador. Talvez fosse mais rápido cavar um túnel na terra e cair do outro lado do mundo do que chegar lá de avião. Alcançar o no nosso destino foi mais difícil do que tirar o visto, e, acredite, se você acha que o visto americano é complicado, é porque nunca tentou tirar um de estudante australiano, até radiografia do pulmão eu tive que enviar à embaixada para atestar que não estava levando comigo a tal da tuberculose (aparentemente extinta na terra dos cangurus). O primeiro contato que tive com a cultura down under aconteceu algumas horas depois da minha chegada à casa da família onde eu me hospedaria, o pai nos levou para um jogo de rugby de um dos filhos. Ele tentou me explicar todas as regras enquanto a partida rolava, eu só acenava com a cabeça e dava umas risadas, mas, sinceramente, até hoje eu não faço a mínima ideia do que foi dito naquela conversa. Não me julgue! Você também acharia o manual completo do jogo dos montinhos um pouco complexo depois de mais de 40h de viagem sem descanso.

            Quando você pensa em Austrália o que te vem primeiro à mente? Além de cangurus e coalas, provavelmente seriam as praias, certo? Pois bem, eu e minha amiga moramos em Brisbane, uma cidade que não é litorânea. Então combinamos de fazer um bate volta em nosso primeiro final de semana na praia mais próxima, porém acordamos tarde e por isso deixamos nosso passeio para outro dia e optamos por visitar a praia artificial que beira o rio a qual os cidadãos locais tanto se orgulham em dar como referência. Pegamos o City Cat, meio de transporte fluvial muito popular na região, e em nossa travessia vi uma garrafa pet boiando nas águas calmas que navegávamos. Na hora, comentei com a minha amiga com certa ironia: “quem disse que não tem lixo nos rios da Austrália?” E como um passe de mágica, quase como se viesse para calar a minha boca, passou por nós (e pela garrafa) uma embarcação particular, o condutor a viu, deu ré, retirou a dita cuja do rio e voltou a seguir o seu caminho. É impressionante como atos tão simples podem ficar marcados por tanto tempo! Chegando ao nosso ponto, procuramos pelo destino no mapa disponível, porém como não conseguíamos nos localizar muito bem, resolvemos perguntar para uma senhora que passava por ali onde que ficava a praia artificial. O espanto da mulher me deixou um tanto quanto constrangida e comecei a indagar se estávamos no lugar correto, até perceber que não estávamos perguntando sobre a praia artificial e sim procurando por uma puta artificial. Esse episódio acabou me rendendo boas aulas com a mãe da família sobre a sutileza na pronúncia das palavras.

            Eu sofri vários choques culturais durante a minha estadia naquele país continente. Não posso afirmar que todos os australianos sejam assim, mas a família com a qual convivi era de uma pureza e integridade invejável. Assim que começamos a sair, a mãe da casa fez questão de etiquetar nossos celulares com nome e o telefone da casa dela, me explicando que, caso os perdêssemos, a pessoa que encontrasse poderia nos achar para devolver. Eram sempre as pequenas coisas que mais me impressionavam! Levei bronca por atravessar fora da faixa de pedestre em uma rua com quase nenhuma delas e sem movimento algum (e por demorar demais para atravessar nas mesmas, já que eu não tinha confiança de que os carros realmente parariam assim que eu colocasse meus pés nela e atrasei todo o trânsito com a minha indecisão). Também me chamaram a atenção por não usar o cinto de segurança no banco de trás do carro. Falando em veículos, foi difícil me acostumar com o volante do lado direito do carro, sempre me dava à impressão de que os mesmos estavam se movimentando sozinhos. Fiquei espantada por não precisar pagar a passagem do ônibus quando o mesmo atrasou seu horário em 10 minutos. Pegou-me de surpresa o caminhão de lixo já separar orgânico de reciclável, o tamanho das casas onde eu trabalhava, as pessoas não se importar que uma completa estranha cuidasse de seus filhos e ainda pagar muito bem por isso, limpeza da casa e banhos não serem tão essenciais assim, afinal, quem usou a piscina, não precisa ir para o chuveiro, já se lavou. A mesma lógica funcionava para as roupas no varal, para quê lavar de novo se tomou chuva? Só molhou, vai secar! Adorava não precisar pagar para entrar nas pubs e poder passar de bar em bar, mas detestava que meu ônibus encerrasse seu trajeto às 22h30min e depois disso nem sinal de outro transporte que não fosse um táxi super caro para uma estrangeira pobre. Minha raiva com o horário de funcionamento das coisas se estendia a praticamente tudo depois das 16h do Domingo, se você não comprasse o que precisava até esse horário, poderia esquecer encontrar depois. O sistema todo de regras parecia se basear na convicção que todos iriam cumpri-las. Se a cultura dos nativos era beber até cair, não tinha problema algum as meninas deitarem nas calçadas em frente às baladas com suas microssaias e bolsa à mostra, esperando o porre passar, ninguém mexeria com elas por isso. A cidade era dividida em zonas circulares, sendo o ponto de partida o centro comercial que estendia seus aros até os bairros mais afastados da região. O sistema de transporte urbano se baseava nessas zonas e quanto mais distante da zona 1 seu destino fosse, mais caro você pagaria na passagem (que era única para qualquer meio de locomoção). Porém os próprios passageiros compravam seus bilhetes para as zonas que queriam, não havia uma fiscalização, então, se você quisesse, poderia fazer como alguns brasileiros que conheci que pagavam o menor deslocamento (zonas 1-2) e seguiam trajetos até destinos mais distantes. É como o ditado diz: em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Eu só não sei ao certo se o deficiente, neste caso, era o malandro ou o sistema.            

Minha estadia na terra dos ornitorrincos e dos bichos mais mortais do planeta passou rapidamente e depois de presenciar como tudo parecia funcionar de forma adequada e respeitosa naquele lugar, eu voltei ao Brasil com uma sensação de tristeza, pois avaliei que poderíamos ser uma nação até melhor do que eles, já que possuímos recursos naturais e riquezas que a eles carecem, se não fosse a desordem e o total descaso que temos para com as regras e nossa própria sociedade. Há alguns anos, meu pai e dois irmãos australianos vieram me visitar aqui no Brasil e os levamos em um tour para conhecer a cidade de São Paulo. Durante essa breve visita, a família também sofreu com o tal choque cultural. Ficaram fascinados em como passávamos rápido de uma faixa para outra na Dutra ou como os motoqueiros passavam em cima da calçada de pedestre, na contramão, para encurtar o caminho. Em uma das noites eu levei os filhos para uma balada na zona sul, na volta, deixei minha amiga na casa dela na zona norte e voltei para Guarulhos por dentro da cidade. George viu que eu estava passando todos os sinais vermelhos e ele me perguntou o que significava aquela cor no Brasil, eu respondi que era o mesmo que na Austrália só que naquela hora da madrugada, naquele lugar, era muito perigoso ficar parado, poderíamos ser assaltados. Ele entendeu meus motivos, mas comentou que se fosse em sua cidade eu já teria levado umas dez multas, porque todos os semáforos tem radar. No outro dia, falando sobre isso com o pai, este disse com certo pesar que a Austrália era muito chata, muito cheia de regras e que todo mundo seguia tudo muito certinho. Os brasileiros eram mais livres. E essa constatação me fez perceber como tudo na vida é uma simples questão de perspectiva.

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O último trem

A plataforma apinhada de gente me causava inquietação. Também pudera! Era a última viagem do dia e sabe lá quando haveria outra. Ainda assim, era de se admirar que tivessem deixado tantos indivíduos suspeitos se misturarem às famílias de bem. Talvez tivessem perdendo o controle mesmo, o que era uma lástima! Um pouco de rédeas curtas nunca fez mal a ninguém. Mas com um povo tão desordeiro, seria mesmo difícil esperar qualquer ato de civilidade. Afinal, uma nação sem Deus no coração, não merece redenção. Já eram mais de onze horas e nenhum sinal de que íamos embarcar. A passarela cada vez mais cheia. Estava encantada com o vestido da mulher ao meu lado, certamente alta costura. Fiquei tentada em perguntar-lhe onde o havia comprado, mas logo percebi meu equívoco. As cores! As cores não estavam certas. Um tecido mais claro do que o tom de pele de alguém nunca era um bom sinal. Com certeza era uma imitação barata.

            – Ei, você! Seu vagão não é este.

            – Mas os últimos estão todos lotados e eu estou com uma criança de colo.

            – Sente no chão, vai pendurada, não me importa! Só saia daqui. E vá logo, antes que eu mude de ideia.

            A moça maltrapida se afastou do guarda, carregando seu filho em um dos braços enquanto, com o outro, arrastava uma mala pelo chão. E era por isso que nada funcionava. As pessoas só queriam coisas dadas, não faziam o mínimo para conquistá-las, depois reclamavam de suas sortes. Só porque estava com uma criança achava que merecia privilégios. Olhe o meu caso, não cheguei aonde cheguei dependendo dos outros ou de caridade, meu pai se esforçou muito para dar um nome à sua família. Que Deus o tenha! Embarquei e logo tomei meu lugar em uma cabine espaçosa e confortável. Sentei e Fifi rodou em meu colo por algumas vezes, até achar uma posição que lhe agradasse, logo dormiu. Segui viagem afanando seus pelos. Não era uma das melhores acomodações em que eu já estivera, porém era adequada para nós duas, o que de certo era um bônus, já que a viagem seria longa.

            Todos os dias eram praticamente iguais dentro do trem, eu passava a maior parte do meu tempo dentro da cabine sonhando em logo chegar ao destino prometido. De vez em quando passeava com Fifi por entre os vagões, mas nunca conseguimos ir até o final deles, em dado momento sempre havia um segurança que nos fazia retornar dizendo que mais ao fundo não era lugar onde damas devessem passear. Imaginei ser algum depósito, onde guardavam os mantimentos ou coisa parecida. Nunca mais vi a mulher com a criança, mas comprovei o que já pensava, pois em todos os vagões por onde passei as pessoas tinham seus lugares. As pessoas gostam mesmo é de falar e reclamar. Certa vez, eu estava saindo de minha cabine e quase fui atropelada por um jovenzinho que corria pelo corredor com uma trouxa na mão, seguranças o perseguiam. Algumas horas mais tarde o mesmo voltava, amparado por dois guardas. Estava com o rosto inchado e um dos olhos roxo. Ele ainda resistia, repetindo que só estava com fome, que não havia comida há mais de três dias. Fiz o que qualquer cristão faria, parei-os e disse:

            – Meu jovem, como pode estar faltando comida? O carrinho passa 4x por dia e até uns mimos acabamos recebendo, pois Fifi estava enjoada de sua ração e prontamente providenciaram carne para ela. Roubar e mentir são pecados, meu filho. Mas tome aqui, certamente você tem uma bíblia com você, anotei alguns salmos que podem lhe ajudar com o seu problema. E o que aconteceu com o seu rosto, em nome de Jesus?

            – Ele caiu. – um dos guardas respondeu prontamente.

            – Era de se esperar correndo dessa maneira. Vá em paz, meu filho e leia os salmos, farão bem para você!

            Afastei-me e os três seguiram seu caminho. Não fiquei tão confiante que o rapaz tenha me entendido, seu rosto parecia conter certa incredulidade. Uma pena! Pelo menos os dois guardas apreciaram o meu gesto, afinal estavam rindo quando partiram.

            Depois de tantos dias de viagem era quase certo que estaríamos chegando ao nosso destino, não fosse um pequeno atraso que tivemos. O trem ficou parado por dois dias, alegaram que havia sobrecarga, mas que já estavam regularizando a situação. Assim que voltamos a andar, perguntei a um dos seguranças como tinham resolvido o problema e ele me informou que tiveram que se livrar dos últimos vagões. Fiquei preocupada que com essa solução pudesse faltar comida, mas não, acabou vindo até mais.            

Talvez o que tenha acontecido posteriormente fora fruto da perda desses vagões. Quem pode saber? O certo é que nunca cheguei ao meu destino. O trem descarrilhou, sem motivo, sem aviso prévio, só aconteceu. Desceu por uma ribanceira e, enquanto o fazia, eu agarrei Fifi e me perguntava: “Aonde é que queríamos chegar mesmo?”.

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Pot Pourri pandêmico

Assim que o dia amanheceu”

Não houve luz ou calor

Trouxe incerteza,

Angustia

Preocupação e a doença

“Medo, que dá medo do medo que dá”

“Tá rebocado meu compadre

Como os donos do mundo piraram

Eles já são carrascos e vítimas

Do próprio mecanismo que criaram”

“Me deram uma gaiola como casa, amarraram minhas asas”

Que os rebeldes de boteco não levaram em consideração

Repetindo que:

“O tempo não para”, vamos “viver e não ter a vergonha de ser feliz”

Pois lhes digo,

para aqueles que chamam de covardes os ainda em reclusão

“você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui”

Sem me contaminar, preservando os meus e os seus

Essa, sim, é a verdadeira bravura, nesses tempos de vacilação

“Enquanto todo mundo espera a cura do mal”

Negacionistas e anti-vacinas seguem viajando

No “super fantástico, o balão mágico”

“Enquanto a loucura finge que isso tudo é normal

Eu finjo ter paciência”

Para os paranoicos o vírus continua

Nos seus livros, nos seus discos,

E onde você menos esperar

Ele estará”

Do you believe in magic?”

Os descrentes irão retrucar

Mesmo com hospitais que não param de gritar

(Help) I need somebody

(Help) not just anybody

(Help) you know I need someone

Help”

Os jovens não param o “Rock’n roll all night and party every day”

Com ninguém se preocupar

“O sangue anda solto”

Com mais de 400 mil mortes “ao descanso do patrão”

Que quando questionado sobre o problema, apenas diz:

“Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”

O governo seguindo no ritmo do “Tô nem aí, tô nem aí

Não vem falar dos seus problemas que eu não vou ouvir”

Faz com que famílias inteiras tenham “seus jardins da vida ressecados

Dos pés que plantaram Marias, nem Margaridas nasceram”

Enquanto o resto da população

“Permanece sem amor, sem luz, sem ar”

E os outros países, ao assistir esse show horrendo, se questionam:

“Que país é esse?”

Desculpe usar palavras repetidas,

Mas quais são as palavras que nunca são ditas?”

Compaixão

Humanidade

Reciprocidade

Empatia

Para você que é considerado “Maluco beleza”

Por ir contra a tudo que pelo planalto é anunciado

Eu deixo meu recado:

“É esse o vírus que eu sugiro que você contraia

Na procura pela cura da loucura

Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia”

Trechos de músicas utilizadas:

  • Oceano – Djavan
  • Miedo – Lenine e Julieta Venegas
  • As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor – Raul Seixas
  • A carta – Djavan
  • O tempo não para – Cazuza
  • Viver e não ter a vergonha de ser feliz – Gonzaguinha
  • A estrada – Cidade Negra
  • Paciência – Lenine
  • Super fantástico – Balão Mágico
  • Eu vou estar – Capital Inicial
  • Do you believe in Magic? – Lovin’ Spoonfull
  • Help – Beatles
  • Rock n’ roll all nite – Kiss
  • Que país é esse? – Legião Urbana
  • Caviar – Zeca Pagodinho
  • Tô nem aí – Luka
  • Flor de Liz – Djavan
  • Sem ar – D’Black
  • Quase sem querer – Legião Urbana
  • Maluco Beleza – Raul Seixas

Atribuição de Imagem

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E se ele falasse?

Alice estava incomodada, aquele não havia sido um dia fácil no trabalho, só queria ir para casa e tomar um longo banho, mas o ônibus demorava a chegar. Não havia cobertura onde esperava e as nuvens negras sobre sua cabeça anunciavam a tempestade que chegaria a qualquer momento. Estava sem guarda-chuva, que ótimo! Ela se sentou no banco do ponto e puxou o ar que entrou abafado por entre o tecido de sua máscara. No mesmo momento, um senhor que passava por ela soltou um espirro. Ele tentou abafá-lo com a mão, já que estava sem sua proteção, mas sem sucesso e um pouco constrangido, olhou para os lados e pediu desculpas. “De que adianta se desculpar agora, meu amigo? Seria mais educado de sua parte se estivesse usando a sua máscara.”, ela pensou, mas não disse nada, queria evitar confusão. Os primeiros pingos de chuva começaram a cair e Alice levantou instintivamente sua cabeça para observá-los. Percebeu pequeníssimos pontos verdes, milhares deles, vagando pelo ar entre as gotas. Alguns juntavam-se a elas e alcançavam o chão mais rápido, outros permaneciam flutuando. Ela tentou aproximar-se de um dos pontos para observá-lo melhor. Parecia um bicho, talvez um inseto? Não, era algo diferente. Algo o qual ela nunca havia visto antes. O que era aquilo? Havia coroa em suas pontas?

               – Mas que merda é essa? – Não conseguiu se conter, soltando em voz alta.

               – Somos corona, somos corona – Os pontos anunciaram em uníssono, em uma sinfonia sincronizada.

               Alice olhou para os lados, queria saber quem estava falando com ela, mas todos naquele ponto estavam concentrados em seus celulares, aparentemente a ignorando com louvor.

               – Somos corona, somos corona. – Escutou novamente.

               Seus olhos arregalaram-se ao perceber que a resposta vinha daqueles pequenos pontos flutuando no ar a sua frente. A surpresa logo passou a desespero quando se deu conta do que aquilo significava. Abriu sua bolsa, pegou um borrifador que carregava dentro dela e começou a espirrar álcool para todos os lados. Vários dos pontos sumiram instantaneamente, mas muitos outros ainda estavam ali. As pessoas a sua volta estranharam o seu comportamento e afastaram-se discretamente, balançando as cabeças em reprovação.

               – Que foi? Não estão vendo? Estão em todos os lugares! – ela gritou.

               – Não adianta, só você pode nos ver ou ouvir. Se continuar a agir assim só pensarão que é louca – um dos pontos comentou, aproximando-se da menina. Ela soltou um grito abafado de pavor e borrifou o álcool diretamente nele, mas nada aconteceu, ele continuou ali.

               – Que maluca! – um garoto ao seu lado com fones no ouvido, comentou.

               – Eu não lhe disse?! – o vírus falou com um certo “sarcasmo”.

               – Ele está certo! Eu realmente endoidei. Meu Deus, sou maluca e vou ficar doente! Eu vou morrer! – disse em desespero, sentando-se novamente.

               – Ah, para de drama! Não vou te infectar, não enquanto você mantiver seus “poderes”, pelo menos.

               – Poderes? Isso está mais para uma maldição. Quem é que ia querer falar com algo como você? Aliás, o que são vocês? Você é mesmo ele?

               – Conheço muita gente que morreria para falar conosco: médicos, cientistas, e a lista continua… Você deve estar em negação, eu entendo. É muito para processar! Todos reagem de maneira similar. Mas se nesta altura do campeonato ainda não sabe o que sou, só posso concluir que estava vivendo em uma caverna. Sim, somos o coronavírus, aquele que causa a Covid-19. Nossa colônia recém saiu daquele senhor ali. – Ele foi para frente como se apontasse para o homem que acabara de espirrar. – Estou aliviado de ter saído, estava muito apertado ali. Não sei como ele ainda está de pé, há muitos de nós naquele organismo.

               – Isso não é real, isso não é real, isso não é real… – Alice recitava para si mesma em um frenesi.

               – Se você quer perder seu tempo negando o que está acontecendo, fique à vontade. Só lhe aviso que esta é uma oferta com prazo de validade, logo não poderá mais nos ver ou ouvir, então, se eu fosse você, aproveitaria a oportunidade.

               Alice saiu do transe com o que ele falou. Por mais louco que aquilo parecesse, e com certeza era, ele tinha razão. Estávamos em uma guerra há quase um ano contra aquele pequeno ser, haveria melhor oportunidade para desvendar finalmente seus mistérios?

               – Por quê? – foi o que conseguiu dizer.

               – Por que o quê? Por que o céu é azul? Por que as jacas, mesmo sendo enormes e pontudas, crescem no alto e não rasteiras como as melancias? Você tem que ser mais específica.

               – Por que estão aqui? Por que vocês começaram a existir? O que fizemos de errado para que vocês aparecessem?

               – Não somos novos, talvez sejamos mais velhos do que vocês. Quem sabe?! Vocês modificam, todos os dias, o planeta em que vivem. Desmatam, colocam fogo, estinguem espécies, poluem, acham que tudo que está na natureza, animal, mineral ou vegetal, está lá somente para seu bel-prazer. Pensou que esse modo de vida não traria consequências? O que fizeram de errado? Você me pergunta. Acho mais fácil enumerar o que estão fazendo de certo. Por que estamos aqui? Vou lhe responder com uma pergunta: o que faria se te expulsassem de onde mora?

               – Teria que encontrar outro lugar.

               – Exatamente.

               Alice calou-se por um instante, processando o que acabara de ouvir.

               – Mas o que vocês pretendem nos atacando? Querem acabar com a humanidade? Vocês mataram mais de um milhão e meio de pessoas no mundo todo.

               – Nem que tivéssemos planejado isso, não nos daríamos ao trabalho, pois do jeito que as coisas vão indo, vocês mesmos terão sucesso nessa empreitada. Veja bem, há um grande risco também para a minha espécie quando habitamos um humano, afinal vocês têm alguns meios eficazes de nos combater. Seria uma batalha sem propósito! Não que alguma tenha algum sentindo, mas guerra é coisa de humanos, não temos interesse nisso. Sempre coexistimos muito bem com outros animais, sem lhes causar danos, mas como cada corpo reage a nós, isso está fora do nosso controle. O que posso dizer é que não fomos feitos para habitar o seu organismo, nem é o que mais gostamos, mas não tivemos escolha, nos obrigaram a migrar e as consequências disso não podem recair sobre nossas coroas.

               A lógica fez com que Alice se sentisse contrariada. Como podia uma coisa insignificante daquelas dizer que a culpa era dos humanos?

               – Não acredito que não queiram acabar conosco.

               – E se não for a gente que queira? A Terra é um ser vivo e, assim como o seu organismo reage a nossa presença tentando nos combater como ameaças, ela pode estar fazendo a mesma coisa. Além do mais, vocês não se orgulham em dizer que são os únicos seres racionais por aqui? Isso, em parte, é verdade.

O garoto que estava ao lado de Alice elevou a mão que apoiava no banco para cumprimentar o amigo que acabara de chegar ao ponto.

– Cara, ainda aqui? – o recém chegado perguntou.

– Os ônibus estão demorando, acho que é por causa da chuva.

Alice notou que as mãos dos dois meninos estavam cheias de pontos verdes e se exaltou quando o novato as levou instintivamente aos olhos para coçá-los, forçando vários dos pontos a entrarem em suas mucosas oculares.

– Não! Não faça isso! – gritou exasperada.

Os dois olharam surpresos para ela e o garoto que já esperava há algum tempo no ponto puxou o outro de lado.

– Não liga para essa dai não, ela é maluca! Não faz muito tempo, estava jogando álcool em todo mundo aqui. – O outro deu risada. Os dois viraram a cara para Alice, ignorando-a e continuaram a conversar.

– Bem, as vezes eu tenho minhas dúvidas sobre vocês serem seres pensantes – comentou o vírus depois da cena que Alice, horrorizada, acabara de presenciar – Mas sobre nós, estão certos, não temos o poder de planejar, só existimos.

– Certo… – Alice comentou balançando a cabeça, tentando não pensar no menino que acabara de ser infectado pelo outro. – Temos muitos remédios que funcionam contra vocês, como a Cloroquina e a Ivermectina – completou, não prestando muita atenção ao que dizia.

O vírus se remexeu no ar, exaltado. Alice poderia jurar que se ele pudesse gargalhar o estaria fazendo naquele exato momento.

– Você acabou de me deixar em uma crise existencial. Eu tinha certeza de ser um vírus, mas agora já não sei mais. Será que sou um protozoário? Um verme? Um inseto? Ou um ácaro?

Novamente Alice notou ironia na frase do vírus. Seria possível que aquele ser pudesse ser sarcástico? Bem, o possível era algo relativo naquele momento, afinal ela estava falando com ele, não estava?

– Mas o tempo de vocês aqui está contado! – respondeu irritada. – Estamos desenvolvendo várias vacinas.  

               – Ah, essas sim são eficazes. São como bombas, dificilmente irão nos erradicar, mas causam um estrago enorme! – O vírus parecia desanimado. – Mas temos um ponto ao nosso favor neste aspecto: vocês não acreditam muito nelas, assim como não acreditam na gente, não é mesmo?

               Alice bufou. Ele estava certo novamente, pois nos últimos anos havia uma crença crescente de que vacinas eram feitas para manipular os homens e não para prevenir doenças.

               – Seu tempo está acabando, tem mais alguma coisa que queira saber?

               – Não estou conseguindo pensar em nada agora. – Ela parou um segundo e depois se voltou para o pequeno ser: – Algum conselho que possa me dar?

               – Por que eu lhe daria algum conselho? Para mim e para os meus está ótimo assim! Continuem ignorando nossa existência, encontrando pessoas, fazendo festas. Quem é que não gosta de uma boa festa? Comemorem bastante! Haja como se não houvesse amanhã, quem sabe um dia vocês não acertam?

                 E lá estava a ironia novamente, Alice estava começando a se acostumar com isso.

               – Nosso tempo acabou. Você não vai lembrar de mim ou da nossa conversa. Acredite, será melhor assim! Já tentamos fazer de outra maneira, mas não deu muito certo, a grande maioria das pessoas que lembraram acabaram inventando teorias absurdas sobre nós e de nada adiantou a experiência. Com sorte o seu subconsciente irá gravar algumas informações úteis para você e é assim que deve ser.               

Alice piscou e quando abriu os olhos novamente não havia nada além das gotas de chuva. Não sabia ao certo porque procurava alguma coisa no ar, mas não conseguia afastar a estranha sensação de que algo estava lá. Surpreendeu-se com o borrifador em suas mãos, não lembrava de tê-lo pegado. Ah, finalmente o ônibus dela estava chegando. Fez sinal e esperou pacientemente na fila para embarcar no veículo. Olhou para os dois adolescentes que conversavam no ponto de ônibus e, por algum motivo, sentiu uma urgência extrema de passar álcool gel nas mãos.

O pior surdo

É tempo de escutar.

As palavras,

Os pensamentos,

As necessidades e os anseios alheios.

O ouvir é passageiro.

Qualquer um com uma boa audição consegue,

Mas o escutar,

Ah, o escutar,

Esse não!

Precisa de compreensão, exatidão, interpretação.

Pode ser uma aliteração, assonância, paronomásia ou mesmo uma onomatopeia,

Se ouvidas e não escutadas, não são mais do que meras palavras.

E talvez seja por isso mesmo que o mundo está assim.

Todos querem falar, argumentar e escrachar suas ideias,

Mas ninguém quer escutar.

Ninguém compreende,

Ninguém entende.

Como pode a raça humana evoluir se perde a capacidade de escutar?

Se seu próprio semelhante é incompreensível,

Que dirá discernir o planeta a clamar?

Dizem que o pior cego é aquele que não quer ver.

Do que podemos chamar, então, aquele que não quer escutar?

A seleção

Olá, pessoal! Como prometido, aí está o poema que eu me atrevi a escrever para apresentar no nosso encontro de escritores e leitores. Espero que gostem!!!

O vírus passa.

De mão em mão,

De coisa em mão,

De pessoa para pessoa.

Passa, de pessoa em mão.

Passa…

Isolamento se faz necessário.

Tempo de reflexão,

Solidão,

Planejamento ou simples espera?

Será regra?

Ou simples capricho de quem governa?

A economia não aguenta,

A vida anseia.

Mas mesmo com todas as adversidades que nos rodeiam,

De ministro em ministro,

Somos notícia negativa na mídia estrangeira.

E a economia? Será que com isso também não bambeia?

Não podemos parar!

Saiam as ruas! Não tenham medo.

Afinal temos um remédio milagroso.

A imunização de rebanho será nossa salvação!

Serão 2/3 da população infectados,

Dos quais, somente 1% serão descartados.

Mas, e daí?

Somente perecerão os mais debilitados.

Os fortes continuarão.

Isso não é seleção?

Natural.

Evolucionária.

Seria essa nossa soberania

ou pura e simples eugenia?

O dia em que a Terra parou

Talvez o momento que vivemos hoje seja propício para parafrasear Raul Seixas, provavelmente nem mesmo ele sabia que sua canção seria uma verdade tantos anos após sua criação. Estamos vivendo um momento histórico no mundo. De incertezas, inseguranças e divisão de opiniões, um tempo onde nações do planeta inteiro, não importando o tamanho de sua economia ou poder armamentista, estão se curvando ao invisível.
Como batalhar contra algo que nem, ao menos, podemos enxergar? Tomamos precauções e cuidados, mas nem sequer sabemos se, ainda assim, o inimigo estará à espreita, somente esperando o momento certo para nos atacar. Ah, e ele tem nos atacado! Mais de 530 mil feridos e 24 mil mortos. Diante de tamanho poder de fogo, lideranças do mundo inteiro se perguntam qual é o melhor caminho a se seguir. Várias ideias foram discutidas, mas o consenso comum entre os especialistas é que a melhor estratégia de contra-ataque seria o isolamento social. A Terra parou! Não por vontade, mas por necessidade.
Mesmo com todos os exemplos e provas que temos visto ao redor do globo sustentando que o isolamento é a melhor estratégia, ainda há pessoas que são contrárias à ideia. Com discursos de que o país não pode parar, de que a economia irá afundar e que a fome mata muito mais do que um vírus, estas pessoas imploram, com argumentos rasos, para que todos voltem às suas rotinas normais. Vamos imaginar o seguinte cenário: suponhamos que a partir de hoje, as crianças voltem a ter aulas e as pessoas a suas empresas e as ruas, ignorando a Covid-19 e tratando a doença como outra qualquer. O Corona é um vírus altamente contagioso, isso porque ele somente começa a dar os primeiros sintomas após 5 ou 6 dias do contágio, neste meio tempo, a pessoa infectada estará “saudável” provavelmente contaminando mais duas ou três pessoas em sua rotina habitual.  Então, sendo otimistas, podemos pensar que, sem cuidados, pelo menos metade da população do país iria contrair a doença. Somos mais de 200 milhões, isso seria 100 milhões de pessoas infectadas. “Ah, mas esse vírus só mata idosos, a maioria dessas pessoas não sentiria mais do que uma gripezinha”. É verdade que a grande maioria dos casos não são graves, porém estimasse que 1 a cada 10 infectados precisará ser hospitalizado, ou seja, nesta hipótese, seriam 10 milhões de pessoas. Nosso sistema de saúde, já tão precário, do qual sempre vemos notícias de pessoas sendo atendidas em corredores por falta de leitos mesmo sem pandemia, aguentaria esses números? A resposta é um alto e sonoro NÃO. Não conseguiríamos atender nem a 3% desse número ao mesmo tempo. Isso porque nem estamos contando as pessoas que iriam precisar de um tratamento intensivo com aparelhos, pois, neste caso, os números seriam ainda menores. “Ah, mas eu tenho plano de saúde!”. Que ótimo para você! Além de ser um pensamento um tanto quanto egoísta, ele de nada te ajudaria em uma situação de superlotação como esta, pois mesmo que você tenha o melhor convênio do mundo, você não seria atendido, simplesmente por não haver estrutura para isso. Infelizmente, a exceção a esta regra seria o próprio presidente e alguns outros nomes que insistem nessa ideia de que não há motivo para tudo isso, já que pelos seus cargos e dinheiro acabariam virando prioridade, tirando leitos de outras pessoas que, talvez, tivessem mais chances de sobreviver do que eles. Mas não se iluda, pois a maioria da população brasileira não teria o mesmo privilégio. Talvez seja por isso que o maior líder do país esteja tão despreocupado, ou quem sabe seja o seu porte atlético que o faça dormir tranquilo à noite. O fato é que, independente de você estar fora do grupo de risco ou ser atleta a vida toda, a doença pode se agravar e você pode precisar ser hospitalizado, a única diferença para outros grupos é que você teria mais chances de sobreviver, mas de qualquer forma estaria ocupando um leito de hospital. Seguindo esse mesmo cenário, a taxa de mortalidade da Covid-19 é de 1% dos infectados (dados mundiais, em São Paulo esta taxa está em 5%), é uma taxa baixa, de fato, mas 1% de 100 milhões é a bagatela de 1 milhão de vidas. É uma matemática bem lógica, até para mim que sou da área de humanas: quanto mais gente infectada, maior será o número de mortos. Se chegarmos a isso, não teremos onde colocar corpos, fato que já acontece em outros países com uma população muito menor e consequentemente com menos mortes. Nesse ponto, não seria mais só o sistema de saúde do país que estaria abalado e sim todas suas estruturas. A economia, que já está em crise (afinal somos um mundo globalizado e desde que o vírus estava somente na China as bolsas e o dólar vinham sofrendo com o seu impacto), despencaria. E o pior de tudo, seria um prejuízo local, pois, embora o mundo todo esteja passando pela mesma situação, a decisão de tratar a doença como outra qualquer e deixar com que ela se espalhasse como quisesse, provavelmente indo na contramão do resto do planeta, seria somente nossa. Para que saíssemos de tal situação, o isolamento seria obrigatório e não mais só necessário, levando mais tempo para acabar, já que o vírus estaria muito disseminado.
O estado de São Paulo adotou a política do isolamento social há quase duas semanas. As escolas foram as primeiras a fecharem e liberar seus alunos e corpo docente para reclusão domiciliar. Mas foi nesta semana que, efetivamente, o estado parou, já que os comércios também fecharam suas portas. Mas é claro que nem todos encerraram suas atividades. Médicos e profissionais da saúde, que atuam na linha de frente, ainda trabalham incansavelmente para conter o vírus e atender a população, assim como serviços essenciais, que foram autorizados a permanecerem abertos, atendendo a demanda da sociedade enclausurada. Porém, mesmo aqueles que não entraram nesta lista, deram o seu jeito para continuar com suas atividades enquanto seguem o protocolo de isolamento. Muitas empresas continuam atuando com o esquema de home office e aquelas que, por ventura, não conseguem liberar todos os seus funcionários para trabalhar em casa, estão fazendo rodízio entre os mesmos, dando férias, tudo para manter a quantidade de pessoas circulando nas ruas a menor possível. Restaurantes, bares e serviços em geral adotaram o sistema delivery para continuar vendendo sem que as pessoas precisem sair de casa. Tais medidas faz com o que o estado continue produzindo. Claro que há setores que estão sendo muito afetados com esta nova realidade, como é o caso de serviços de evento e cultura, afinal se não pode haver aglomerações, consequentemente suas atividades ficam fora de questão. Há empresas que, preocupadas com o futuro, reduziram seus quadros de funcionários antes que a crise afetasse seus bolsos. Microempresários e autônomos também sofrem as consequências, pois muitos deles, sem contar com uma reserva, dependem de suas rendas para ter um salário no final do mês. E sim, o governo tem a obrigação de pensar em um plano de ação para ajudar estas pessoas neste momento de reclusão. É certo que toda essa pandemia e os métodos que estão sendo adotados para contê-la estão e estarão trazendo consequências a curto, médio e longo prazo. A economia mundial sofreu e continua sofrendo um baque enorme. O desemprego em massa e a falência de empresas são realidades que podem vir a existir se isso perdurar, por isso muitos se apavoram com suas vidas financeiras em um futuro iminente.
Em ambos os casos perdemos. Podemos até ganhar a guerra contra o invisível, mas de qualquer maneira teremos grandes consequências e mais crises a enfrentar pela frente. Cabe a nós discernir qual é a melhor estratégia para o presente, deixando de lado convicções políticas, disputa de poder ou mesmo o egoísmo. Talvez nossos governantes não tenham essa capacidade de entender que a situação atual exige união, mesmo que estejamos afastados fisicamente, mas nós, como cidadãos do mundo, temos a capacidade de mostra-los que podemos ser diferentes. A situação econômica é algo preocupante e que já afeta o mundo todo. Pode levar anos até nos reergamos, contudo, quando esta pandemia acabar, se soubermos agir com discernimento e solidariedade, poderemos reverter estes danos juntos, afinal todos estarão na mesma situação, recomeçando do zero. Mas o mesmo não poderemos dizer das vidas que perderemos nesta guerra, porque estas, uma vez findas, não poderão retornar. Será que vale mesmo a pena arriscar?

Lugar de Mulher

                Estes dias deparei-me com uma polêmica que houve na cidade envolvendo uma exposição de fotografias sobre o universo feminino e a prefeitura. Alguns quadros do acervo foram retirados por ordem do prefeito por conter, segundo suas palavras, “manifestações político-partidárias”. As fotos em questão eram do movimento “Ele não”, protesto que ocorreu durante as eleições do ano passado e que foi organizado por pessoas, em sua maioria mulheres, que não concordavam com as ideias e opiniões de um, até então, candidato à presidência. O ato da prefeitura gerou uma discussão: aquilo era ou não uma censura?

                Deixando de lado toda a questão da violação de direitos que o caso envolve, pois o tema já foi bastante debatido, eu gostaria de chamar a atenção de vocês para outro assunto. Que toda manifestação é política, isso é fato, já que elas ocorrem quando um grupo vê seus direitos feridos e luta por eles. Mas dizer que o movimento “Ele não” era partidário? Será? Penso que a indignação daquelas que se manifestaram sempre foi contra as ideias retrógadas, machistas e misóginas proliferadas e não contra um candidato ou partido em específico. É lógico que o alvo acabou sendo o presidencial em questão, já que o mesmo era quem escrachava tais preceitos, porém acredito que a reação seria a mesma qualquer que fosse o candidato ou partido que apoiasse tais ideias.  A questão sempre foi ideológica e não partidária. Então, o ato de retirar da exposição justamente as fotos que retratam tal movimento não seria, além de censura, uma represália contra as mulheres? Se o conjunto de obras relatava o universo feminino, por que o mesmo não poderia conter fotos de mulheres lutando pelo seu direito de não serem inferiorizadas ou ridicularizadas? Ou o universo feminino somente se limita à gestação, beleza e sensibilidade!?  Será que não nos cabe este papel?

               Cada indivíduo inserido em uma sociedade sempre foi definido de acordo com a função que ele, em algum momento de sua vida, passaria a exercer dentro da mesma, e as mulheres não fogem à regra. Lá nos primórdios da humanidade, quando tudo ainda era mato, nossos ancestrais, os hominídeos, viviam por extinto, assim como os animais. Então basta observar grupos das mais variadas espécies para perceber que esta divisão de tarefas já era uma verdade dentro da nossa história. Depois de várias evoluções, o Homo passa a ser Sapiens e com o crescimento do cérebro vem também a noção de solidariedade própria da família. Os casais passam a ser mais estáveis e a cuidar junto dos filhos, que deixam de serem crias. O homem era nômade e vivia em grupos pequenos, sendo o sustento gerado da caça e coleta. Porém, ao contrário da crendice popular, a função de prover o alimento era trabalho de todos, independentemente do gênero. Apesar de os homens da época, comumente, caçarem, isso não significava que mulheres e crianças não pudessem participar. Além disso, a coleta, que era feita majoritariamente por mulheres, compunha 70% da alimentação daquele grupo. Por isso, a ideia de que era função do homem prover e das mulheres somente cuidar dos filhos ou procriar é tão errônea quanto dizer que a Terra é plana. Então, se os primeiros Sapiens já eram tão igualitários, como retrocedemos tanto nesta questão?

           Para responder esta pergunta teríamos que transcorrer por toda a parte sociológica da humanidade, o que nos demandaria muito tempo e conhecimento. Porém, é certo afirmar que a mulher foi subjugada e suprimida de seus direitos como ser pensante ao longo dos anos. Independente de no que recaia a “culpa”, seja ela política ou religiosa, o fato é que a figura feminina acaba tornando-se um alvo constante de perseguições por toda a história da humanidade. Com isso, sua imagem de companheira é deteriorada à mera posse de seu parceiro. Sua utilidade na sociedade passa a ser somente procriar e cuidar do lar, sem direito a opiniões ou desejos. A crença de que a mulher deve se por em seu devido lugar é passada de geração a geração, enraizada tão profundamente na sociedade que até mesmo as próprias mulheres compactuam deste pensamento. Isso acontece por anos a fio, até que as primeiras manifestações a favor do direito da mulher ao voto começam, balançando novamente as estruturas de toda a história.

                Então, lutar por seu direito de ir e vir, de poder pensar, manifestar, criar e ter seu próprio espaço, enfim, de ser tratada como um exemplar da espécie humana como igual faz tanto parte do universo feminino quanto a maternidade. Pensar o contrário seria ressaltar o que queremos tanto, com a nossa voz, acabar.

Qual o motivo?

              Ontem, antes de ir dormir, resolvi dar uma olhada nas notícias e acabei me deparando com uma reportagem sobre uma mulher que havia sido espancada por um homem em uma casa noturna aqui em São Paulo. O caso por si só já me chamou a atenção, porém, confesso que o fato de o mesmo ter ocorrido em um lugar que conheço e que já frequentei no passado, aguçou ainda mais minha curiosidade.  Li toda a matéria e nela a vítima reclamava, principalmente, da falta de assistência oferecida pela casa em tal situação. Eram por volta de quatro horas da manhã quando ela, os amigos e o namorado resolveram ir embora do local, porém, já na saída, a mulher lembrou-se que havia esquecido um casaco na mesa e voltou para buscá-lo, foi quando tudo aconteceu: outra frequentadora do lugar a puxou pelo cabelo e um homem a espancou até que ela perdesse a consciência. Não ficou claro o motivo da agressão, a vítima não sabia se havia esbarrado sem intenção em algum deles ou se acharam que ela queria roubar alguma coisa, já que estava procurando por seu casaco.

                Fiquei revoltada com a situação exposta e por isso caí na besteira de ler os comentários no post criado pela própria vítima em uma rede social. Foi aí que perdi o sono de vez. Então, fica a dica: nunca leia comentários se não quiser passar nervoso! Apesar da minha decepção, não serei injusta, afinal muitas pessoas se solidarizaram com a situação da menina proferindo palavras de apoio, justiça e dando conselhos do que ela deveria fazer sobre o assunto e, felizmente, posso dizer que estes tenham sido a maioria, então, ainda temos salvação! Mas é claro que, como sempre, lá também estavam comentários absurdos ridicularizando a situação ou usando a mesma como argumento para justificar a liberação do porte de armas; e ainda tinham aqueles que faziam com que a vítima se tornasse a culpada. Do meu ponto de vista, todos eles estão tão errados em tantos níveis que se eu debatesse sobre cada um destes argumentos provavelmente este texto viraria um livro. Então, por hora, vou focar somente na culpabilização da vítima. “Mas qual foi o motivo da agressão?”, “Alguma coisa aconteceu, essa história está muito mal contada!”, “Ela deve ter feito alguma coisa, ninguém apanha do nada!”, “Se tivesse em casa, isso não teria acontecido…”, estes, e outros comentários semelhantes, pipocavam no post.

                Fiquei me perguntando qual seria um bom motivo que justificasse uma pessoa espancar outra ao ponto de deixá-la inconsciente, com hematomas, um dente quebrado e um corte na boca que precisou de seis pontos? Mas não consegui pensar em nenhum argumento que, dentro daquela situação, tornasse aquele ato criminoso em algo aceitável. Claro que em situações extremas de ódio como a outra pessoa ter matado, estuprado ou sequestrado alguém que você ama, qualquer um seria passível de tal violência, porém, aparentemente, não foi o que ocorreu na casa noturna, já que somente a vítima saiu machucada. O que aconteceu ali foi um ato de covardia de uma pessoa que se considera superior e mais forte atacando alguém que ele julgue ser mais fraco. Então, que diferença faria se a vítima tivesse provocado ou mesmo pedido, literalmente, para apanhar? A reação do agressor seria menos horrenda se houvesse um motivo que a justificasse como um xingamento? A vítima realmente mereceria ter o rosto deformado dependendo do que tivesse feito ou falado a ele? Vejam que nem estou entrando no mérito do “machismo” aqui, apesar de o agressor ter sido um homem e ter batido em uma mulher sem motivo aparente, fazendo com que o ato, por si só, configure-se, sim, como tal. O que estou debatendo aqui é a necessidade das pessoas em justificar o ato do agressor. Do meu ponto de vista, mesmo que fosse uma briga entre mulheres, nada na situação descrita tornaria correta tal violência. Então para que preciso saber se a vítima xingou a mãe do agressor, esbarrou em seu braço ou mesmo roubou o seu cigarro favorito? Talvez tais justificativas sirvam para a justiça como atenuantes ou agravantes do crime cometido, mas, mesmo nesta situação, o ato não deixa de ser uma transgressão.

                A internet e, principalmente, as redes sociais abriram um espaço no mundo o qual antes não havia, dando voz a todos independente de suas opiniões, ideologias, crenças, modo de ver e levar a vida. E isso de uma forma geral é ótimo, mas sem empatia ou senso crítico, os argumentos acabam tornando-se somente agressões vazias e sem qualquer fundamento, mostrando o quanto nossa sociedade ainda é estereotipada e preconceituosa. Não justifique a violência e não ache que ela só acontece com determinados grupos e pessoas. Hoje a vítima pode ter sido esta moça, mas e se amanhã for você? Qual seria o motivo?

Ficção x Realidade

Neste último sábado (06/07/19) eu tive a honra de participar de uma conversa muito interessante que aconteceu no Espaço Novo Mundo da Livraria Nobel localizada em Guarulhos sobre ficção x realidade. Além de mim, ainda estavam presentes a escritora Rosana Dias Vitachi, autora da trilogia Espelho do Monge, a psicóloga Carla Alberici e a jornalista Fátima Gilioli.

O assunto do debate de sábado transcorreu por diversas vertentes, desde o processo de criação de uma obra de ficção e as características da pessoa que a elabora até a influência da leitura, deste gênero ou de outros, dentro da sociedade e quais os benefícios e influências que esse hábito pode gerar nos indivíduos. Na conversa, foram levantados pontos importantes que nos levaram a questionar algumas atitudes da sociedade moderna num geral, como, por exemplo, a diferença entre consumir a ficção áudio visual e a escrita e o porquê da leitura não ser uma prioridade na vida das pessoas. A abordagem psicológica foi de extrema importância para respondermos a essas e outras questões e entendermos todos os benefícios reais que a literatura fictícia consegue trazer a determinados indivíduos, entre eles: adquirir outro ponto de vista para lidar com os problemas do cotidiano, vivenciar novas experiências, ter um tempo para se desligar da agitação do dia a dia, desenvolver a empatia, o senso crítico, a concentração; entre tantos outros ganhos citados.

A ficção não é um conceito novo e nem um recurso distante da história da humanidade, muito pelo contrário, ela sempre foi utilizada como forma de levar os acontecimentos de uma determinada época ou região a todos os cantos do mundo. Os antigos trovadores e contadores de histórias nada mais eram do que “jornalistas” de uma era onde não havia internet, televisão ou mesmo rádio para propagar as notícias. Eles, por sua vez, utilizavam seus talentos e criatividades para trazer os fatos ocorridos em outros povoados por meio de cantos, poesias e contos; uma realidade recheada de fantasias de suas próprias imaginações para, assim, chamarem a atenção de seus públicos. Não só as informações foram camufladas dentro de contos fictícios ao longo da história da humanidade, mas também temas polêmicos, delicados ou mesmo proibidos. Até mesmo o livro mais vendido e reproduzido de todos os tempos, a Bíblia, utiliza-se de parábolas para levar aos leitores seus ensinamentos. Outro ponto importante que devemos destacar a cerca da ficção é o fato de que algumas de nossas maiores invenções só se tornaram reais porque alguém as imaginou quando as mesmas pareciam impossíveis de serem concretizadas. Fica a pergunta: ela é realmente algo ilusório que somente existe na cabeça de determinadas pessoas ou pensamentos além que talvez possam ter o poder de inspirar a criação? Por estes e outros motivos, dizer que o gênero está distante da realidade ou que somente serve para o entretenimento de quem o consome seria uma grande falácia.

Portanto, não se acanhe ao dizer que seu gênero preferido é a ficção, seja em que categoria estiver: fantástica, científica, moral, entre outras. Pois, de um jeito ou de outro, ela é essencial e sempre estará atrelada a nossa realidade.