O último trem

A plataforma apinhada de gente me causava inquietação. Também pudera! Era a última viagem do dia e sabe lá quando haveria outra. Ainda assim, era de se admirar que tivessem deixado tantos indivíduos suspeitos se misturarem às famílias de bem. Talvez tivessem perdendo o controle mesmo, o que era uma lástima! Um pouco de rédeas curtas nunca fez mal a ninguém. Mas com um povo tão desordeiro, seria mesmo difícil esperar qualquer ato de civilidade. Afinal, uma nação sem Deus no coração, não merece redenção. Já eram mais de onze horas e nenhum sinal de que íamos embarcar. A passarela cada vez mais cheia. Estava encantada com o vestido da mulher ao meu lado, certamente alta costura. Fiquei tentada em perguntar-lhe onde o havia comprado, mas logo percebi meu equívoco. As cores! As cores não estavam certas. Um tecido mais claro do que o tom de pele de alguém nunca era um bom sinal. Com certeza era uma imitação barata.

            – Ei, você! Seu vagão não é este.

            – Mas os últimos estão todos lotados e eu estou com uma criança de colo.

            – Sente no chão, vai pendurada, não me importa! Só saia daqui. E vá logo, antes que eu mude de ideia.

            A moça maltrapida se afastou do guarda, carregando seu filho em um dos braços enquanto, com o outro, arrastava uma mala pelo chão. E era por isso que nada funcionava. As pessoas só queriam coisas dadas, não faziam o mínimo para conquistá-las, depois reclamavam de suas sortes. Só porque estava com uma criança achava que merecia privilégios. Olhe o meu caso, não cheguei aonde cheguei dependendo dos outros ou de caridade, meu pai se esforçou muito para dar um nome à sua família. Que Deus o tenha! Embarquei e logo tomei meu lugar em uma cabine espaçosa e confortável. Sentei e Fifi rodou em meu colo por algumas vezes, até achar uma posição que lhe agradasse, logo dormiu. Segui viagem afanando seus pelos. Não era uma das melhores acomodações em que eu já estivera, porém era adequada para nós duas, o que de certo era um bônus, já que a viagem seria longa.

            Todos os dias eram praticamente iguais dentro do trem, eu passava a maior parte do meu tempo dentro da cabine sonhando em logo chegar ao destino prometido. De vez em quando passeava com Fifi por entre os vagões, mas nunca conseguimos ir até o final deles, em dado momento sempre havia um segurança que nos fazia retornar dizendo que mais ao fundo não era lugar onde damas devessem passear. Imaginei ser algum depósito, onde guardavam os mantimentos ou coisa parecida. Nunca mais vi a mulher com a criança, mas comprovei o que já pensava, pois em todos os vagões por onde passei as pessoas tinham seus lugares. As pessoas gostam mesmo é de falar e reclamar. Certa vez, eu estava saindo de minha cabine e quase fui atropelada por um jovenzinho que corria pelo corredor com uma trouxa na mão, seguranças o perseguiam. Algumas horas mais tarde o mesmo voltava, amparado por dois guardas. Estava com o rosto inchado e um dos olhos roxo. Ele ainda resistia, repetindo que só estava com fome, que não havia comida há mais de três dias. Fiz o que qualquer cristão faria, parei-os e disse:

            – Meu jovem, como pode estar faltando comida? O carrinho passa 4x por dia e até uns mimos acabamos recebendo, pois Fifi estava enjoada de sua ração e prontamente providenciaram carne para ela. Roubar e mentir são pecados, meu filho. Mas tome aqui, certamente você tem uma bíblia com você, anotei alguns salmos que podem lhe ajudar com o seu problema. E o que aconteceu com o seu rosto, em nome de Jesus?

            – Ele caiu. – um dos guardas respondeu prontamente.

            – Era de se esperar correndo dessa maneira. Vá em paz, meu filho e leia os salmos, farão bem para você!

            Afastei-me e os três seguiram seu caminho. Não fiquei tão confiante que o rapaz tenha me entendido, seu rosto parecia conter certa incredulidade. Uma pena! Pelo menos os dois guardas apreciaram o meu gesto, afinal estavam rindo quando partiram.

            Depois de tantos dias de viagem era quase certo que estaríamos chegando ao nosso destino, não fosse um pequeno atraso que tivemos. O trem ficou parado por dois dias, alegaram que havia sobrecarga, mas que já estavam regularizando a situação. Assim que voltamos a andar, perguntei a um dos seguranças como tinham resolvido o problema e ele me informou que tiveram que se livrar dos últimos vagões. Fiquei preocupada que com essa solução pudesse faltar comida, mas não, acabou vindo até mais.            

Talvez o que tenha acontecido posteriormente fora fruto da perda desses vagões. Quem pode saber? O certo é que nunca cheguei ao meu destino. O trem descarrilhou, sem motivo, sem aviso prévio, só aconteceu. Desceu por uma ribanceira e, enquanto o fazia, eu agarrei Fifi e me perguntava: “Aonde é que queríamos chegar mesmo?”.

Imagem atribuída: Estrada foto criado por tawatchai07 – br.freepik.com

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