Diário de um Cão – O intruso

Diário… para tudo! Eu já estava escrevendo sobre outro assunto, mas minha mãe aprontou uma essa semana, tão grande, que não tinha como eu deixar passar em branco esse absurdo. Alguém precisa interditar essa mulher! Sério. Eu quero viver em um lar, não em um canil.

                Eu já te contei que atualmente moramos somente eu e ela na casa atrás da porta, não é mesmo? E está ótimo assim! Eu achei que seria solitário ficarmos sozinhos, mas eu nem tenho tempo de sentir falta da minha irmã, da baixinha folgada (preciso ainda contar sobre ela) e dos meus avós porque eu estou sempre lá trabalhando. Minha mãe acertou nessa, porque só vi benefícios. Visito todos eles regularmente e tenho um lugar só meu, com as minhas coisas para voltar no final do dia e chamar de lar. Pois bem. Lá estávamos nós de bobeira no paraíso, ela vendo, como de costume, aquela caixa gigante que faz barulho de frente para o sofá e eu roendo meu brinquedo favorito, quando mamãe vira para mim e diz:

                – Vamos passear?

                Meu barrigão explodiu em êxtase. Eu amo passear! Mais do que lamber meu pipi ou carinho na barriga (tá, talvez nem tanto assim, porque carinho na barriga é muito bom, mas está quase lá). A emoção me fez abanar o rabo até rebolar a bunda (dignidade zero nesse momento, sei disso) e segui-la por toda a casa enquanto a mesma se arrumava para que pudéssemos sair. Assim, depois do que me pareceu uma eternidade (os humanos tem uma mania besta de colocar roupas toda hora e ainda por cima ficar trocando-as sem motivo), descemos pela caixa mágica e partimos para o nosso passeio na rua.

                A rua não é um dos meus lugares favoritos, porque, apesar de ter cheiros maravilhosos de outros cachorros, tem muito carro também, e, às vezes, eu me assusto com o barulho daqueles grandes que levam um monte de gente dentro. Mas, como “passeio dado não se olha os dentes”, o melhor mesmo era aproveitar a oportunidade. Eu puxei a mamãe, ansioso por cheirar a parede com xixi de outros caninos, um matinho promissor logo à frente e aquele cocô fresquinho que tinha na calçada. Porém, como sempre, ela me freava e pedia para eu acompanhá-la (esse defeito genético que faz com que os humanos andem sobre duas patas é um problema, deixa-os muito lerdos). Quando finalmente conseguimos ajustar o ritmo, veio correndo em nossa direção um cachorro pequeno com uma roupa marrom, completamente louco. Ele pulou em cima de mim e começou a me perseguir. Que abusado! Nem conhecia o cara e ele querendo que eu lhe desse toda aquela confiança. Eu tentei me esconder atrás da mamãe, ela saberia o que fazer com aquele baixinho folgado. Mas, para a minha surpresa, ela pediu para que eu ficasse quieto e perguntou ao abusado se ele estava perdido. Que inversão de valores era aquela a qual eu estava presenciando? Eu era quem estava em apuros naquela situação, não ele! Minha mãe resolveu me puxar para o lado oposto e, desta vez, era ela quem estava com pressa. Não ofereci muita resistência, pois, finalmente detectei algum senso nas ações da minha humana. Afinal, ela tinha percebido quem era a prioridade ali e estava me levando para longe do meliante para que continuássemos nossa caminhada sem mais interrupções. Só fui perceber tarde demais que, na verdade, aquele era o fim prematuro do nosso tão esperado passeio.

                A caixa mágica nos deixou na porta que dá para nossa casa e mamãe me colocou para dentro rapidamente, me trancou e sumiu. Não entendi nada! Ela me largou sozinho para fazer o que naquela pressa? Será que ela estava com dor de barriga? Mas, por mais estranho que possa parecer, humanos tem um lugar específico dentro de suas casas para fazer as necessidades, não precisam ir à rua para isso. Então, esperei e esperei, mas nada daquela mulher voltar. Rodei a casa inteira, brinquei com o meu brinquedo preferido, brinquei com o segundo preferido, dormi um pouco, acordei e nada da humana. Meu barrigão começou a contorcer em aflição. Será que ela tinha fugido com o baixinho folgado? Pior, ela voltou lá para defender a minha honra e a fera a tinha devorado? Eu estava prestes a uivar e avisar a todos sobre a tragédia que havia acontecido, quando escutei um barulho na porta: era a mamãe voltando. Fiquei extremamente feliz! Afinal, ela não estava morta. Rodei, pulei e cheirei todinhas suas roupas, só para me certificar que era mesmo ela. Senti o cheiro do baixinho folgado, mas não dei muita importância ao fato, porque em uma luta, nós sempre nos atracamos com o nosso adversário. Estava com um orgulho danado dessa minha mãe que tinha ido lá me defender com sua própria vida.

Ela se trocou e descemos novamente, desta vez para ir à casa da vovó. Eu já deveria ter desconfiado da perversidade dos atos da minha mãe quando senti o cheiro do outro cachorro no carro também. Por que o cheiro dele estaria ali? Porém, a traição só veio à tona mesmo quando vi o baixinho folgado ali, na casa da vovó. Qual era o problema com esses humanos os quais arranjei que não paravam de pegar cachorros por aí? Primeiro minha irmã, depois a baixinha substituta e agora aquele maluco. Será que eles acham que ganharão um prêmio por acumular animais? Os dias se passaram e o alucinado continuava conosco. Eles o mantiveram separado, mas isso não aliviou a situação, porque todo mundo só dava atenção para aquele cheirador de fuxicos alheios. Enquanto isso, eu podia aprontar a travessura que quisesse pela casa que ninguém se importava. Todos só queriam saber se o intruso estava bem, se precisava de algo, se estava confortável, tentavam conquistar o coração daquele aproveitador de famílias. Ele era um fingido. Perto dos humanos se mostrava receoso, um coitado, mas, eu sabia que ele era um intrometido, isso sim. Meu temor de ele permanecer conosco só aumentava e chegou ao ápice quando escutei minha mãe dizer que se não achassem a sua família, ele iria para a casa atrás da porta com a gente. Blasfêmia! Eu precisava impedir aquele absurdo! Nosso lar era sagrado. Como que ela queria colocar um intruso dentro dele? Fiquei furioso com a minha mãe. Passei o tempo todo virando a cara para ela e mordendo suas pernas, só para que aprendesse a lição. Até que um dia, as coisas mudaram. Assim que chegamos ao trabalho, mamãe foi ver o meliante, como já tinha virado costume, mas, naquele dia, parecia que havia uma despedida no ar. Quase perto da hora do almoço, enquanto eu fazia minha fisioterapia, o maluco fugiu de onde a mamãe o tinha prendido e entrou na casa como se fosse sua. Eu fiquei louco querendo levantar, mas a moça de jaleco branco não deixou. E, como eu já suspeitava, a minha irmã e a baixinha substituta tampouco prestaram para alguma coisa. Ao invés de protegerem nosso território, ficaram pedindo colo para a mamãe, com medo do ser abusado. Com isso, ele conseguiu fazer a festa. Mas não deixei barato, porque, assim que terminei meu tratamento, mostrei para ele quem é que mandava ali da melhor maneira que sei: latindo em seu ouvido incessantemente. Afinal, alguém tinha que parar aquele absurdo. Meus pedidos foram atendidos, quando, pouco tempo depois da invasão, apareceu no portão um moço que agradeceu a mamãe por ter achado o baixinho intrometido e levou-o embora. Hoje, com o barrigão mais calmo, eu até penso que o cachorro talvez não fosse assim tão ruim, afinal, eu lati sem parar em seu ouvido e ele nem revidou. Mas, mesmo assim, estou aliviado com sua partida. Ele e o menino pareciam se gostar muito! Então, acabou sendo a melhor solução para todos os envolvidos. Esse tal de Francisco é gente boa mesmo! Toda vez que pedimos, ele aparece enrolado em seu lençol marrom para nos salvar. Acho que vou começar a pedir para ele tirar da cabeça da mamãe essa ideia fixa de transformar nossa casa em um canil. Assim eu vou conseguir paz para o meu barrigão.

O intruso

4 comentários em “Diário de um Cão – O intruso”

  1. Ai Faísca, você é um cão de muita sorte. Sua mãe é um ser humano de muita luz. Fica preocupado não. Você sabe que ela tem um coração enorme e que seu espaço nele está mais do que reservado. E que São Francisco possa ajudar você nas suas angustias e também aos seus amigos perdidos.

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