Ela e Ele – O pedido

Ela estava com frio e, por mais que tentasse, não conseguia fazer com que seus dentes parassem de ranger. Não obstante, um tremor percorria pelo seu corpo toda vez que um vento soprava mais forte. Nunca gostou do inverno, mas tinha que admitir que aquela viagem estava revelando-se, até ali, uma das melhores que já fizera.  Não sabia quanto tempo mais aguentaria esperar naquelas condições, já não sentia mais nenhuma das extremidades, fossem elas das mãos ou dos pés, porém, ele tinha pedido para que ficasse ali e, por mais que tivesse achado tudo aquilo muito estranho, ela obedeceu.

Ele, nervoso, ajeitava as velas. Já tinha conferido mais de mil vezes se as letras estavam na ordem correta, pois queria que tudo estivesse perfeito. O vento, o qual dificultava, e muito, a sua missão de deixar as chamas trepidando vivas, não estava em seus planos, mas com a ajuda do pessoal do hotel conseguiu organizar tudo dentro do seu agrado. Olhou o cenário uma última vez. O fogo em contraste com o chão branco coberto de neve produzia um efeito lindo. Ele nunca fora dado a atos de romantismo e se, em um passado distante, lhe falassem que estaria ali agora planejando aquela ocasião de tal maneira, ele simplesmente riria e diria “jamais”. Mas a beleza da vida sempre fora, justamente, o fato de nada ser constante. Respirou fundo, munindo-se de coragem. Estava na hora de buscá-la.

Ela o avistou ao longe. Pensou em lhe passar um sermão por tê-la deixado esperando por tanto tempo naquele frio, mas, quando o mesmo se aproximou, mal conseguia esconder o sorriso em seu rosto, e sua felicidade a contagiou. Ela corria de mãos dadas com ele a guiando para dentro da floresta novamente. O final de tarde já se fazia presente, o que será que ele estava aprontando desta vez? Por toda aquela viagem seu parceiro havia se comportado de uma forma estranha, estava agitado e ansioso, nem parecia o mesmo, com certeza, tinha algo em sua mente.

Ele não via a hora de mostrar a ela sua surpresa. Afinal, por mais que todas suas esperanças estivessem em uma resposta afirmativa, não fazia ideia do ela acharia daquilo. A incerteza bateu em seu coração, olhou para trás e encontrou com o olhar de sua amada, isso fez com que, imediatamente, todas suas dúvidas se dissipassem. Acelerou o passo, arrastando a moça consigo, não aguentando mais esperar. Assim que viu as chamas na clareira entre as árvores, parou, curvou-se sobre os joelhos e respirou, soltando um longo sorriso.

Ela não acreditava no que estava diante de seus olhos, milhares de velas dispostas no chão branco salpicado de neve iluminavam o ambiente com suas chamas, formando a mais clássica das perguntas: “Casa comigo?”. Ela olhou para o lado com olhos marejados em lágrimas; ele estava sobre um dos joelhos segurando, em sua direção, uma caixinha vermelha a qual continha um anel de brilhantes. A emoção do momento fez com que ela não conseguisse pronunciar uma única palavra, então acenou afirmativamente com a cabeça, sorrindo. Ele levantou-se pegou em sua mão trêmula, colocando o anel em seu dedo.

Eles entrelaçaram seus corpos em um abraço apertado e depois beijaram-se. Talvez aquele fosse o mais profundo elo já trocado entre os dois até então, pois naquele instante em um dia qualquer de inverno, haviam decidido que compartilhariam a vida juntos.

Mini-história: Conversa entre homens

Helder seguia devagar até o lugar onde achava que poderia encontrar Matheus. Já estava escurecendo, porém isso não o atrasava. Se aquela viagem tinha lhe ensinado algo, era que ele estava familiarizado com a geografia do lugar. O fato de ter sido tão fácil chegarem até a nave sem John para guiá-los, o assustava, pois aquilo era um sinal claro de que já estavam vivendo naquele planeta tempo suficiente para se acostumarem com o ambiente. Tudo bem que haviam se perdido inúmeras vezes e estavam muito além do cronograma inicialmente estipulado, porém, na noite anterior a sua partida, Helder quase desistira da empreitada com receio de estar arriscando a sua vida e a de seus amigos em uma jornada que poderia guiá-los a um caminho sem volta, então, do seu ponto de vista, se comparado com a alternativa, haviam se saído muito bem. No final das contas, saber que eram capazes de se virarem sozinhos, talvez tivesse sido o único proveito de toda aquela caminhada, já que não haviam conseguido encontrar nada de útil dentro da espaçonave para ajudar Adeline.

O céu passou do cinza avermelhado ao breu sem estrelas em um piscar de olhos, fazendo com que Helder dependesse ainda mais da tocha que trazia consigo. Pegou-se pensando no beijo novamente; ainda conseguia sentir os lábios quentes de Iris contra os seus. Deixou escapar um pequeno sorriso de contentamento. Talvez se ele não tivesse aparecido naquele momento, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente. Não! Não poderia iludir-se, pois mesmo que tivesse se deixado levar pelo momento, sempre soube, no fundo, que ela não corresponderia a sua investida, pois seu coração estava em outro lugar. E a reação de Iris ao flagrante só confirmou suas suspeitas. Agora, lá estava ele, indo atrás daquele por quem ela verdadeiramente nutria algo. Não precisou andar muito para que avistasse entre os rochedos a silhueta do homem que procurava e, assim que se aproximou, sentou-se, deixando uma distância confortável entre os dois. Matheus, sempre alerta, desta vez nem percebera a presença de Helder, tão mergulhado que estava em seus próprios pensamentos.

– A noite está estranhamente calma hoje! – Helder comentou despreocupado. Ele percebeu o corpo de Matheus contrair-se com o susto e logo em seguida, relaxar. Esperou por uma resposta, mas ela não veio. Então despretensioso, continuou: – Você tem um jeito incomum de demonstrar seus sentimentos…

Matheus virou-se e, emburrado, o encarou:

– O que acabou de dizer deveria significar algo?

– Claro que não! A não ser que sinta algo por ela… – Helder disse, sem desviar o olhar do desenho que fazia com os dedos na areia vermelha aos seus pés. Matheus arregalou os olhos por um momento, mas logo se recompôs e bufou.

– O que veio fazer aqui?

– Não é óbvio? Vim buscá-lo – o médico respondeu calmamente. Matheus soltou um sorriso de desdém e levantou-se, postando-se em frente a Helder.

– Não preciso de sua ajuda, sei muito bem me virar sozinho! Não deveria ter deixado as duas, é perigoso! Mas não espero que você entenda isso.

Helder finalmente levantou a cabeça, encarando o outro pela primeira vez desde que chegou.

– Não fui eu quem saiu a esmo por ai.

– Não saí a esmo, estou patrulhando! Alguém tem que fazer, já que outros, claramente, preferem se divertir – Matheus respondeu irritado. Helder sorriu provocativo.

– Então não te afetou em nada o que viu? Confesso que, para mim, é bom saber!

Uma sombra de fúria passou pelos olhos de Matheus e ele lançou suas palavras em um furor cortante:

– Eu não tenho nada a ver com o romance de vocês! – Engoliu em seco e depois, desviou o olhar. – Só acho que deveriam ser mais prudentes, aqui não é hora e nem lugar! – Voltou o olhar novamente para Helder. – Especialmente você! Afinal, foi quem acabou nos trazendo para esta jornada inútil! Não está contente em só perder Adeline? Porque, com certeza, ela não irá sobreviver! E ainda quer arriscar a vida de outros?

Pela primeira vez naquela conversa, Helder se descompôs. Levantou-se em um átimo, aproximando-se de Matheus. As chamas das tochas iluminavam as feições raivosas e o ressentimento estampado nas faces dos dois homens que se encaravam a poucos centímetros um do outro.

– Chega! Entendo que esteja frustrado, porém, não vou deixar que desconte em mim sua raiva, só porque eu tive a coragem de ser sincero com os meus sentimentos e fazer o que você não fez.

– Você não sabe do que está falando!

Helder respirou fundo, acalmando-se.

– Não planejei, simplesmente aconteceu! Mas mesmo que o fizesse, não há lugar e nem hora certa para nada. – Ele suspirou ressentido. – E pensar que, justamente você o qual não sabe aproveitar, tem a oportunidade. – Matheus olhou confuso para ele, mas Helder não se importou em fazer-se entender. – Talvez, antes de pararmos aqui, você nunca tenha sentido uma perda tão significativa em sua vida a ponto de lhe fazer questionar algumas atitudes. Mesmo assim, depois de tudo que passamos, não acredito que ainda não tenha aprendido nada com isso.

Helder olhou para Matheus e logo se arrependeu de suas palavras. Nos olhos do amigo havia uma sombra de tristeza profunda, a mesma que, nos hospitais, via nos olhares dos familiares aos quais contava que o pior havia acontecido com um paciente.

– Vou voltar. Não deveria ficar aqui sozinho, pode haver espectros – Helder anunciou.

Matheus apenas assentiu e sem dizer nada, seguiu os passos de Helder pelo deserto vermelho. Os dois eram habilidosos e mesmo com a pouca luz que tinham, não demoraram a chegar ao destino. Antes de se aproximarem da gruta, Matheus parou e pigarreou, chamando a atenção de Helder e quebrando o silêncio que mantiveram por todo o trajeto.

– Quer dizer que eu ainda tenho alguma chance? – ele perguntou em um sussurro inseguro. Helder sorriu, tal atitude resignada não combinava com o homem a sua frente.

– Isso não sou eu quem deve lhe responder – Helder disse, seguindo caminho e encerrando o assunto.

Pré-venda Entre Dois Mundos

Informações sobre a pré-venda do livro Entre Dois Mundos:

1 – O livro está custando R$ 50,00 e comprando agora você levará de presente uma xícara exclusiva da trama;
2 – Para comprar deixe um e-mail no comentário deste post que entraremos em contato e passaremos informações complementares como forma de pagamento, entre outras. Se preferir, entre em contato conosco mandando uma mensagem em nossas redes sociais: Facebook ou Instagram;
3 – Todos os livros e brindes serão entregues no dia do lançamento da obra;
4 – Como o livro ainda está na gráfica, a data do evento acima citado somente será definido com precisão após a impressão completa da obra e o recebimento da mesma. Calculamos que o lançamento ocorrerá entre meados de Outubro, começo de Novembro, porém, não se preocupem, pois os manteremos informados de todo o processo em nossas redes sociais;
5 – Assim que identificado o pagamento, o comprador receberá um cupom para que este seja trocado pelo seu exemplar do livro e o brinde no dia do evento;
6 – Um cupom é válido para a quantidade total de produtos adquiridos e o mesmo é intransferível, sendo somente autorizado ao comprador a retirada do livro no dia do lançamento;
7 – Cada livro comprado na pré-venda tem direito a uma xícara, portanto se o comprador adquirir mais de um exemplar automaticamente ganhará mais de um brinde;
8 – Não reservamos livros sem pagamento;
9 – Temos um número limitado de livros para a pré-venda;
10 – A pré-venda será mantida até um dia antes do lançamento ou até que os estoques acabem;
11 – Estamos dando preferência ao pagamento via depósito direto em conta bancária e para a entrega no dia do lançamento, porém, se houver interesse em adquirir a obra nesse período e, por algum motivo, necessitar de outra forma de pagamento ou não poder comparecer no dia do evento, mande uma mensagem para nós no privado que ficaremos felizes em verificar outras alternativas para você.

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De repente pai

Paulo estava em frente ao espelho tentando acertar o nó da gravata, enquanto ensaiava o que iria falar na reunião da empresa daquela manhã. “Droga! Isso ainda não está bom e eu já estou atrasado.”, resmungou. Quando finalmente se deu por satisfeito, pegou sua maleta e assim que alcançou a porta, escutou a campainha.

– Sr. Paulo Mendes? Sou Bete da assistência social. Tem um minuto? – a moça de meia idade e óculos parada em sua porta anunciou sem muita delonga.

– Na verdade eu estava agora mesmo…

–Você conhece a Aline Dantas? – a mulher interrompeu-o.

– Sim, é a minha ex. Algum problema com ela? – Paulo respondeu incerto.

– O senhor não deve saber, mas a Srta. Aline faleceu em um acidente de carro há algumas semanas e ela deixou instruções específicas para que a guarda de sua filha fosse dadaao pai, Paulo Mendes.

Paulo olhou atônito para a mulher a sua frente, o ar, de repente, faltando em seu pulmão. Ele largou a maleta no chão e afrouxou o nó da gravata.

– Deve haver algum engano! Eu não tenho notícias de Aline há mais de um ano e… Meu Deus! Aline está morta? – A mulher continuou a encará-lo sem se abalar. – Mas eu não posso ser o pai! Eu nem sabia que ela estava grávida e…

A mulher deu alguns passos para o lado e abriu espaço a um rapaz o qual trazia no colo uma linda criança vestida em um body rosa com uma tiara de laço na cabeça. A pequena menina sorriu para Paulo, abrindo e fechando as mãozinhas em sua direção.

– Sei que é muita informação para processar. Podemos entrar e conversar um pouco a respeito?

Paulo acenou mecanicamente com a cabeça, ainda encarando a pequena nos braços do rapaz. Abriu espaço para que os dois estranhos entrassem.

Lá estava ele sentado no sofá, encarando o pequeno bebê deitado na cadeirinha ao seu lado. “Onde estava com a cabeça quando aceitou que a menina ficasse em sua casa até as coisas se resolverem? Mal sabia dar nó em gravata, quanto mais cuidar de uma criança!”, pensou. A pequena esticou o braço e pegou o dedo de Paulo, balançando-o e rindo. Ele sorriu de volta e respirou fundo. Não poderia simplesmente largar a menina em um abrigo qualquer e, de qualquer forma, seria por pouco tempo, os avós já estavam atrás das papeladas para conseguir a guarda da criança.

– Ei! Seu nome é Bianca, não? Acho que vamos passar algum tempo juntos – ele disse sacudindo o dedo que a menina ainda segurava e a mesma sorriu.

Sentia-se mais animado, afinal, o quão difícil poderia ser cuidar de um bebê por algumas poucas semanas? Era só alimentar, trocar fralda, dar banho e colocar para dormir, não é mesmo? Uma pequena mudança em sua rotina não seria o fim do mundo.

Quem inventou os bebês definitivamente estava pensando na extinção da raça humana quando o fez, porque nenhuma pessoa, em sã consciência, iria querer outro depois de passar por tal experiência. Aquele ser era uma máquina de choro e fraldas sujas! Paulo estava exausto. Não dormia mais, seu desempenho no trabalho estava péssimo e sua vida social tinha sido reduzida a nada; tudo isso em apenas DUAS semanas! O poder destrutivo daquela miniatura de gente era impressionante. Ele não entendia como sua vizinha conseguia achar que Bianca era uma criança boazinha e adorável. Com certeza, a pequena meliante comportava-se enquanto estava sob os cuidados da moça e guardava toda sua energia e reclamações para quando Paulo chegasse em casa. Tudo devidamente orquestrado a fim de transformar sua vida em um inferno! Todos os dias, ligava desesperado para a assistente social a fim de saber como andavam os tramites da guarda de Bianca e sempre recebia a mesma resposta inconclusiva sobre o assunto.

As semanas viraram meses. Paulo agora entendia o que cada choro de Bianca significava: hora de comer, trocar a fralda, gases e só manha. Já sabia do que a menina gostava e do que desgostava. E conforme o tempo passava, menos trabalho a criança dava. Aprendeu a fazer papinha de bebê, a cantar para ela enquanto a ninava, a escolher as roupas certas para cada ocasião e temperatura. Encheu-se de orgulho quando viu que ela conseguia identificar formas geométricas, cores e tantas outras coisas mais. Parou de ligar tão constantemente para a assistente social, pois, de uma hora para outra, seu coração apertava toda vez que pensava em ter que deixar a pequena criança.

Paulo assistia, como agora era de costume, seus desenhos favoritos de infância com Bianca, e fazia questão de salientar à menina o porquê de os mesmos serem tão especiais e instrutivos;quando a menina começou a resmungar.

– Pa-pa, pa-pa… – ela disse enquanto esticava os braços para pedir colo.

– Do que foi que me chamou? – Paulo perguntou emocionado.

– Pa-pa, pa-pa… – a menina continuou. Paulo, emocionado, sorriu e puxou Bianca para os braços, onde a mesma aconchegou-se.

Na manhã seguinte, ele ligou para o escritório avisando que não iria trabalhar, já que cuidaria, com urgência, de alguns assuntos pessoais, pois, na noite anterior,havia se tornado pai.

Série Profissões: O lixeiro

Aquela era a parte da noite de que Murilo mais gostava. O vento frio batia em seu rosto enquanto, com um dos braços estendidos, dependurava-se na lateral do caminhão. O rapaz aproveitava aquele breve momentodo trajeto de volta àgaragem para pensar sobre a vida e renovar suas energias.

– Será que ainda tem café na salinha? – Murilo questionou enquanto guardava seu uniforme dentro do armário.

– Está louco, cara? Já é quase meia-noite! Não recomendo o consumo de cafeína nesse horário… – Jorge respondeu irônico e Murilo riu. –Estou tão cansado que não vejo a hora de chegar em casa e despencar na cama! – ele completou, colocando a mochila nas costas.

–Nem reparei que já era tão tarde! Ainda vou estudar, semana de provas…

– Um de nós tem que virar doutor, não é mesmo? – Jorge comentou batendo no ombro do amigo. – Boa noite de estudos, Murilão! Até amanhã. – Murilo acenou para o colega e Jorge retirou-se, rindo.

Murilo vivia com sua mãe e os irmãos em uma pequena casa na periferia da cidade. Logo que chegou, percebeu que haviam lhe deixado um prato de comida em cima da mesa da cozinha. Isso era ótimo! Estava faminto e a noite seria longa. Já estava acostumado a revezar seu tempo entre os estudos, o trabalho e os afazes domésticos, desde sempre fora assim.Era o filho mais velho de uma mãe solteira e por isso acompanhou de perto o sacrifício que a mesma fizera para que ele e todos seus irmãos tivessem o mínimo de oportunidades na vida.Desde pequeno fora um jovem ativo e de muitas ambições. Carregava as sacolas de compra das senhoras até suas casas, ajudava o dono da mercearia da esquina, dava aulas particulares para seus amigos, cuidava dos filhos de quem não tinha com quem deixa-los. Todos na vizinhança conheciam Murilo e sua disposição para ajudar e colocar a mão na massa. Se o trabalho era honesto, já sabiam que poderiam contar com seus serviços, ainda mais se isso lhe rendesse uns troquinhos. Mas, o que os outros poderiam ver como uma vida penosa para ele era, simplesmente, sua vida e a adorava. Sempre se sentiu capaz de fazer qualquer coisa e nunca deixou que nada, nem ninguém, lhe dissessem o contrário. Queria o que a maioria das pessoas quer: uma família, uma carreira, conhecer o mundo. E com isso em mente, na época do vestibular, passou noites em claro estudando e seu esforço valeu a pena, pois conseguiu entrar em uma das melhores faculdades de Direito do estado. Agora, só precisaria de um emprego fixo com o qual pudesse pagar as mensalidades.

Trabalhava na empresa de coleta de lixo há quase três anos e,apesar de todos os comentários pejorativos que já escutara ao longo do tempo sobre sua profissão edos preconceitos que sofrera com piadinhas e apelidos criados pelos colegas mais abastados de sua classe, tinha orgulho do que fazia. Era certo que estava lá por um objetivo, porém, mesmo que não fosse o caso, ainda assim pensaria da mesma forma. Além de trabalhar ao lado de pessoas muito boas, no fundo, achava digna de respeito a essência de sua tarefa. Afinal, se não houvesse ele e todos seus outros colegas de profissão, o que seria de todo o lixo do planeta?

E depois de muito andar na traseira do caminhão, competir com seus amigos quem coletava mais rápido ou ganhava mais caixinhas nas datas comemorativas, rir com seus colegas de alguns acidentes ocorridos no percurso e de coisas inusitadas que encontravam no lixo dos outros, e ainda, contar moedas para o café, o lanche, o ônibus, os materiais do curso e um poucomais café; finalmente Murilo se formou.

– Ei, Murilo, o que está fazendo? – Roberto perguntou impaciente, enquanto assistia o colega, em frente ao fórum, recolher do chão uma latinha de refrigerante que uma adolescente jogara e colocá-la em uma lixeira. – Pare de enrolar! O juiz só nos deu poucos minutos de intervalo. Virou lixeiro agora?

Murilo olhou para o rapaz e sorriu.

– Sempre fui!

O menino que escrevia

Está é a história de Carlos, um menino que desde pequeno sempre deixou com que sua imaginação o levasse aonde ela quisesse. Adorava quando chegavam as férias escolares e ele ia passar o mês inteiro na fazenda de seus avós, afinal aquelas viagens ao interior eram sempre sinônimo de aventuras. Enfrentava piratas, conhecia sereias, desbravava os sete mares; tudo isso no riacho que cortava as fronteiras da propriedade. À noite ia deitar contando à sua avó todos os desertos que atravessou, as batalhas as quais enfrentou, as pessoas que conheceu, as princesas as quais salvou, as criaturas mágicas que ajudou; tudo isso feito em um dia e nas dependências da fazenda. Logo que aprendeu a ler e escrever, descobriu que poderia desbravar ainda mais aventuras e sem precisar sair do lugar. Escrevia pequenas histórias com sua letra garranchada de criança e escondia bilhetes secretos por toda a casa, a fim de que alguém, no futuro, descobrisse o tesouro encantado. Muitos o achavam um menino estranho e sozinho, porém Carlos nunca se sentira assim.

Assim que virou adolescente, as aventuras no interior ficaram sem graça, mas sua imaginação não perdeu a força, só acabara mudando de foco. Agora passava horas inventando histórias românticas com meninas; ah, como elas eram adoráveis! Sonhava com sua vizinha, encantava-se com as moças bonitas que sempre passeavam no shopping, apaixonou-se por sua professora de inglês. Começou a escrever poemas e de vez em quando os entregava a suas amadas, nem sempre dava certo, mas na grande maioria das vezes acabava conseguindo um elogio ou mesmo um sorriso. Era motivo de chacota para algumas meninas e para muitos dos garotos de seu colégio, porém não se importava, pois era de escrever que gostava.  Interessou-se por literatura e, ainda que tivesse pouca idade, já havia lido mais livros que grande parte de seus amigos.Certo dia conheceu uma garota, escreveu todos seus sentimentos no papel em forma de versos e entregou-os a dona de seu coração. Foi a melhor obra prima que fizera, para a pessoa que, até então, era a mais especial que passara por sua vida.

Formou-se, entrou na faculdade, estudou muito, começou a trabalhar e formou-se novamente.Passava os dias em uma sala fechada, de frente para um computador e quase não via a luz do sol. Por isso nunca deixara de escrever, mesmo que agora tivesse menos tempo, afinal era do que precisava para libertar sua alma. Dissertava sobre os problemas do mundo, do país, da cidade, de sua comunidade. Entrou em grupos de debate, voluntariou-se como tradutor na faculdade, aprendeu a ler mesmo com o sacolejo dos trens embaçando sua visão. Conheceu outra garota, afinalnunca se cansou delas! Casou-se, teve uma filha, perdeu o emprego no escritório. Começou a fazer uma coisa aqui outra ali para sustentar a família e, entre um bico e outro, encontrou sua vocação. Iniciou seu primeiro livro, demorou mais do que esperava para terminá-lo, mas finalmente o original ficou pronto. Todos diziam que aquilo era loucura, que procurasse um emprego de verdade. Entretanto, Carlos não deu ouvidos aos maus presságios e buscou até a exaustão uma editora, houve um momento em que quase desistiu, mas finalmente seus esforços foram recompensados e conseguiu, publicou sua obra.

Você pode nunca ter ouvido falar de Carlos e certamente muitos não o conhecem pessoalmente, realmente não há nada de especial com ele e sua vida pode ser comparada à de muita gente, porém suas histórias viraram sucesso por onde passaram e ficarão eternizadas, assim como sempre sonhara.Então este é um convite para todos os Carlos, Albertos, Jéssicas, Mônicas, Daianes, Eduardos, Henriques e quem mais for, para que nunca esqueçam dos seus sonhos e daquilo que faz sua alma vibrar, pois é só acreditando que chegamos à algum lugar.

Azar no ar

Muitos consideram a sexta-feira treze um dia de azar. E você, também é um deles? Antes de acreditar na superstição, já se perguntou quantas vezes, efetivamente, houve má sorte em seu caminho neste dia? Inúmeras pessoas acreditam na crença, porém poucos conhecem sua origem.

Ao citar a data, logo vem a mente um cara com máscara de hóquei e uma motosserra na mão, não é mesmo? E não é para menos! Afinal, a franquia do filme que virou um dos ícones de terror é extensa, contando com mais de trinta anos de existência, doze filmes e arrecadando mais de 500 milhões de dólares. Porém não é por isso que a sexta-feira treze é considerada um mau agouro, talvez os próprios produtores tenham se inspirado nas crendices populares quando deram vida ao personagem. Então, de onde veio esse mito?

Não se sabe ao certo, mas tudo indica que o costume surgiu com duas lendas nórdicas.

A primeira delas descreve uma festa muito pomposa com um banquete de dar água na boca na morada celestial das divindades, Valhalla, e para tal feito foram convidados doze Deuses. Tudo estava indo muito bem até que Loki apareceu de penetra no evento e armou uma confusão daquelas que resultou na morte de Balder, o qual era ninguém menos do que um dos favoritos. Estabeleceu-se, então, que convidar treze pessoas para o jantar era símbolo de azar.

A segunda já toma lugar na era do cristianismo, pois quando os nórdicos se converteram a religião a Deusa do amor e da beleza, Friga, fora transformada em bruxa. Para se vingar de tal feito, a mesma uniu-se a onze outras bruxas e ao próprio Satanás, e todas as sextas-feiras os treze juntavam-se a fim de rogar praga para toda a humanidade. A superstição de que o dia da semana trazia má sorte se espalhou por toda a Europa, transformando a sexta-feira em um dia de azar.

Tais crenças foram reforçadas até mesmo na bíblia. A Santa Ceia aconteceu um dia antes da morte de Jesus Cristo, a qual se deu em uma sexta-feira, e o banquete contava com treze pessoas à mesa. Contudo, não foi somente esse relato que destacou o dia como lugar para desastres. Eva ofereceu a maçã a Adão em uma sexta-feira e advinha quando o grande dilúvio teria começado?

Todas essas crendices, passadas de geração a geração, fizeram com que a sexta-feira treze fosse, e ainda seja, temida por muitos. Eu particularmente gosto delas, afinal, assim como Jason, nasci no dia treze e, justamente, neste dia da semana. E você? Ainda acha que elas trazem azar? Se a resposta for afirmativa, melhor tomar cuidado ao passar por este treze de julho, já que estamos precisamente em uma sexta-feira.