Qual o motivo?

              Ontem, antes de ir dormir, resolvi dar uma olhada nas notícias e acabei me deparando com uma reportagem sobre uma mulher que havia sido espancada por um homem em uma casa noturna aqui em São Paulo. O caso por si só já me chamou a atenção, porém, confesso que o fato de o mesmo ter ocorrido em um lugar que conheço e que já frequentei no passado, aguçou ainda mais minha curiosidade.  Li toda a matéria e nela a vítima reclamava, principalmente, da falta de assistência oferecida pela casa em tal situação. Eram por volta de quatro horas da manhã quando ela, os amigos e o namorado resolveram ir embora do local, porém, já na saída, a mulher lembrou-se que havia esquecido um casaco na mesa e voltou para buscá-lo, foi quando tudo aconteceu: outra frequentadora do lugar a puxou pelo cabelo e um homem a espancou até que ela perdesse a consciência. Não ficou claro o motivo da agressão, a vítima não sabia se havia esbarrado sem intenção em algum deles ou se acharam que ela queria roubar alguma coisa, já que estava procurando por seu casaco.

                Fiquei revoltada com a situação exposta e por isso caí na besteira de ler os comentários no post criado pela própria vítima em uma rede social. Foi aí que perdi o sono de vez. Então, fica a dica: nunca leia comentários se não quiser passar nervoso! Apesar da minha decepção, não serei injusta, afinal muitas pessoas se solidarizaram com a situação da menina proferindo palavras de apoio, justiça e dando conselhos do que ela deveria fazer sobre o assunto e, felizmente, posso dizer que estes tenham sido a maioria, então, ainda temos salvação! Mas é claro que, como sempre, lá também estavam comentários absurdos ridicularizando a situação ou usando a mesma como argumento para justificar a liberação do porte de armas; e ainda tinham aqueles que faziam com que a vítima se tornasse a culpada. Do meu ponto de vista, todos eles estão tão errados em tantos níveis que se eu debatesse sobre cada um destes argumentos provavelmente este texto viraria um livro. Então, por hora, vou focar somente na culpabilização da vítima. “Mas qual foi o motivo da agressão?”, “Alguma coisa aconteceu, essa história está muito mal contada!”, “Ela deve ter feito alguma coisa, ninguém apanha do nada!”, “Se tivesse em casa, isso não teria acontecido…”, estes, e outros comentários semelhantes, pipocavam no post.

                Fiquei me perguntando qual seria um bom motivo que justificasse uma pessoa espancar outra ao ponto de deixá-la inconsciente, com hematomas, um dente quebrado e um corte na boca que precisou de seis pontos? Mas não consegui pensar em nenhum argumento que, dentro daquela situação, tornasse aquele ato criminoso em algo aceitável. Claro que em situações extremas de ódio como a outra pessoa ter matado, estuprado ou sequestrado alguém que você ama, qualquer um seria passível de tal violência, porém, aparentemente, não foi o que ocorreu na casa noturna, já que somente a vítima saiu machucada. O que aconteceu ali foi um ato de covardia de uma pessoa que se considera superior e mais forte atacando alguém que ele julgue ser mais fraco. Então, que diferença faria se a vítima tivesse provocado ou mesmo pedido, literalmente, para apanhar? A reação do agressor seria menos horrenda se houvesse um motivo que a justificasse como um xingamento? A vítima realmente mereceria ter o rosto deformado dependendo do que tivesse feito ou falado a ele? Vejam que nem estou entrando no mérito do “machismo” aqui, apesar de o agressor ter sido um homem e ter batido em uma mulher sem motivo aparente, fazendo com que o ato, por si só, configure-se, sim, como tal. O que estou debatendo aqui é a necessidade das pessoas em justificar o ato do agressor. Do meu ponto de vista, mesmo que fosse uma briga entre mulheres, nada na situação descrita tornaria correta tal violência. Então para que preciso saber se a vítima xingou a mãe do agressor, esbarrou em seu braço ou mesmo roubou o seu cigarro favorito? Talvez tais justificativas sirvam para a justiça como atenuantes ou agravantes do crime cometido, mas, mesmo nesta situação, o ato não deixa de ser uma transgressão.

                A internet e, principalmente, as redes sociais abriram um espaço no mundo o qual antes não havia, dando voz a todos independente de suas opiniões, ideologias, crenças, modo de ver e levar a vida. E isso de uma forma geral é ótimo, mas sem empatia ou senso crítico, os argumentos acabam tornando-se somente agressões vazias e sem qualquer fundamento, mostrando o quanto nossa sociedade ainda é estereotipada e preconceituosa. Não justifique a violência e não ache que ela só acontece com determinados grupos e pessoas. Hoje a vítima pode ter sido esta moça, mas e se amanhã for você? Qual seria o motivo?

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