A terra de Babel

Alguns dizem que é só seguir por um caminho tortuoso que começa ali e vai para lugar algum, já outros, que precisamos seguir o curso do rio até as entranhas da floresta longínqua, mas a verdade é que não importa qual seja o caminho que se tome, a única coisa em comum é o fato de ser quase impossível de se chegar. Entre montanhas quase tão altas que tocam o céu e florestas inexploradas dos confins do mundo se encontra uma pequena cidade onde a tecnologia ainda não chegou e a paisagem o homem quase não mudou. Tal isolamento já a torna uma joia rara nos dias de hoje, porém, se não bastasse, ela ainda conta com outro fato quase tão peculiar quanto seu surgimento: cada um de seus habitantes fala uma língua diferente. Como isso é possível? Ninguém sabe. Mas é certo que, mesmo sendo no máximo algumas pessoas de uma mesma família que conseguem se comunicar em um mesmo dialeto, o comércio, as transações e o convívio fluem como se todas se entendessem muito bem e de fato, de algum jeito, se entendem.

Certo dia um forasteiro apareceu. Ele ficou maravilhado com aquele pequeno vilarejo e com as pessoas que o habitavam e logo percebeu que não havia uma língua em comum, que cada um tinha seu jeito próprio de se comunicar. Achou tudo aquilo muito estranho, mas viu uma oportunidade no ar, de onde ele vinha não era ninguém, mas ali, naquele lugar, poderia ser rei se fizesse com que aquelas pessoas perceberem que havia um jeito de todas falarem a mesma língua. Então colocou seu plano em ação: elegeu o idioma que mais lhe agradava, montou uma escola e espalhou a novidade. Em pouco tempo cada vez mais curiosos e inocentes atendiam as suas aulas, querendo conferir o mais novo empreendimento do vilarejo e se encantando com a nova forma de se pronunciar.

Meses se passaram e o forasteiro não poderia estar mais contente, seu plano ia de vento em polpa, quase todos da cidade já falavam a língua que ele havia escolhido e ele era tratado como uma celebridade entre as pessoas. O lugar já mostrava alguns sinais de mudança: novos comércios e oportunidades. Era certo que o vilarejo se expandiria e se continuasse assim, seria reconhecido no mundo moderno e o forasteiro seria o bem feitor que fez com que tudo aquilo acontecesse. Porém coisas estranhas começaram a acontecer junto com a expansão da cidade. Brigas nas ruas, discussões entre vizinhos, pequenos furtos e roubos, que nunca antes foram vistos começaram a aparecer. As pessoas já não eram mais tão felizes, viviam com as caras emburradas e por muito pouco perdiam a paciência uns com os outros. O ódio e o preconceito, nunca antes pronunciados, agora haviam se instalado ali. Já não mais era a mesma cidade que o forasteiro tanto admirara assim que havia chegado a ela. Talvez fosse somente questão de adaptação, logo tudo se ajeitaria novamente, pelo menos assim ele esperava. Contudo, em uma noite de verão, o pior aconteceu. Não soube como começou e nem como proceder, só se lembra de ter acordado em sua casa com os gritos histéricos das pessoas nas ruas e logo correu para ver do que se tratava. Uma das casas havia pegado fogo. Alguns tentavam apagá-lo enquanto outros queriam entender o que tinha acontecido. Não demoraram a descobrir que o fogo havia sido proposital, o primeiro crime com vítimas fatais da história do vilarejo havia acontecido, duas pessoas haviam morrido por culpa da intolerância que agora existia. Desgostoso, o forasteiro decidiu ir embora da cidade na manhã seguinte e arrumou suas coisas. Não entendia o porquê daquilo estar acontecendo, pensou que o vilarejo era uma causa perdida no final das contas, por isso a tanto fora esquecido. A melhora na comunicação deveria ter trazido progresso e não desordem. Pegou sua mala e partiu, sem nunca mais olhar para trás.

A cidade nunca mais fora a mesma. Com o tempo, assim como o forasteiro havia previsto, ele ficou conhecida no mundo moderno, mas nunca teria nada de especial se comparada a qualquer outro lugar. Os habitantes nem se lembravam mais do porquê de terem vivido tão isolados por tanto tempo e o que os tornavam tão diferentes. O forasteiro acertou em todas suas previsões, porém não percebeu que o que a fazia o vilarejo tão especial e o que realmente havia lhe encantado era justamente a forma de comunicação única que ela possuía. Com certeza tinha suas limitações, mas foi assim que os habitantes do lugar aprenderam a respeitar as diferenças uns dos outros e a, principalmente, pensar antes de falar. Viviam uma vida simples e não tinham espaço para dizer mais do que deveriam. Agora que podiam se expressar da maneira que quisessem, não pensavam duas vezes antes de falar e foi exatamente neste ponto que acabaram esquecendo o valor das palavras. O forasteiro fez com que ganhassem o mundo, mas perdessem o que era essencial.

O prêmio

Esta é a história de Jorge, um escritor. Sim, um escritor. Não um qualquer, mas sim o autor de inúmeros best-sellers de autoajuda sobre relacionamentos. Podemos dizer que isso o torna uma pessoa bem sucedida, não é mesmo? Tem fama, tem dinheiro, reconhecimento, o que mais poderia querer? De fato nunca pedira por mais nada, seria completo se não fosse um pequeníssimo detalhe: sua paixão sempre fora as fantasias. Não vamos entendê-lo mal, sempre fora grato por tudo o que tem, gosta do que faz e dos fãs que o seguem, nunca negou que tem uma boa vida, mas seu coração pulsava mesmo sempre que se sentava para inventar uma história fantástica. Sabe aquelas que fazem sua imaginação viajar entre mundos, reinos distantes e lugares inalcançados? Eram nessas dimensões que Jorge adorava se encontrar. Naquelas ficções que somente poderiam existir nas páginas de um livro ou nas películas de um filme. Ele tentava fazer com que seu sonho se tornasse realidade, sempre postava seus contos em sua página junto com os outros textos que já faziam sucesso, mas eram poucos os fãs que realmente liam ou se interessavam por eles, enquanto todos os outros eram procurados e elogiados, suas fantasias sempre ficavam de lado. Não era sucesso o que queria, isso ele já tinha, Jorge queria partilhar seu sonho, saber que alguém estava naquelas terras distantes junto com ele, que não estava sozinho nesta jornada.

Chegou a comentar sobre suas frustrações com amigos e conhecidos, porém todos lhe diziam sempre a mesma coisa: “Você está sendo dramático! Lógico que as pessoas leem suas obras, sejam elas quais forem, afinal você não é o grande Jorge?”, mas ele não estava convencido e arquitetou um plano para finalmente provar quem carregava a razão. Na manhã seguinte publicou em seu site o seguinte texto:

Não direi qual, mas para aqueles que lerem meus textos até o final, em um deles encontrará um prêmio excepcional. Se te tocar, provavelmente será nele que irá encontrar. A última dica que lhes ofereço é que será algum de meu total apreço.

E assim Jorge fez. Alguns dias depois de seu anúncio continuou a postar seus textos sobre relacionamentos e seus contos fantásticos, mas nenhum deles continha o tal tesouro, por hora, queria somente saber qual seria a reação provocada e o resultado não poderia ter sido outro, seus acessos haviam triplicado e as pessoas não paravam de comentar ou tentar adivinhar qual seria o prêmio e em qual dos textos estava contido. Até mesmo seus contos, agora, estavam sendo mais requisitados, mesmo que a maioria ainda só os estivesse lendo por curiosidade, pois eram aqueles já haviam desistido de procurar nos textos mais famosos e agora estavam dando uma chance às fantasias, com a esperança de ali encontrar o grande tesouro a tanto mencionado. Jorge decidiu que já era hora de dar aquelas pessoas o que elas procuravam, então escreveu como nunca antes na vida. Dia e noite dedicou-se aquela que seria sua maior obra prima, reuniu em uma única história todos os elementos que mais apreciava: a ficção, a fantasia, terras distantes, povos desconhecidos, amores proibidos, guerreiros que viraram mitos e corações partidos. Era essa! Esse seria o texto que esperava que mudasse a vida de pelo menos um de seus fãs. A história tinha ficado enorme, muito maior do que o número máximo de caracteres que seria aceitável para um post em uma rede social, mas nem isso o intimidou, de fato até nisso ela estava perfeita, afinal serviria muito bem para aquilo que queria tanto provar: encontrar pelo menos uma pessoa que realmente se aprofundasse em um texto complexo nos tempos modernos. Passaram-se meses e sua página continuava a ter milhares de acessos, as pessoas não haviam desistido do tal prêmio e ainda questionavam como este seria apresentado. Talvez um trocadilho que indicasse a quantia em dinheiro que receberiam ou o lugar para onde viajariam? Mas apesar do sucesso, Jorge se via cada vez mais frustrado. Enquanto todos os outros assuntos triviais “bombavam” na internet, seu pedaço de arte permanecia intacto em meio a tantas outras histórias. Recebia algumas curtidas aqui e outras ali, até alguns comentários, porém, infelizmente, nenhum deles lhe indicava nada a não ser que as pessoas estavam desesperadas e atirando para todos os lados, sem realmente saberem o que procuravam. Ele estava perdendo as esperanças, apesar de sempre ter dito o contrário, no fundo queria acreditar que teria, pelo menos, uma única pessoa que realmente leria sua tão amada obra e por consequência entenderia o fundo de sua alma. Até que em um certo dia, o milagre aconteceu. Já tinha se conformado que seria o único a viver naquele mundo, quando naquela manhã viu uma coisa que encheu novamente seu coração de esperanças: um simples comentário bastou para que toda sua visão de mundo mudasse.

Não sei qual seria esse prêmio de que tanto os outros falam, somente buscava alento para o meu coração quando comecei a ler o seu texto, mas acho que, sem querer, o acabei encontrando. O guerreiro indomado e suas terras míticas acabaram me salvando sem nem mesmo eu ter esperado. Então, talvez o prêmio até seja o dinheiro ou a viagem que todos estão buscando, mas poder me aventurar novamente nessa fantasia para mim já bastaria.”

Ele tentou saber um pouco mais sobre o usuário que havia feito o comentário e ficou impressionado ao descobrir que em tantos detalhes da vida do cidadão eram comuns ao seu próprio conto. Percebeu que por mais que seu texto fosse fantástico, sua história era mais real para aquela pessoa do que qualquer uma outra de autoajuda que já havia escrito. Quando começou tudo aquilo, Jorge só queria provar que as pessoas não liam seus textos realmente e se achasse alguém que o fizesse, com certeza, deveria ser recompensado. Mas ele não esperava que o prêmio verdadeiro seria dele afinal, pois aquela única pessoa lhe fez ver que o bom leitor não era aquele que tinha os mesmos gostos que ele e sim, aquele que tirava o melhor de tudo que lhe era apresentado. Daquele dia em diante não se preocupou mais em saber se os outros estavam tirando a lição correta de seus textos, nem mesmo buscou mais um parceiro para as suas aventuras, sabia agora que bastava ser de coração para que todos os outros o seguissem aonde quer que fosse.

Vida de solteira

Chega disso! Valentina levantou, foi até o banheiro e lavou o rosto. Até quando ia ficar nesse mesmo ritmo? Estava na hora de esquecer o passado e seguir em frente. Alias já tinha passado da hora! Ele não era a única pessoa no mundo por quem poderia se apaixonar. Sentou na cama e pegou o celular. Sua amiga tinha lhe falado a respeito de alguns aplicativos de paqueras, fizera a maior propaganda dizendo que eram a sensação do momento, que todos agora só marcavam encontros por eles e que sair com alguém sem selecionar antes era coisa do passado. Sem pensar duas vezes, foi até a lojinha de aplicativos do celular e baixou o mais famoso deles. Assim que fez seu cadastro e arrumou suas preferências já começou a passar pela lista de homens que lhe era oferecida na telinha, um após o outro. Aquilo era um cardápio de homens! A foto dos pratos com uma breve descrição do que continham abaixo. Deu risada consigo mesma, se era assim para ela, o inverso também era verdadeiro, tinha acabado de virar uma comida. Bem, já que era assim resolveu escolher os que mais lhe apeteciam. Sim, não, sim, não, não, não. Deus me livre! O que é isso? Ah, esse parece legal! Depois de passar algum tempo nisso acabou cansando e resolveu largar o celular de lado e ir tomar um banho. Sentiu-se velha, o mundo estava muito mudado mesmo, um cardápio para encontros? O que mais iriam inventar?

Valentina já trocava mensagens com um dos pratos há algumas semanas. Ela não acreditou quando combinou com um dos rapazes e no mesmo dia ele veio puxar conversa. Ela tinha subestimado o poder do aplicativo, não é que funcionava mesmo? Achava estranho conversar com uma pessoa que não conhecia, mas o moço parecia ser bem afeiçoado, bom de papo, educado, talvez aquilo realmente fosse o futuro! Mesmo relutante, acabou aceitando finalmente o convite dele para sair. Olhava indecisa sua imagem no espelho, que roupa usar em um encontro com uma pessoa que nunca vira antes? Decidiu-se por um vestido azul básico. Haviam combinado de se encontrarem em um parque e depois decidiriam o que fazer dali. Ela que sugerira o lugar, algo público e ninguém lhe buscaria em casa, assim se o cara fosse um psicopata, testemunhas não faltariam e a estratégia também lhe assegurava em caso do sujeito ser um louco, afinal malucos não podem invadir sua casa no meio da noite se não sabem onde você mora. Terminou de passar uma maquiagem leve, penteou o cabelo e saiu.

Ela olhava nervosa para a entrada do parque, por que, diabos, tinha concordado com aquilo? Estava enferrujada e logo de cara resolvera fazer uma coisa maluca daquelas? Onde estava com a cabeça? Viu um rapaz de cabelos pretos arrepiados, alto e magrinho entrando pelo portão. Estava um pouco diferente das fotos, mas era ele, tinha certeza. O rapaz acenou ao reconhecê-la e ela retribuiu o gesto. Bonitinho! Pensou mais aliviada. O que era aqui em sua cintura? Uma pochete? Sério mesmo que alguém usava isso nos dias de hoje? Resolveu não julgar o livro pela capa. Apesar daquela não ser sua primeira escolha no mundo da moda, nem mesmo a última, como diz o velho ditado “gosto não se discute”, e não era ela que iria contradizer a velha sabedoria disso agora, não é mesmo? Eles andaram juntos pelo local e no começo a conversa lhe pareceu muito agradável, assim como as trocadas virtualmente, quase a fez superar o horrível acessório de moda que balançava para cima e para baixo a cada passada que ele dava. Mas em dado momento o assunto acabou girando somente em torno da vida de sua companhia, o que fazia, onde morava, do que gostava e não gostava, seu ponto de vista sobre aparentemente tudo o que era vivo no universo, ou seja, não lhe faltavam opiniões. Valentina até tentou falar algo, mas ele a cortava em toda ocasião que podia. Nunca pensou que um cara que ainda usava pochete fosse tão egocêntrico! Decidiu, novamente, não se apegar muito a isso, talvez fosse só o nervosismo agindo. Já escurecia quando ele sugeriu que fossem jantar em algum lugar. Agora sim o rapaz adquirira pontos positivos com ela! Estava cansada de andar e morrendo de fome.

Valentina olhava emburrada para o grupo de adolescentes que ria alto na mesa ao lado da sua na lanchonete. Ela nunca fora do tipo que achava que homens eram obrigados a pagar tudo no primeiro encontro, mas quando ele perguntou se eles poderiam ir ao fast food da esquina do parque porque estava sem dinheiro, imaginou que ele estava sugerindo algo tão barato porque quisesse fazer um charme pagando a conta, então aceitou satisfeita. Qual não foi sua surpresa quando além de nem se oferecer para pagar o seu lanche, ele ainda ter pedido para que ela lhe pagasse uma casquinha, pois estava sem trocado?

– Seu carro está aqui perto? – ele perguntou enquanto saiam da lanchonete.

– Não, vim de táxi, vou chamar outro para voltar – ela respondeu já procurando o celular dentro da bolsa.

– Não precisa, deixa que eu te levo.

Finalmente ainda existia cavalheirismo nesse mundo! Nem tudo estava perdido, afinal. Valentina olhou em dúvida para ele. Tinha passado praticamente o dia todo com aquela pessoa e nada de ruim acontecera. Descobrira que ele era um egocêntrico e muquirana sem senso algum de moda, mas dificilmente seria um psicopata. Aceitou a carona, seria uma troca justa pela casquinha. Não conversaram muito durante o trajeto, mas é lógico que o pouco do diálogo que tiveram foi, mais uma vez, voltado para o mundo dele. Quando estavam quase chegando a rua de Valentina eles escutaram um estouro seguido de barulho de borracha arrastando. Sério mesmo que o pneu tinha furado? Pelo menos era uma coisa fácil de ser consertada! Eles saíram do carro e foram verificar. Ele foi pegar o estepe e o macaco no porta malas e começou a trabalhar enquanto ela ficou em pé atrás dele observando.

– Você pode me ajudar aqui? Não estou conseguindo tirar os parafusos. – Valentina olhou para os lados, verificando se ele estaria falando com outra pessoa, quando percebeu que a pergunta era direcionada a ela, balançou a cabeça em descrença.

– Mas eu estou de vestido! – argumentou.

– Sem problemas, é só prendê-lo no meio das pernas que ninguém verá nada. – Valentina se agachou ao lado do rapaz segurando a ponta do vestido enquanto praguejava por dentro. Pensou em recusar, mas quanto mais rápido aquilo terminasse, mais rápido ela se livraria do encosto.

Ela ainda tentava limpar a graxa da mão quando entrou em casa. Estava pensando em tudo de errado que tinha dado naquele dia e em quão frustrada estava. Tudo bem, tinha que admitir que o sujeito não era de todo ruim, afinal tinha lhe trazido sã e salva para casa, não tentara nada que ela não quisesse e nem forçou a barra em nenhum momento. Quem sabe sua falta de noção das coisas não melhorasse com o tempo? Sentiu a vibração de seu celular tocando dentro da bolsa. Quem poderia ser? Quem ainda ligava para os outros hoje em dia? Atendeu e escutou o toque típico de uma ligação a cobrar.

– Oi, sou eu. Desculpe estar te ligando a cobrar, mas é que meu pacote de dados acabou. Eu achei dez reais aqui no carro e liguei para perguntar se era seu, mas depois me toquei que você deixou aqui para pagar a gasolina da carona, não é? Deve ter sido mais do que isso, mas obrigado! Poxa, adorei te conhecer, quando vamos marcar o próximo encontro? – Valentina desligou com raiva o telefone. Se fosse continuar com o aplicativo teria que ser mais criteriosa ao selecionar o seu prato no cardápio, porque aquele havia vindo estragado.

O Nascimento

Maria ajudava a mãe e a tia na cozinha com os preparativos da festa. A ceia deste ano seria simples, pois a maioria da família tinha ido viajar, deixando poucos na cidade para as comemorações de final de ano. Ela puxou uma das cadeiras da mesa e sentou-se. Um pouco ofegante, colocou a cabeça para trás, fechando os olhos. Depois olhou para a barriga enorme, evidência de que logo uma nova vida estaria neste mundo, e a acariciou.

– Você está bem? – sua mãe disse se aproximando.

– Claro! Só queria descansar um pouco os pés – ela respondeu já pedindo a mão da mãe para ajudá-la a levantar. – Vamos, ainda temos muita coisa a fazer. – As duas sorriram uma para outra. Assim que ficou de pé ela sentiu o líquido escorrer por suas pernas, olhou para o chão e sorriu. Depois voltou a olhar para mãe com lágrima nos olhos. – Chame o João! A bolsa estourou.

Todos corriam de um lado ao outro da casa tentando resolver coisas como quem iria, o que levariam e como fariam. Maria já esperava sentada no banco do passageiro de um dos carros, respirando fundo a cada contração que vinha, engraçado como era ela quem estava em trabalho de parto, mas era  justamente a mais calma em toda aquela situação. Por fim decidiram ir todos juntos ao hospital. Maria, sua mãe e João ocupavam o carro que encabeçava a fila, logo atrás vinham seus tios e primos e mais um terceiro automóvel com seus avós. A rodovia estava completamente parada, já tinha se passado mais de meia hora que estavam ali e mesmo assim pouco foi o avanço feito. Era estranho pensar naquele fluxo tão grande justamente na véspera da virada do ano, quem é que arriscaria passar o feriado no congestionamento? Aparentemente muita gente! E lá vinha mais uma contração. Maria segurou no banco e respirou fundo, segurando o grito de dor.

– Não acredito que isso está acontecendo justo hoje! Já era para estarmos lá – João lamuriou inconformado enquanto andava mais uns poucos quilômetros para logo em seguida parar novamente. Ele tentou pensar em outro trajeto, mas a cidade era pequena, e infelizmente o único caminho disponível para o hospital era aquele, o que não seria problema em um dia qualquer, porém para o seu infortúnio, aquela era também uma estrada muito utilizada para destinos turísticos diversos naquela época do ano e o resultado não poderia ser outro. Ele começou a buzinar. Maria soltou outro gemido de dor, o espaçamento entre as contrações estavam diminuindo.

– Pare com isso João, esse barulho todo só está atrapalhando! Não está vendo que ela está com dores? – sua sogra disse segurando a mão de Maria por entre os bancos.

– É justamente por isso que estou fazendo, temos que chegar lá rápido, a senhora tem uma sugestão melhor? – ele respondeu emburrado. O congestionamento ia de ponta a ponta da estrada e nenhuma das filas com dúzias e mais dúzias de carros dava sinal de que iria avançar. Maria viu pelo retrovisor que seu tio saia do carro de trás, enquanto sua tia assumia o volante, e correu até a janela de João. O que mais poderia estar acontecendo agora?

– Tem uma ambulância logo ali na frente, vou correr lá e explicar a situação, enquanto isso tente chegar até ela – ele disse e sem esperar por uma resposta saiu em direção ao veículo.

João começou a buzinar freneticamente e a jogar o carro para cima dos outros para que estes abrissem caminho para ele. As pessoas começaram a xingá-lo, mas ele não se importou, bom mesmo era que a tática estava funcionando, logo chegariam a ambulância. Maria gritou novamente de dor, estava vindo cada vez mais rápido e demorando mais para passar. Ela já não conseguia mais controlar os ânimos. Ao longe, seu tio voltava seguido de um paramédico, que se apresentou e sem cerimônias abriu a porta do passageiro pedindo para que o outro homem o ajudasse a colocar Maria deitada no banco de traseiro do carro e assim que a acomodaram, ele começou a examiná-la.

– Não temos mais tempo, ela terá o bebê aqui! – ele anunciou. Todos olharam espantados para o paramédico que já se arrumava para o procedimento.

– Não, por favor, eu aguento! – Maria implorou – Me coloque na ambulância e ligue a sirene – ela completou ofegante.

– A ambulância está ocupada! Estávamos prestes a ligar a sirene quando esse homem apareceu contando do seu caso. Mesmo que vocês nos sigam, não vai dar tempo, seu bebê está prestes a nascer!

Maria gritou mais uma vez de dor, desta vez o paramédico não esperou por uma resposta e correu até a ambulância, voltando com uma maleta cheia de aparatos médicos. Ele pediu para que a levantassem um pouco, cobriu suas pernas com um pano e colocando sua cabeça abaixo do tecido pediu para que ela fizesse força assim que sentisse o próximo movimento. Maria não sabe quanto tempo passou ali, se fora minutos ou horas. No começo até conseguiu ver sua família e os estranhos que se acumulavam ao redor do carro para ver o que acontecia, ainda conseguia conjecturar, mesmo com as dores e ao esforço, se perguntando o porquê daquilo estar acontecendo com ela. Ainda conseguia pensar que não queria que seu bebê viesse ao mundo daquele jeito. Mas em um dado momento, suas forças se esvaíram e ela somente repetia, mecanicamente, o que lhe era pedido, até que finalmente, como em um passe de mágica, não sentiu mais a necessidade de fazer força, deixando-se cair no banco com a cabeça para o lado. O barulho dos estrondos dos fogos explodiu forte em seus ouvidos e suas luzes invadiram o céu escuro da noite. Ela escutou pessoas gritando de felicidade e se cumprimentando. Que coisa mais linda! Pensou enquanto assistia as luzes coloridas explodirem no céu. Parecia que todos estavam comemorando a chegada de seu bebê ao mundo! Maria mal conseguia escutar o choro de sua criança tanto era o alvoroço feito do lado de fora do veículo e foi por este motivo que somente quando o paramédico aconchegou o pequeno pacote quentinho em seu peito e ela conseguiu olhar diretamente nos olhos de sua filha que percebeu do que tudo aquilo se tratava.

– Parece que você e o novo ano nasceram juntos, minha pequena – ela disse sorrindo. – Bem vinda ao mundo! – falou, beijando a testa de seu neném e aconchegando a pequena criança em seu corpo. Mesmo exausta, seu coração se encheu de alegria e esperança. Mas que ironia aquela, o pior dos cenários possíveis para um final de ano acabou se tornando o melhor dos começos.

Só mais um conto de Natal

Sou antiga, nasci em 1530, na Alemanha, quando em uma determinada noite, um jovem chamado Matinho Lutero em uma de suas caminhadas pela floresta achou bonita a imagem dos pinheiros sob as estrelas, cobertos de neve, e resolveu reproduzir o que vira dentro de sua casa com galhos de árvores, algodão e outros ornamentos. Desde então faço parte de todas as comemorações em todas as casas do mundo neste tal dia 25 de Dezembro. Posso ser pequena ou grande, natural ou de plástico, posso ainda ser simples com poucos ornamentos ou majestosamente produzida. Não importa realmente a versão em que eu apareça, pois em qualquer forma eu simbolizo a paz, a alegria e a esperança.

Apesar de esse ter sido meu nascimento no cristianismo, a verdade é que estou ai desde os pagãos e perdurei por gerações, sendo que até hoje não pertenço a nenhuma religião de fato. Então não tenha medo de mim, pois irei respeitar sua casa, sua família e suas crenças.

Já vi muitas comemorações, aquelas com a nave caindo do lado de fora da casa e aquelas em que até mesmo as noites são quentes com o ardor do verão. Vi ceias fartas, com pratos variados, onde famílias inteiras se reuniam ao redor da mesa enquanto eu esperava sozinha do outro lado da sala até que todos estivessem satisfeitos e fosse hora de se juntarem a mim para a troca dos presentes espalhados por toda a minha base. Este sempre foi o momento de que eu mais gostava, pois todos pareciam felizes e realizados em minha presença e a sensação de dever cumprido me enchia. Infelizmente nem sempre é assim, tinham lugares onde as pessoas não tinham recursos para tanta fartura, ou quase nenhuma na verdade, porém eu sempre acreditei que eram nessas ocasiões que minha presença era mais importante, pois era nesse momento que o propósito da minha existência brilhava mais do que nunca. Não podia ter todos aqueles presentes ou toda aquela comida, mas eu estava lá para mostrar-lhes o significado da vida.

Já está chegando a época da minha aparição novamente, as pessoas estão me colocando em suas casas desde o final de Novembro. Minha visita não é longa, dura um pouco mais do que um mês e nunca chega a dois, mas acredito que é o suficiente para fazer a diferença, afinal escuto algumas pessoas dizerem que é o período mais gostoso do ano. Depois vou embora de novo e só retorno na mesma estação do outro ano. Então aproveite minha presença, me enfeite como queira e me encha de luzes e cores, pois minha estadia é bem passageira. Enquanto isso estou aqui, silenciosamente na espreita, tentando cumprir o meu papel de encher seu coração de paz, esperança, alegria e vida para o outro ano que se inicia, assim minha falta não será tão grande.

Não sei quem é esse tal de Natal, mas onde estou com frequência ouço desejarem um deles feliz e sempre me pareceu algo positivo a se dizer já que o espírito de renovação que trago enche o ambiente quando ele está por perto. Por isso desejo à vocês um “Feliz Natal” e tudo que ele pode lhe trazer de bom, assim como minha presença.