Vida de solteira

Chega disso! Valentina levantou, foi até o banheiro e lavou o rosto. Até quando ia ficar nesse mesmo ritmo? Estava na hora de esquecer o passado e seguir em frente. Alias já tinha passado da hora! Ele não era a única pessoa no mundo por quem poderia se apaixonar. Sentou na cama e pegou o celular. Sua amiga tinha lhe falado a respeito de alguns aplicativos de paqueras, fizera a maior propaganda dizendo que eram a sensação do momento, que todos agora só marcavam encontros por eles e que sair com alguém sem selecionar antes era coisa do passado. Sem pensar duas vezes, foi até a lojinha de aplicativos do celular e baixou o mais famoso deles. Assim que fez seu cadastro e arrumou suas preferências já começou a passar pela lista de homens que lhe era oferecida na telinha, um após o outro. Aquilo era um cardápio de homens! A foto dos pratos com uma breve descrição do que continham abaixo. Deu risada consigo mesma, se era assim para ela, o inverso também era verdadeiro, tinha acabado de virar uma comida. Bem, já que era assim resolveu escolher os que mais lhe apeteciam. Sim, não, sim, não, não, não. Deus me livre! O que é isso? Ah, esse parece legal! Depois de passar algum tempo nisso acabou cansando e resolveu largar o celular de lado e ir tomar um banho. Sentiu-se velha, o mundo estava muito mudado mesmo, um cardápio para encontros? O que mais iriam inventar?

Valentina já trocava mensagens com um dos pratos há algumas semanas. Ela não acreditou quando combinou com um dos rapazes e no mesmo dia ele veio puxar conversa. Ela tinha subestimado o poder do aplicativo, não é que funcionava mesmo? Achava estranho conversar com uma pessoa que não conhecia, mas o moço parecia ser bem afeiçoado, bom de papo, educado, talvez aquilo realmente fosse o futuro! Mesmo relutante, acabou aceitando finalmente o convite dele para sair. Olhava indecisa sua imagem no espelho, que roupa usar em um encontro com uma pessoa que nunca vira antes? Decidiu-se por um vestido azul básico. Haviam combinado de se encontrarem em um parque e depois decidiriam o que fazer dali. Ela que sugerira o lugar, algo público e ninguém lhe buscaria em casa, assim se o cara fosse um psicopata, testemunhas não faltariam e a estratégia também lhe assegurava em caso do sujeito ser um louco, afinal malucos não podem invadir sua casa no meio da noite se não sabem onde você mora. Terminou de passar uma maquiagem leve, penteou o cabelo e saiu.

Ela olhava nervosa para a entrada do parque, por que, diabos, tinha concordado com aquilo? Estava enferrujada e logo de cara resolvera fazer uma coisa maluca daquelas? Onde estava com a cabeça? Viu um rapaz de cabelos pretos arrepiados, alto e magrinho entrando pelo portão. Estava um pouco diferente das fotos, mas era ele, tinha certeza. O rapaz acenou ao reconhecê-la e ela retribuiu o gesto. Bonitinho! Pensou mais aliviada. O que era aqui em sua cintura? Uma pochete? Sério mesmo que alguém usava isso nos dias de hoje? Resolveu não julgar o livro pela capa. Apesar daquela não ser sua primeira escolha no mundo da moda, nem mesmo a última, como diz o velho ditado “gosto não se discute”, e não era ela que iria contradizer a velha sabedoria disso agora, não é mesmo? Eles andaram juntos pelo local e no começo a conversa lhe pareceu muito agradável, assim como as trocadas virtualmente, quase a fez superar o horrível acessório de moda que balançava para cima e para baixo a cada passada que ele dava. Mas em dado momento o assunto acabou girando somente em torno da vida de sua companhia, o que fazia, onde morava, do que gostava e não gostava, seu ponto de vista sobre aparentemente tudo o que era vivo no universo, ou seja, não lhe faltavam opiniões. Valentina até tentou falar algo, mas ele a cortava em toda ocasião que podia. Nunca pensou que um cara que ainda usava pochete fosse tão egocêntrico! Decidiu, novamente, não se apegar muito a isso, talvez fosse só o nervosismo agindo. Já escurecia quando ele sugeriu que fossem jantar em algum lugar. Agora sim o rapaz adquirira pontos positivos com ela! Estava cansada de andar e morrendo de fome.

Valentina olhava emburrada para o grupo de adolescentes que ria alto na mesa ao lado da sua na lanchonete. Ela nunca fora do tipo que achava que homens eram obrigados a pagar tudo no primeiro encontro, mas quando ele perguntou se eles poderiam ir ao fast food da esquina do parque porque estava sem dinheiro, imaginou que ele estava sugerindo algo tão barato porque quisesse fazer um charme pagando a conta, então aceitou satisfeita. Qual não foi sua surpresa quando além de nem se oferecer para pagar o seu lanche, ele ainda ter pedido para que ela lhe pagasse uma casquinha, pois estava sem trocado?

– Seu carro está aqui perto? – ele perguntou enquanto saiam da lanchonete.

– Não, vim de táxi, vou chamar outro para voltar – ela respondeu já procurando o celular dentro da bolsa.

– Não precisa, deixa que eu te levo.

Finalmente ainda existia cavalheirismo nesse mundo! Nem tudo estava perdido, afinal. Valentina olhou em dúvida para ele. Tinha passado praticamente o dia todo com aquela pessoa e nada de ruim acontecera. Descobrira que ele era um egocêntrico e muquirana sem senso algum de moda, mas dificilmente seria um psicopata. Aceitou a carona, seria uma troca justa pela casquinha. Não conversaram muito durante o trajeto, mas é lógico que o pouco do diálogo que tiveram foi, mais uma vez, voltado para o mundo dele. Quando estavam quase chegando a rua de Valentina eles escutaram um estouro seguido de barulho de borracha arrastando. Sério mesmo que o pneu tinha furado? Pelo menos era uma coisa fácil de ser consertada! Eles saíram do carro e foram verificar. Ele foi pegar o estepe e o macaco no porta malas e começou a trabalhar enquanto ela ficou em pé atrás dele observando.

– Você pode me ajudar aqui? Não estou conseguindo tirar os parafusos. – Valentina olhou para os lados, verificando se ele estaria falando com outra pessoa, quando percebeu que a pergunta era direcionada a ela, balançou a cabeça em descrença.

– Mas eu estou de vestido! – argumentou.

– Sem problemas, é só prendê-lo no meio das pernas que ninguém verá nada. – Valentina se agachou ao lado do rapaz segurando a ponta do vestido enquanto praguejava por dentro. Pensou em recusar, mas quanto mais rápido aquilo terminasse, mais rápido ela se livraria do encosto.

Ela ainda tentava limpar a graxa da mão quando entrou em casa. Estava pensando em tudo de errado que tinha dado naquele dia e em quão frustrada estava. Tudo bem, tinha que admitir que o sujeito não era de todo ruim, afinal tinha lhe trazido sã e salva para casa, não tentara nada que ela não quisesse e nem forçou a barra em nenhum momento. Quem sabe sua falta de noção das coisas não melhorasse com o tempo? Sentiu a vibração de seu celular tocando dentro da bolsa. Quem poderia ser? Quem ainda ligava para os outros hoje em dia? Atendeu e escutou o toque típico de uma ligação a cobrar.

– Oi, sou eu. Desculpe estar te ligando a cobrar, mas é que meu pacote de dados acabou. Eu achei dez reais aqui no carro e liguei para perguntar se era seu, mas depois me toquei que você deixou aqui para pagar a gasolina da carona, não é? Deve ter sido mais do que isso, mas obrigado! Poxa, adorei te conhecer, quando vamos marcar o próximo encontro? – Valentina desligou com raiva o telefone. Se fosse continuar com o aplicativo teria que ser mais criteriosa ao selecionar o seu prato no cardápio, porque aquele havia vindo estragado.

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