A fantasia da noite

Seu vestido era armado demais para aqueles corredores apertados, à medida que andava o tecido esbarrava de um lado a outro nas prateleiras de livros sem fim, levando grande parte deles ao chão. Não sabia onde estava e nem o que fazia ali. Tinha fugido do baile correndo, pois já era quase meia noite e a mágica acabaria, mas ao invés de parar em sua casa dentro do pequeno vilarejo, lá estava ela, naquele lugar desconhecido. Saiu da sala, desceu algumas escadas, virou em alguns corredores e entrou em outro aposento. Escutou risadas. Finalmente! Encontrara alguém que pudesse lhe dizer o que estava acontecendo.

– Com licença senhores, algum de vocês poderia dizer-me onde estou? – Ela levantou a mão tentando chamar a atenção dos dois sujeitos, ambos com vestimentas um tanto quanto esquisitas e um deles levava um cachimbo na boca. Os dois pararam a conversa e a olharam de cima a baixo.

– Outra novata, Poirot! – o homem disse soltando fumaça para o alto.

– Outra novata, Holmes – o outro repetiu ainda encarando a pobre moça. – E parece-me que veio da seção infantil. Qual é o seu nome minha jovem?

– Cinderela – ela respondeu um tanto confusa. O que seria uma seção infantil? Com certeza não era o nome da vila onde vivia.

– Cinderela ela diz – o homem com o cachimbo repetiu e o outro acenou. – Mais e mais deles estão chegando ultimamente, estamos deixando passar alguma coisa, Poirot.

– Com certeza, caro amigo! É nosso trabalho investigar este mistério – o outro respondeu e com isso ambos entraram novamente em uma discussão, ignorando por completo a presença da moça em seu vestido rodado.

Cinderela desistiu de tentar achar uma resposta com aqueles dois e deixou-os com seus devaneios, foi procurar outro alguém que pudesse lhe ajudar. Caminhou mais um pouco até que chegou noutra sala, muito maior que a última, com enfeites estranhos pendurados no teto e mesas espalhadas por todo o salão. Mais vozes. Muitas delas! A moça animou-se, quem sabe ali finalmente teria alguém que pudesse lhe ajudar. Seus passos a guiou até a fonte das conversas e quando lá chegou achou que estava em outro baile. Eram tantas pessoas, todas tão diferentes que achou que poderia ser uma festa a fantasia. Cinderela não sabia, mas ali estavam, todos juntos, soldados da Segunda Guerra, samurais japoneses, dúzias e dúzias de casais românticos e tantos outros personagens das mais variadas histórias. Uma menina passava pelas prateleiras, roubando livros delas e colocando-os debaixo do vestido. Dois meninos corriam pelo salão, riam alegres brincando de pega-pega. Mas que estranho? Um deles parecia trajar um pijama?! Uma mulher com um macacão que parecia em chamas atirava flechas sem parar em um alvo já cansado de tanto ser almejado. A princesa levou um susto quando, de repente, um moleque de óculos e uma marca na testa passou por ela voando em sua vassoura.

– Ei Potter, tome cuidado com isso, já não basta o acidente que tivemos na semana passada! – Um senhor com uma barba tão grande quanto seu cabelo e branca como a neve se aproximou da novata. – Esses garotos! Tão cheios de energia. – Ele abaixou a cabeça fazendo uma reverência à mulher. – Você é nova por aqui, não? Não me lembro de já tê-la visto por aqui.

– Sim! Você poderia dizer-me onde estou? – Ela parecia aliviada. – Não sei como vim parar neste lugar. – O mago deu uma risada amigável, depois virou para a multidão parecendo procurar por alguém, logo uma sombra de reconhecimento passou por seus olhos.

– Merlin, meu caro, temos mais uma aqui para esclarecer tudo que se passa neste lugar. – Um outro senhor, também de barbas e cabelos brancos e longos, se destacou em meio aos outros caminhando ao encontro do amigo e da jovem moça. Aquele que já estava com Cinderela voltou-se novamente para ela. – Meu nome é Gandalf e aquele velho rabugento que vem ali é Merlin, fique tranquila, pois tentaremos sanar todas suas dúvidas.

Assim que o outro mago se juntou a dupla os dois transcorreram sobre a magia que encantava aquele lugar. Explicaram a Cinderela que estavam em uma biblioteca, um lugar onde as pessoas iam quando queriam ler ou estudar, dentro daquilo que eles chamavam de mundo de lá e que todos eles faziam parte das histórias que aqueles livros contavam. Não souberam explicar ao certo o porquê daquela magia, pois as lendas remontavam de anos atrás, mas era de conhecimento geral que um mago muito antigo e poderoso em sua terra um feitiço lançou e com isso a maldição da noite naquele lugar começou. Assim que o Sol se punha, naquela biblioteca, daquela determinada cidade, alguns dos personagens de seus livros criavam vida e com ela permaneciam até o nascer do Sol do outro dia. Todas as noites eram assim e cada vez mais personagens apareciam, desbravavam o mundo de lá e logo voltavam as suas terras, seus reinos, suas casas, suas fantasias.

O dia em que elas sumiram

Não se falava em outra coisa, qualquer meio de comunicação que se utilizasse a matéria de destaque era: “O que aconteceu com as nossas mulheres?”. Não sobrara uma na face da Terra, naquele dia os homens do mundo inteiro acordaram e suas mães, tias, avós, esposas e filhas não encontraram. Como que todas as mulheres do mundo poderiam ter sumido assim ao mesmo tempo? O que poderia ter acontecido? Para onde foram? Quem havia feito isso? Eram as perguntas que não calavam. O mundo inteiro se questionava sobre o paradeiro de todos os exemplares femininos da espécie.

No começo não houvera muita preocupação, pois a teoria comum era que do mesmo jeito que sumiram misteriosamente, voltariam de repente. Com isso o desaparecimento para muitos fora um alívio, um período de descanso das constantes cobranças femininas. Não se escutavam mais coisas como: você vai deixar essa toalha ai, que bagunça é esta, precisamos discutir a relação, amanhã começo o regime, você não me ajuda, não tenho roupa, não me irrita que eu estou de TPM, você não tem responsabilidade alguma, e tantas outras mais. Para os solteiros, casados sem filhos ou sem herdeiros homens, crianças e idosos, o sumiço das mulheres na verdade fora um grito de liberdade. Poderiam comer e se vestir do jeito que quisessem, andar nus pela casa, deixar as coisas desarrumadas, jogar videogame ou futebol até enjoar, sair com os amigos para beber todos os dias, assistir quantos canais de esportes, pornôs e filmes de ação que pudessem suportar. No início fora a vida que pediram a Deus.

Porém, conforme o tempo foi passando, os pequenos prazeres pessoais já não compensavam a falta das mulheres. Aqueles que ainda tinham filhos homens estavam tendo dificuldades em criá-los sozinhos, muitas das obrigações para com a criança eram responsabilidades de suas esposas, a adaptação para ambas as partes estava sendo mais custosa do que se imaginara. O mercado financeiro sofreu um colapso quase que imediato, pois apesar de alguns setores terem seus faturamentos dobrados como comidas industrializadas, automobilístico ou pornográfico, muitos deles sofreram quedas drásticas, afinal as mulheres sempre foram famosas pelo consumismo e no final acabou se descobrindo que era essa compulsão que movimentava a economia de todo o mundo. Algumas profissões deixaram de existir como ginecologia e obstetria, outras tiveram que ser readaptadas por sofrerem uma perda drástica em seu quadro de empregados e pessoas habilitadas para a função e muitos homens tiveram que ser realocados. A violência, a obesidade e os índices de doenças cardíacas aumentaram. Os homens já sentiam falta de suas companheiras, de ter uma relação íntima, e foi aproveitando essa necessidade que uma empresa japonesa de bonecas de companhia acabou se tornando uma das mais ricas da atualidade. Os que não tinham condição de pagar por uma parceira de borracha ou queriam um contato físico, assim como na cadeia, procuraram seus confortos com pessoas do mesmo sexo.

Fizeram de tudo para achar o paradeiro das mulheres e trazê-las de volta, mas era como se elas simplesmente nunca tivessem existido. A vida continuou, a sociedade se adaptou e acabou se normalizando, mesmo assim eles sabiam que era questão de tempo até que a humanidade entrasse em extinção, afinal sempre fora no ventre feminino em que a vida se gerou. Agora elas só existiam em fotos, em filmes antigos e nas imaginações masculinas. Mesmo que alguns já não se lembrassem mais de como era a vida em suas companhias, muitos eram ainda os que alimentavam a esperança de que elas retornassem. Era fato a sobrevivência dos homens a falta delas, tanto masculino quanto feminino sempre foram aptos a fazer o que quisesse, mas fazia falta a sensibilidade, a sabedoria, a alegria delas, suas cores e suas formas. Perceberam que precisavam delas, não pela necessidade de lavar suas roupas ou fazer suas comidas e sim pela importância de suas presenças. A palavra de ordem era que se um dia alguém encontrasse uma mulher, em qualquer parte do mundo que fosse, a tratasse com muito respeito e carinho, pois agora mais do que nunca sabiam o valor que elas possuíam.

O Aluno

João era um senhor na casa dos seus quase oitenta anos que morava em uma cidadezinha do interior, muito simples e bem afastada da metrópole mais próxima. Todo seu sustento e de sua família fora retirado das lavouras e das colheitas, não conhecia outro tipo de vida e, apesar de ter sido dura e muito custosa, tinha orgulho do que conquistara até ali. Agora já não conseguia mais trabalhar com a terra, também pudera, tantos dias debaixo do sol escaldante colhendo dela seus frutos não é para qualquer um! Ainda tinha uma força de vontade incrível, mas seu corpo e saúde não lhe ajudavam mais. Hoje era sozinho, sua companheira há muito havia partido e depois que os filhos saíram da cidade se recusando a ter a mesma vida que ele levara, nunca mais os vira. Não sabia de muita coisa, nunca tivera a oportunidade de estudar, sua vida inteira fora a terra, porém carregara sempre consigo a vontade de aprender a ler. Era por isso que havia se emocionado quando, naquele ano, a primeira escola primaria da cidade fora inaugurada.

– Quero fazer uma matrícula – João disse à professora que estava recebendo os alunos na porta da escola.

– Claro! Se o senhor estiver com todos os documentos da criança em mãos é só ir até aquela salinha aos fundos que a secretária irá ajudá-lo com isso – a moça respondeu sorridente.

– Criança? Não, não! Eu quero fazer a minha matrícula – ele retrucou feliz. A mulher arregalou os olhos de espanto.

– Desculpe meu senhor, esta é uma escola de jardim e primário, talvez você encontre o que procura na cidade – ela respondeu encabulada.

– Minhas pernas já não me deixam mais fazer viagens tão longas. Eu posso estudar com as crianças, não há problema algum para mim nisso – João respondeu sorridente, indiferente ao constrangimento da jovem a sua frente.

– Sinto muito, mas não há lugar para o senhor aqui – ela respondeu certeira, porém estava destroçada por dentro. O homem desfez o sorriso e encarou a mulher com certa dúvida nos olhos. Ela terminou de receber as últimas crianças que chegavam e fechou o portão, deixando João sozinho.

Nas manhãs seguintes, a jovem professora se deparou com o senhor magro e curvo de cabelos grisalhos que a havia abordado no primeiro dia de aula. Ele nunca falara novamente com ela, ficava ali parado no portão com um caderno e um estojo na mão. A cena era de partir o coração. Se aquele senhor estava com tanta vontade de estudar qual era o problema em deixá-lo entrar? O pensamento lhe atormentava noite e dia, se fosse só por sua vontade já teria deixado o pobre coitado entrar, mas sabia que seria um alvoroço na cidade se algo assim acontecesse. Certa manhã, lá estava ele de novo com o seu caderno e estojo nas mãos, molhado da cabeça aos pés por causa da chuva que caia.

– Vamos, entre. Não quero ser responsável por sua pneumonia. – O senhor abriu um sorriso largo e seguiu a jovem até a sala.

Todas as semanas lá estava João, com seu caderno e estojo nas mãos. Era o primeiro a chegar e o último a sair. Prestava atenção em cada palavra que a professora dizia, fazia todas as lições e nunca faltava. Até mesmo levara alguns livros didáticos para casa a fim de recuperar o tempo perdido. Dava gosto de ver um senhor naquela idade estudar com tanto afinco. As crianças já haviam se acostumado com ele, gostavam de lhe ensinar cada letra do alfabeto e se divertiam com as coisas engraçadas e diferentes que o velho dizia. Até conseguirem a autorização da secretaria da educação sua estadia na escola fora uma luta difícil. Como a professora previra, alguns pais fizeram de tudo para que João fosse expulso daquele ambiente escolar, porém a jovem educadora estava determinada a lutar por ele, e tanta dedicação acabou sendo vitoriosa ao final. Os boatos e comentários de mau gosto ainda rodavam pela cidade. Onde já se viu um homem daquela idade querer aprender alguma coisa agora? Onde estava com a cabeça? Eu que não quero o meu filho perto de um louco como aquele! João ouvia a todos sem se importar com nenhum deles, nunca estivera tão realizado.

Em uma manhã de primavera, quase no final do semestre, João entrou na sala onde somente havia a professora, com lágrimas nos olhos e uma carta nas mãos.

– Srta. Elena, eu aprendi a ler! Há muito tenho essa carta guardada em minhas gavetas e nunca nem soube de quem era ou do que se tratava, graças à senhora agora eu sei. – Ele esticou o braço para que a mulher pudesse pegar o pedaço de papel.

“Querido pai, sei que minha despedida não foi uma das melhores e que fiquei muitos anos afastado, fingindo não ter uma família. Tinha vergonha por ter uma vida e pais tão simples! Eu era jovem e imaturo, não sabia o valor das coisas, porém hoje eu sei, agora consigo entender tudo que o senhor fez por toda nossa família. Estou escrevendo pois quero reatar nossos laços e fazer com que o seu neto conheça esse homem maravilhoso que o senhor é. Sei que encontrará um jeito de ler esta carta, pois você é assim, e ficarei ansioso esperando por sua resposta.”

Só mais um dia no complexo

Já estava me acostumando a acordar com as batidas incessantes de Alexia na minha porta nas manhãs de domingo. Desde a primeira semana no complexo fora assim e até hoje não falhara. Fui até a entrada e abri a porta, lá estava ela parada em suas roupas esportivas com um sorriso de orelha a orelha no rosto.

– Hoje eu não precisei gritar seu nome por horas até que você me atendesse? As coisas estão evoluindo por aqui! – ela comentou soltando um sorriso e já entrando em meu quarto. Dei risada também, nunca adiantava ficar de mau humor com Alexia, ela simplesmente me ignoraria se assim o fizesse.

– Quem tem uma amiga como você não precisa de despertador, Alexia – respondi. Ela deitou na cama e jogou o travesseiro em mim.

– Vai logo se arrumar! Estou prevendo mais suor hoje do que qualquer treinamento físico que tivemos durante a semana. – Fiz uma careta para ela jogando o travesseiro de volta e entrei no banheiro.

Domingo era o único dia livre na semana em nossa rotina de treinamentos, mesmo assim eram raros aqueles em que eu realmente tinha o dia inteiro só para mim. Todas as manhãs Alexia me buscava para fazer uma caminhada pelos arredores do complexo e, apesar de esportes em geral nunca terem sido um dos meus hobbies favoritos, aquelas andanças com ela acabavam se revelando muito divertidas, pois cada dia descobríamos algo novo sobre a propriedade. Nós andamos por mais de duas horas debaixo daquele sol escaldante do Texas, quando me despedi de Alexia só queria tomar um banho e ler algum dos meus livros até a hora do almoço, porém me deparei com Helder e Sakura me esperando na porta de meus aposentos.

– Aconteceu alguma coisa? – perguntei um pouco confusa enquanto me aproximava.

– Eu falei para você que ela tinha esquecido! – a japonesa disse olhando para Helder, depois se voltou para mim. – Nós íamos nos encontrar para definir algumas estratégias para os treinamentos da próxima semana, não se lembra? – Meu rosto enrubesceu no mesmo instante. Como eu poderia ter esquecido daquilo? Helder se aproximou e deu alguns tapinhas em meu ombro.

– Não se preocupe! Está livre agora? Tenho certeza que terminamos tudo antes do almoço. – Acenei com a cabeça e ele piscou para mim. Logo em seguida Helder se virou e começou a andar, fui atrás dele com Sakura correndo ao meu lado.

Sai do refeitório direto para o meu quarto tomar um banho. Que dia! Desde que acordara não tinha parado um minuto sequer e para meu infortúnio não seria agora que esta situação iria mudar, estava quase no horário em que Matheus e eu nos encontrávamos para desenvolver o relatório semanal do Instituto. A biblioteca era uma sala ampla com vários computadores de consulta e mesas redondas para estudos em grupos. Assim que entrei vi Kazuki, Louis e Adeline ocupando uma das mesas com livros e cadernos espalhados por todos os lados.

– Boa tarde! – sussurrei ao me aproximar. Louis e os outros levantaram os olhos dos cadernos.

– Ah, boa tarde, Iris! Veio estudar também? – Louis perguntou abrindo um sorriso simpático. As avaliações finais estavam chegando e muitos de nossa equipe estavam se preparando para elas. Adeline bufou para o primo.

– É claro que não Louis! Você não sabe que ela encontra todo domingo com Matheus para fazer sei lá o quê? – Sua frase soou um tanto irritada e estranhamente aquilo me deixou satisfeita. Adeline virou para o lado me ignorando. – Kazuki, me explique novamente isso aqui e vê se dessa vez faz direito, não dá para entender nada do que você fala! – Ela empurrou um dos livros na direção do japonês. Louis pareceu ficar irritado.

– Adeline, seja educada, ele está nos fazendo um favor. E fale mais baixo, estamos em um local de estudo. – A francesa ignorou os avisos do primo e ele contrariado somente balançou a cabeça.

– Sakura está vindo estudar conosco, talvez ela consiga lhe explicar melhor – Kazuki respondeu tentando se desculpar. Me despedi dos três antes que eu acabasse discutindo com Adeline e deixei com que continuassem com seus estudos, afinal parecia que aquilo não iria terminar tão cedo.

Matheus estava sentado sozinho em uma das mesas ao fundo da sala, seu rosto sendo iluminado pela tela do notebook a sua frente. Assim que me aproximei ele levantou o olhar, me encarando.

– Está atrasada! – ele disse emburrado e voltou a digitar os dados no computador. Puxei uma das cadeiras ao seu lado e me sentei.

– Desculpe! – respondi sem me abalar e peguei os relatórios sobre a mesa. – Em que dia da semana está? Posso colocar meus dados depois se for te atrapalhar. – Ele me olhou de soslaio e soltou um sorriso irônico.

– Se fosse para cada um fazer o seu relatório não precisávamos nos encontrar toda semana. – Fechei a cara o encarando. Nossa relação tinha melhorado muito nos últimos tempos, porém ainda hoje havia momentos como esse onde acabávamos nos estranhando. – Ou talvez você só queira uma desculpa para ficar a sós comigo – ele completou sem tirar os olhos de mim. Senti meu rosto corar.

– Não seja idiota! Quem está dizendo que temos que fazer o relatório juntos é você, talvez não seja eu quem queira uma desculpa para nos encontrarmos! – disse virando a cara e cruzando os braços, Matheus começou a rir fazendo com que sua covinha aparecesse.

– Vamos, me dê suas anotações que eu já insiro aqui junto com as minhas – ele disse ainda sorrindo, eu lhe passei os papéis sem dizer mais nada e dando por encerrado o assunto.

Assim que deixei a biblioteca fui para a sala de comunicação. Além de domingo ser o único dia na semana de folga ele também era o único em que podíamos nos comunicar com o mundo fora daquelas paredes, era o momento em que eu conseguia falar com meus pais e Rafael. A sala estava lotada, não havia nenhum terminal disponível, quando estava quase desistindo e calculando se ainda teria tempo para voltar mais tarde, Yvon, que estava em um dos terminais, acenou para que eu me aproximasse.

– Olá, Iris! Se quiser pode usar a minha máquina, já estou deslogando. – Ele fechou todas as telas e desconectou seu usuário, depois se levantou dando espaço para que eu me sentasse em seu lugar.

– Muito obrigada Yvon, você me salvou hoje! – disse já ocupando a cadeira. Ele sorriu um pouco encabulado e acenando um adeus deixou a sala. Esperei que fosse embora e voltei minha atenção para a máquina. Por que não queria funcionar? Estava normal até agora! – Que droga de computador! – resmunguei baixinho.

– Quer que eu dê uma olhada? – Não tinha visto que Peter estava ao meu lado, sorri para ele e dei espaço para que mexesse no meu terminal. Ele tentou algumas configurações, fechou alguns programas e por fim abriu a tela de login novamente. – Acho que agora irá funcionar – ele disse voltando para seu lugar e ajeitando os óculos.

– Obrigada! Você já é o segundo que me salva hoje – disse contente e ele enrubesceu. Acenei em agradecimento e fui me conectar com o mundo externo.

Passou pela minha cabeça pular o jantar daquela noite enquanto caminhava de volta para o meu quarto. Eu estava tão cansada que por mais que as refeições fossem um dos raros momentos em que conseguíamos reunir a equipe toda sem a obrigação de um treino e fossem muito prazerosas, a ideia de ficar quietinha no meu canto me soou um tanto quanto convidativa. Senti alguém esbarrando em mim e quase fui ao chão. Assim que consegui me equilibrar novamente olhei para ver quem é que tinha me atropelado. Enzo voltava correndo para me ajudar.

– Desculpe Iris! Estou tão apressado que não te vi. Está tudo bem? – Fiz que sim com a cabeça e ele soltou um sorriso despreocupado. – Que ótimo! Eu estou vendo os últimos detalhes da nossa noite de liberdade, por isso estava avoado. – Ele já tinha começado a fazer seu caminho de volta quando gritou: – Não vai esquecer que hoje teremos a grande votação, portanto nada de faltar ao jantar! – Droga! Tinha esquecido completamente que hoje teria a tal votação para ver em qual lugar comemoraríamos nossa noite fora do complexo, e lá se iam meus planos pelo ar.

A votação não fora assim tão conturbada como achei que seria, houve algumas divergências de opinião, como Elissa e Josh, onde a primeira defendia a ideia de confraternizarmos em um lugar mais reservado e tranquilo enquanto o outro queria algo mais agitado, mas por fim a maioria concordou com Elissa e Josh, para a surpresa de todos já que ele sempre era um pouco esquentado, aceitou tudo numa boa. Deitada em minha cama pensei no treinamento físico que teríamos logo cedo no outro dia, eles sempre me causavam arrepios. O domingo finalmente acabara, mas a semana havia apenas começado. Suspirei cansada. Fora só mais um dia agitado, como outro qualquer, no complexo.

O Cairara

Em um reino distante havia um soberano muito bom e generoso. Ele tinha sabedoria em demasia e sempre tomava as melhores decisões para seu povo, todos o adoravam. Todos, exceto ele mesmo. Por mais que tivesse diversas qualidades, toda vez que se olhava no espelho o que via era um homem feio, desengonçado e acima do peso. Martirizava-se por não ser esbelto e forte como os outros homens da corte e achava que por mais que fosse sábio e bondoso nunca seria bom o suficiente. Durante anos tentou de todas as maneiras mudar sua aparência, falou com curandeiros, profetas e até mesmo provou algumas receitas milagrosas, mas nada trazia o resultado esperado.

Certo dia, enquanto fazia uma de suas cavalgadas pela floresta, observou um grupo de macacos que de uma árvore um pequeno fruto desfrutava. Notou como eram ágeis e esbeltos e logo pensou em como gostaria de ser como eles. Por vários dias visitou o mesmo local e em todos eles via a família de primatas saboreando as tais frutas, os animais pareciam cada vez mais fortes e saudáveis e foi então que uma ideia lhe surgiu: poderia ser fruto que lhes proporcionasse tanta força e destreza? Pediu para que seus homens colhessem todas as frutas que encontrassem e levassem para o castelo. Lá ordenou ao seu curandeiro que fizesse uma infusão usando o pequeno alimento, esse no começo se recusara a obedecer tal ordem por não saber que espécie de planta era aquela, mas acabou cedendo aos comandos de seu rei e o chá preparou. Por sete dias o monarca tomou o preparo e, além de todas as expectativas, a mistura começou a dar resultados. Seus braços e pernas ficaram mais finos, o tronco mais alongado, perdeu peso e criou músculos onde até então não existiam.

O monarca era só alegria. Sua autoestima estava melhor que nunca, se sentia completo. Era inteligente, bondoso e agora bonito. Começou a frequentar todos os bailes da corte com prazer e tirava todas as mulheres para dançar até o sol nascer. Ficou ainda mais popular, além de um rei generoso, agora ele era conhecido por seu entusiasmo e beleza. Anunciou em todo o reino que pretendia se casar e uma esposa foi procurar. Pensou que a vida seria perfeita enquanto a infusão continuasse a tomar. Mas algo de estranho começou a notar, ainda tinha sua postura ereta e musculosa, mas pelos estavam surgindo em demasia no seu corpo e certa noite reparou que um rabo lhe crescia. Desesperado o chá parou de tomar, porém os efeitos colaterais continuaram a aflorar.

Do rei nunca mais se ouviu falar, ninguém sabe o que lhe aconteceu, em uma noite qualquer ele simplesmente desapareceu e o povoado nunca mais teve outro monarca tão generoso, sábio e bondoso como aquele. O reino se foi junto com seu líder, há muito não existe mais. Ninguém sabe dizer ao certo quando que a ruína começou, porém todos concordam que foi por causa da ausência de um bom soberano que tudo se afundou. A floresta que circundava a cidade ainda existe e ela continua sendo o lar de muitos primatas, dizem que uma nova raça deles surgiu logo após o desaparecimento do rei, os Cairaras. Uma espécie de macacos muito finos e esbeltos e que surpreendem todos que visitam a região por sua inteligência e engenhosidade.

Inspirado na lenda dos Cairaras

Yvon – 3 anos antes

A Estação Espacial era o mais próximo que Yvon poderia chamar de lar nos últimos tempos. Ele já estava estacionado naquela base há oito meses e ainda faltavam mais algumas semanas para que ele pudesse retornar a Terra. Conhecia tudo como a palma de sua mão, mas também não havia muito que explorar no local, já que, apesar de ser um laboratório de alta tecnologia em órbita baixa terrestre, não era um espaço tão grande ao ponto de alguém se perder, ainda mais se este estivesse vivendo ali por tanto tempo. Sua missão era basicamente desenvolver pesquisas que em Terra seriam mais difíceis ou mesmo impossíveis de se executar e passar esses resultados para a base de campo. Yvon amava o que fazia, sempre gostou da sensação de liberdade que sentia ao estar no espaço, nem mesmo reclamava de ter que trabalhar em conjunto com sua base, como muitos ali faziam, pois até nisso tivera sorte, afinal sua parceira em Terra era uma grande amiga e extremamente habilidosa. Mesmo que agora Elissa não estivesse em seu melhor momento, sua mãe havia sido diagnosticada com uma doença terminal e ela estava tendo que lidar com muita coisa ao mesmo tempo, ainda assim não a trocaria por nenhum outro.

A estação sempre contava com uma equipe de três membros que de tempos em tempos era substituída por uma nova com o mesmo número de pessoas. Quando essas trocas ocorriam, as duas equipes, nova e antiga, conviviam por alguns dias até que todos os procedimentos fossem passados e todas as tarefas organizadas. Nestas ocasiões o convívio acabava se tornando um desafio, afinal todo espaço tinha que ser divido para o dobro de tripulantes. Todos corriam contra o tempo no laboratório, em algumas semanas a nova equipe seria enviada e tudo tinha que estar alinhado para que esta conseguisse seguir com as pesquisas sem grandes esforços ou atrasos, era crucial que tudo estivesse funcionando e em perfeita ordem até sua chegada. Yvon adorava estar em órbita, mas já contava os dias para finalmente estar na Terra, sentia falta da família e dos amigos, já tinha até elaborado alguns planos para o seu retorno. Ele estava em sua estação de trabalho concentrado em finalizar alguns dos procedimentos que começara uns dias atrás, quando um dos rapazes foi até ele tentar debater dados de uma das pesquisas em que trabalhavam, no final este acabou desistindo da empreitada. Quando Yvon se concentrava em uma tarefa era como se imergisse nela e nada mais a sua volta existisse, era difícil de desviar o seu foco ou chamar sua atenção quando estava envolto em suas obrigações, ainda assim, um bipe fino soava insistente há algum tempo, tentando tirar sua concentração, parecia que todos resolveram falar com ele justamente no momento em que estava concentrado em sua tarefa. Yvon sabia que era uma chamada direta da base terrestre, mas apesar do barulho estar começando a irritá-lo ele decidiu por bem ignorar o alerta, estava em um momento importante de suas análises, retornaria quando estivesse desocupado. O toque continuou a persistir até que uma tela de vídeo chamada abriu automaticamente no seu monitor.

– Yvon Petrov? – Um senhor de meia idade vestido em um terno preto e com os cabelos grisalhos devidamente arrumados em gel apareceu em sua tela de trabalho. Yvon não fazia ideia de quem era o sujeito, não se lembrava de tê-lo visto na base de comandos nenhuma vez sequer. Onde estava Elissa? Ele confirmou a identidade acenando com a cabeça, ainda incerto sobre do que se tratava aquilo. – Sou Mikhail Bikov, gerente dos projetos internacionais da agência. Estamos com uma missão urgente e de extrema importância e queremos que você faça parte da equipe.

– Que tipo de missão? – Yvon perguntou interessado. O departamento internacional nunca o havia procurado antes.

– As informações são sigilosas, por isso os detalhes serão passados pessoalmente logo que você chegar à base. – Yvon acenou concordando.

– Tudo bem. Estou voltando em algumas semanas, assim que estiver em Terra procuro o departamento internacional e…

– Não, já organizamos tudo para o seu retorno. Não conseguimos adiantar toda a tripulação, mas o seu substituto já está sendo enviado para a estação. – Yvon olhou surpreso para o homem que estava em sua tela. – Estamos no seu aguardo, Sr. Petrov, nos vemos dentro em alguns dias.

O Nascimento da Folia

Eu não tenho local e nem data de nascimento. Já passei em diferentes formas por vários lugares do mundo, nas mais variadas épocas. Representei diversas culturas e credos, fui dos pagãos aos cristãos. Não tenho preconceito, aceito qualquer povo, raça ou religião, onde me chamarem estarei lá para a festa começar. Nem daqui ou dali, de lá ou de acolá, sem lugar fixo onde me encaixar e sem fronteiras para me barrar. Eu sou folião, eu sou do mundo!

Já estive na Babilônia antiga e na Mesopotâmia, época em que eu tinha a mania de subverter os papéis sociais. Transformava prisioneiros em reis, humilhava soberanos em frente aos Deuses e transformava senhores em escravos. Se paro para pensar com clareza em toda minha trajetória eu chego à conclusão de que nunca deixei de ser assim, talvez nunca fora uma mania e sim parte da minha personalidade de fato, já que eu continuei a inverter papéis sempre que meu nome era clamado. Na idade média fiz jovens homens saírem às ruas vestidos de mulher fingindo ser habitantes da fronteira entre o mundo dos mortos e dos vivos, só para comerem e beberem de graça em residências alheias e ainda roubarem beijos das jovens que ali habitavam. As pessoas sempre me viram como um período de liberdade, onde poderiam ser o que não eram ou inventar um novo personagem, ainda hoje, todos aproveitam minha passagem e se transformam no que quiserem.

Quando estive em Roma e na Grécia fui festas que duravam dias, era regado de boa bebida e muita comida, havia diversas danças e rituais. Na época renascentista da Itália participei de teatros improvisados e acabei sendo muito popular por lá até o século XIII. Foram criadas canções em Florença para acompanhar os desfiles feitos em meu nome que até mesmo sustentavam carros decorados. Passei novamente por Roma e fui a Veneza, nestes locais as pessoas usavam máscaras brancas com capuzes que cobriam dos ombros a cabeça toda vez que estavam em minha presença. Era constantemente associado aos prazeres carnais e até mesmo a Igreja, sempre tão rígida, acabou se rendendo a mim transformando-me em um marco de liberdade antes do período de severidade religiosa relacionado a quaresma.

De tantas idas e vindas, de andanças e danças, acabei chegando ao Novo Mundo e foi na época colonial que fiz minhas primeiras aparições com o entrudo, uma festa portuguesa que era praticada por escravos em suas colônias. A cultura foi se transformando e moldando, passando de lugar em lugar e com isso vieram os cordões e ranchos, corsos e até mesmo escolas de samba. Posso dizer, com toda certeza, que viajei muito e ainda participo de tantas outras culturas, mas é em terras tupiniquins onde me sinto mais querido e popular, pois foi nelas onde tive a oportunidade de me manifestar em inúmeras formas. Afoxés, frevos e maracatus também se tornaram minha tradição e de marchinha em marchinha me transformei na maior manifestação cultural do Brasil. Não importa se você é adepto das folias ou só gosta mesmo é de curtir um bom feriado prolongado, porque a verdade é uma só, de um jeito ou de outro estou aqui e vim para ficar.

Já tive vários nomes: Saceias, Bacanais, Saturnálias ou Lupercálias e tantos outros mais; porém nenhum deles foi tão popular como o atual. Prazer, eu sou o Carnaval!