O Nascimento da Folia

Eu não tenho local e nem data de nascimento. Já passei em diferentes formas por vários lugares do mundo, nas mais variadas épocas. Representei diversas culturas e credos, fui dos pagãos aos cristãos. Não tenho preconceito, aceito qualquer povo, raça ou religião, onde me chamarem estarei lá para a festa começar. Nem daqui ou dali, de lá ou de acolá, sem lugar fixo onde me encaixar e sem fronteiras para me barrar. Eu sou folião, eu sou do mundo!

Já estive na Babilônia antiga e na Mesopotâmia, época em que eu tinha a mania de subverter os papéis sociais. Transformava prisioneiros em reis, humilhava soberanos em frente aos Deuses e transformava senhores em escravos. Se paro para pensar com clareza em toda minha trajetória eu chego à conclusão de que nunca deixei de ser assim, talvez nunca fora uma mania e sim parte da minha personalidade de fato, já que eu continuei a inverter papéis sempre que meu nome era clamado. Na idade média fiz jovens homens saírem às ruas vestidos de mulher fingindo ser habitantes da fronteira entre o mundo dos mortos e dos vivos, só para comerem e beberem de graça em residências alheias e ainda roubarem beijos das jovens que ali habitavam. As pessoas sempre me viram como um período de liberdade, onde poderiam ser o que não eram ou inventar um novo personagem, ainda hoje, todos aproveitam minha passagem e se transformam no que quiserem.

Quando estive em Roma e na Grécia fui festas que duravam dias, era regado de boa bebida e muita comida, havia diversas danças e rituais. Na época renascentista da Itália participei de teatros improvisados e acabei sendo muito popular por lá até o século XIII. Foram criadas canções em Florença para acompanhar os desfiles feitos em meu nome que até mesmo sustentavam carros decorados. Passei novamente por Roma e fui a Veneza, nestes locais as pessoas usavam máscaras brancas com capuzes que cobriam dos ombros a cabeça toda vez que estavam em minha presença. Era constantemente associado aos prazeres carnais e até mesmo a Igreja, sempre tão rígida, acabou se rendendo a mim transformando-me em um marco de liberdade antes do período de severidade religiosa relacionado a quaresma.

De tantas idas e vindas, de andanças e danças, acabei chegando ao Novo Mundo e foi na época colonial que fiz minhas primeiras aparições com o entrudo, uma festa portuguesa que era praticada por escravos em suas colônias. A cultura foi se transformando e moldando, passando de lugar em lugar e com isso vieram os cordões e ranchos, corsos e até mesmo escolas de samba. Posso dizer, com toda certeza, que viajei muito e ainda participo de tantas outras culturas, mas é em terras tupiniquins onde me sinto mais querido e popular, pois foi nelas onde tive a oportunidade de me manifestar em inúmeras formas. Afoxés, frevos e maracatus também se tornaram minha tradição e de marchinha em marchinha me transformei na maior manifestação cultural do Brasil. Não importa se você é adepto das folias ou só gosta mesmo é de curtir um bom feriado prolongado, porque a verdade é uma só, de um jeito ou de outro estou aqui e vim para ficar.

Já tive vários nomes: Saceias, Bacanais, Saturnálias ou Lupercálias e tantos outros mais; porém nenhum deles foi tão popular como o atual. Prazer, eu sou o Carnaval!

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