De repente pai

Paulo estava em frente ao espelho tentando acertar o nó da gravata, enquanto ensaiava o que iria falar na reunião da empresa daquela manhã. “Droga! Isso ainda não está bom e eu já estou atrasado.”, resmungou. Quando finalmente se deu por satisfeito, pegou sua maleta e assim que alcançou a porta, escutou a campainha.

– Sr. Paulo Mendes? Sou Bete da assistência social. Tem um minuto? – a moça de meia idade e óculos parada em sua porta anunciou sem muita delonga.

– Na verdade eu estava agora mesmo…

–Você conhece a Aline Dantas? – a mulher interrompeu-o.

– Sim, é a minha ex. Algum problema com ela? – Paulo respondeu incerto.

– O senhor não deve saber, mas a Srta. Aline faleceu em um acidente de carro há algumas semanas e ela deixou instruções específicas para que a guarda de sua filha fosse dadaao pai, Paulo Mendes.

Paulo olhou atônito para a mulher a sua frente, o ar, de repente, faltando em seu pulmão. Ele largou a maleta no chão e afrouxou o nó da gravata.

– Deve haver algum engano! Eu não tenho notícias de Aline há mais de um ano e… Meu Deus! Aline está morta? – A mulher continuou a encará-lo sem se abalar. – Mas eu não posso ser o pai! Eu nem sabia que ela estava grávida e…

A mulher deu alguns passos para o lado e abriu espaço a um rapaz o qual trazia no colo uma linda criança vestida em um body rosa com uma tiara de laço na cabeça. A pequena menina sorriu para Paulo, abrindo e fechando as mãozinhas em sua direção.

– Sei que é muita informação para processar. Podemos entrar e conversar um pouco a respeito?

Paulo acenou mecanicamente com a cabeça, ainda encarando a pequena nos braços do rapaz. Abriu espaço para que os dois estranhos entrassem.

Lá estava ele sentado no sofá, encarando o pequeno bebê deitado na cadeirinha ao seu lado. “Onde estava com a cabeça quando aceitou que a menina ficasse em sua casa até as coisas se resolverem? Mal sabia dar nó em gravata, quanto mais cuidar de uma criança!”, pensou. A pequena esticou o braço e pegou o dedo de Paulo, balançando-o e rindo. Ele sorriu de volta e respirou fundo. Não poderia simplesmente largar a menina em um abrigo qualquer e, de qualquer forma, seria por pouco tempo, os avós já estavam atrás das papeladas para conseguir a guarda da criança.

– Ei! Seu nome é Bianca, não? Acho que vamos passar algum tempo juntos – ele disse sacudindo o dedo que a menina ainda segurava e a mesma sorriu.

Sentia-se mais animado, afinal, o quão difícil poderia ser cuidar de um bebê por algumas poucas semanas? Era só alimentar, trocar fralda, dar banho e colocar para dormir, não é mesmo? Uma pequena mudança em sua rotina não seria o fim do mundo.

Quem inventou os bebês definitivamente estava pensando na extinção da raça humana quando o fez, porque nenhuma pessoa, em sã consciência, iria querer outro depois de passar por tal experiência. Aquele ser era uma máquina de choro e fraldas sujas! Paulo estava exausto. Não dormia mais, seu desempenho no trabalho estava péssimo e sua vida social tinha sido reduzida a nada; tudo isso em apenas DUAS semanas! O poder destrutivo daquela miniatura de gente era impressionante. Ele não entendia como sua vizinha conseguia achar que Bianca era uma criança boazinha e adorável. Com certeza, a pequena meliante comportava-se enquanto estava sob os cuidados da moça e guardava toda sua energia e reclamações para quando Paulo chegasse em casa. Tudo devidamente orquestrado a fim de transformar sua vida em um inferno! Todos os dias, ligava desesperado para a assistente social a fim de saber como andavam os tramites da guarda de Bianca e sempre recebia a mesma resposta inconclusiva sobre o assunto.

As semanas viraram meses. Paulo agora entendia o que cada choro de Bianca significava: hora de comer, trocar a fralda, gases e só manha. Já sabia do que a menina gostava e do que desgostava. E conforme o tempo passava, menos trabalho a criança dava. Aprendeu a fazer papinha de bebê, a cantar para ela enquanto a ninava, a escolher as roupas certas para cada ocasião e temperatura. Encheu-se de orgulho quando viu que ela conseguia identificar formas geométricas, cores e tantas outras coisas mais. Parou de ligar tão constantemente para a assistente social, pois, de uma hora para outra, seu coração apertava toda vez que pensava em ter que deixar a pequena criança.

Paulo assistia, como agora era de costume, seus desenhos favoritos de infância com Bianca, e fazia questão de salientar à menina o porquê de os mesmos serem tão especiais e instrutivos;quando a menina começou a resmungar.

– Pa-pa, pa-pa… – ela disse enquanto esticava os braços para pedir colo.

– Do que foi que me chamou? – Paulo perguntou emocionado.

– Pa-pa, pa-pa… – a menina continuou. Paulo, emocionado, sorriu e puxou Bianca para os braços, onde a mesma aconchegou-se.

Na manhã seguinte, ele ligou para o escritório avisando que não iria trabalhar, já que cuidaria, com urgência, de alguns assuntos pessoais, pois, na noite anterior,havia se tornado pai.

Série profissões: O Ascensorista

A vida de José era subir e descer o dia inteiro dentro daquele cubículo. Já havia passado por outros empregos ao longo de sua existência, porém, fora ali, naquele ambiente minúsculo, que escolhera terminar os seus dias como empregado. Era um prédio antigo, com toda a pompa e luxo que só uma construção do século passado consegue oferecer. E ele agradecia por isso já que sua profissão era algo em extinção, afinal, quem é que precisa de ascensor para apertar um botão?

Há quem diga que isso não é vida, ficar o dia todo para baixo e para cima carregando pessoas desconhecidas. Porém, era justamente disso que José mais gostava. Famílias inteiras moravam ali. Com seus filhos, netos, bisnetos, amigos, esposas, maridos, amantes e tantos outros conhecidos passando por aqueles elevadores noite e dia. Sabia de suas histórias e emoções; coisas que eram contadas ou que ficavam subentendidas.

A mãe solteira do terceiro andar que saia cedo para deixar sua filha na escola antes de ir para a empresa; o senhor do quinto, o qual sempre reclamava que estava cansado, mas toda manhã lá estava ele, vestido em seu terno para ir trabalhar; a jovem senhora do segundo, que todas as terças e quintas-feiras saia à tarde para suas atividades no clube da terceira idade. Crianças que desciam para brincar e jovens a fim de namorar. Havia o garoto do oitavo, o qual todos diziam ser vagabundo, pois ninguém o via sair para trabalhar, mas todos o escutavam voltar de suas noitadas. Contudo, José sabia, que na verdade, o rapaz passava suas noites desenvolvendo o ofício de segurança em uma boate a fim de juntar dinheiro para pagar sua faculdade. Era tanta gente em seus vaivéns que alguns poderiam se tornar indiferentes, mas não aquele ascensorista.

– Bom dia, Sr. José! Como vai a família?

– Muito bem, obrigado, Dona Maria.

Era noite na cidade e José finalmente havia chegado em casa, depois de um longo dia de trabalho. Abriu a porta da frente e seu cachorro correu fazer festa para recebê-lo. Acariciou e brincou um pouco com o danado, antes de ir à cozinha fazer sua refeição. Após o jantar, se acomodou em sua poltrona para assistir um pouco de televisão. Fora o som do aparelho, tudo estava em silêncio. Acabou pegando no sono e, quando foi ver, quase passou no assento até o amanhecer. Levantou-se e foi para o quarto. Antes de voltar a dormir, pegou o porta-retratos           com a foto de sua falecida esposa na cômoda ao lado da cama.

– Boa noite, minha querida!

Mas que ironia! Por passar o tempo subindo e descendo sem parar, José conhecia a todos que no prédio moravam. Porém, mesmo que estivesse sempre no mesmo lugar, poucos sabiam sobre sua vida mencionar.

Do Ventre

Quinta Semana

Era escuro, úmido, tinha tanto espaço! Onde eu estava? O que estava fazendo ali? O que eu era? Não sabia, tinha acabado de criar consciência. Sou uma forma estranha de vida. Transparente com uma calda. Há coisas diferentes se formando dentro de mim.

Nona Semana

Minha calda sumiu. Agora tenho braços e pernas, coisas finas e compridas que se estendem no inferior e nas laterais de meu corpo e terminam em cinco pontas ainda mais delgadas que eles, meus dedos. Tem duas coisas pontudas nascendo nas laterais de minha cabeça. O que serão elas?

Décima Semana

Minha forma mudou completamente! Meu rosto está se moldando e coisas estranhas começam a crescer em minha boca. Dentro de mim tudo está tomando forma. Meus dedos não têm mais aquela membrana fina entre eles, ficaram ainda mais finos. Estou orgulhoso! Eu era um ser com calda e agora sou um feto. Seja lá o que isso quer dizer!

Décima Segunda Semana

Rins e bexiga funcionando. Saiu um líquido estranho hoje de mim! Achei que isso não era certo, então o engoli novamente.

Décima Quarta Semana

Meu rosto está tão engraçado! Aprendi que as pontas nas laterais são as orelhas e, assim como meus olhos, elas estão em seus devidos lugares. É tão divertido que me dá vontade de fazer caretas!

Entre Quinze e Vinte Semanas

Já me acostumei com o espaço escuro e úmido, até gosto! Porém, está ficando cada vez mais apertado aqui dentro. Agora consigo sentir que este lugar é bem quentinho, isso é gostoso! Ouço sons. Tem um batimento dentro de mim que não para. E o mais engraçado é que escuto um do lado de fora também! Meus braços e pernas estão ficando mais firmes, algo dentro deles está mudando, deixando-os mais duros. Sabe o que mais? Agora eu consigo chupar meus dedos! Não é demais?! Está tão apertado! Opa, acho que me estiquei além da conta e acabei chutando alguém.

Entre Vinte e uma e Vinte e oito Semanas

Sou o rei do mundo! Meus sentidos estão a mil. Consigo tocar, sentir, engolir e até tenho soluços. No começo, eu abria meus olhos, mas nada conseguia ver. Agora isso mudou, enxergo luz! Ouço tantas coisas! Os batimentos continuam e, com eles, há vários sons externos. Tem uma voz que sempre fala comigo, diz coisas como: eu te amo, não vejo a hora de você estar aqui comigo, meu pequenino. Não sei o que nada disso significa, mas gosto muito dessa voz! Somos amigas. Sinto paz com ela.

Trigésima Sétima Semana

Minha pele está mais lisa e eu virei de ponta cabeça. Isso não é nada confortável! Alias, está muito, muito apertado por aqui! Quase não há espaço para mim. Na verdade, não estou me sentindo tão bem. Acho que tem algo de estranho acontecendo! Estão me empurrando, mas para onde? O líquido soltou e parece que quer me levar junto com ele. Não quero ir, estou com medo! Definitivamente estão querendo me tirar daqui. Voz, cadê você? Por favor, me ajude!

É tão grande, claro e frio! Que lugar estranho é esse? Eu quero minha casa! Coloquem-me lá dentro de novo! Onde estou? Sinto tanta coisa diferente! Quanto medo! Estou sozinha? Voz, cadê você? Ajude-me, por favor!

– Oi, querida! É a mamãe.

Espere um momento, eu reconheço esse som! Voz! É você? Voz, você está aqui? Cadê você? Graças a Deus o frio passou! Não sei onde estou, mas é quentinho e aconchegante. Estou com uma sensação tão familiar! Parece que, finalmente, voltei para casa. Abri meus olhos.

– Oi, Clara! Bem vinda ao mundo! – Nossa! Quem diria que a voz tinha um rosto como o meu? Ela é bonita! Mamãe. Minha mãe! A voz sorriu e eu, sorri de volta.

Mesa Redonda

Aquele era mais um dia importante. Na verdade, para Brás Cubas, todos os dias em que se reuniam para deliberar a aquisição de um novo membro ao clube, eram de suma importância. Estavam todos presentes, bem, quase todos, pelo menos tinha seu lugar a mesa, já sua presença, era complicada.

– Podemos começar? – disse ele que, mesmo sem estar lá, mediava a discussão.

– Antes de qualquer coisa, alguém poderia me explicar por que sempre é o póstumo que tem a palavra final em nossas decisões? – A boneca, de cabelos de panos vermelhos e amarelos, vestida em seu traje colorido, estava irritada. Para ela, nada daquilo era necessário. Se o novato cumpria a todos os requisitos, para que deliberar sua participação?

– Quando conseguir contar sua história após sua morte, conversaremos sobre o assunto – comentou a mulher que desde o nascimento carregava olhos de cigana oblíqua e dissimulada.

– Se o critério para tal cargo são os feitos, talvez a mediadora disso tudo devesse ser você, Capitu. Afinal, é preciso muita destreza para deixar todos na dúvida sobre uma simples traição – a boneca de pano retrucou. Uma mulher que, até então, estava quieta em seu canto somente datilografando tudo o que era discutido, trocou um olhar de dúvida com os presentes.

– É prudente discutir este tipo de assunto na frente da criança? Devo relatar o acontecido em ata? – perguntou com seu jeito simples e sotaque puxado. Olhou para o menino que tinha uma panela na cabeça e estava sentado ao seu lado. Ele ria inocente enquanto brincava, alheio a qualquer discussão.

– Não será preciso constar em ata. – Macabéa acenou com a cabeça e continuou a dedilhar em sua máquina de escrever. Brás Cubas olhou para a boneca. – Emília, por favor, estamos aqui para deliberar se Ablon, o anjo renegado, será ou não um membro do nosso clube de personagens da literatura brasileira. Qualquer assunto que não seja pertinente a esta reunião será debatido em outra ocasião.

Emília mostrou a língua para o póstumo, calando-se. Crianças e seus caprichos. O velho cansado balançou a cabeça. Sabia que nunca fora santo, porém, por mais que tivesse aprontado em vida, agora estava ali de bom grado. Não merecia ser questionado. Pediu para que cada um votasse dando sua opinião sobre o assunto discutido. A disputa estava um tanto quanto acirrada, metade da sala defendia a permanência do novato no clube enquanto a outra parte se mantinha fixada às tradições.

– É um personagem de um livro cujo autor é brasileiro. Preenche todos os requisitos, por que não entrar para o nosso clube? – Emília questionava novamente.

– Mas o novato não é um clássico! – um dos personagens de Os Lusíadas indagou.

– E qual é o problema com isso? Você também não era um em sua época.

– Mas agora somos! E isso faz toda a diferença.

A discussão prosseguiu-se por mais algumas horas a fio. Deixar ou não deixar Ablon entrar? Ter somente clássicos ou expandir as raízes do clube? Eram tantos questionamentos, tantas indagações. Capitu olhou ao redor da sala e bufou. Nesse ritmo nunca mais sairiam daquele impasse. Até que um homem, escondido entre tantos outros personagens se manifestou:

– Em minhas andanças eu vi de tudo e conheci muita gente. Descobri verdades que nunca antes me foram ditas e, em contrapartida, que eu acreditava em tantas outras mentiras. Posso afirmar, com toda a certeza, que a literatura de um país não é formada somente de um ou outro estilo, mas de vários. Ela é parte da cultura de um povo e, como tal, se manifesta de várias formas. Não importa se os livros são clássicos, fantasia, poesia, ficção ou romance; se são para adultos, crianças ou simplesmente informativos. No final, todos eles são parte da mesma manifestação cultural. – Capitu reconheceu o rapaz que discursava, era Santiago, o pastor andarilho. Por mais que o mesmo quase nunca aparecesse nas reuniões do grupo, por conta de suas viagens, ela tinha certeza de sua identidade.

A sala ficou em silêncio por algum tempo até que um dos personagens votou a favor da inclusão do novato ao clube, para logo em seguida, vários outros seguirem seu exemplo. Com o pequeno discurso de Santiago o impasse se resolveu. E naquela tarde, Ablon, o anjo renegado, tornou-se um membro do clube de personagens da literatura brasileira. Antes que todos voltassem a suas histórias, Brás Cubas pediu um pouco mais de suas atenções.

– Semana que vem iremos nos reunir neste mesmo local e horário para debater a entrada de outra novata em nosso clube. Os detalhes sobre a mesma estão nos arquivos que lhes entreguei. – Macabéa pegou a pasta que estava em cima da mesa e folheou seu conteúdo.

– Uma astronauta? Aonde iremos parar desse jeito? – Santiago balançou a cabeça soltando um leve sorriso.

– Aonde a imaginação nos levar, minha amiga! Aonde ela nos levar.

Visita 128

Leandro viu a placa indicadora de divisão de municípios passar por seu retrovisor e um frio percorreu por sua espinha. Faltava pouco para chegar ao seu destino. Já tinha considerado a possibilidade de jogar o carro contra um poste ou de uma ponte; uma temporada no hospital com certeza seria uma hospedagem cinco estrelas se comparada ao lugar para onde estava indo. Porém, a ideia, apesar de tentadora, era muito arriscada. Por mais que odiasse estar com a megera em seu habitat natural, não valia a pena perder a vida por isso.

Parou o carro em frente à casa. Novamente os arrepios. Era como se o lugar fosse mal assombrado. Na verdade, para ele, o que tinha lá dentro era pior do que qualquer fantasma sanguinário existente. Respirou fundo. Calma, Leandro! São somente três dias. O que pode acontecer de pior nesse período? Você já sobreviveu a situações semelhantes. Desceu do carro e foi pegar as malas. Escutou passos rastejantes indo até ele.

– Por que demoraram tanto? Eu tinha certeza que do jeito que Leandro dirige isso iria acontecer. Avisei que era melhor virem de ônibus, mas você nunca me ouve!

– Foi o trânsito, mamãe! Não é mesmo, amor?

– É claro que sim. Não me atrasaria por nada desse mundo! Você não sabe como estava ansioso por vê-la, minha sogra. – Ela olhou bem para ele e bufou.

– Sei – disse indiferente e virou para a moça que os acompanhava. – Venha minha filha, preparei uma surpresa. Consegui reunir toda família desta vez, estão todos em casa! – Ela virou para Leandro soltando um riso malicioso, depois puxou a filha pelo braço para dentro da residência.

Todos? Como assim “todos”? Seu coração acelerou, estava sentindo falta de ar. Tinha que admitir que a jararaca era profissional. Atacava, sem piedade, com todas as armas que tinha. Mas isso não ficaria assim! Dois poderiam jogar aquele jogo. Fechou o porta-malas e, com determinação, acompanhou as duas mulheres.

A quem queria enganar? Não era páreo para seu inimigo. Era um exército contra somente ele. Logo que entrou foi recebido por um dos tios, um daqueles que, nunca em sua vida, havia visto sóbrio e que sempre questionava a masculinidade de Leandro toda vez que o mesmo não se juntava a ele em suas bebedeiras. Aliás, a indagação a respeito de sua virilidade não se restringiu somente ao tio pinguço, o tema vinha à tona sempre que dizia que não se interessava por futebol ou automóveis. Até mesmo duas senhoras vieram lhe dizer que estavam orando toda semana por sua alma na igreja por conta de seu problema em não conseguir gerar filhos. Que todos no interior achavam que ele era um vagabundo sustentado pela mulher, Leandro já sabia. Devia a fama a sua querida sogra, que sempre espalhara este boato em toda oportunidade que tinha. Mas ser estéril? Essa era nova! Certeza que poderia creditar essa à conta da megera também. Passaram a noite na casa e acabaram dormindo por lá mesmo. Leandro ficara sem banho naquele dia, pois justamente na sua vez a água acabara, e tampouco conseguiu dormir, afinal o tal tio “bebo todas” lhe fez companhia e o ser roncava mais do que escapamento furado.

Os outros dias foram intensos. Leandro tentou se ocupar com cada tarefa que surgisse: louça, pequenos consertos, e tantas mais. Tudo valia para se manter o mais afastado possível de tão desagradável companhia. Porém nem assim conseguiu se livrar da presença da mulher; que, como uma assombração, sempre aparecia reclamando e dizendo o quanto ele era imprestável.

Finalmente estava arrumando as coisas no carro para sua viagem de volta para casa. Saboreava o doce sabor da liberdade a cada bagagem que colocava no porta-malas. Nem havia sido tão ruim assim, se pensasse com carinho na questão poderia até tirar momentos agradáveis de sua estadia no interior. Não! Maior felicidade do que ir embora era saber que aquilo manteria a mulher por algum tempo longe deles. Respirou, aliviado. Satisfeito, sentou-se no banco do motorista e ligou o carro. Foi quando escutou o baque surdo da porta traseira do carro se fechando. Olhou para trás.

– O que a senhora está fazendo aqui? – disse com espanto, visualizando a mulher sentada no banco traseiro de seu carro com uma mala na mão.

– Resolvi passar uma temporada na casa de vocês. – Leandro não tinha palavras e ainda olhava petrificado para a mulher. – Vamos logo! Quero chegar lá a tempo de assistir minha novela.

Seguindo as pegadas do coelho

– Coelhinho da Páscoa, o que trazes para mim?

– Um ovo, dois ovos, três ovos, assim!

Todos já estão acostumados com os presentes que levo a cada manhã de Páscoa, mas poucos sabem de onde venho e o porquê de recebê-los. Apesar de hoje em dia, aparecer ano após ano na data de celebração da morte e ressurreição de Cristo, a minha existência precede ao cristianismo. Lá no início, quando eu ainda era um filhote e só estava aprendendo as coisas da vida, uma moça me acolheu e criou, chamava-se Ostera, dizia ser Deusa da primavera. Nunca soube ao certo se isto era verdade ou somente uma de suas histórias, mas, na época, todos a saudavam como tal, então acredito que realmente fosse. Éramos muito unidos. Caminhávamos de povoado a povoado assim que começavam a crescer as flores nos campos. E fora com ela que eu aprendera o hábito de carregar ovos para onde quer que fosse, afinal, a mesma sempre levara consigo um exemplar entre as mãos. Época boa aquela! Éramos sempre recebidos com alegria e entusiasmo e as pessoas dos povoados constantemente nos deixavam de presente, ovos decorados. Era sempre um mais lindo do que o outro, com seus desenhos coloridos representando a estação que minha amiga, com tanto orgulho, comandava.

Porém, com o tempo, Ostera se cansara de nossas andanças. Dizia que o mundo mudara e que, em breve, seria chegada a hora de sua partida. Pediu para que eu continuasse com o seu legado, que não deixasse a tradição sumir, como sua própria existência um dia faria. Sem poder negar-lhe seu desejo, honrado, me despedi, e com os ovos parti. Da Deusa nunca mais tive notícias, mas gosto de pensar que hoje, ela esteja descansando em um lugar ensolarado e com muitas flores, do jeitinho que sempre lhe agradou.

Como prometido, levei a tradição a todos os lugares que pude do mundo. Consegui fazer com que sobrevivesse a todas as épocas e circunstâncias, por mais que, em muitas vezes, quase tenha desaparecido. Meu grande marco, com certeza, fora no Concílio de Niceia, afinal consegui fazer com que incorporassem o ritual ao feriado cristão. Comemorei com júbilo a conquista, pois, depois disto, por mais que meus ovos sofressem mudanças ao longo dos anos, nunca mais deixariam de existir. Na época, muitos deles surgiram com imagens de Jesus Cristo e de sua mãe, Maria. Cada um os fazia a sua maneira. No auge da idade média, por exemplo, nobres e reis presenteavam seus entes queridos com ovos de ouro cravejados de pedras preciosas.

Mas agora vocês devem estar se perguntando: “como é que passamos do ouro ao chocolate?”. Devo dizer que tive grande ajuda de quatro povos para incluir a guloseima em minha tradição. Os astecas, maias, espanhóis e franceses. Na época das grandes navegações, os espanhóis trouxeram das Américas um “alimento sagrado”, que era produzido com a semente do cacau. Lembro-me de duvidar que tal iguaria pudesse ser assim tão maravilhosa, porém assim que a provei descobri, que de fato, algum poder sobrenatural ela tinha. A novidade se alastrou rapidamente por todo o Velho Mundo como se fosse uma epidemia. Mas fora somente depois de muitos anos de sua descoberta que, na França, tiveram a ideia de fazer os primeiros ovos de Páscoa usando o chocolate.

Agora que já sabem da minha história e como meus ovos surgiram, eu me despeço, pois preciso correr a planejar a Páscoa do próximo ano.

A fantasia da noite

Seu vestido era armado demais para aqueles corredores apertados, à medida que andava o tecido esbarrava de um lado a outro nas prateleiras de livros sem fim, levando grande parte deles ao chão. Não sabia onde estava e nem o que fazia ali. Tinha fugido do baile correndo, pois já era quase meia noite e a mágica acabaria, mas ao invés de parar em sua casa dentro do pequeno vilarejo, lá estava ela, naquele lugar desconhecido. Saiu da sala, desceu algumas escadas, virou em alguns corredores e entrou em outro aposento. Escutou risadas. Finalmente! Encontrara alguém que pudesse lhe dizer o que estava acontecendo.

– Com licença senhores, algum de vocês poderia dizer-me onde estou? – Ela levantou a mão tentando chamar a atenção dos dois sujeitos, ambos com vestimentas um tanto quanto esquisitas e um deles levava um cachimbo na boca. Os dois pararam a conversa e a olharam de cima a baixo.

– Outra novata, Poirot! – o homem disse soltando fumaça para o alto.

– Outra novata, Holmes – o outro repetiu ainda encarando a pobre moça. – E parece-me que veio da seção infantil. Qual é o seu nome minha jovem?

– Cinderela – ela respondeu um tanto confusa. O que seria uma seção infantil? Com certeza não era o nome da vila onde vivia.

– Cinderela ela diz – o homem com o cachimbo repetiu e o outro acenou. – Mais e mais deles estão chegando ultimamente, estamos deixando passar alguma coisa, Poirot.

– Com certeza, caro amigo! É nosso trabalho investigar este mistério – o outro respondeu e com isso ambos entraram novamente em uma discussão, ignorando por completo a presença da moça em seu vestido rodado.

Cinderela desistiu de tentar achar uma resposta com aqueles dois e deixou-os com seus devaneios, foi procurar outro alguém que pudesse lhe ajudar. Caminhou mais um pouco até que chegou noutra sala, muito maior que a última, com enfeites estranhos pendurados no teto e mesas espalhadas por todo o salão. Mais vozes. Muitas delas! A moça animou-se, quem sabe ali finalmente teria alguém que pudesse lhe ajudar. Seus passos a guiou até a fonte das conversas e quando lá chegou achou que estava em outro baile. Eram tantas pessoas, todas tão diferentes que achou que poderia ser uma festa a fantasia. Cinderela não sabia, mas ali estavam, todos juntos, soldados da Segunda Guerra, samurais japoneses, dúzias e dúzias de casais românticos e tantos outros personagens das mais variadas histórias. Uma menina passava pelas prateleiras, roubando livros delas e colocando-os debaixo do vestido. Dois meninos corriam pelo salão, riam alegres brincando de pega-pega. Mas que estranho? Um deles parecia trajar um pijama?! Uma mulher com um macacão que parecia em chamas atirava flechas sem parar em um alvo já cansado de tanto ser almejado. A princesa levou um susto quando, de repente, um moleque de óculos e uma marca na testa passou por ela voando em sua vassoura.

– Ei Potter, tome cuidado com isso, já não basta o acidente que tivemos na semana passada! – Um senhor com uma barba tão grande quanto seu cabelo e branca como a neve se aproximou da novata. – Esses garotos! Tão cheios de energia. – Ele abaixou a cabeça fazendo uma reverência à mulher. – Você é nova por aqui, não? Não me lembro de já tê-la visto por aqui.

– Sim! Você poderia dizer-me onde estou? – Ela parecia aliviada. – Não sei como vim parar neste lugar. – O mago deu uma risada amigável, depois virou para a multidão parecendo procurar por alguém, logo uma sombra de reconhecimento passou por seus olhos.

– Merlin, meu caro, temos mais uma aqui para esclarecer tudo que se passa neste lugar. – Um outro senhor, também de barbas e cabelos brancos e longos, se destacou em meio aos outros caminhando ao encontro do amigo e da jovem moça. Aquele que já estava com Cinderela voltou-se novamente para ela. – Meu nome é Gandalf e aquele velho rabugento que vem ali é Merlin, fique tranquila, pois tentaremos sanar todas suas dúvidas.

Assim que o outro mago se juntou a dupla os dois transcorreram sobre a magia que encantava aquele lugar. Explicaram a Cinderela que estavam em uma biblioteca, um lugar onde as pessoas iam quando queriam ler ou estudar, dentro daquilo que eles chamavam de mundo de lá e que todos eles faziam parte das histórias que aqueles livros contavam. Não souberam explicar ao certo o porquê daquela magia, pois as lendas remontavam de anos atrás, mas era de conhecimento geral que um mago muito antigo e poderoso em sua terra um feitiço lançou e com isso a maldição da noite naquele lugar começou. Assim que o Sol se punha, naquela biblioteca, daquela determinada cidade, alguns dos personagens de seus livros criavam vida e com ela permaneciam até o nascer do Sol do outro dia. Todas as noites eram assim e cada vez mais personagens apareciam, desbravavam o mundo de lá e logo voltavam as suas terras, seus reinos, suas casas, suas fantasias.