Mesa Redonda

Aquele era mais um dia importante. Na verdade, para Brás Cubas, todos os dias em que se reuniam para deliberar a aquisição de um novo membro ao clube, eram de suma importância. Estavam todos presentes, bem, quase todos, pelo menos tinha seu lugar a mesa, já sua presença, era complicada.

– Podemos começar? – disse ele que, mesmo sem estar lá, mediava a discussão.

– Antes de qualquer coisa, alguém poderia me explicar por que sempre é o póstumo que tem a palavra final em nossas decisões? – A boneca, de cabelos de panos vermelhos e amarelos, vestida em seu traje colorido, estava irritada. Para ela, nada daquilo era necessário. Se o novato cumpria a todos os requisitos, para que deliberar sua participação?

– Quando conseguir contar sua história após sua morte, conversaremos sobre o assunto – comentou a mulher que desde o nascimento carregava olhos de cigana oblíqua e dissimulada.

– Se o critério para tal cargo são os feitos, talvez a mediadora disso tudo devesse ser você, Capitu. Afinal, é preciso muita destreza para deixar todos na dúvida sobre uma simples traição – a boneca de pano retrucou. Uma mulher que, até então, estava quieta em seu canto somente datilografando tudo o que era discutido, trocou um olhar de dúvida com os presentes.

– É prudente discutir este tipo de assunto na frente da criança? Devo relatar o acontecido em ata? – perguntou com seu jeito simples e sotaque puxado. Olhou para o menino que tinha uma panela na cabeça e estava sentado ao seu lado. Ele ria inocente enquanto brincava, alheio a qualquer discussão.

– Não será preciso constar em ata. – Macabéa acenou com a cabeça e continuou a dedilhar em sua máquina de escrever. Brás Cubas olhou para a boneca. – Emília, por favor, estamos aqui para deliberar se Ablon, o anjo renegado, será ou não um membro do nosso clube de personagens da literatura brasileira. Qualquer assunto que não seja pertinente a esta reunião será debatido em outra ocasião.

Emília mostrou a língua para o póstumo, calando-se. Crianças e seus caprichos. O velho cansado balançou a cabeça. Sabia que nunca fora santo, porém, por mais que tivesse aprontado em vida, agora estava ali de bom grado. Não merecia ser questionado. Pediu para que cada um votasse dando sua opinião sobre o assunto discutido. A disputa estava um tanto quanto acirrada, metade da sala defendia a permanência do novato no clube enquanto a outra parte se mantinha fixada às tradições.

– É um personagem de um livro cujo autor é brasileiro. Preenche todos os requisitos, por que não entrar para o nosso clube? – Emília questionava novamente.

– Mas o novato não é um clássico! – um dos personagens de Os Lusíadas indagou.

– E qual é o problema com isso? Você também não era um em sua época.

– Mas agora somos! E isso faz toda a diferença.

A discussão prosseguiu-se por mais algumas horas a fio. Deixar ou não deixar Ablon entrar? Ter somente clássicos ou expandir as raízes do clube? Eram tantos questionamentos, tantas indagações. Capitu olhou ao redor da sala e bufou. Nesse ritmo nunca mais sairiam daquele impasse. Até que um homem, escondido entre tantos outros personagens se manifestou:

– Em minhas andanças eu vi de tudo e conheci muita gente. Descobri verdades que nunca antes me foram ditas e, em contrapartida, que eu acreditava em tantas outras mentiras. Posso afirmar, com toda a certeza, que a literatura de um país não é formada somente de um ou outro estilo, mas de vários. Ela é parte da cultura de um povo e, como tal, se manifesta de várias formas. Não importa se os livros são clássicos, fantasia, poesia, ficção ou romance; se são para adultos, crianças ou simplesmente informativos. No final, todos eles são parte da mesma manifestação cultural. – Capitu reconheceu o rapaz que discursava, era Santiago, o pastor andarilho. Por mais que o mesmo quase nunca aparecesse nas reuniões do grupo, por conta de suas viagens, ela tinha certeza de sua identidade.

A sala ficou em silêncio por algum tempo até que um dos personagens votou a favor da inclusão do novato ao clube, para logo em seguida, vários outros seguirem seu exemplo. Com o pequeno discurso de Santiago o impasse se resolveu. E naquela tarde, Ablon, o anjo renegado, tornou-se um membro do clube de personagens da literatura brasileira. Antes que todos voltassem a suas histórias, Brás Cubas pediu um pouco mais de suas atenções.

– Semana que vem iremos nos reunir neste mesmo local e horário para debater a entrada de outra novata em nosso clube. Os detalhes sobre a mesma estão nos arquivos que lhes entreguei. – Macabéa pegou a pasta que estava em cima da mesa e folheou seu conteúdo.

– Uma astronauta? Aonde iremos parar desse jeito? – Santiago balançou a cabeça soltando um leve sorriso.

– Aonde a imaginação nos levar, minha amiga! Aonde ela nos levar.

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