Visita 128

Leandro viu a placa indicadora de divisão de municípios passar por seu retrovisor e um frio percorreu por sua espinha. Faltava pouco para chegar ao seu destino. Já tinha considerado a possibilidade de jogar o carro contra um poste ou de uma ponte; uma temporada no hospital com certeza seria uma hospedagem cinco estrelas se comparada ao lugar para onde estava indo. Porém, a ideia, apesar de tentadora, era muito arriscada. Por mais que odiasse estar com a megera em seu habitat natural, não valia a pena perder a vida por isso.

Parou o carro em frente à casa. Novamente os arrepios. Era como se o lugar fosse mal assombrado. Na verdade, para ele, o que tinha lá dentro era pior do que qualquer fantasma sanguinário existente. Respirou fundo. Calma, Leandro! São somente três dias. O que pode acontecer de pior nesse período? Você já sobreviveu a situações semelhantes. Desceu do carro e foi pegar as malas. Escutou passos rastejantes indo até ele.

– Por que demoraram tanto? Eu tinha certeza que do jeito que Leandro dirige isso iria acontecer. Avisei que era melhor virem de ônibus, mas você nunca me ouve!

– Foi o trânsito, mamãe! Não é mesmo, amor?

– É claro que sim. Não me atrasaria por nada desse mundo! Você não sabe como estava ansioso por vê-la, minha sogra. – Ela olhou bem para ele e bufou.

– Sei – disse indiferente e virou para a moça que os acompanhava. – Venha minha filha, preparei uma surpresa. Consegui reunir toda família desta vez, estão todos em casa! – Ela virou para Leandro soltando um riso malicioso, depois puxou a filha pelo braço para dentro da residência.

Todos? Como assim “todos”? Seu coração acelerou, estava sentindo falta de ar. Tinha que admitir que a jararaca era profissional. Atacava, sem piedade, com todas as armas que tinha. Mas isso não ficaria assim! Dois poderiam jogar aquele jogo. Fechou o porta-malas e, com determinação, acompanhou as duas mulheres.

A quem queria enganar? Não era páreo para seu inimigo. Era um exército contra somente ele. Logo que entrou foi recebido por um dos tios, um daqueles que, nunca em sua vida, havia visto sóbrio e que sempre questionava a masculinidade de Leandro toda vez que o mesmo não se juntava a ele em suas bebedeiras. Aliás, a indagação a respeito de sua virilidade não se restringiu somente ao tio pinguço, o tema vinha à tona sempre que dizia que não se interessava por futebol ou automóveis. Até mesmo duas senhoras vieram lhe dizer que estavam orando toda semana por sua alma na igreja por conta de seu problema em não conseguir gerar filhos. Que todos no interior achavam que ele era um vagabundo sustentado pela mulher, Leandro já sabia. Devia a fama a sua querida sogra, que sempre espalhara este boato em toda oportunidade que tinha. Mas ser estéril? Essa era nova! Certeza que poderia creditar essa à conta da megera também. Passaram a noite na casa e acabaram dormindo por lá mesmo. Leandro ficara sem banho naquele dia, pois justamente na sua vez a água acabara, e tampouco conseguiu dormir, afinal o tal tio “bebo todas” lhe fez companhia e o ser roncava mais do que escapamento furado.

Os outros dias foram intensos. Leandro tentou se ocupar com cada tarefa que surgisse: louça, pequenos consertos, e tantas mais. Tudo valia para se manter o mais afastado possível de tão desagradável companhia. Porém nem assim conseguiu se livrar da presença da mulher; que, como uma assombração, sempre aparecia reclamando e dizendo o quanto ele era imprestável.

Finalmente estava arrumando as coisas no carro para sua viagem de volta para casa. Saboreava o doce sabor da liberdade a cada bagagem que colocava no porta-malas. Nem havia sido tão ruim assim, se pensasse com carinho na questão poderia até tirar momentos agradáveis de sua estadia no interior. Não! Maior felicidade do que ir embora era saber que aquilo manteria a mulher por algum tempo longe deles. Respirou, aliviado. Satisfeito, sentou-se no banco do motorista e ligou o carro. Foi quando escutou o baque surdo da porta traseira do carro se fechando. Olhou para trás.

– O que a senhora está fazendo aqui? – disse com espanto, visualizando a mulher sentada no banco traseiro de seu carro com uma mala na mão.

– Resolvi passar uma temporada na casa de vocês. – Leandro não tinha palavras e ainda olhava petrificado para a mulher. – Vamos logo! Quero chegar lá a tempo de assistir minha novela.

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