Seguindo as pegadas do coelho

– Coelhinho da Páscoa, o que trazes para mim?

– Um ovo, dois ovos, três ovos, assim!

Todos já estão acostumados com os presentes que levo a cada manhã de Páscoa, mas poucos sabem de onde venho e o porquê de recebê-los. Apesar de hoje em dia, aparecer ano após ano na data de celebração da morte e ressurreição de Cristo, a minha existência precede ao cristianismo. Lá no início, quando eu ainda era um filhote e só estava aprendendo as coisas da vida, uma moça me acolheu e criou, chamava-se Ostera, dizia ser Deusa da primavera. Nunca soube ao certo se isto era verdade ou somente uma de suas histórias, mas, na época, todos a saudavam como tal, então acredito que realmente fosse. Éramos muito unidos. Caminhávamos de povoado a povoado assim que começavam a crescer as flores nos campos. E fora com ela que eu aprendera o hábito de carregar ovos para onde quer que fosse, afinal, a mesma sempre levara consigo um exemplar entre as mãos. Época boa aquela! Éramos sempre recebidos com alegria e entusiasmo e as pessoas dos povoados constantemente nos deixavam de presente, ovos decorados. Era sempre um mais lindo do que o outro, com seus desenhos coloridos representando a estação que minha amiga, com tanto orgulho, comandava.

Porém, com o tempo, Ostera se cansara de nossas andanças. Dizia que o mundo mudara e que, em breve, seria chegada a hora de sua partida. Pediu para que eu continuasse com o seu legado, que não deixasse a tradição sumir, como sua própria existência um dia faria. Sem poder negar-lhe seu desejo, honrado, me despedi, e com os ovos parti. Da Deusa nunca mais tive notícias, mas gosto de pensar que hoje, ela esteja descansando em um lugar ensolarado e com muitas flores, do jeitinho que sempre lhe agradou.

Como prometido, levei a tradição a todos os lugares que pude do mundo. Consegui fazer com que sobrevivesse a todas as épocas e circunstâncias, por mais que, em muitas vezes, quase tenha desaparecido. Meu grande marco, com certeza, fora no Concílio de Niceia, afinal consegui fazer com que incorporassem o ritual ao feriado cristão. Comemorei com júbilo a conquista, pois, depois disto, por mais que meus ovos sofressem mudanças ao longo dos anos, nunca mais deixariam de existir. Na época, muitos deles surgiram com imagens de Jesus Cristo e de sua mãe, Maria. Cada um os fazia a sua maneira. No auge da idade média, por exemplo, nobres e reis presenteavam seus entes queridos com ovos de ouro cravejados de pedras preciosas.

Mas agora vocês devem estar se perguntando: “como é que passamos do ouro ao chocolate?”. Devo dizer que tive grande ajuda de quatro povos para incluir a guloseima em minha tradição. Os astecas, maias, espanhóis e franceses. Na época das grandes navegações, os espanhóis trouxeram das Américas um “alimento sagrado”, que era produzido com a semente do cacau. Lembro-me de duvidar que tal iguaria pudesse ser assim tão maravilhosa, porém assim que a provei descobri, que de fato, algum poder sobrenatural ela tinha. A novidade se alastrou rapidamente por todo o Velho Mundo como se fosse uma epidemia. Mas fora somente depois de muitos anos de sua descoberta que, na França, tiveram a ideia de fazer os primeiros ovos de Páscoa usando o chocolate.

Agora que já sabem da minha história e como meus ovos surgiram, eu me despeço, pois preciso correr a planejar a Páscoa do próximo ano.

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