Visita 129

O aniversário dela estava próximo. Sim, indo contra todas as minhas súplicas, aquela a qual eu não ousaria pronunciar o nome, em breve, faria mais um ano de vida. Minha esposa fez questão de me lembrar da data logo no início da semana, comunicando-me que já havia feito uma reserva em um restaurante para comemorar o grande dia. Confesso que tive dificuldades para entender o que Lúcia dizia, pois, em minha cabeça, o fato de minha sogra ter nascido não combinava em nada com algo grandioso e muito menos era motivo para celebração; pelo contrário, só a simples ideia já me causava calafrios. Por que tínhamos que fazer isso todo o ano? Por um acaso há festas para comemorar o aniversário de múmias de mais de trezentos anos do Egito? Pois é, estas sim deveriam ser celebradas. Afinal são peças importantes na história da humanidade. Não são como minha sogra, que de relíquia, só tem o velho mesmo.

Estávamos há mais de vinte minutos esperando por ela na porta do apartamento de uma amiga. Desta vez a digníssima resolvera não se hospedar em nossa casa durante sua temporada na cidade, alegando que não comíamos direito e que, por motivos de saúde, ela não poderia sair de sua dieta rigorosamente traçada. Anotei a informação mentalmente para planos futuros. Daqui para frente todas suas visitas seriam regadas com as melhores guloseimas que a cidade poderia oferecer: pizzas, hambúrgueres, cachorros quentes, e outras tantas comidas extremamente saudáveis. Não poderia reclamar! Pelo menos aquela pequena parte de minhas preces fora atendida. Onde estava aquela velha? Assim perderíamos a reserva no restaurante. A irritação deu lugar a uma esperança crescente, afinal, aquilo não era de todo ruim! Sem restaurante, sem jantar e, sem isto, eu não precisaria aturar a presença da jararaca por horas a fio. Quem sabe alguém lá em cima estaria olhando por mim e algo tivesse acontecido? Um escorregão na banheira que fez com que ela batesse a cabeça, ou um choque super potente ao ligar um aparelho na tomada; milagres podem acontecer! Mas para o meu infortúnio não fora dessa vez. Lá estava ela, equilibrando uma caixa nas mãos enquanto tentava fechar o portão.

– Desculpe-nos, senhor! Tentamos segurar sua mesa o máximo que pudemos, porém o restaurante está cheio e como já haviam se passado mais de quarenta minutos do horário tivemos que liberar a reserva – disse educadamente um funcionário na entrada do restaurante.

– Eu entendo, mas seria possível conseguir outra mesa? – perguntei.

– Sinto muito, mas estamos com fila de espera de mais de duas horas. Se não se importar, posso colocá-los na lista.

Um tremor percorreu por toda a minha espinha. Jantar com a mulher já era ruim o suficiente, mas ter que esperar horas a fio em sua companhia seria torturante! Aquele sujeito só poderia estar maluco ao sugerir isso, obviamente não entendia o tamanho do meu suplício.

– Tem certeza que não há como resolvermos isso de outra maneira? – eu implorei. Ajoelhar-me ia se fosse preciso.

– Não perturbe o rapaz, Leandro. Isso é tudo culpa sua! – Olhei para a jararaca em descrença. – Se você não fosse uma lesma lerda dirigindo não estaríamos passando por isso – ela emendou.

Balancei a cabeça. Como poderia dizer isso depois de nos fazer esperá-la pela eternidade na frente do prédio? Nem Senna chegaria a tempo!

– Tinha certeza que isso aconteceria. Você não presta para nada mesmo! E agora? O que vou fazer com o meu bolo? Até entrarmos ele irá derreter! Pois você pagará por meu prejuízo. Esse seu marido não tem compromisso com nada, minha filha… Onde já se viu? Bem que eu te disse que era melhor ter casado com Luís, esse sim era um rapaz direito, de família…

Ela continuou seu discurso pelo que me pareceram décadas! O rapaz da recepção tentou fazê-la parar por diversas vezes, mas sem sucesso. Olhou para a fila de clientes impacientes e voltou-se desesperado, suplicando-me uma ajuda silenciosa. Resignado e com pena do sujeito, dei de ombros. Ele despertara a besta, não havia nada a ser feito àquela altura. O rapaz respirou fundo e falou em alto e bom tom:

– Mas que sorte, minha senhora! Acabou de vagar uma mesa. Poderiam me seguir, por favor?

A velha parou de falar e olhou satisfeita para o rapaz. Escutei algumas palmas do lado de fora assim que adentramos o restaurante. O sujeito nos indicou a mesa e chamou um garçom de lado, sussurrando algumas instruções. Antes de nos deixar, o homem deu dois tapinhas solidários em meu ombro, olhando-me com compaixão. Comparado com a recepção, o jantar foi melhor do que eu esperava. Minha sogra estava em seu melhor momento, fez com que o garçom voltasse com sua comida, apenas três vezes. Seu recorde pessoal eram quinze em uma noite. Ela fez com que trouxessem o bolo e começou a enchê-lo de velas, quando não tinha mais superfície disponível para mais delas, ela finalmente parou.

– Mamãe, não era mais fácil ter comprado velas com os números que formam sua idade? Acho que não vão deixá-la acender tantas… – Lúcia argumentou, mas a megera somente balançou a cabeça.

– A Clara fez desse jeito no aniversário dela e naquele ano ela ganhou um dinheiro inesperado e o filho separou-se da mulher horrorosa que tinha. Tenho certeza que terei muito mais sorte que ela, pois essas até explodem!

Lúcia olhou incerta para mãe, mas não argumentou. Ajudou a mulher a acender as trezentas mil velas em cima do bolo. Não tínhamos nem passado do “nesta data querida” quando o alarme de incêndio do restaurante começou a soar e, imediatamente, os sprinklers foram ativados.

Deixei minha sogra na porta do apartamento de sua amiga, após sermos expulsos do restaurante. A mulher estava encharcada, com o cabelo todo bagunçado e a maquiagem barata escorrendo por seu rosto. Definitivamente as coisas não haviam saído como planejadas. Desta vez nem ela conseguiria arranjar uma forma de colocar a culpa dos acontecimentos da noite em mim. Seu olhar de cachorro sem dono, ao entrar no prédio, era impagável! Para a minha surpresa, peguei-me ansiando por seu próximo aniversário.

Ela e Ele – O pedido

Ela estava com frio e, por mais que tentasse, não conseguia fazer com que seus dentes parassem de ranger. Não obstante, um tremor percorria pelo seu corpo toda vez que um vento soprava mais forte. Nunca gostou do inverno, mas tinha que admitir que aquela viagem estava revelando-se, até ali, uma das melhores que já fizera.  Não sabia quanto tempo mais aguentaria esperar naquelas condições, já não sentia mais nenhuma das extremidades, fossem elas das mãos ou dos pés, porém, ele tinha pedido para que ficasse ali e, por mais que tivesse achado tudo aquilo muito estranho, ela obedeceu.

Ele, nervoso, ajeitava as velas. Já tinha conferido mais de mil vezes se as letras estavam na ordem correta, pois queria que tudo estivesse perfeito. O vento, o qual dificultava, e muito, a sua missão de deixar as chamas trepidando vivas, não estava em seus planos, mas com a ajuda do pessoal do hotel conseguiu organizar tudo dentro do seu agrado. Olhou o cenário uma última vez. O fogo em contraste com o chão branco coberto de neve produzia um efeito lindo. Ele nunca fora dado a atos de romantismo e se, em um passado distante, lhe falassem que estaria ali agora planejando aquela ocasião de tal maneira, ele simplesmente riria e diria “jamais”. Mas a beleza da vida sempre fora, justamente, o fato de nada ser constante. Respirou fundo, munindo-se de coragem. Estava na hora de buscá-la.

Ela o avistou ao longe. Pensou em lhe passar um sermão por tê-la deixado esperando por tanto tempo naquele frio, mas, quando o mesmo se aproximou, mal conseguia esconder o sorriso em seu rosto, e sua felicidade a contagiou. Ela corria de mãos dadas com ele a guiando para dentro da floresta novamente. O final de tarde já se fazia presente, o que será que ele estava aprontando desta vez? Por toda aquela viagem seu parceiro havia se comportado de uma forma estranha, estava agitado e ansioso, nem parecia o mesmo, com certeza, tinha algo em sua mente.

Ele não via a hora de mostrar a ela sua surpresa. Afinal, por mais que todas suas esperanças estivessem em uma resposta afirmativa, não fazia ideia do ela acharia daquilo. A incerteza bateu em seu coração, olhou para trás e encontrou com o olhar de sua amada, isso fez com que, imediatamente, todas suas dúvidas se dissipassem. Acelerou o passo, arrastando a moça consigo, não aguentando mais esperar. Assim que viu as chamas na clareira entre as árvores, parou, curvou-se sobre os joelhos e respirou, soltando um longo sorriso.

Ela não acreditava no que estava diante de seus olhos, milhares de velas dispostas no chão branco salpicado de neve iluminavam o ambiente com suas chamas, formando a mais clássica das perguntas: “Casa comigo?”. Ela olhou para o lado com olhos marejados em lágrimas; ele estava sobre um dos joelhos segurando, em sua direção, uma caixinha vermelha a qual continha um anel de brilhantes. A emoção do momento fez com que ela não conseguisse pronunciar uma única palavra, então acenou afirmativamente com a cabeça, sorrindo. Ele levantou-se pegou em sua mão trêmula, colocando o anel em seu dedo.

Eles entrelaçaram seus corpos em um abraço apertado e depois beijaram-se. Talvez aquele fosse o mais profundo elo já trocado entre os dois até então, pois naquele instante em um dia qualquer de inverno, haviam decidido que compartilhariam a vida juntos.

De repente pai

Paulo estava em frente ao espelho tentando acertar o nó da gravata, enquanto ensaiava o que iria falar na reunião da empresa daquela manhã. “Droga! Isso ainda não está bom e eu já estou atrasado.”, resmungou. Quando finalmente se deu por satisfeito, pegou sua maleta e assim que alcançou a porta, escutou a campainha.

– Sr. Paulo Mendes? Sou Bete da assistência social. Tem um minuto? – a moça de meia idade e óculos parada em sua porta anunciou sem muita delonga.

– Na verdade eu estava agora mesmo…

–Você conhece a Aline Dantas? – a mulher interrompeu-o.

– Sim, é a minha ex. Algum problema com ela? – Paulo respondeu incerto.

– O senhor não deve saber, mas a Srta. Aline faleceu em um acidente de carro há algumas semanas e ela deixou instruções específicas para que a guarda de sua filha fosse dadaao pai, Paulo Mendes.

Paulo olhou atônito para a mulher a sua frente, o ar, de repente, faltando em seu pulmão. Ele largou a maleta no chão e afrouxou o nó da gravata.

– Deve haver algum engano! Eu não tenho notícias de Aline há mais de um ano e… Meu Deus! Aline está morta? – A mulher continuou a encará-lo sem se abalar. – Mas eu não posso ser o pai! Eu nem sabia que ela estava grávida e…

A mulher deu alguns passos para o lado e abriu espaço a um rapaz o qual trazia no colo uma linda criança vestida em um body rosa com uma tiara de laço na cabeça. A pequena menina sorriu para Paulo, abrindo e fechando as mãozinhas em sua direção.

– Sei que é muita informação para processar. Podemos entrar e conversar um pouco a respeito?

Paulo acenou mecanicamente com a cabeça, ainda encarando a pequena nos braços do rapaz. Abriu espaço para que os dois estranhos entrassem.

Lá estava ele sentado no sofá, encarando o pequeno bebê deitado na cadeirinha ao seu lado. “Onde estava com a cabeça quando aceitou que a menina ficasse em sua casa até as coisas se resolverem? Mal sabia dar nó em gravata, quanto mais cuidar de uma criança!”, pensou. A pequena esticou o braço e pegou o dedo de Paulo, balançando-o e rindo. Ele sorriu de volta e respirou fundo. Não poderia simplesmente largar a menina em um abrigo qualquer e, de qualquer forma, seria por pouco tempo, os avós já estavam atrás das papeladas para conseguir a guarda da criança.

– Ei! Seu nome é Bianca, não? Acho que vamos passar algum tempo juntos – ele disse sacudindo o dedo que a menina ainda segurava e a mesma sorriu.

Sentia-se mais animado, afinal, o quão difícil poderia ser cuidar de um bebê por algumas poucas semanas? Era só alimentar, trocar fralda, dar banho e colocar para dormir, não é mesmo? Uma pequena mudança em sua rotina não seria o fim do mundo.

Quem inventou os bebês definitivamente estava pensando na extinção da raça humana quando o fez, porque nenhuma pessoa, em sã consciência, iria querer outro depois de passar por tal experiência. Aquele ser era uma máquina de choro e fraldas sujas! Paulo estava exausto. Não dormia mais, seu desempenho no trabalho estava péssimo e sua vida social tinha sido reduzida a nada; tudo isso em apenas DUAS semanas! O poder destrutivo daquela miniatura de gente era impressionante. Ele não entendia como sua vizinha conseguia achar que Bianca era uma criança boazinha e adorável. Com certeza, a pequena meliante comportava-se enquanto estava sob os cuidados da moça e guardava toda sua energia e reclamações para quando Paulo chegasse em casa. Tudo devidamente orquestrado a fim de transformar sua vida em um inferno! Todos os dias, ligava desesperado para a assistente social a fim de saber como andavam os tramites da guarda de Bianca e sempre recebia a mesma resposta inconclusiva sobre o assunto.

As semanas viraram meses. Paulo agora entendia o que cada choro de Bianca significava: hora de comer, trocar a fralda, gases e só manha. Já sabia do que a menina gostava e do que desgostava. E conforme o tempo passava, menos trabalho a criança dava. Aprendeu a fazer papinha de bebê, a cantar para ela enquanto a ninava, a escolher as roupas certas para cada ocasião e temperatura. Encheu-se de orgulho quando viu que ela conseguia identificar formas geométricas, cores e tantas outras coisas mais. Parou de ligar tão constantemente para a assistente social, pois, de uma hora para outra, seu coração apertava toda vez que pensava em ter que deixar a pequena criança.

Paulo assistia, como agora era de costume, seus desenhos favoritos de infância com Bianca, e fazia questão de salientar à menina o porquê de os mesmos serem tão especiais e instrutivos;quando a menina começou a resmungar.

– Pa-pa, pa-pa… – ela disse enquanto esticava os braços para pedir colo.

– Do que foi que me chamou? – Paulo perguntou emocionado.

– Pa-pa, pa-pa… – a menina continuou. Paulo, emocionado, sorriu e puxou Bianca para os braços, onde a mesma aconchegou-se.

Na manhã seguinte, ele ligou para o escritório avisando que não iria trabalhar, já que cuidaria, com urgência, de alguns assuntos pessoais, pois, na noite anterior,havia se tornado pai.

Série Profissões: O lixeiro

Aquela era a parte da noite de que Murilo mais gostava. O vento frio batia em seu rosto enquanto, com um dos braços estendidos, dependurava-se na lateral do caminhão. O rapaz aproveitava aquele breve momentodo trajeto de volta àgaragem para pensar sobre a vida e renovar suas energias.

– Será que ainda tem café na salinha? – Murilo questionou enquanto guardava seu uniforme dentro do armário.

– Está louco, cara? Já é quase meia-noite! Não recomendo o consumo de cafeína nesse horário… – Jorge respondeu irônico e Murilo riu. –Estou tão cansado que não vejo a hora de chegar em casa e despencar na cama! – ele completou, colocando a mochila nas costas.

–Nem reparei que já era tão tarde! Ainda vou estudar, semana de provas…

– Um de nós tem que virar doutor, não é mesmo? – Jorge comentou batendo no ombro do amigo. – Boa noite de estudos, Murilão! Até amanhã. – Murilo acenou para o colega e Jorge retirou-se, rindo.

Murilo vivia com sua mãe e os irmãos em uma pequena casa na periferia da cidade. Logo que chegou, percebeu que haviam lhe deixado um prato de comida em cima da mesa da cozinha. Isso era ótimo! Estava faminto e a noite seria longa. Já estava acostumado a revezar seu tempo entre os estudos, o trabalho e os afazes domésticos, desde sempre fora assim.Era o filho mais velho de uma mãe solteira e por isso acompanhou de perto o sacrifício que a mesma fizera para que ele e todos seus irmãos tivessem o mínimo de oportunidades na vida.Desde pequeno fora um jovem ativo e de muitas ambições. Carregava as sacolas de compra das senhoras até suas casas, ajudava o dono da mercearia da esquina, dava aulas particulares para seus amigos, cuidava dos filhos de quem não tinha com quem deixa-los. Todos na vizinhança conheciam Murilo e sua disposição para ajudar e colocar a mão na massa. Se o trabalho era honesto, já sabiam que poderiam contar com seus serviços, ainda mais se isso lhe rendesse uns troquinhos. Mas, o que os outros poderiam ver como uma vida penosa para ele era, simplesmente, sua vida e a adorava. Sempre se sentiu capaz de fazer qualquer coisa e nunca deixou que nada, nem ninguém, lhe dissessem o contrário. Queria o que a maioria das pessoas quer: uma família, uma carreira, conhecer o mundo. E com isso em mente, na época do vestibular, passou noites em claro estudando e seu esforço valeu a pena, pois conseguiu entrar em uma das melhores faculdades de Direito do estado. Agora, só precisaria de um emprego fixo com o qual pudesse pagar as mensalidades.

Trabalhava na empresa de coleta de lixo há quase três anos e,apesar de todos os comentários pejorativos que já escutara ao longo do tempo sobre sua profissão edos preconceitos que sofrera com piadinhas e apelidos criados pelos colegas mais abastados de sua classe, tinha orgulho do que fazia. Era certo que estava lá por um objetivo, porém, mesmo que não fosse o caso, ainda assim pensaria da mesma forma. Além de trabalhar ao lado de pessoas muito boas, no fundo, achava digna de respeito a essência de sua tarefa. Afinal, se não houvesse ele e todos seus outros colegas de profissão, o que seria de todo o lixo do planeta?

E depois de muito andar na traseira do caminhão, competir com seus amigos quem coletava mais rápido ou ganhava mais caixinhas nas datas comemorativas, rir com seus colegas de alguns acidentes ocorridos no percurso e de coisas inusitadas que encontravam no lixo dos outros, e ainda, contar moedas para o café, o lanche, o ônibus, os materiais do curso e um poucomais café; finalmente Murilo se formou.

– Ei, Murilo, o que está fazendo? – Roberto perguntou impaciente, enquanto assistia o colega, em frente ao fórum, recolher do chão uma latinha de refrigerante que uma adolescente jogara e colocá-la em uma lixeira. – Pare de enrolar! O juiz só nos deu poucos minutos de intervalo. Virou lixeiro agora?

Murilo olhou para o rapaz e sorriu.

– Sempre fui!

O menino que escrevia

Está é a história de Carlos, um menino que desde pequeno sempre deixou com que sua imaginação o levasse aonde ela quisesse. Adorava quando chegavam as férias escolares e ele ia passar o mês inteiro na fazenda de seus avós, afinal aquelas viagens ao interior eram sempre sinônimo de aventuras. Enfrentava piratas, conhecia sereias, desbravava os sete mares; tudo isso no riacho que cortava as fronteiras da propriedade. À noite ia deitar contando à sua avó todos os desertos que atravessou, as batalhas as quais enfrentou, as pessoas que conheceu, as princesas as quais salvou, as criaturas mágicas que ajudou; tudo isso feito em um dia e nas dependências da fazenda. Logo que aprendeu a ler e escrever, descobriu que poderia desbravar ainda mais aventuras e sem precisar sair do lugar. Escrevia pequenas histórias com sua letra garranchada de criança e escondia bilhetes secretos por toda a casa, a fim de que alguém, no futuro, descobrisse o tesouro encantado. Muitos o achavam um menino estranho e sozinho, porém Carlos nunca se sentira assim.

Assim que virou adolescente, as aventuras no interior ficaram sem graça, mas sua imaginação não perdeu a força, só acabara mudando de foco. Agora passava horas inventando histórias românticas com meninas; ah, como elas eram adoráveis! Sonhava com sua vizinha, encantava-se com as moças bonitas que sempre passeavam no shopping, apaixonou-se por sua professora de inglês. Começou a escrever poemas e de vez em quando os entregava a suas amadas, nem sempre dava certo, mas na grande maioria das vezes acabava conseguindo um elogio ou mesmo um sorriso. Era motivo de chacota para algumas meninas e para muitos dos garotos de seu colégio, porém não se importava, pois era de escrever que gostava.  Interessou-se por literatura e, ainda que tivesse pouca idade, já havia lido mais livros que grande parte de seus amigos.Certo dia conheceu uma garota, escreveu todos seus sentimentos no papel em forma de versos e entregou-os a dona de seu coração. Foi a melhor obra prima que fizera, para a pessoa que, até então, era a mais especial que passara por sua vida.

Formou-se, entrou na faculdade, estudou muito, começou a trabalhar e formou-se novamente.Passava os dias em uma sala fechada, de frente para um computador e quase não via a luz do sol. Por isso nunca deixara de escrever, mesmo que agora tivesse menos tempo, afinal era do que precisava para libertar sua alma. Dissertava sobre os problemas do mundo, do país, da cidade, de sua comunidade. Entrou em grupos de debate, voluntariou-se como tradutor na faculdade, aprendeu a ler mesmo com o sacolejo dos trens embaçando sua visão. Conheceu outra garota, afinalnunca se cansou delas! Casou-se, teve uma filha, perdeu o emprego no escritório. Começou a fazer uma coisa aqui outra ali para sustentar a família e, entre um bico e outro, encontrou sua vocação. Iniciou seu primeiro livro, demorou mais do que esperava para terminá-lo, mas finalmente o original ficou pronto. Todos diziam que aquilo era loucura, que procurasse um emprego de verdade. Entretanto, Carlos não deu ouvidos aos maus presságios e buscou até a exaustão uma editora, houve um momento em que quase desistiu, mas finalmente seus esforços foram recompensados e conseguiu, publicou sua obra.

Você pode nunca ter ouvido falar de Carlos e certamente muitos não o conhecem pessoalmente, realmente não há nada de especial com ele e sua vida pode ser comparada à de muita gente, porém suas histórias viraram sucesso por onde passaram e ficarão eternizadas, assim como sempre sonhara.Então este é um convite para todos os Carlos, Albertos, Jéssicas, Mônicas, Daianes, Eduardos, Henriques e quem mais for, para que nunca esqueçam dos seus sonhos e daquilo que faz sua alma vibrar, pois é só acreditando que chegamos à algum lugar.

Azar no ar

Muitos consideram a sexta-feira treze um dia de azar. E você, também é um deles? Antes de acreditar na superstição, já se perguntou quantas vezes, efetivamente, houve má sorte em seu caminho neste dia? Inúmeras pessoas acreditam na crença, porém poucos conhecem sua origem.

Ao citar a data, logo vem a mente um cara com máscara de hóquei e uma motosserra na mão, não é mesmo? E não é para menos! Afinal, a franquia do filme que virou um dos ícones de terror é extensa, contando com mais de trinta anos de existência, doze filmes e arrecadando mais de 500 milhões de dólares. Porém não é por isso que a sexta-feira treze é considerada um mau agouro, talvez os próprios produtores tenham se inspirado nas crendices populares quando deram vida ao personagem. Então, de onde veio esse mito?

Não se sabe ao certo, mas tudo indica que o costume surgiu com duas lendas nórdicas.

A primeira delas descreve uma festa muito pomposa com um banquete de dar água na boca na morada celestial das divindades, Valhalla, e para tal feito foram convidados doze Deuses. Tudo estava indo muito bem até que Loki apareceu de penetra no evento e armou uma confusão daquelas que resultou na morte de Balder, o qual era ninguém menos do que um dos favoritos. Estabeleceu-se, então, que convidar treze pessoas para o jantar era símbolo de azar.

A segunda já toma lugar na era do cristianismo, pois quando os nórdicos se converteram a religião a Deusa do amor e da beleza, Friga, fora transformada em bruxa. Para se vingar de tal feito, a mesma uniu-se a onze outras bruxas e ao próprio Satanás, e todas as sextas-feiras os treze juntavam-se a fim de rogar praga para toda a humanidade. A superstição de que o dia da semana trazia má sorte se espalhou por toda a Europa, transformando a sexta-feira em um dia de azar.

Tais crenças foram reforçadas até mesmo na bíblia. A Santa Ceia aconteceu um dia antes da morte de Jesus Cristo, a qual se deu em uma sexta-feira, e o banquete contava com treze pessoas à mesa. Contudo, não foi somente esse relato que destacou o dia como lugar para desastres. Eva ofereceu a maçã a Adão em uma sexta-feira e advinha quando o grande dilúvio teria começado?

Todas essas crendices, passadas de geração a geração, fizeram com que a sexta-feira treze fosse, e ainda seja, temida por muitos. Eu particularmente gosto delas, afinal, assim como Jason, nasci no dia treze e, justamente, neste dia da semana. E você? Ainda acha que elas trazem azar? Se a resposta for afirmativa, melhor tomar cuidado ao passar por este treze de julho, já que estamos precisamente em uma sexta-feira.

Pula Fogueira

Assim como minhas comemorações irmãs, Natal, Carnaval e Páscoa, eu sou antiga e minhas origens são além do cristianismo. Festas juninas, apesar de carregarem outros nomes, já eram muito comuns em grande parte do hemisfério norte. A época do solstício de verão na região sempre fora motivo de celebração, pois com a promessa de dias mais longos e quentes, era tempo de pedir por fertilidade e fartura nas colheitas. Mesmo com a ascensão do cristianismo na Europa, eu não perdera minha força e, não querendo entrar em confronto com o que era popular, a igreja acabou me incorporando em seu calendário, homenageando assim, os três santos de sua crença dentro do mês: Santo Antônio, São João Batista e São Pedro.

Cheguei ao Brasil junto com os jesuítas portugueses, mas o mais curioso foi ver que os indígenas que aqui habitavam já faziam comemorações muito parecidas com as minhas na mesma época, mesmo que estas, no hemisfério sul, marcassem o início do inverno. As tradições fundiram-se e foi por isso que uma festa onde se celebra santos católicos acabou tendo em sua composição comidas tão típicas da região. Outra característica importante em minhas festas a qual surgiu nesse mesmo período foram as vestimentas caipiras, pois eram roupas comuns da época, já que a grande maioria da população brasileira de meados do século XX morava nos campos. Hoje, as minhas maiores comemorações concentram-se no nordeste do país, com destaque para as cidades de Caruaru – PE e Campina Grande – PB.

Na verdade eu sou uma festa de muitas misturas, alguns dos meus mais tradicionais rituais vieram de diferentes partes do mundo. A quadrilha, por exemplo, teve a influência das contradanças francesas de salão do século XVII. Apesar das minhas festas mais remotas já contarem com danças e cantos, os passos em pares com uma sequência coreografada se popularizou tanto que acabou sendo incorporado as festas juninas, tornando-se o que vemos hoje. As fogueiras já eram presentes nas celebrações pagãs e indígenas, porém as mesmas também receberam uma explicação cristã, pois Santa Isabel, mãe de um dos aniversariantes do mês, João Batista, disse a Maria que acenderia uma fogueira quando o mesmo nascesse para avisá-la e assim foi feito. A tradição de soltar balões, assim como os fogos, veio da China; e há tantas outras de outros lugares que nem me lembro mais. Hoje tenho variações de acordo com a região onde sou comemorada, porém continuo mantendo sempre as minhas raízes.

Então prepare a pipoca, o bolo de fubá, o amendoim e a paçoca. Aqueça o quentão e o vinho quente. Acenda a fogueira e pendure as bandeirinhas. Vista-se ao melhor modo caipira e coloque o seu chapéu. Chame seu par para dançar e solte o som da sanfona, pois já é época de comemorar minhas festas juninas.