De repente pai

Paulo estava em frente ao espelho tentando acertar o nó da gravata, enquanto ensaiava o que iria falar na reunião da empresa daquela manhã. “Droga! Isso ainda não está bom e eu já estou atrasado.”, resmungou. Quando finalmente se deu por satisfeito, pegou sua maleta e assim que alcançou a porta, escutou a campainha.

– Sr. Paulo Mendes? Sou Bete da assistência social. Tem um minuto? – a moça de meia idade e óculos parada em sua porta anunciou sem muita delonga.

– Na verdade eu estava agora mesmo…

–Você conhece a Aline Dantas? – a mulher interrompeu-o.

– Sim, é a minha ex. Algum problema com ela? – Paulo respondeu incerto.

– O senhor não deve saber, mas a Srta. Aline faleceu em um acidente de carro há algumas semanas e ela deixou instruções específicas para que a guarda de sua filha fosse dadaao pai, Paulo Mendes.

Paulo olhou atônito para a mulher a sua frente, o ar, de repente, faltando em seu pulmão. Ele largou a maleta no chão e afrouxou o nó da gravata.

– Deve haver algum engano! Eu não tenho notícias de Aline há mais de um ano e… Meu Deus! Aline está morta? – A mulher continuou a encará-lo sem se abalar. – Mas eu não posso ser o pai! Eu nem sabia que ela estava grávida e…

A mulher deu alguns passos para o lado e abriu espaço a um rapaz o qual trazia no colo uma linda criança vestida em um body rosa com uma tiara de laço na cabeça. A pequena menina sorriu para Paulo, abrindo e fechando as mãozinhas em sua direção.

– Sei que é muita informação para processar. Podemos entrar e conversar um pouco a respeito?

Paulo acenou mecanicamente com a cabeça, ainda encarando a pequena nos braços do rapaz. Abriu espaço para que os dois estranhos entrassem.

Lá estava ele sentado no sofá, encarando o pequeno bebê deitado na cadeirinha ao seu lado. “Onde estava com a cabeça quando aceitou que a menina ficasse em sua casa até as coisas se resolverem? Mal sabia dar nó em gravata, quanto mais cuidar de uma criança!”, pensou. A pequena esticou o braço e pegou o dedo de Paulo, balançando-o e rindo. Ele sorriu de volta e respirou fundo. Não poderia simplesmente largar a menina em um abrigo qualquer e, de qualquer forma, seria por pouco tempo, os avós já estavam atrás das papeladas para conseguir a guarda da criança.

– Ei! Seu nome é Bianca, não? Acho que vamos passar algum tempo juntos – ele disse sacudindo o dedo que a menina ainda segurava e a mesma sorriu.

Sentia-se mais animado, afinal, o quão difícil poderia ser cuidar de um bebê por algumas poucas semanas? Era só alimentar, trocar fralda, dar banho e colocar para dormir, não é mesmo? Uma pequena mudança em sua rotina não seria o fim do mundo.

Quem inventou os bebês definitivamente estava pensando na extinção da raça humana quando o fez, porque nenhuma pessoa, em sã consciência, iria querer outro depois de passar por tal experiência. Aquele ser era uma máquina de choro e fraldas sujas! Paulo estava exausto. Não dormia mais, seu desempenho no trabalho estava péssimo e sua vida social tinha sido reduzida a nada; tudo isso em apenas DUAS semanas! O poder destrutivo daquela miniatura de gente era impressionante. Ele não entendia como sua vizinha conseguia achar que Bianca era uma criança boazinha e adorável. Com certeza, a pequena meliante comportava-se enquanto estava sob os cuidados da moça e guardava toda sua energia e reclamações para quando Paulo chegasse em casa. Tudo devidamente orquestrado a fim de transformar sua vida em um inferno! Todos os dias, ligava desesperado para a assistente social a fim de saber como andavam os tramites da guarda de Bianca e sempre recebia a mesma resposta inconclusiva sobre o assunto.

As semanas viraram meses. Paulo agora entendia o que cada choro de Bianca significava: hora de comer, trocar a fralda, gases e só manha. Já sabia do que a menina gostava e do que desgostava. E conforme o tempo passava, menos trabalho a criança dava. Aprendeu a fazer papinha de bebê, a cantar para ela enquanto a ninava, a escolher as roupas certas para cada ocasião e temperatura. Encheu-se de orgulho quando viu que ela conseguia identificar formas geométricas, cores e tantas outras coisas mais. Parou de ligar tão constantemente para a assistente social, pois, de uma hora para outra, seu coração apertava toda vez que pensava em ter que deixar a pequena criança.

Paulo assistia, como agora era de costume, seus desenhos favoritos de infância com Bianca, e fazia questão de salientar à menina o porquê de os mesmos serem tão especiais e instrutivos;quando a menina começou a resmungar.

– Pa-pa, pa-pa… – ela disse enquanto esticava os braços para pedir colo.

– Do que foi que me chamou? – Paulo perguntou emocionado.

– Pa-pa, pa-pa… – a menina continuou. Paulo, emocionado, sorriu e puxou Bianca para os braços, onde a mesma aconchegou-se.

Na manhã seguinte, ele ligou para o escritório avisando que não iria trabalhar, já que cuidaria, com urgência, de alguns assuntos pessoais, pois, na noite anterior,havia se tornado pai.

Série Profissões: O lixeiro

Aquela era a parte da noite de que Murilo mais gostava. O vento frio batia em seu rosto enquanto, com um dos braços estendidos, dependurava-se na lateral do caminhão. O rapaz aproveitava aquele breve momentodo trajeto de volta àgaragem para pensar sobre a vida e renovar suas energias.

– Será que ainda tem café na salinha? – Murilo questionou enquanto guardava seu uniforme dentro do armário.

– Está louco, cara? Já é quase meia-noite! Não recomendo o consumo de cafeína nesse horário… – Jorge respondeu irônico e Murilo riu. –Estou tão cansado que não vejo a hora de chegar em casa e despencar na cama! – ele completou, colocando a mochila nas costas.

–Nem reparei que já era tão tarde! Ainda vou estudar, semana de provas…

– Um de nós tem que virar doutor, não é mesmo? – Jorge comentou batendo no ombro do amigo. – Boa noite de estudos, Murilão! Até amanhã. – Murilo acenou para o colega e Jorge retirou-se, rindo.

Murilo vivia com sua mãe e os irmãos em uma pequena casa na periferia da cidade. Logo que chegou, percebeu que haviam lhe deixado um prato de comida em cima da mesa da cozinha. Isso era ótimo! Estava faminto e a noite seria longa. Já estava acostumado a revezar seu tempo entre os estudos, o trabalho e os afazes domésticos, desde sempre fora assim.Era o filho mais velho de uma mãe solteira e por isso acompanhou de perto o sacrifício que a mesma fizera para que ele e todos seus irmãos tivessem o mínimo de oportunidades na vida.Desde pequeno fora um jovem ativo e de muitas ambições. Carregava as sacolas de compra das senhoras até suas casas, ajudava o dono da mercearia da esquina, dava aulas particulares para seus amigos, cuidava dos filhos de quem não tinha com quem deixa-los. Todos na vizinhança conheciam Murilo e sua disposição para ajudar e colocar a mão na massa. Se o trabalho era honesto, já sabiam que poderiam contar com seus serviços, ainda mais se isso lhe rendesse uns troquinhos. Mas, o que os outros poderiam ver como uma vida penosa para ele era, simplesmente, sua vida e a adorava. Sempre se sentiu capaz de fazer qualquer coisa e nunca deixou que nada, nem ninguém, lhe dissessem o contrário. Queria o que a maioria das pessoas quer: uma família, uma carreira, conhecer o mundo. E com isso em mente, na época do vestibular, passou noites em claro estudando e seu esforço valeu a pena, pois conseguiu entrar em uma das melhores faculdades de Direito do estado. Agora, só precisaria de um emprego fixo com o qual pudesse pagar as mensalidades.

Trabalhava na empresa de coleta de lixo há quase três anos e,apesar de todos os comentários pejorativos que já escutara ao longo do tempo sobre sua profissão edos preconceitos que sofrera com piadinhas e apelidos criados pelos colegas mais abastados de sua classe, tinha orgulho do que fazia. Era certo que estava lá por um objetivo, porém, mesmo que não fosse o caso, ainda assim pensaria da mesma forma. Além de trabalhar ao lado de pessoas muito boas, no fundo, achava digna de respeito a essência de sua tarefa. Afinal, se não houvesse ele e todos seus outros colegas de profissão, o que seria de todo o lixo do planeta?

E depois de muito andar na traseira do caminhão, competir com seus amigos quem coletava mais rápido ou ganhava mais caixinhas nas datas comemorativas, rir com seus colegas de alguns acidentes ocorridos no percurso e de coisas inusitadas que encontravam no lixo dos outros, e ainda, contar moedas para o café, o lanche, o ônibus, os materiais do curso e um poucomais café; finalmente Murilo se formou.

– Ei, Murilo, o que está fazendo? – Roberto perguntou impaciente, enquanto assistia o colega, em frente ao fórum, recolher do chão uma latinha de refrigerante que uma adolescente jogara e colocá-la em uma lixeira. – Pare de enrolar! O juiz só nos deu poucos minutos de intervalo. Virou lixeiro agora?

Murilo olhou para o rapaz e sorriu.

– Sempre fui!

O menino que escrevia

Está é a história de Carlos, um menino que desde pequeno sempre deixou com que sua imaginação o levasse aonde ela quisesse. Adorava quando chegavam as férias escolares e ele ia passar o mês inteiro na fazenda de seus avós, afinal aquelas viagens ao interior eram sempre sinônimo de aventuras. Enfrentava piratas, conhecia sereias, desbravava os sete mares; tudo isso no riacho que cortava as fronteiras da propriedade. À noite ia deitar contando à sua avó todos os desertos que atravessou, as batalhas as quais enfrentou, as pessoas que conheceu, as princesas as quais salvou, as criaturas mágicas que ajudou; tudo isso feito em um dia e nas dependências da fazenda. Logo que aprendeu a ler e escrever, descobriu que poderia desbravar ainda mais aventuras e sem precisar sair do lugar. Escrevia pequenas histórias com sua letra garranchada de criança e escondia bilhetes secretos por toda a casa, a fim de que alguém, no futuro, descobrisse o tesouro encantado. Muitos o achavam um menino estranho e sozinho, porém Carlos nunca se sentira assim.

Assim que virou adolescente, as aventuras no interior ficaram sem graça, mas sua imaginação não perdeu a força, só acabara mudando de foco. Agora passava horas inventando histórias românticas com meninas; ah, como elas eram adoráveis! Sonhava com sua vizinha, encantava-se com as moças bonitas que sempre passeavam no shopping, apaixonou-se por sua professora de inglês. Começou a escrever poemas e de vez em quando os entregava a suas amadas, nem sempre dava certo, mas na grande maioria das vezes acabava conseguindo um elogio ou mesmo um sorriso. Era motivo de chacota para algumas meninas e para muitos dos garotos de seu colégio, porém não se importava, pois era de escrever que gostava.  Interessou-se por literatura e, ainda que tivesse pouca idade, já havia lido mais livros que grande parte de seus amigos.Certo dia conheceu uma garota, escreveu todos seus sentimentos no papel em forma de versos e entregou-os a dona de seu coração. Foi a melhor obra prima que fizera, para a pessoa que, até então, era a mais especial que passara por sua vida.

Formou-se, entrou na faculdade, estudou muito, começou a trabalhar e formou-se novamente.Passava os dias em uma sala fechada, de frente para um computador e quase não via a luz do sol. Por isso nunca deixara de escrever, mesmo que agora tivesse menos tempo, afinal era do que precisava para libertar sua alma. Dissertava sobre os problemas do mundo, do país, da cidade, de sua comunidade. Entrou em grupos de debate, voluntariou-se como tradutor na faculdade, aprendeu a ler mesmo com o sacolejo dos trens embaçando sua visão. Conheceu outra garota, afinalnunca se cansou delas! Casou-se, teve uma filha, perdeu o emprego no escritório. Começou a fazer uma coisa aqui outra ali para sustentar a família e, entre um bico e outro, encontrou sua vocação. Iniciou seu primeiro livro, demorou mais do que esperava para terminá-lo, mas finalmente o original ficou pronto. Todos diziam que aquilo era loucura, que procurasse um emprego de verdade. Entretanto, Carlos não deu ouvidos aos maus presságios e buscou até a exaustão uma editora, houve um momento em que quase desistiu, mas finalmente seus esforços foram recompensados e conseguiu, publicou sua obra.

Você pode nunca ter ouvido falar de Carlos e certamente muitos não o conhecem pessoalmente, realmente não há nada de especial com ele e sua vida pode ser comparada à de muita gente, porém suas histórias viraram sucesso por onde passaram e ficarão eternizadas, assim como sempre sonhara.Então este é um convite para todos os Carlos, Albertos, Jéssicas, Mônicas, Daianes, Eduardos, Henriques e quem mais for, para que nunca esqueçam dos seus sonhos e daquilo que faz sua alma vibrar, pois é só acreditando que chegamos à algum lugar.

Azar no ar

Muitos consideram a sexta-feira treze um dia de azar. E você, também é um deles? Antes de acreditar na superstição, já se perguntou quantas vezes, efetivamente, houve má sorte em seu caminho neste dia? Inúmeras pessoas acreditam na crença, porém poucos conhecem sua origem.

Ao citar a data, logo vem a mente um cara com máscara de hóquei e uma motosserra na mão, não é mesmo? E não é para menos! Afinal, a franquia do filme que virou um dos ícones de terror é extensa, contando com mais de trinta anos de existência, doze filmes e arrecadando mais de 500 milhões de dólares. Porém não é por isso que a sexta-feira treze é considerada um mau agouro, talvez os próprios produtores tenham se inspirado nas crendices populares quando deram vida ao personagem. Então, de onde veio esse mito?

Não se sabe ao certo, mas tudo indica que o costume surgiu com duas lendas nórdicas.

A primeira delas descreve uma festa muito pomposa com um banquete de dar água na boca na morada celestial das divindades, Valhalla, e para tal feito foram convidados doze Deuses. Tudo estava indo muito bem até que Loki apareceu de penetra no evento e armou uma confusão daquelas que resultou na morte de Balder, o qual era ninguém menos do que um dos favoritos. Estabeleceu-se, então, que convidar treze pessoas para o jantar era símbolo de azar.

A segunda já toma lugar na era do cristianismo, pois quando os nórdicos se converteram a religião a Deusa do amor e da beleza, Friga, fora transformada em bruxa. Para se vingar de tal feito, a mesma uniu-se a onze outras bruxas e ao próprio Satanás, e todas as sextas-feiras os treze juntavam-se a fim de rogar praga para toda a humanidade. A superstição de que o dia da semana trazia má sorte se espalhou por toda a Europa, transformando a sexta-feira em um dia de azar.

Tais crenças foram reforçadas até mesmo na bíblia. A Santa Ceia aconteceu um dia antes da morte de Jesus Cristo, a qual se deu em uma sexta-feira, e o banquete contava com treze pessoas à mesa. Contudo, não foi somente esse relato que destacou o dia como lugar para desastres. Eva ofereceu a maçã a Adão em uma sexta-feira e advinha quando o grande dilúvio teria começado?

Todas essas crendices, passadas de geração a geração, fizeram com que a sexta-feira treze fosse, e ainda seja, temida por muitos. Eu particularmente gosto delas, afinal, assim como Jason, nasci no dia treze e, justamente, neste dia da semana. E você? Ainda acha que elas trazem azar? Se a resposta for afirmativa, melhor tomar cuidado ao passar por este treze de julho, já que estamos precisamente em uma sexta-feira.

Pula Fogueira

Assim como minhas comemorações irmãs, Natal, Carnaval e Páscoa, eu sou antiga e minhas origens são além do cristianismo. Festas juninas, apesar de carregarem outros nomes, já eram muito comuns em grande parte do hemisfério norte. A época do solstício de verão na região sempre fora motivo de celebração, pois com a promessa de dias mais longos e quentes, era tempo de pedir por fertilidade e fartura nas colheitas. Mesmo com a ascensão do cristianismo na Europa, eu não perdera minha força e, não querendo entrar em confronto com o que era popular, a igreja acabou me incorporando em seu calendário, homenageando assim, os três santos de sua crença dentro do mês: Santo Antônio, São João Batista e São Pedro.

Cheguei ao Brasil junto com os jesuítas portugueses, mas o mais curioso foi ver que os indígenas que aqui habitavam já faziam comemorações muito parecidas com as minhas na mesma época, mesmo que estas, no hemisfério sul, marcassem o início do inverno. As tradições fundiram-se e foi por isso que uma festa onde se celebra santos católicos acabou tendo em sua composição comidas tão típicas da região. Outra característica importante em minhas festas a qual surgiu nesse mesmo período foram as vestimentas caipiras, pois eram roupas comuns da época, já que a grande maioria da população brasileira de meados do século XX morava nos campos. Hoje, as minhas maiores comemorações concentram-se no nordeste do país, com destaque para as cidades de Caruaru – PE e Campina Grande – PB.

Na verdade eu sou uma festa de muitas misturas, alguns dos meus mais tradicionais rituais vieram de diferentes partes do mundo. A quadrilha, por exemplo, teve a influência das contradanças francesas de salão do século XVII. Apesar das minhas festas mais remotas já contarem com danças e cantos, os passos em pares com uma sequência coreografada se popularizou tanto que acabou sendo incorporado as festas juninas, tornando-se o que vemos hoje. As fogueiras já eram presentes nas celebrações pagãs e indígenas, porém as mesmas também receberam uma explicação cristã, pois Santa Isabel, mãe de um dos aniversariantes do mês, João Batista, disse a Maria que acenderia uma fogueira quando o mesmo nascesse para avisá-la e assim foi feito. A tradição de soltar balões, assim como os fogos, veio da China; e há tantas outras de outros lugares que nem me lembro mais. Hoje tenho variações de acordo com a região onde sou comemorada, porém continuo mantendo sempre as minhas raízes.

Então prepare a pipoca, o bolo de fubá, o amendoim e a paçoca. Aqueça o quentão e o vinho quente. Acenda a fogueira e pendure as bandeirinhas. Vista-se ao melhor modo caipira e coloque o seu chapéu. Chame seu par para dançar e solte o som da sanfona, pois já é época de comemorar minhas festas juninas.

Nação Verde Amarela

José – 29 de Junho de 1958

A pequena cidade do interior de Pernambuco estava em festa. O prefeito havia colocado um rádio gigante no pátio do colégio, onde José e todos da cidade se reuniram, naquele domingo, para ouvir a partida. O jovem senhor estava aflito, já que o Brasil enfrentaria nada menos do que a anfitriã do evento naquele ano, Suécia. Mesmo desgostoso por saber que a seleção jogaria com o uniforme azul e isso, com certeza, traria azar; José cantou o hino como nunca antes e esperou, com o coração acelerado, que o juiz apitasse o começo do jogo. Com quatro minutos a Suécia abriu o placar. Ele sabia que daria nisso, onde estava o amarelo canarinho? Porém a aflição durou pouco, já que Vavá cinco minutos depois acabou empatando tudo e antes mesmo de terminar o primeiro tempo tinha virado o placar. O ginásio foi ao delírio, quando Pelé fez seu gol de chapéu aos dez minutos do segundo tempo. Aos vinte e três, Zagallo marcou mais um. A Suécia até tentou alcançar o Brasil fazendo seu segundo gol aos trinta e cinco, porém Pelé carimbou a vitória com mais um dele ao finalzinho. Brasil 5, Suécia 2. E foi assim que o interior de Pernambuco e toda a nação comemorou o primeiro título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Patrícia – 17 de Junho de 1962

A partida foi no Chile, porém era no Clube Hebraica em São Paulo que as famílias mais notórias da cidade estavam reunidas em frente ao televisor para assistir a final do campeonato. Patrícia nunca fora ligada em futebol, entretanto aquela competição havia chamado sua atenção e isso acabou fazendo com que ela acompanhasse, de perto, todos os jogos com o seu marido. Pelé havia deixado a seleção já no segundo jogo por causa de uma contusão, mas isso não abalou a confiança do time, o qual seguiu em frente com Garrincha fazendo a vez do grande ídolo e tornando-se assim, tão lendário quanto o próprio. O Brasil entraria em campo no uniforme amarelo e jogaria contra a Tchecoslováquia, a qual nem esperou quinze minutos de jogo para fazer o seu primeiro ponto. Mas para o deleite da plateia, Amarildo balançou a rede apenas dois minutos após o gol da adversária e fez com que toda a compostura pomposa da elite presente no clube se quebrasse com gritos de êxtase. Depois disso, não deu mais para o país europeu. Zito fez o segundo aos vinte e nove e Vavá, o terceiro, aos trinta e três do segundo tempo. Brasil 3, Tchecoslováquia 1. E foi assim que a alta sociedade de São Paulo e toda a nação comemorou o segundo título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Márcio – 21 de Junho de 1970

Apesar de toda a turbulência política em que o país se encontrava, Márcio e seus amigos deixaram, somente por aquele domingo, os movimentos por democracia de lado e reuniram-se em frente à TV a fim de assistir a partida da Copa do Mundo que se passava no México. O grito verde e amarelo já ecoava por todo o país pedindo por liberdade, e agora a cor vestia também a seleção no futebol. Pelé iniciou o placar logo aos dezoito minutos do primeiro tempo, porém, por um erro da zaga, a Itália empatou aos trinta e sete. A situação poderia desanimar qualquer torcedor, mas o time sul americano estava longe de desistir. E foi por isso que Gerson acabou balançando as redes mais uma vez aos vinte e um do segundo tempo com um tiro certeiro. Logo em seguida, Jairzinho, de falta, somou mais um gol ao placar da seleção. Para o delírio dos estudantes ali reunidos, no finalzinho do jogo ainda houve o gol de Carlos Alberto, o qual, nos anos seguintes, seria lembrado como o mais bonito da história das Copas, já que não faltaram invertidas da esquerda para direita as quais encerraram-se no passe preciso de Pelé. Brasil 4, Itália 1. E foi assim que os estudantes que lutavam contra a ditadura militar e toda a nação comemorou o terceiro título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Jéssica – 17 de Julho de 1994

As ruas estavam pintadas com desenhos que ostentavam as cores da seleção e bandeirinhas do Brasil balançavam ao vento cobrindo todo o horizonte. A família de Jéssica era só mais uma, dentre tantos brasileiros, que naquele domingo havia se reunido para um churrasco a fim de assistir aquela que seria uma das partidas mais sofridas que o Brasil já enfrentara em uma final. Novamente a disputa era contra a Itália, apesar do palco do evento, naquele ano, ser nos Estados Unidos. O jogo fora muito tenso, truncado e nenhum dos dois lados conseguiu desenvolver o potencial que possuía, para a aflição de seus torcedores. Não houve gols em nenhum dos dois tempos nem nos trinta minutos da prorrogação. Era a primeira vez que a final de uma Copa do Mundo seria decidida nos pênaltis. Franco Baresi da Itália começou isolando a bola acima do travessão, porém o Brasil também não marcou o seu primeiro, já que o goleiro do adversário defendeu o chute de Márcio Santos. Albertini e Evani conseguiram converter para o time europeu, mas o Brasil não ficou para trás já que Romário e Branco fizeram os seus. Jéssica já estava com o coração saltando da boca quando Massaro chutou do lado esquerdo do gol e Taffarel defendeu. Logo na sequência, Dunga marcou para o Brasil e o adversário, Roberto Baggio, mandou sua bola para além do travessão, dando a vitória, mais uma vez, para a nossa nação. Brasil 3, Itália 2. E foi assim que a classe média brasileira e toda a nação comemorou o quarto título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Jorge – 30 de Junho de 2002

Os fogos já estouravam no céu do Rio de Janeiro. Jorge, ainda sonolento, estava em seu casebre deitado no sofá debaixo das cobertas. Só mesmo por um jogo da seleção que acordaria tão cedo estando de férias escolares. Os horários daquela copa haviam sido cruéis, já que a mesma se passara do outro lado do mundo, entre o eixo Coréia e Japão. Tinha cortado seu cabelo igual ao ídolo, o fenômeno, e por isso se sentia poderoso, mesmo que sua mãe odiasse o penteado. Apesar da adversária do Brasil ser a Alemanha, o primeiro tempo fora tão morno que o menino quase se entregara ao sono. Porém a emoção da segunda metade do jogo o despertara, quando Ronaldo, o fenômeno, abriu o placar aos vinte e dois minutos e logo depois, marcou de novo, aos trinta e quarto. Antes mesmo de Cafu erguer a taça, o morro todo já explodia em festa com rojões e gritos de é campeão. Brasil 2, Alemanha 0. E foi assim que a comunidade do Rio de Janeiro e toda a nação comemorou o quinto título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Vida de Solteira – Dia dos Namorados

“Não! Não pode ser! O dia dos namorados chegando e eu aqui sozinha? Como isso foi acontecer?!”, Valentina lamentava enquanto contorcia-se na cama olhando o calendário. Suspirou. Era frustrante, afinal, nos últimos tempos, ela tentara de todas as maneiras trocar o status de solteira para relacionamento sério. Porém, suas experiências haviam sido desastrosas, dignas de uma comédia romântica sem um final feliz. Ninguém poderia dizer que não havia feito nada a respeito do assunto. Entretanto, o resultado estava claro, estampado em sua testa; uma alma solitária no dia em que tantos outros estariam celebrando o amor. Decidiu que não mais ficaria nessa depressão, chamaria algumas amigas e juntas sairiam para curtir a noite. Afinal, era somente uma data, nada mais que isso.

E não era que, no final, acabou empolgada? Valentina estava em um bar com mais três amigas o qual, naquele 12 de junho, celebrava o Dia dos Solteiros, com correios elegantes e bebidas duplas de graça. Como nunca soubera desses eventos antes? Que lindo seria se justamente naquela noite encontrasse sua alma gêmea. Iniciou bem; estava com suas amigas, conversou, deu risada, bebeu algumas tequilas e até deu umas paqueradas. Mas, em dado momento, as coisas começaram a ficar estranhas. Uma das meninas havia sumido, outra já estava se engraçando com um cara, trocando empolgada com o mesmo correios elegantes; restara somente Valentina que, sem pronunciar uma única palavra, olhava a amiga da amiga sentada à sua frente e desejava desesperadamente que esta também não se arranjasse, afinal ela não poderia ser a única a sobrar.

O garçom parou ao seu lado e entregou-lhe um papelzinho colorido, sinal de que recebera uma mensagem. Empolgada agradeceu seu salvador e abriu o pequeno bilhete: “Olá gatinha, você vem sempre aqui?”. “Nossa, essa é mais velha do que minha vó!”, pensou. Mesmo assim resolveu responder, afinal sua falta de criatividade para puxar uma conversa talvez fosse um ato esporádico, como, quem sabe? Timidez. “Primeira vez! Quem é você? Mande um sinal ou fale um pouco mais ao seu respeito. Quer me encontrar pessoalmente?”. Não demorou muito para que o funcionário da casa viesse novamente com outro papelzinho colorido. “Que ótimo! Encontre-me em 20 minutos no espaço perto dos camarotes, garanto que não irá se arrepender! Procure por “Cupido da Paixão”.”. Valentina achou aquela mensagem estranha e ao mesmo tempo excitante, afinal o pequeno jogo de esconde-esconde era um tanto quanto interessante. “Pois bem, então seria a “Gladiadora de Corações”.”, pensou e começou a rir. Levantou-se, olhando com piedade para a amiga da amiga, estava com dó de largá-la sozinha, mas nessa guerra só poderia haver uma derrotada e antes a desconhecida do que ela. Passou no banheiro a fim de arrumar o cabelo e verificar roupa e maquiagem antes de encontrar com o seu misterioso querubim. Deu risada consigo mesma. Só poderia estar maluca para empolgar-se com algo assim! Quando se deu por satisfeita, saiu do recinto e foi até o lugar combinado. Era estranho, o espaço manteve-se vazio a noite toda, mas justamente naquele momento estava lotado de mulheres. O tal rapaz ainda não estava lá, então resolveu esperar. Mais e mais mulheres se aglomeravam no diminuto lugar, talvez fosse começar alguma atração programada da casa. O misterioso querubim já estava há uns bons vinte minutos atrasado e Valentina começou a indagar se o rapaz havia desistido. Sentindo-se desconfortável com o amontoado de gente, resolveu perguntar à menina sentada ao seu lado se ela sabia o motivo de tal afobação.

– Não sei! Estou aqui para encontrar com alguém. – Riu consigo mesma. – Mandou chamá-lo de “Cupido da Paixão”.

Valentina olhou ao redor e reparou que todas as mulheres presentes tinham um correio elegante na mão e pareciam esperar por alguém. “Ele levou a sério o papo de cupido!”, pensou irritada. Assim que se levantou a fim de voltar a sua mesa um holofote acendeu-se no meio do ambiente, destacando um rapaz musculoso vestido com apenas uma sunga branca e asas enormes em suas costas.

– Para àquelas que não encontraram seu amor hoje, apresento o “Cupido da Paixão”! – o DJ anunciou, tocando uma música agitada e fazendo com que o rapaz em destaque começasse a dançar.

Valentina indignou-se. Por que só ela havia recebido o convite para o show se não estava sozinha na mesa? E a amiga da amiga? Passou no bar e pediu uma cerveja. “Não precisava daquilo!”, pensou consigo mesma. E conformou-se, pelo menos ainda lhe restara a companhia da desconhecida. Nem precisou chegar à mesa para perceber que a mesma estava vazia. Valentina olhou para os lados, todas haviam se arranjado. Não era que o cupido, desde o início, sabia que aquele seria seu fardo? Tomou um grande gole de sua bebida e respirou fundo, retornando para o show que havia abandonado. Não encontrou o seu príncipe encantado, mas seu querubim a aguardava.