Vida de Solteira – Speed Dating

Mais uma tentativa, mais uma chance para o amor. Desta vez Valentina estava empolgada. Já tinha visto esse tipo de encontro em filmes e sempre teve curiosidade de passar pela experiência, por isso, quando sua amiga lhe disse que havia encontrado um grupo que promovia tal evento, ela não pensou duas vezes em aceitar o convite. O conceito era simples: as mulheres ficariam sentadas nas mesas enquanto os homens revezariam entre elas; o objetivo era fazer com que todos tivessem a oportunidade de conversar e se conhecer melhor para, quem sabe, rolar uma afinidade.

A amiga de Valentina foi até a sua casa para que seguissem juntas ao local onde estava marcado o encontro. Procuravam pelo número do endereço, quando, de repente, sua companheira olhou para o lado, deixando o queixo cair, com surpresa.

– Com certeza é esse lugar com um cupido na porta! – ela comentou horrorizada.

Valentina seguiu o olhar da amiga e imediatamente seu coração acelerou em pânico. Sim, lá estava ele, na frente do bar. Por que haveria um homem seminu com asas brancas e até uma auréola em frente a um estabelecimento se não fosse justamente para receber os participantes do evento, humilhando-os ao demonstrar para a sociedade a que ponto tiveram que chegar para conseguir um amor? Aquilo só poderia ser brincadeira! Toda sua empolgação de outrora foi substituída pela vergonha. As duas meninas ficaram em silêncio por algum tempo dentro do carro até que Valentina, respirando fundo, declarou:

– Vamos logo com isso! Já pagamos e viemos até aqui, não será um cara com uma fantasia ridícula que irá nos impedir! – A outra garota sorriu para ela nervosa. – Além do que, quem está pagando mico vestindo aquilo é ele, não estamos fazendo nada de errado – completou determinada e ambas saíram do carro. Ficou satisfeita consigo mesma, afinal o discurso tinha funcionado com a amiga, ela parecia confiante. E era verdade, quem tinha que sentir-se vergonhado por usar aquilo era o rapaz e não elas só porque estavam prestes a participar de um evento em sua presença. Respirou fundo. A quem queria enganar? Pelo menos ele estava sendo pago para fazer aquilo.

Deram seus nomes ao cupido e receberam um crachá, depois seguiram o querubim até uma sala reservada nos fundos do estabelecimento. A menina tentou ignorar o fato de que todos no bar viraram para encará-los e provavelmente estavam pensando o que aquelas duas queriam seguindo um cara só de calças e com asas nas costas. Mas, para seu alívio, Valentina sentiu-se mais confortável ao ver que não fora somente ela a passar por tal vergonha. O recinto estava cheio! Havia pelo menos umas quinze meninas e o mesmo número de rapazes. O moderador apresentou-se, explicou como funcionavam as regras e depois deu um jogo de perguntas e respostas para os participantes interagirem um pouco antes do evento principal, o qual acabou servindo bem o seu propósito que era o de quebrar o gelo entre as pessoas. Finalmente cada mulher tomou uma mesa para si e os homens escolheram com quem queriam se sentar. Valentina teria quatro minutos para conversar com quem estava na sua frente até que o sino tocasse e o próximo participante viesse. No começo ela achou ser pouquíssimo tempo para desenvolver um assunto interessante com alguém e, de fato, com alguns deles, realmente foi. Porém a garota percebeu que, dependendo da pessoa que lhe fizesse companhia, aquilo poderia ser muito, mas muito tempo… quase uma eternidade!

Valentina anotava na ficha que deveria entregar ao final do evento suas preferências sobre os rapazes que já haviam passado por sua mesa quando o próximo se aproximou. Ele trazia consigo uma caixinha de água de coco e, assim que se sentou, jogou o cabelo para o lado, olhando fixamente para a moça. Qual era o problema daquele cara? Será que ele estava tentando seduzi-la? Os quatro minutos começaram a ser contados e o rapaz passou os três primeiros deles só falando sobre seus feitos, não dando espaço para que Valentina abrisse sua boca para argumentar. Em dado momento ele parou e Valentina pensou: “Será que agora finalmente posso falar?”, mas antes mesmo que tivesse tempo de expressar qualquer coisa o garoto debruçou-se na mesa e, aproximando-se da moça, pegou sua caixa de água de coco e chupou o canudinho de um jeito engraçado, com os olhos meio arregalados e os lábios formando um bico em um ângulo esquisito. Depois, lentamente, colocou a caixinha de lado, sem desviar nem por um segundo o olhar de Valentina. Era a primeira vez que via alguém tentar ser sexy com uma caixinha de água de coco e ela teve que reunir todas suas forças para não gargalhar na cara do sujeito. Salvo pelo sino e com o ego inabalado o rapaz pulou para a próxima mesa e Valentina pode respirar aliviada novamente. Seguiram-se mais uma dúzia de moços, alguns interessantes e outros nem tanto. Ela já estava rouca e com a garganta seca de tanto falar, tinha se cansado das mesmas perguntas: qual seu nome, onde mora, o que faz da vida, o que faz nas horas livres, por que veio até aqui ou já veio em outro evento desses antes?  Até que, finalmente, chegaram à última rodada. Definitivamente não poderia dizer que aquele pretendente era mais do mesmo. Perguntas como: se você tivesse em uma ilha com sua mãe e seu namorado e precisasse matar um dos dois para sobreviver qual seria? Você prefere ser morta ou se matar? Qual sua opinião sobre a legalização do porte de arma? Fizeram com que Valentina terminasse a conversa aconselhando o rapaz a procurar ajuda psicológica com um profissional.

O saldo da noite fora uma garganta arranhada, muitos nãos, alguns talvez e nenhum sim. Contudo, Valentina e sua amiga divertiram-se com a experiência e até já faziam planos para tentar uma segunda vez, pois, no mínimo, o evento lhes renderiam boas gargalhadas.

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