Visita 129

O aniversário dela estava próximo. Sim, indo contra todas as minhas súplicas, aquela a qual eu não ousaria pronunciar o nome, em breve, faria mais um ano de vida. Minha esposa fez questão de me lembrar da data logo no início da semana, comunicando-me que já havia feito uma reserva em um restaurante para comemorar o grande dia. Confesso que tive dificuldades para entender o que Lúcia dizia, pois, em minha cabeça, o fato de minha sogra ter nascido não combinava em nada com algo grandioso e muito menos era motivo para celebração; pelo contrário, só a simples ideia já me causava calafrios. Por que tínhamos que fazer isso todo o ano? Por um acaso há festas para comemorar o aniversário de múmias de mais de trezentos anos do Egito? Pois é, estas sim deveriam ser celebradas. Afinal são peças importantes na história da humanidade. Não são como minha sogra, que de relíquia, só tem o velho mesmo.

Estávamos há mais de vinte minutos esperando por ela na porta do apartamento de uma amiga. Desta vez a digníssima resolvera não se hospedar em nossa casa durante sua temporada na cidade, alegando que não comíamos direito e que, por motivos de saúde, ela não poderia sair de sua dieta rigorosamente traçada. Anotei a informação mentalmente para planos futuros. Daqui para frente todas suas visitas seriam regadas com as melhores guloseimas que a cidade poderia oferecer: pizzas, hambúrgueres, cachorros quentes, e outras tantas comidas extremamente saudáveis. Não poderia reclamar! Pelo menos aquela pequena parte de minhas preces fora atendida. Onde estava aquela velha? Assim perderíamos a reserva no restaurante. A irritação deu lugar a uma esperança crescente, afinal, aquilo não era de todo ruim! Sem restaurante, sem jantar e, sem isto, eu não precisaria aturar a presença da jararaca por horas a fio. Quem sabe alguém lá em cima estaria olhando por mim e algo tivesse acontecido? Um escorregão na banheira que fez com que ela batesse a cabeça, ou um choque super potente ao ligar um aparelho na tomada; milagres podem acontecer! Mas para o meu infortúnio não fora dessa vez. Lá estava ela, equilibrando uma caixa nas mãos enquanto tentava fechar o portão.

– Desculpe-nos, senhor! Tentamos segurar sua mesa o máximo que pudemos, porém o restaurante está cheio e como já haviam se passado mais de quarenta minutos do horário tivemos que liberar a reserva – disse educadamente um funcionário na entrada do restaurante.

– Eu entendo, mas seria possível conseguir outra mesa? – perguntei.

– Sinto muito, mas estamos com fila de espera de mais de duas horas. Se não se importar, posso colocá-los na lista.

Um tremor percorreu por toda a minha espinha. Jantar com a mulher já era ruim o suficiente, mas ter que esperar horas a fio em sua companhia seria torturante! Aquele sujeito só poderia estar maluco ao sugerir isso, obviamente não entendia o tamanho do meu suplício.

– Tem certeza que não há como resolvermos isso de outra maneira? – eu implorei. Ajoelhar-me ia se fosse preciso.

– Não perturbe o rapaz, Leandro. Isso é tudo culpa sua! – Olhei para a jararaca em descrença. – Se você não fosse uma lesma lerda dirigindo não estaríamos passando por isso – ela emendou.

Balancei a cabeça. Como poderia dizer isso depois de nos fazer esperá-la pela eternidade na frente do prédio? Nem Senna chegaria a tempo!

– Tinha certeza que isso aconteceria. Você não presta para nada mesmo! E agora? O que vou fazer com o meu bolo? Até entrarmos ele irá derreter! Pois você pagará por meu prejuízo. Esse seu marido não tem compromisso com nada, minha filha… Onde já se viu? Bem que eu te disse que era melhor ter casado com Luís, esse sim era um rapaz direito, de família…

Ela continuou seu discurso pelo que me pareceram décadas! O rapaz da recepção tentou fazê-la parar por diversas vezes, mas sem sucesso. Olhou para a fila de clientes impacientes e voltou-se desesperado, suplicando-me uma ajuda silenciosa. Resignado e com pena do sujeito, dei de ombros. Ele despertara a besta, não havia nada a ser feito àquela altura. O rapaz respirou fundo e falou em alto e bom tom:

– Mas que sorte, minha senhora! Acabou de vagar uma mesa. Poderiam me seguir, por favor?

A velha parou de falar e olhou satisfeita para o rapaz. Escutei algumas palmas do lado de fora assim que adentramos o restaurante. O sujeito nos indicou a mesa e chamou um garçom de lado, sussurrando algumas instruções. Antes de nos deixar, o homem deu dois tapinhas solidários em meu ombro, olhando-me com compaixão. Comparado com a recepção, o jantar foi melhor do que eu esperava. Minha sogra estava em seu melhor momento, fez com que o garçom voltasse com sua comida, apenas três vezes. Seu recorde pessoal eram quinze em uma noite. Ela fez com que trouxessem o bolo e começou a enchê-lo de velas, quando não tinha mais superfície disponível para mais delas, ela finalmente parou.

– Mamãe, não era mais fácil ter comprado velas com os números que formam sua idade? Acho que não vão deixá-la acender tantas… – Lúcia argumentou, mas a megera somente balançou a cabeça.

– A Clara fez desse jeito no aniversário dela e naquele ano ela ganhou um dinheiro inesperado e o filho separou-se da mulher horrorosa que tinha. Tenho certeza que terei muito mais sorte que ela, pois essas até explodem!

Lúcia olhou incerta para mãe, mas não argumentou. Ajudou a mulher a acender as trezentas mil velas em cima do bolo. Não tínhamos nem passado do “nesta data querida” quando o alarme de incêndio do restaurante começou a soar e, imediatamente, os sprinklers foram ativados.

Deixei minha sogra na porta do apartamento de sua amiga, após sermos expulsos do restaurante. A mulher estava encharcada, com o cabelo todo bagunçado e a maquiagem barata escorrendo por seu rosto. Definitivamente as coisas não haviam saído como planejadas. Desta vez nem ela conseguiria arranjar uma forma de colocar a culpa dos acontecimentos da noite em mim. Seu olhar de cachorro sem dono, ao entrar no prédio, era impagável! Para a minha surpresa, peguei-me ansiando por seu próximo aniversário.

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