Série Profissões: O lixeiro

Aquela era a parte da noite de que Murilo mais gostava. O vento frio batia em seu rosto enquanto, com um dos braços estendidos, dependurava-se na lateral do caminhão. O rapaz aproveitava aquele breve momentodo trajeto de volta àgaragem para pensar sobre a vida e renovar suas energias.

– Será que ainda tem café na salinha? – Murilo questionou enquanto guardava seu uniforme dentro do armário.

– Está louco, cara? Já é quase meia-noite! Não recomendo o consumo de cafeína nesse horário… – Jorge respondeu irônico e Murilo riu. –Estou tão cansado que não vejo a hora de chegar em casa e despencar na cama! – ele completou, colocando a mochila nas costas.

–Nem reparei que já era tão tarde! Ainda vou estudar, semana de provas…

– Um de nós tem que virar doutor, não é mesmo? – Jorge comentou batendo no ombro do amigo. – Boa noite de estudos, Murilão! Até amanhã. – Murilo acenou para o colega e Jorge retirou-se, rindo.

Murilo vivia com sua mãe e os irmãos em uma pequena casa na periferia da cidade. Logo que chegou, percebeu que haviam lhe deixado um prato de comida em cima da mesa da cozinha. Isso era ótimo! Estava faminto e a noite seria longa. Já estava acostumado a revezar seu tempo entre os estudos, o trabalho e os afazes domésticos, desde sempre fora assim.Era o filho mais velho de uma mãe solteira e por isso acompanhou de perto o sacrifício que a mesma fizera para que ele e todos seus irmãos tivessem o mínimo de oportunidades na vida.Desde pequeno fora um jovem ativo e de muitas ambições. Carregava as sacolas de compra das senhoras até suas casas, ajudava o dono da mercearia da esquina, dava aulas particulares para seus amigos, cuidava dos filhos de quem não tinha com quem deixa-los. Todos na vizinhança conheciam Murilo e sua disposição para ajudar e colocar a mão na massa. Se o trabalho era honesto, já sabiam que poderiam contar com seus serviços, ainda mais se isso lhe rendesse uns troquinhos. Mas, o que os outros poderiam ver como uma vida penosa para ele era, simplesmente, sua vida e a adorava. Sempre se sentiu capaz de fazer qualquer coisa e nunca deixou que nada, nem ninguém, lhe dissessem o contrário. Queria o que a maioria das pessoas quer: uma família, uma carreira, conhecer o mundo. E com isso em mente, na época do vestibular, passou noites em claro estudando e seu esforço valeu a pena, pois conseguiu entrar em uma das melhores faculdades de Direito do estado. Agora, só precisaria de um emprego fixo com o qual pudesse pagar as mensalidades.

Trabalhava na empresa de coleta de lixo há quase três anos e,apesar de todos os comentários pejorativos que já escutara ao longo do tempo sobre sua profissão edos preconceitos que sofrera com piadinhas e apelidos criados pelos colegas mais abastados de sua classe, tinha orgulho do que fazia. Era certo que estava lá por um objetivo, porém, mesmo que não fosse o caso, ainda assim pensaria da mesma forma. Além de trabalhar ao lado de pessoas muito boas, no fundo, achava digna de respeito a essência de sua tarefa. Afinal, se não houvesse ele e todos seus outros colegas de profissão, o que seria de todo o lixo do planeta?

E depois de muito andar na traseira do caminhão, competir com seus amigos quem coletava mais rápido ou ganhava mais caixinhas nas datas comemorativas, rir com seus colegas de alguns acidentes ocorridos no percurso e de coisas inusitadas que encontravam no lixo dos outros, e ainda, contar moedas para o café, o lanche, o ônibus, os materiais do curso e um poucomais café; finalmente Murilo se formou.

– Ei, Murilo, o que está fazendo? – Roberto perguntou impaciente, enquanto assistia o colega, em frente ao fórum, recolher do chão uma latinha de refrigerante que uma adolescente jogara e colocá-la em uma lixeira. – Pare de enrolar! O juiz só nos deu poucos minutos de intervalo. Virou lixeiro agora?

Murilo olhou para o rapaz e sorriu.

– Sempre fui!

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