O mundo que não se vê

Alice estava cansada, mas precisava continuar, os destinos da cidade e de Artur seriam selados com aquela viagem. Seu companheiro desembainhou a espada das costas e assumiu uma posição de ataque, preparando-se para combater o inimigo. A batalha no povoado estava sendo sangrenta e Alice sabia que Artur precisaria vencer mais aquele obstáculo se quisesse salvar o seu povo e sua amada. O dragão surgiu dentre as montanhas e alçou voo, tomando os ares, para logo em seguida fazer uma curva e, com um rasante, rumar na direção do guerreiro. O coração de Alice acelerou aflito, sabia que aquela seria a batalha derradeira de Artur, pois o tempo estava correndo e a salvação do reino residia naquele confronto. Agora seria tudo ou nada!…

Ela agora estava dentro de uma sala fria, com gavetões de metal que se estendiam por toda a extensão da parede dos fundos. Acompanhava a investigadora Rodriguez, a qual escutava atentamente às explicações que o legista lhe dava sobre as possíveis causas da morte do corpo na maca à sua frente. Quando saíram do necrotério, Alice já sabia, assim como a investigadora, que aquele rapaz era só mais uma vítima dos misteriosos assassinatos em série que estavam assolando a cidade nos últimos anos. Eram homens, na faixa dos 20 à 30 anos, com um comportamento de vida específico. As mortes eram limpas, sem marcas de agressões físicas aparentes. Um furo profundo na nuca da vítima e um símbolo deixado no local do crime, cujo significado ninguém sabia ao certo ainda, eram as únicas pistas que ligavam as mortes ao serial killer…

Era muito interessante descobrir sobre a vida daquele empresário tão famoso! Ali conseguia vê-lo como uma pessoa de carne e osso e não uma celebridade. Todo aquele esforço para conseguir criar o império que tem hoje? Era admirável! Alice achou sua história de vida um tanto quanto inspiradora…

Naquele momento, Alice era Amanda. Sabia exatamente como ela estava se sentindo: o coração acelerado, o suor frio, as borboletas no estômago; o alívio e o prazer que compartilhavam o seu ser; aquele desejo… Tudo resumido em um único beijo. Foi um ato demorado e terno; o qual demonstrava toda a paixão que estava guardada por tanto tempo nos corações de Amanda e Jorge, esperando somente o momento certo para se manifestar. E que manifesto! Quase lhe tirando o folego…

Alice realmente precisava daquelas palavras e naquele momento. Ajudaram- na a atravessar uma fase difícil de sua vida. Autoestima, confiança, o poder do pensamento positivo, o universo conspira a favor de todos aqueles que sabem usufruir de seu poder. Nunca todos aqueles conceitos lhe fizera tanto sentido…

Já estava tarde. Alice retirou o aparelho de leitura e o colocou ao lado da cama, arrumando-se para deitar. Era verdade que preferia dar seu próprio tom a história que lia, mas nem todos os livros tinham suas versões em braile e o aparelho era uma boa alternativa para o problema. De um jeito ou de outro, no final, acabava se aventurando da mesma maneira. Alguns poderiam dizer que o mundo de Alice tornou-se escuro desde que a menina perdera a visão naquele acidente de carro, mas estavam enganados. Ela aprendeu a ler de novo e, a cada noite, um personagem se oferecia para levá-la a um lugar diferente, cheio de novas aventuras e tantas tramas. O mundo de Alice, na verdade, nunca fora tão colorido!

 

*Crédito de imagem:

<a href=”https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/escola”>Escola vetore desenhado por Freepik</a>

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