Yvon – 3 anos antes

A Estação Espacial era o mais próximo que Yvon poderia chamar de lar nos últimos tempos. Ele já estava estacionado naquela base há oito meses e ainda faltavam mais algumas semanas para que ele pudesse retornar a Terra. Conhecia tudo como a palma de sua mão, mas também não havia muito que explorar no local, já que, apesar de ser um laboratório de alta tecnologia em órbita baixa terrestre, não era um espaço tão grande ao ponto de alguém se perder, ainda mais se este estivesse vivendo ali por tanto tempo. Sua missão era basicamente desenvolver pesquisas que em Terra seriam mais difíceis ou mesmo impossíveis de se executar e passar esses resultados para a base de campo. Yvon amava o que fazia, sempre gostou da sensação de liberdade que sentia ao estar no espaço, nem mesmo reclamava de ter que trabalhar em conjunto com sua base, como muitos ali faziam, pois até nisso tivera sorte, afinal sua parceira em Terra era uma grande amiga e extremamente habilidosa. Mesmo que agora Elissa não estivesse em seu melhor momento, sua mãe havia sido diagnosticada com uma doença terminal e ela estava tendo que lidar com muita coisa ao mesmo tempo, ainda assim não a trocaria por nenhum outro.

A estação sempre contava com uma equipe de três membros que de tempos em tempos era substituída por uma nova com o mesmo número de pessoas. Quando essas trocas ocorriam, as duas equipes, nova e antiga, conviviam por alguns dias até que todos os procedimentos fossem passados e todas as tarefas organizadas. Nestas ocasiões o convívio acabava se tornando um desafio, afinal todo espaço tinha que ser divido para o dobro de tripulantes. Todos corriam contra o tempo no laboratório, em algumas semanas a nova equipe seria enviada e tudo tinha que estar alinhado para que esta conseguisse seguir com as pesquisas sem grandes esforços ou atrasos, era crucial que tudo estivesse funcionando e em perfeita ordem até sua chegada. Yvon adorava estar em órbita, mas já contava os dias para finalmente estar na Terra, sentia falta da família e dos amigos, já tinha até elaborado alguns planos para o seu retorno. Ele estava em sua estação de trabalho concentrado em finalizar alguns dos procedimentos que começara uns dias atrás, quando um dos rapazes foi até ele tentar debater dados de uma das pesquisas em que trabalhavam, no final este acabou desistindo da empreitada. Quando Yvon se concentrava em uma tarefa era como se imergisse nela e nada mais a sua volta existisse, era difícil de desviar o seu foco ou chamar sua atenção quando estava envolto em suas obrigações, ainda assim, um bipe fino soava insistente há algum tempo, tentando tirar sua concentração, parecia que todos resolveram falar com ele justamente no momento em que estava concentrado em sua tarefa. Yvon sabia que era uma chamada direta da base terrestre, mas apesar do barulho estar começando a irritá-lo ele decidiu por bem ignorar o alerta, estava em um momento importante de suas análises, retornaria quando estivesse desocupado. O toque continuou a persistir até que uma tela de vídeo chamada abriu automaticamente no seu monitor.

– Yvon Petrov? – Um senhor de meia idade vestido em um terno preto e com os cabelos grisalhos devidamente arrumados em gel apareceu em sua tela de trabalho. Yvon não fazia ideia de quem era o sujeito, não se lembrava de tê-lo visto na base de comandos nenhuma vez sequer. Onde estava Elissa? Ele confirmou a identidade acenando com a cabeça, ainda incerto sobre do que se tratava aquilo. – Sou Mikhail Bikov, gerente dos projetos internacionais da agência. Estamos com uma missão urgente e de extrema importância e queremos que você faça parte da equipe.

– Que tipo de missão? – Yvon perguntou interessado. O departamento internacional nunca o havia procurado antes.

– As informações são sigilosas, por isso os detalhes serão passados pessoalmente logo que você chegar à base. – Yvon acenou concordando.

– Tudo bem. Estou voltando em algumas semanas, assim que estiver em Terra procuro o departamento internacional e…

– Não, já organizamos tudo para o seu retorno. Não conseguimos adiantar toda a tripulação, mas o seu substituto já está sendo enviado para a estação. – Yvon olhou surpreso para o homem que estava em sua tela. – Estamos no seu aguardo, Sr. Petrov, nos vemos dentro em alguns dias.

Elissa – 3 anos antes

Fechou as cortinas, mas mesmo assim deixou a janela entreaberta. Era raro fazer um dia tão bonito quanto aquele e queria aproveitar ao máximo o calor do Sol, porém sabia que a luz incomodava sua mãe. Elissa colocou a bandeja que trouxera consigo sobre a mesa, pegando uma colher do mingau na cumbuca e soprando com a boca para esfriar. Ajeitou para que a enferma ficasse sentada e com cuidado colocou a comida em sua boca, limpando com um pano a baba que eventualmente escorria.

– Desculpe-me o atraso Srta. Elissa, o trem teve uma falha e não consegui outro a tempo. – Uma senhora volumosa em roupas brancas e os cabelos bem presos em um coque alto entrava no quarto. – Deixe que eu termine isso para você – ela disse pegando a cumbuca das mãos da outra mulher e tomando seu lugar. Elissa foi até a porta.

– Não se preocupe com o atraso Kátia, fiquei sabendo da situação pelo noticiário. – Ela olhou de soslaio para a acamada e suspirou. – Hoje está um pouco mais difícil que nos outros dias para alimentá-la – ela completou tristonha, a enfermeira a olhou com ternura e acenou positivamente com a cabeça. – Preciso ir trabalhar. Qualquer novidade, por favor, me ligue.

Elissa não conseguia colocar os pensamentos em ordem, estava com a mente confusa e desatenta. Sabia que não podia continuar assim, tinha que arranjar um jeito de estar de volta ao jogo, coisas importantes dependiam dela naquele momento e era crucial que estivesse ali por inteira. A troca de equipes da estação espacial ocorreria em breve e ela ainda tinha muito que fazer para que isso acontecesse, não podia mais ficar naquela inércia.

– Desculpe! – Ela se ajeitou do trombo que dera no homem, não tinha percebido que ele vinha em direção oposta a sua no corredor. – A culpa foi toda minha, eu estava distraída e… – Elissa olhou para o rapaz alto de cabelos cor de fogo que sustentava aquele sorriso contido no rosto e lhe era tão familiar. – Yvon? Já voltou? Ah, Meu Deus! A equipe toda está aqui? Eu não acredito que eu me perdi no prazo e… – O homem a abraçou, interrompendo o seu histerismo.

– Já faz um tempo, não é mesmo Elissa? – ele disse apertando-a mais forte e depois a soltou. – Não se preocupe, eu voltei antes, tenho certeza que você ainda está dentro do prazo, nunca nos deixou na mão antes. – Ela soltou um sorriso débil, sem saber direito o que responder. – Parece que há um novo projeto que querem me colocar e estão com urgência, estou indo saber dos detalhes agora, mas pelo jeito será algo importante. – Elissa olhava abobada para o amigo, não prestava muita atenção ao que ele dizia. Apesar de estar feliz em revê-lo ficou com medo de que estivesse sendo indiferente a sua presença. – Bem, eu tenho que ir! Vamos nos encontrar mais tarde para colocar o papo em dia?

– Claro! Muito bom te ver Yvon – foi o que conseguiu responder. Por sorte parecia que Yvon não havia se importado com os seus modos, pois ele soltou um sorriso carinhoso antes de voltar a fazer o seu caminho, levando Elissa a fazer o mesmo. Quando já estavam afastados Yvon olhou uma última vez para a amiga e parou.

– Elissa… – Ela virou para trás ao escutar o seu nome. Ele a analisou por um tempo antes de continuar. – Como ela está? – finalmente soltou a pergunta e a amiga somente balançou a cabeça com um olhar triste, Yvon entendeu na mesma hora o que estava acontecendo. – Me avise se tiver algo que eu possa fazer por você! – Ela sorriu e não disse mais nada. Os dois voltaram a fazer os seus caminhos.

Naquela mesma noite a doença venceu a longa batalha contra a mãe de Elissa. Há um ano ela tinha sido diagnosticada com um tipo raro de câncer no pâncreas que lhe deu mais seis meses de vida. Ela lutou com bravura, até mesmo conseguiu ultrapassar as expectativas que lhe foram estipuladas, mas a doença foi implacável e quando viu que não teria mais condições de ganhar seu único pedido fora ter seus últimos dias no aconchego de seu lar. Elissa tirou alguns dias de licença após a morte da mãe, mas acabaram lhe pedindo para voltar antes em caráter de urgência. Todos que a encontravam no corredor diziam que sentiam muito e pediam desculpas por ela ter que trabalhar naquele momento, contudo ela achava que estavam lhe fazendo um favor, era muito melhor ter a mente ocupada naquele momento do que ficar em casa remoendo os acontecimentos. Uma das meninas que trabalhava no setor de tecnologia a chamou dizendo que alguns membros da diretoria a aguardavam na sala de reuniões. Elissa não sabia o que esperar do encontro, tinha consciência de que estava com alguns dos trabalhos mais importantes atrasados, porém todos sabiam da sua situação. Além disso, já havia se programado para entregá-los o quanto antes, não havia motivos para ser repreendida.

Ela olhava petrificada para todos os ocupantes da sala e ficou assim por algum tempo. Yvon pigarreou quebrando o silêncio.

– É muita coisa para ela processar no momento, com tudo o que aconteceu… – ele tirou os olhos da amiga e se voltou para a diretoria. – Podemos dar alguns dias para ela pensar no assunto? – ele completou. Na mesma hora a loira balançou a cabeça negando. Aquilo era loucura, uma insanidade, e era justamente o que precisava. Acordou do torpor e fixou o olhar no amigo.

– Estou dentro. Quando partiremos?

Louis – 3 anos antes

– Alguém tem mais alguma pergunta? – Louis disse virando-se para a plateia de alunos que o assistia. Ainda estava atordoado com o telefonema que recebera cedo naquele dia, jamais teria imaginado que lhe fariam uma proposta daquelas em qualquer momento que fosse de sua vida, ainda mais agora. Uma garota magra, de cabelo curto e bagunçado, vestida em uma camiseta do Deep Purple levantou a mão. Ele apontou para ela sinalizando para que prosseguisse e tentou esvaziar sua mente se concentrando na dúvida de sua aluna.

Louis se surpreendeu ao ver que o horário do término da aula já tinha acabado, o assunto questionado acabou levando mais tempo do que ele havia esperado, o que era ótimo, afinal aquilo o havia feito esquecer de qualquer outra coisa que estivesse em sua cabeça. Enquanto ele arrumava o material dentro de sua maleta, os alunos iam se levantando e já se amontoavam na porta da sala para deixar o recinto.

– Ah… não esqueçam que semana que vem é o prazo final para a entrega do trabalho, ele vale a nota do semestre!

Alguns presentes sinalizaram concordando com a cabeça, mas a grande maioria já tinha ido embora. Alguns poucos ainda estavam aglomerados na saída, porém nenhum deles deu um sinal qualquer de que o tinham escutado. Algo do lado de fora atraia suas atenções e rendia muitos olhares e cochichos. Louis terminou de colocar seus livros dentro da maleta, pendurou esta em seu ombro e encaminhou-se até a porta. Do lado de fora, uma mulher de cabelos longos ondulados e pretos com olhos azuis estava recostada com um de seus ombros na parede, mexendo em seu celular, completamente alheia aos olhares dos jovens que passavam por ela. Destoava de todo o cenário ao seu redor, não era à toa que estava chamando tanta atenção. Parecia que tinha saído de uma capa de revista de moda. O professor chamou a atenção de seus alunos até que todos deixassem o local, depois voltou sua atenção para a mulher.

– Adeline? O que faz aqui? – A moça levantou o olhar do celular pela primeira vez até então, sua boca se abrindo em um leve sorriso.

– Finalmente! Achei que essa aula não teria fim. – Louis balançou um pouco a cabeça em negativa soltando um leve suspiro. Tanto tempo sem se verem e era isso que ela tinha para falar a ele? Adeline o agarrou pelo braço e o puxou corredor adentro, abrindo caminho por entre os alunos em direção à praça de alimentação. – Precisamos conversar.

O francês olhava fixamente para a moça sentada a sua frente, simplesmente não sabia como reagir ao que ela estava dizendo. Já fazia muito tempo que não a via, eram muito próximos na infância, mas eles tomaram caminhos diferentes na vida e isso acabou os afastando pouco a pouco. Nunca imaginou que Adeline pudesse vir até sua universidade só para encontrá-lo, então foi uma surpresa quando a viu parada a sua porta, sabia que algo sério estava acontecendo. Ainda não tinha decidido se ficava mais surpreso com a visita ou com o fato de ela ter recebido a mesma proposta que ele. Não, definitivamente o mais estranho em tudo aquilo era Adeline estar realmente considerando a possibilidade de fazer parte daquele projeto. Sempre passara longe do perfil aventureira e a ideia de uma pessoa como ela estar envolvida em algo como aquilo era surreal para ele. Deu de ombros. Não estava em posição de julgar ninguém, afinal ele mesmo não se considerava apto para tal situação. Adeline levantou-se, recostando a cadeira e levando consigo a lata do suco que tomava.

– Eu sei que você tem uma mulher e filhos, mas pense bem Louis, é uma oportunidade única de autopromoção. – Adeline piscou para ele.

– E para que eu iria querer isso, Adeline? Minha vida é muito diferente da sua e eu estou feliz com o jeito que ela é agora. Admito que o convite seja tentador, mas como você bem lembrou eu tenho uma família, não posso me dar ao luxo. – Ela olhou para ele com seriedade, seu olhar quase suplicante. Louis sentiu uma pontada de culpa, mas logo tentou afastá-la. – Você não precisa de mim para isso, Adeline, alias não precisa de ninguém para nada – ele disse com todo o carinho que tinha por ela. – Se isso é importante para você, vá, te dou total apoio! Eu mesmo já teria aceitado se as circunstâncias fossem outras.

– Não consigo sozinha – ela disse baixo. Louis a olhou com desconfiança, tinha certeza que tinha escutado errado, aquela não era a Adeline que conhecia. – Não tenho estômago para fazer algo desse porte sozinha, Louis. Preciso de você! – Ela continuava de cabeça baixa, sem encará-lo. Parecia ser uma tortura admitir sua vulnerabilidade. Ele não sabia o que dizer. Adeline respirou fundo e jogou os cabelos para trás, quando olhou para ele estava com um sorriso no rosto como se nada tivesse acontecido. – É uma grande oportunidade. E outra, conheço esse povo, trabalho com eles há anos! Vivem no mundo da lua. Esse projeto não irá para frente, acabará sendo somente umas férias nos Estados Unidos. Não me diga que não está precisando de uma? – Ela piscou novamente para o francês. Ele continuou a olhá-la, sem responder. Ela pegou sua bolsa e colocou a lata de volta em cima da mesa. – Pense com carinho e me ligue quando resolver – disse deixando Louis sozinho no restaurante.

Louis passou o jantar inteiro calado, pensando em tudo que acontecera naquele dia. Levou as crianças para o quarto e as colou para dormir, contando uma historinha de ninar. Cobriu cada um deles, beijou suas testas e, dando uma última olhada, apagou a luz deixando o quarto. Sua mulher estava sentada no sofá assistindo televisão, Louis sentou ao seu lado a abraçando.

– Ainda está com aquele telefonema na cabeça? – ela perguntou se aconchegando em seu peito.

– Adeline foi me procurar na universidade hoje. Ela também foi convidada a fazer parte do projeto e insistiu muito para que eu a acompanhasse. – A mulher levantou de leve a cabeça para encará-lo, uma sobrancelha levantada.

– Por essa eu não esperava! – ela confessou, depois ficou um tempo observando o semblante do marido. – Sei como tudo isso mexeu com você, querido. Talvez a aparição de Adeline seja o impulso que faltava para você aceitar o convite. A universidade tem um acordo com os organizadores do projeto, não é mesmo? – Louis acenou com a cabeça afirmando. – Está vendo? Parece que tudo quer que você diga sim.

– Eu não posso deixar você e as crianças por tanto tempo! E além de tudo é algo muito perigoso – ele falou com a voz carregada de dúvidas, estava muito dividido sobre o que faria. A mulher se levantou e pegou seu rosto entre as mãos.

– Qualquer coisa é perigosa Louis, você pode sair amanhã para trabalhar e não voltar mais! Estou vendo o quanto você quer isso e eu te amo por sempre pensar em sua família, mas não se prenda por nossa causa. Eu sentirei muito sua falta e as crianças também, mas estaremos exatamente aqui quando voltar, te esperando. Então siga seu coração e nos deixe orgulhosos! – ela disse com um dos braços levantados com se estivesse torcendo por ele. Louis puxou-a para si e lhe deu um longo e apaixonado beijo. Quando se soltaram ele se levantou sobressaltado, a adrenalina corria por suas veias.

– Tenho que ligar para Adeline.

Adeline – 3 anos antes

Ela corria apressada para conseguir chegar a tempo ao evento que estava marcado para o final daquela tarde. O salto agulha não ajudava no processo, mas também, quem é que poderia imaginar que ela iria ter que resolver tanto problema justo naquele dia? Teria uma conversa séria com a sua assistente, se ela não tomasse jeito depressa, teria que se desfazer dela. Adeline bufou. Só naquele ano já tinham passado quatro assistentes pelas suas mãos e nenhuma conseguiu manter o emprego, pelo jeito a quinta também já estava na corda bamba. Praguejou em silêncio quando uma senhora com um cachorro na coleira atrapalhou seu caminho. Não entendia o porquê das pessoas terem que passear com seus animais justamente ali e naquele horário. Os parques serviam para quê mesmo? Pelo amor de Deus! Esperou batendo o pé impaciente no chão enquanto o farol de pedestres continuava vermelho. Hoje era um daqueles dias que não deveria ter levantado da cama! Olhou para cima e soltou um sorriso, seu humor instantaneamente melhorado, estava encarando sua própria foto no outdoor do alto do prédio da esquina. Aquela peça tinha sido liberada há pouco tempo e ela ainda não havia visto o resultado. Ficou impressionada, não achou que ficaria tão bom!

Era Adeline quem organizava todos aqueles eventos para o Instituto de Pesquisas Espaciais e era ótima no que fazia, mesmo que, no fundo, ela mesma achasse todos eles muito maçantes. A instituição estava investindo muito nos últimos anos em publicidade visando angariar mais notoriedade para o meio e com isso melhores investidores, foi quando contrataram Adeline que da noite para o dia virou a voz e o rosto daquele lugar, tudo devido a sua aparência e ao seu trabalho excepcional como relações públicas. Ela não entendia nada sobre o que faziam e nem se importava com isso, com tanto que continuassem a manter seu salário gordo e suas regalias continuaria trabalhando satisfeita.

– Adeline, isso está ótimo! Você realmente sabe como dar uma festa – disse uma mulher com cabelos loiros compridos e muito escorridos enquanto se aproximava. Sophie era a única pessoa naquele lugar que Adeline considerava sua colega. Aproximou-se com elegância da loira e sussurrou discretamente em seu ouvido.

– Se você está animada com isso, se prepara para a festa de verdade mais tarde! – Adeline piscou para Sophie e se afastou, abrindo um sorriso largo quando cumprimentou o trio de americanos que estava junto com o seu gerente, ela tinha que deixar sua marca, afinal os estrangeiros era o motivo para todo aquele evento.

Sua cabeça latejava. Escutou um ronco baixo, olhou para o lado e viu um homem dormindo ao seu lado com a maior parte do seu corpo a mostra, somente uma parte pequena coberta pelo lençol claro e fino. Tentou se lembrar do que tinha acontecido na noite anterior, mas suas memórias eram falhas. Sabia que tinha saído do evento com Sophie e que as duas tinham ido direto para uma balada vip, onde Adeline como sempre, havia conseguido colocá-las para dentro, depois disso não se lembrava de mais nada. Vestiu-se silenciosamente, pegou os sapatos nas mãos e andou de fininho até a porta. Antes de sair olhou mais uma vez para o estranho. Não era a primeira vez que acordava em companhia alheia e não seria a última, mas neste momento não sentia vontade de manter contato com aquele rapaz, então simplesmente abriu a porta e saiu, sem deixar nenhum sinal de sua existência no local.

– Adeline, o Jean pediu para que você fosse à sala dele assim que chegasse. – Ela olhou emburrada para a sua assistente, não estava com humor para o seu gerente logo cedo, ainda mais naquelas condições.

– Avise-o que estarei lá em alguns minutos. – Sua assistente já saia da sala quando Adeline a chamou novemente. – Ah, Marie, depois teremos que conversar sobre o que aconteceu ontem – ela disse incisiva, sua assistente engoliu em seco antes de se retirar.

Adeline ainda olhava incrédula para Jean, como ele poderia estar propondo aquilo para ela? Tinha um limite de onde chegaria por aquele emprego e ele tinha ultrapassado todos. Ir para um fim de mundo qualquer dos Estados Unidos e ficar isolada por não sei quanto tempo com um monte de gente estranha como aquele pessoal do instituto? Era um disparate! Isso porque ela nem estava contando com a outra parte do plano, porque simplesmente julgou ser só uma fantasia daquele pessoal.

– Vamos Adeline, por favor! Tem que ser você – Jean insistia e a francesa continuava balançando a cabeça negativamente. – Pense em quanta fama não irá ganhar com isso, como única representante de nosso país.

Adeline parou de balançar a cabeça e olhou para seu gerente, seus olhos brilhando ligeiramente, Jean tinha acertado em cheio quando usou a palavra “fama” em seu argumento.

– Única representante? – De repente aquela ideia não parecia tão maluca assim, não podia negar que naquelas condições tudo aquilo seria ótimo para seu marketing pessoal. Jean sorriu sem jeito.

– Tudo bem, não será a única… – O sorriso de Adeline se desfez e Jean rapidamente tentou contornar a situação. – Mas aquele professorzinho não vai ser nada perto do seu brilho Adeline, acredite em mim.

– Professor?

– Sim, um tal de Louis Blanc, parece que ele dá aulas na Universidade de Paris. – Adeline arregalou os olhos surpresa, seu chefe achando que aquilo era mais uma negativa se adiantou. – Está vendo? Não tem com o que se preocupar, ele será invisível ao seu lado e…

– Eu vou – Adeline disse cortando Jean no meio da frase e já se levantando para sair do aposento, dando como encerrada a conversa. O homem a olhou estupefato.

– Vai? – ele disse em dúvida, achou que a tinha perdido novamente quando mencionou que faria parceria com um professor universitário qualquer.

– Sim – respondeu com convicção e Jean soltou um suspiro aliviado. – Mas antes tenho que conversar com Louis sobre o assunto – ela continuou indiferente e depois deixou a sala sem esperar por uma resposta.

Sakura – 3 anos antes

Final de Abril em uma tarde gostosa de primavera, todos os preparativos já estavam sendo arrumados desde cedo. Pessoas corriam de um lado ao outro levando roupas, acessórios e verificando os últimos detalhes da decoração. Sakura estava sentada em frente ao espelho em uma sala reservada do templo, esperando a outra mulher terminar de pintar seu rosto de branco.

– Terminei. Você está linda, Sakura! – anunciou a senhora com um sorriso no rosto, já guardando o material da pintura.

A pequena japonesa abriu os olhos devagar e encarou seu reflexo no espelho, teve vontade de chorar, mas segurou as lágrimas para que não estragasse a maquiagem recém aplicada. Seu cabelo enrolado em um penteado trabalhoso cheio de flores, pérolas e pendentes de ouro reluzia com os raios de sol que entrava pela janela. Ela se levantou e ajeitou seu quimono de seda branco, dando uma última olhada em si mesma. Estava pronta! Em poucos minutos ela entraria por uma entrada daquele templo e Kazuki, seu futuro marido, pela outra e os dois fariam seus votos de laços eternos na frente de toda sua família e amigos.

A cerimônia aconteceu exatamente como prevista. No altar dependuravam-se os dois rosários budistas simbolizando as duas famílias que ali se uniriam. O cheiro de incenso tomando conta do ambiente, contrastando perfeitamente com o odor que vinha das flores que enfeitavam o portal vermelho e os bancos de madeira. O religioso começou celebrando o ritual de purificação dos noivos e convidados para logo em seguida começar a cerimônia de casamento. Quando Sakura chegou, Kazuki já a esperava no altar em seu quimono de seda preto, seus olhos brilhavam como nunca e ela sentiu vontade de chorar pela segunda vez naquele dia, respirou fundo e segurou as lágrimas mais uma vez. Após as palavras do religioso os dois se olharam nos olhos e disseram seus votos de amor e fidelidade enquanto suas famílias, seguindo a tradição, se encaravam, de frente uma para a outra, sem olhar para o casal que fazia suas juras. Os noivos trocaram suas alianças e se dirigiram ao santuário para fazer suas oferendas aos Deuses. Galhos da árvore sagrada foram sacudidos sobre suas cabeças, para finalmente o casal se sentar em frente à mesa e concluir a celebração com o ritual do saquê. Pela primeira vez naquele dia Sakura se sentiu insegura. Tudo era muito simples, os dois deveriam olhar nos olhos um do outro e apreciar um gole da bebida, logo em seguida depositariam os copos na mesa ao mesmo tempo, simbolizando que o casal teria uma vida longa juntos. Kazuki acabou colocando seu copo em cima da mesa alguns segundos antes que ela pudesse fazer o mesmo e um frio percorreu por toda sua espinha. Pela tradição, aquilo significava que ele iria morrer antes dela. Sacudiu um pouco a cabeça e respirou fundo mais uma vez. Tudo tinha sido perfeito até aquele momento e aquilo era somente um ritual bobo, não tinha sentido ser levado tão a sério.

O salão estava lindamente decorado com flores vermelhas e brancas em todos os lugares que se olhava. Antes que a comida fosse servida, sua família e a de seu marido se apresentaram aos convidados, bem como os próprios noivos. Sakura tinha trocado seu quimono por um vestido de casamento tradicional ocidental que tinha visto em uma revista e mandara fazer igual. Kazuki também usava um terno comum agora. Tudo na recepção estava perfeito: as comidas e bebidas, as músicas, as danças, o karaokê, os discursos emocionantes dos amigos e familiares. Sakura não poderia ter pensado em uma festa melhor, mesmo que quisesse. Quando os convidados começaram a entregar os envelopes com os presentes a pequena japonesa não conseguiu mais conter as lágrimas e chorou. Já tinha esperado tempo suficiente contendo suas emoções, era seu dia, seu momento, tinha o direito de colocar para fora toda a felicidade que sentira até ali. Ao final Sakura e Kazuki se levantaram e de mãos dadas agradeceram a presença de todos os seus convidados. Sob uma chuva de aplausos os noivos entregaram um buque de flores para cada uma de suas mães e um cravo vermelho aos seus pais.

Sakura passava os dedos nos cabelos para desfazer os nós feitos pelo penteado elaborado que usou na cerimônia. Ainda não acreditava que estava ali, naquela suíte, casada com Kazuki em sua noite de núpcias. Foi até o quarto e viu seu marido debruçado na varanda encarando a cidade com uma expressão pensativa.

– Algum problema? – ela disse parando ao seu lado. Ele a olhou por um instante para logo em seguida dar um beijo em sua testa com carinho.

– Nenhum. Eu só gostaria que tivéssemos tido tempo de ter uma lua de mel de verdade. – Ele suspirou soltando um leve sorriso. Ela o olhou por um momento. Sabia que, de fato, eles não teriam uma lua de mel. Não tinha se preocupado com isso até então, mas agora, olhando para ele, também queria ter mais tempo a sós com o seu marido. Mas isso não iria acontecer! Seus desempenhos excepcionais, em um projeto que tinham trabalhado em conjunto, os levou a serem convidados para um experimento único e, em menos de uma semana, os dois estariam embarcando para os Estados Unidos, arruinando assim todos os planos de uma viagem elaborada para celebrar seu casamento. Sakura se aproximou de Kazuki e deu um beijo demorado em seu marido.

– Não tem importância Kazuki! – Ela olhou o parceiro com ternura, acariciando seu rosto com a parte de trás da mão. – Vamos fazer desse experimento a nossa lua de mel. Aposto que nunca, ninguém, terá uma igual! – Ele soltou um sorriso, beijando sua mão e a puxando para dentro do quarto novamente.

Kazuki – 4 anos antes

Kazuki já andava pelos corredores da JAXA como se estivesse em sua própria casa, nos últimos tempos passara mais tempo ali do que em qualquer outro lugar que pudesse imaginar. Estavam trabalhando em um projeto importante em parceria com os Estados Unidos já havia algum tempo e as coisas só pareciam ficar cada vez mais intensas conforme o prazo final se aproximava. Ele se considerava sortudo, tinha tudo o que queria no momento, adorava o seu trabalho e era abençoado por ter conseguido seu primeiro emprego justamente na agência espacial japonesa, lugar que sempre fora a sua meta de vida. Além disso, atualmente estava trabalhando em parceria com a sua namorada, o que fazia com que o serviço lhe agradasse ainda mais. Sakura era engenheira mecânica e trabalhava em uma empresa privada, porém a equipe no projeto atual estava precisando de uma pessoa qualificada em seu ramo de atuação e embora a JAXA contasse com os profissionais mais capacitados do mercado, Kazuki conseguiu dar um jeito para que a contratassem como consultora temporária na ocasião. Contudo, como ele havia previsto, Sakura com seu excelente trabalho, acabou conquistando todos por ali e ficando até o final do empreendimento.

Hoje ele queria sair cedo da agência, Sakura ainda não sabia, mas já estava tudo organizado para a entrevista de noivado com os pais dela naquela noite. Os dois já namoravam há muito tempo, praticamente foram o primeiro amor um do outro e ele já conhecia muito bem a família de Sakura, mesmo assim Kazuki queria fazer tudo conforme as mais antigas tradições, pois ambas as famílias prezavam muito por isso e, embora não admitisse, ele também era um fã dos bons costumes. Quando chegou ao restaurante do hotel, Sakura e seus pais já estavam ali. Ela o olhava com desconfiança enquanto ele se aproximava da mesa, mas seu nervosismo era tanto que praticamente puxou a cadeira de uma vez, sentando-se sem ao menos olhar para sua futura esposa. O jantar transcorreu como planejado e quando Kazuki anunciou que queria pedir a mão de Sakura formalmente a pequena japonesa sentada ao seu lado sorriu debulhando-se em lágrimas. Ele já sabia que os pais dela não se oporiam ao compromisso, ambas as famílias já esperavam por esse dia fazia algum tempo, então informou que já tinha tomado a liberdade de marcar o noivado oficial para o próximo domingo.

Era uma manhã maravilhosa de domingo, o sol entrava por entre os entrelaçados de bambus formando quadrados pequenos no chão do recinto. Kazuki vestia um terno escuro, assim como seu pai, enquanto sua mãe usava um quimono florido tradicional. A sala começava a cheirar ao incenso que, para espantar a ansiedade, ele havia acendido alguns minutos antes. Sakura adentrou a sala com um quimono florido em tons de azul combinando com o enfeite que prendia seu cabelo em um coque alto. O coração de Kazuki bateu acelerado, pensou que nunca a tinha visto tão linda quanto naquele momento. Todos ocuparam seus lugares em seus tatames se sentando em cima de suas pernas em posição de reverência. O patriarca de cada família puxava as duas fileiras, de frente um para o outro, seguidos por suas esposas e por último o casal que noivava naquele dia. Os três pares se reverenciaram algumas vezes e logo após trocaram presentes entre si. Assim que as apresentações formais foram feitas, o casal foi até a imagem de Buda que ficava na parede ao centro da sala e com preces e orações agradeceram aos Deuses pela graça alcançada, fazendo oferendas aos mesmos. Seus pais deixaram os tatames e seguiram o mesmo exemplo dos filhos.

Kazuki esperava por Sakura no banco do parque enquanto olhava os peixes que pulavam ocasionalmente para fora do lago. Muita coisa passava por sua cabeça, tanto tinha acontecido só naqueles últimos tempos! Fazia um pouco mais de dois meses que tinha ficado noivo e o encarregado do projeto em que estavam trabalhando, assim que soube das novidades, chamou o casal para uma reunião. Nesta, ele explicou o porquê de estarem desenvolvendo aquele projeto em específico e devido as circunstâncias contou qual que era o objetivo com tudo aquilo. Kazuki ainda não sabia o que pensar sobre o assunto, se fosse há algum tempo atrás teria aceitado sem nem piscar, porém agora havia muita coisa em jogo e seu futuro com Sakura era uma delas. Ela também ter sido convidada o deixava ainda mais confuso, pois era certo que sem ela, ele não iria a lugar algum. Por outro lado, pensar em Sakura, tão frágil e delicada, participando de algo como o que fora descrito a eles era tão assustador quanto deixar ela para trás.

– Faz muito tempo que você está aqui? – Sakura perguntou se aproximando e sentando ao lado de Kazuki. Ele sorriu.

– Não muito – ele disse suspirando e olhando para o lago novamente. Os dois ficaram em silêncio por algum tempo.

– Temos que tomar uma decisão – Sakura disse olhando pela primeira vez para o parceiro e quebrando o silêncio. Ele acenou positivamente com a cabeça. – Você já sabe minha opinião a respeito do assunto, só falta você decidir o que quer! Mas saiba que vou te apoiar no que quer que decida – ela disse confiante. Kazuki virou para o lago mais uma vez e suspirou. Ele sabia que ela queria ir, já tinha dito isso diversas vezes e, apesar do medo, ele também queria. Mas algo lhe dizia que aquilo não era uma boa ideia. E o casamento tradicional que queria? Isso não seria nada tradicional. Com sorte partiriam logo após o casamento sem tempo para mais nada. E seus planos futuros? Pensando bem, aquilo de algum jeito também sempre esteve presente em seus planos. Respirou profundamente e tomou uma decisão.

– Se você quer e eu também, então porque não? – ele disse olhando para sua amada. Sakura bateu feliz as palmas e o abraçou. A pequena japonesa, já se levantando, virou-se para encará-lo.

– Temos que adiantar os preparativos para o casamento! Quero viajar aos Estados Unidos já como a Sra. Kimura. – Kazuki deu risada.

– Mas para eles você ainda será Okada, todos seus projetos ainda serão assinados com seu nome de solteira.

– Detalhes, meros detalhes Kazuki. Você se preocupa muito com eles! – ela disse já fazendo seu caminho de volta a JAXA e deixando Kazuki no parque rindo sozinho.

Josh – 3 anos antes

Já fazia alguns dias que Josh estava trabalhando de casa. Tinha pedido um afastamento para resolver alguns assuntos pessoais, algumas regularizações de documentos da casa que não poderia mais adiar. Como estava no meio do desenvolvimento de um projeto importante, a solução em que chegaram foi a que ele fizesse o que tinha que fazer, porém continuasse com o seu trabalho remotamente. Josh não se importou com o acordo, sabia que não conseguiria sair no meio do projeto e na verdade nem ele queria isso. No começo ficou preocupado com o que seu parceiro iria pensar, mas logo se tranquilizou. Peter não era do tipo sociável, provavelmente nem notaria sua ausência e com tanto que Josh entregasse sua parte do acordo sabia que ficaria tudo certo. Fazia novamente seu caminho para o cartório da cidade, já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha ido e voltado daquele lugar somente naqueles três dias em que estava fora da empresa, hoje era sua última chance de conseguir resolver aquela novela, pois voltaria a trabalhar normalmente no dia seguinte, já tinha perdido muito tempo com tanta burocracia. Josh tivera uma infância difícil em um bairro periférico da cidade, seu pai havia sumido quando ele ainda era uma criança e sua mãe teve que, sozinha, criá-lo e a seus quatro irmãos. Hoje em dia ele morava sozinho com sua mãe, todos os outros já estavam casados ou tinham sumido na vida.

– Mas como assim ainda não liberaram? Não é possível uma coisa dessas – ele disse impaciente batendo no tampão da mesa.

– Isso é assim mesmo! – a atendente respondeu um pouco intimidada. – Informaremos por e-mail assim que toda a documentação tiver regularizada.

Josh saiu do recinto bufando de raiva, com certeza não era a resposta que ele queria escutar. Tentou se acalmar pensando que pelo menos a papelada estava certa, era só mesmo ter paciência para esperar algum figuração ter a boa vontade de liberar a documentação. Foi pensando no meio do caminho em como as coisas em sua vida pessoal andavam difíceis nesses últimos tempos, parecia que nada do que fazia acabava dando certo, felizmente, pelo menos profissionalmente, isso parecia estar indo no sentido oposto. Decidiu que assim que chegasse a sua casa terminaria sua parte do projeto e enviaria para a empresa, não queria ouvir no dia seguinte sermões ou qualquer outra reclamação sobre ele não ter cumprido com a sua obrigação. Passava da meia noite quando ele finalmente conseguiu colocar os últimos arquivos na rede da companhia. Estava cansado, queria somente tomar um banho e ter uma longa noite merecida de sono. Josh foi até a cozinha tomar um copo de água quando seu celular começou a vibrar no bolso da calça.

– Josh, graças a Deus que você atendeu! – A voz de sua irmã soava urgente do outro lado da linha. – Venha me ajudar, por favor! O Paul endoidou – ela disse a frase entre soluços. Josh escutava sons abafados de batidas na porta e a voz do marido de sua irmã gritando seu nome ferozmente.

– Onde você está Alisha?

– Estou em casa, trancada no banheiro. – O som das batidas continuava e a cada investida Alisha soltava um soluço de desespero. – Por favor, Josh, venha rápido! E não conte nada para a mamãe. Por favor!

Josh dirigia a toda velocidade pela cidade, passando cada sinal vermelho que tentava fazer com que ele diminuísse o ritmo. Ele sempre soube que Paul era um sádico, já havia alertado Alisha antes mesmo de se casar que o sujeito não prestava, mas ela pensou ser somente implicância de sua parte. Se aquele sujeito tivesse feito algo a sua irmã… O sangue de Josh fervia enquanto ele cortava as ruas noite a dentro. A porta de entrada da casa estava entreaberta e ele não pensou duas vezes, invadindo o lugar em um rompante.

– Alisha! – gritou, chamando pela irmã. Um homem um pouco menor do que Josh, de cabelo raspado e pele clara apareceu no corredor. Parecia estar bêbado e muito transtornado.

– O que você está fazendo aqui? Deixe-nos em paz! Isso é assunto de marido e mulher – ele falou enrolado encarando Josh.

– Josh! – Alisha apareceu e saiu correndo de encontro a Josh abraçando-o fortemente. Ele retribuiu o abraço sem tirar os olhos de Paul em nenhum momento, depois afastou com delicadeza a irmã para enxergá-la melhor. Seus olhos estavam marcados por hematomas e seu lábio tinha uma rachadura de um machucado recente que ainda vertia um filete de sangue.

– Seu desgraçado! – Josh empurrou a irmã para o lado e avançou para cima de Paul. Alisha tentou parar o irmão enquanto este espancava o outro homem repetidamente. Paul já estava inconsciente quando o barulho das sirenes invadiu o ambiente e homens uniformizados entraram no local, contendo Josh e o levando para a viatura.

Já fazia três dias que Josh estava preso naquele cubículo. Agora que ele andava de um lado ao outro da pequena cela se sentia arrependido. Não de ter batido em Paul, ele pediu por aquilo, mas por ter perdido a cabeça. Alisha já tinha contado sua versão da história aos policiais, mas Paul estava internado em estado grave no hospital e como aquela agressão não era a primeira na ficha de Josh, ele, desta vez, iria precisar de um bom advogado se quisesse sair desta livre. Por que você nunca pensa antes de agir, Josh? Ele repetia a frase a si mesmo como um mantra. Seu coração começou a acelerar, estava acabado! Não fazia nada direito e naquela altura do campeonato já teria perdido a única coisa boa que tinha, seu emprego. Justamente agora que estava participando de algo tão importante e que esperava colher grandes resultados disto, estava ali trancafiado como um animal selvagem. Os guardas o levaram para a sala de visitas. Uma mulher elegante, alta, loira e de olhos claros o esperava dentro do recinto e assim que o viu entrar abriu um sorriso sagaz. Josh olhou confuso por um momento para ela, seria sua nova advogada?

– Josh Noah? Sou a Srta. Velis, trabalho com o governo. Por favor, sente-se – ela disse indicando a cadeira a sua frente, Josh ainda confuso fez o que a mulher sugeriu e esta olhou para ele satisfeita. – Vou ser direta com você, Sr. Noah, o motivo de eu estar aqui é porque queremos soltá-lo e fingir que nada disso aconteceu, mas antes preciso que escute a proposta que temos a lhe fazer!