Visita 125

Eu arrumava a mesa para o jantar enquanto Lúcia terminava de preparar a comida. Coloquei os talheres, ajeitei os copos, arrumei os guardanapos, os pratos, resolvi colocar aquelas flores que estavam em um vasinho perto da estante só para dar aquele toque especial. Fazia mais de 10 anos que éramos casados, porém, ainda hoje, gostava de fazer alguns mimos para deixar a relação mais gostosa. Lúcia trouxe os últimos pratos à mesa e nos sentamos para jantar. Minha esposa estava estressada com um incidente que havia ocorrido em seu trabalho e eu tentava acalmá-la, transcorrendo sobre a importância de não se deixar afetar por coisas pequenas ou externas e o quanto isso fazia mal. O diálogo fez efeito, pois ela estava mais calma ao final do jantar e acabei por sentir-me satisfeito comigo mesmo.

– Ah, esqueci de te dizer, minha mãe vem nos visitar nesse final de semana – Lúcia disse despreocupada enquanto levava os últimos pratos para a cozinha.

Meu coração começou a palpitar. O quê? Como assim? Quando? Onde? Parecia que um caminhão tinha me atropelado, não estava me sentido bem. Estava tudo tão perfeito! Por quê?! Por que ela teve que estragar a noite com esse assunto? Qual era o problema com o mundo? Por que coisas ruins aconteciam a pessoas boas? Não era justo! Por quê?

– E quando ela chega? – perguntei tentando disfarçar o pânico.

– Amanhã de manhã e volta no Domingo, eu ia te avisar antes, mas a semana foi tão corrida! Tudo bem pra você? – ela disse avaliando minha expressão.

– Claro! É sua mãe e além do mais não tínhamos nada de importante programado, não é mesmo? – A perda do meu conforto, da minha privacidade e principalmente da minha sanidade eram coisas muito importantes para mim, mas quem liga para isso hoje em dia, não é mesmo? Importante mesmo são os laços familiares! – Escuta, preciso terminar um trabalho então vou para o escritório, está bem? Não me espere acordada – disse, beijando a testa de Lúcia, que me olhou com desconfiança por um tempo, e sai da sala.

Precisava elaborar um plano para sofrer o mínimo de danos possíveis desta visita o quanto antes. Liguei o computador e acessei a pasta “Para caso de emergência”, fiz um novo arquivo intitulado “Visita 125”, 125? Aquela megera já tinha profanado o recinto sagrado de meu lar esse tanto de vezes? Era muito castigo para uma pessoa só! Não acreditava em vida passada, mas se, por um acaso, tivesse tido alguma, com certeza teria sido algo muito ruim para merecer isso agora!

A luz entrava pela janela e batia em meu rosto, virei para o outro lado tentando voltar a dormir novamente. Tive um pesadelo horrendo na noite anterior e não tinha dormido bem.

– Onde está Leandro?

– Ele foi dormir tarde, estava trabalhando. – Escutei Lúcia responder.

– Foi isso que ele te disse? Aposto que estava vendo pornô! Ainda bem que você teve uma boa criação e é alguém na vida, porque se fossem depender daquele seu marido preguiçoso…

Não fora um pesadelo, o diabo realmente estava ali e eu estava no inferno!

O dia começou com um café da manhã agradabilíssimo, onde o assunto principal fora: Leandro e todas as suas características únicas! Como eu tinha engordado! Como eu ainda não tinha conseguido um trabalho de verdade? Como eu ajudava pouco em casa. Mas não foi tudo reclamação, também recebi bons conselhos e chegamos à conclusão que eu deveria procurar um médico, pois não era possível ser normal um dedão do pé tão estranho! À tarde, fomos para um passeio ao shopping, o plano era simples: ir ao cinema e depois comer alguma coisa. O ponto alto do meu dia foi um adolescente ter expressado para a sala inteira de cinema exatamente o que eu penso há tantos anos quando gritou: “Ei! Quem foi que trouxe a velha gagá? Não dá para escutar o filme com tanto falatório!”. Lógico que tivemos que escutar um discurso interminável sobre como essa geração não presta, como as crianças são mal educadas e os pais negligentes, mas eu simplesmente achei o menino genial! Na minha humilde opinião ele merecia um prêmio, isso sim. Ah, se todos fossem como ele! O jantar foi uma experiência a parte, pois parecia que todos, inclusive cobras peçonhentas, estavam aderindo a dietas saudáveis, afinal minha sogra veio com uma história de uma tal de dieta macrobiótica e como a comida tinha que se harmonizar como o Yin e Yang. Eu, como um bom genro, mostrei que prestei atenção aos seus ensinamentos e escolhi o prato com o maior pedaço de carne vermelha possível, rodeado por batatas fritas e ainda pedi um pudim de leite de sobremesa. Não entendi quando ela bufou e se mostrou indignada com as minhas escolhas! Não era isso que eu deveria comer? Porém isso só tinha sido metade do final de semana, ainda faltava muito tempo para eu finalmente ser livre. Fui acordado às 6h da manhã no Domingo com o som da TV nas alturas. Alguns poderiam achar que isso é um exagero já que o aparelho fica na sala e eu estava no meu quarto. Não julguem sem saber os detalhes antes! Eu tinha sido expulso na noite anterior da minha cama porque aparentemente o sofá dá muitas dores nas costas, então, do meu ponto de vista, exagero foi o dela de ter colocado a televisão naquela altura com outra pessoa dormindo no mesmo ambiente. Nesse ponto eu já havia começado a contar mentalmente as horas para o momento de sua partida, isso sempre me acalmava! Contudo, eu tive que contar por muito tempo, afinal o dia tinha apenas raiado. Para minha sorte, o assunto do café da manhã não fora novamente o Leandro e como tudo era mágico a respeito desse ser maravilhoso e sim o meu relacionamento. Apesar de que o tópico do porquê ainda não termos filhos ter exigido uma leve menção aos meus soldadinhos que não funcionavam. Nem acreditei quando, 720 minutos depois, eu me vi livre daquele ser desprezível. Estava exausto! Jogos psicológicos acabam com uma pessoa.

Era final de noite, Lúcia puxou os lençóis e se deitou de seu lado da cama e eu fiz o mesmo a abraçando por debaixo das cobertas.

– Eu sei que não é fácil para você ter mamãe por aqui, mas eu fico tanto tempo sem vê-la! – ela comentou. Não era isso que minhas pastas de planos diziam!

– Que isso amor, já estou acostumado!

– Que ótimo que você não se importa, porque ela disse que vai voltar para o Natal!

Suspirei. Amanhã já teria que começar a arquitetar a visita 126.

 

 

 

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