Mini-história: Conversa entre homens

Helder seguia devagar até o lugar onde achava que poderia encontrar Matheus. Já estava escurecendo, porém isso não o atrasava. Se aquela viagem tinha lhe ensinado algo, era que ele estava familiarizado com a geografia do lugar. O fato de ter sido tão fácil chegarem até a nave sem John para guiá-los, o assustava, pois aquilo era um sinal claro de que já estavam vivendo naquele planeta tempo suficiente para se acostumarem com o ambiente. Tudo bem que haviam se perdido inúmeras vezes e estavam muito além do cronograma inicialmente estipulado, porém, na noite anterior a sua partida, Helder quase desistira da empreitada com receio de estar arriscando a sua vida e a de seus amigos em uma jornada que poderia guiá-los a um caminho sem volta, então, do seu ponto de vista, se comparado com a alternativa, haviam se saído muito bem. No final das contas, saber que eram capazes de se virarem sozinhos, talvez tivesse sido o único proveito de toda aquela caminhada, já que não haviam conseguido encontrar nada de útil dentro da espaçonave para ajudar Adeline.

O céu passou do cinza avermelhado ao breu sem estrelas em um piscar de olhos, fazendo com que Helder dependesse ainda mais da tocha que trazia consigo. Pegou-se pensando no beijo novamente; ainda conseguia sentir os lábios quentes de Iris contra os seus. Deixou escapar um pequeno sorriso de contentamento. Talvez se ele não tivesse aparecido naquele momento, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente. Não! Não poderia iludir-se, pois mesmo que tivesse se deixado levar pelo momento, sempre soube, no fundo, que ela não corresponderia a sua investida, pois seu coração estava em outro lugar. E a reação de Iris ao flagrante só confirmou suas suspeitas. Agora, lá estava ele, indo atrás daquele por quem ela verdadeiramente nutria algo. Não precisou andar muito para que avistasse entre os rochedos a silhueta do homem que procurava e, assim que se aproximou, sentou-se, deixando uma distância confortável entre os dois. Matheus, sempre alerta, desta vez nem percebera a presença de Helder, tão mergulhado que estava em seus próprios pensamentos.

– A noite está estranhamente calma hoje! – Helder comentou despreocupado. Ele percebeu o corpo de Matheus contrair-se com o susto e logo em seguida, relaxar. Esperou por uma resposta, mas ela não veio. Então despretensioso, continuou: – Você tem um jeito incomum de demonstrar seus sentimentos…

Matheus virou-se e, emburrado, o encarou:

– O que acabou de dizer deveria significar algo?

– Claro que não! A não ser que sinta algo por ela… – Helder disse, sem desviar o olhar do desenho que fazia com os dedos na areia vermelha aos seus pés. Matheus arregalou os olhos por um momento, mas logo se recompôs e bufou.

– O que veio fazer aqui?

– Não é óbvio? Vim buscá-lo – o médico respondeu calmamente. Matheus soltou um sorriso de desdém e levantou-se, postando-se em frente a Helder.

– Não preciso de sua ajuda, sei muito bem me virar sozinho! Não deveria ter deixado as duas, é perigoso! Mas não espero que você entenda isso.

Helder finalmente levantou a cabeça, encarando o outro pela primeira vez desde que chegou.

– Não fui eu quem saiu a esmo por ai.

– Não saí a esmo, estou patrulhando! Alguém tem que fazer, já que outros, claramente, preferem se divertir – Matheus respondeu irritado. Helder sorriu provocativo.

– Então não te afetou em nada o que viu? Confesso que, para mim, é bom saber!

Uma sombra de fúria passou pelos olhos de Matheus e ele lançou suas palavras em um furor cortante:

– Eu não tenho nada a ver com o romance de vocês! – Engoliu em seco e depois, desviou o olhar. – Só acho que deveriam ser mais prudentes, aqui não é hora e nem lugar! – Voltou o olhar novamente para Helder. – Especialmente você! Afinal, foi quem acabou nos trazendo para esta jornada inútil! Não está contente em só perder Adeline? Porque, com certeza, ela não irá sobreviver! E ainda quer arriscar a vida de outros?

Pela primeira vez naquela conversa, Helder se descompôs. Levantou-se em um átimo, aproximando-se de Matheus. As chamas das tochas iluminavam as feições raivosas e o ressentimento estampado nas faces dos dois homens que se encaravam a poucos centímetros um do outro.

– Chega! Entendo que esteja frustrado, porém, não vou deixar que desconte em mim sua raiva, só porque eu tive a coragem de ser sincero com os meus sentimentos e fazer o que você não fez.

– Você não sabe do que está falando!

Helder respirou fundo, acalmando-se.

– Não planejei, simplesmente aconteceu! Mas mesmo que o fizesse, não há lugar e nem hora certa para nada. – Ele suspirou ressentido. – E pensar que, justamente você o qual não sabe aproveitar, tem a oportunidade. – Matheus olhou confuso para ele, mas Helder não se importou em fazer-se entender. – Talvez, antes de pararmos aqui, você nunca tenha sentido uma perda tão significativa em sua vida a ponto de lhe fazer questionar algumas atitudes. Mesmo assim, depois de tudo que passamos, não acredito que ainda não tenha aprendido nada com isso.

Helder olhou para Matheus e logo se arrependeu de suas palavras. Nos olhos do amigo havia uma sombra de tristeza profunda, a mesma que, nos hospitais, via nos olhares dos familiares aos quais contava que o pior havia acontecido com um paciente.

– Vou voltar. Não deveria ficar aqui sozinho, pode haver espectros – Helder anunciou.

Matheus apenas assentiu e sem dizer nada, seguiu os passos de Helder pelo deserto vermelho. Os dois eram habilidosos e mesmo com a pouca luz que tinham, não demoraram a chegar ao destino. Antes de se aproximarem da gruta, Matheus parou e pigarreou, chamando a atenção de Helder e quebrando o silêncio que mantiveram por todo o trajeto.

– Quer dizer que eu ainda tenho alguma chance? – ele perguntou em um sussurro inseguro. Helder sorriu, tal atitude resignada não combinava com o homem a sua frente.

– Isso não sou eu quem deve lhe responder – Helder disse, seguindo caminho e encerrando o assunto.

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