Nação Verde Amarela

José – 29 de Junho de 1958

A pequena cidade do interior de Pernambuco estava em festa. O prefeito havia colocado um rádio gigante no pátio do colégio, onde José e todos da cidade se reuniram, naquele domingo, para ouvir a partida. O jovem senhor estava aflito, já que o Brasil enfrentaria nada menos do que a anfitriã do evento naquele ano, Suécia. Mesmo desgostoso por saber que a seleção jogaria com o uniforme azul e isso, com certeza, traria azar; José cantou o hino como nunca antes e esperou, com o coração acelerado, que o juiz apitasse o começo do jogo. Com quatro minutos a Suécia abriu o placar. Ele sabia que daria nisso, onde estava o amarelo canarinho? Porém a aflição durou pouco, já que Vavá cinco minutos depois acabou empatando tudo e antes mesmo de terminar o primeiro tempo tinha virado o placar. O ginásio foi ao delírio, quando Pelé fez seu gol de chapéu aos dez minutos do segundo tempo. Aos vinte e três, Zagallo marcou mais um. A Suécia até tentou alcançar o Brasil fazendo seu segundo gol aos trinta e cinco, porém Pelé carimbou a vitória com mais um dele ao finalzinho. Brasil 5, Suécia 2. E foi assim que o interior de Pernambuco e toda a nação comemorou o primeiro título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Patrícia – 17 de Junho de 1962

A partida foi no Chile, porém era no Clube Hebraica em São Paulo que as famílias mais notórias da cidade estavam reunidas em frente ao televisor para assistir a final do campeonato. Patrícia nunca fora ligada em futebol, entretanto aquela competição havia chamado sua atenção e isso acabou fazendo com que ela acompanhasse, de perto, todos os jogos com o seu marido. Pelé havia deixado a seleção já no segundo jogo por causa de uma contusão, mas isso não abalou a confiança do time, o qual seguiu em frente com Garrincha fazendo a vez do grande ídolo e tornando-se assim, tão lendário quanto o próprio. O Brasil entraria em campo no uniforme amarelo e jogaria contra a Tchecoslováquia, a qual nem esperou quinze minutos de jogo para fazer o seu primeiro ponto. Mas para o deleite da plateia, Amarildo balançou a rede apenas dois minutos após o gol da adversária e fez com que toda a compostura pomposa da elite presente no clube se quebrasse com gritos de êxtase. Depois disso, não deu mais para o país europeu. Zito fez o segundo aos vinte e nove e Vavá, o terceiro, aos trinta e três do segundo tempo. Brasil 3, Tchecoslováquia 1. E foi assim que a alta sociedade de São Paulo e toda a nação comemorou o segundo título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Márcio – 21 de Junho de 1970

Apesar de toda a turbulência política em que o país se encontrava, Márcio e seus amigos deixaram, somente por aquele domingo, os movimentos por democracia de lado e reuniram-se em frente à TV a fim de assistir a partida da Copa do Mundo que se passava no México. O grito verde e amarelo já ecoava por todo o país pedindo por liberdade, e agora a cor vestia também a seleção no futebol. Pelé iniciou o placar logo aos dezoito minutos do primeiro tempo, porém, por um erro da zaga, a Itália empatou aos trinta e sete. A situação poderia desanimar qualquer torcedor, mas o time sul americano estava longe de desistir. E foi por isso que Gerson acabou balançando as redes mais uma vez aos vinte e um do segundo tempo com um tiro certeiro. Logo em seguida, Jairzinho, de falta, somou mais um gol ao placar da seleção. Para o delírio dos estudantes ali reunidos, no finalzinho do jogo ainda houve o gol de Carlos Alberto, o qual, nos anos seguintes, seria lembrado como o mais bonito da história das Copas, já que não faltaram invertidas da esquerda para direita as quais encerraram-se no passe preciso de Pelé. Brasil 4, Itália 1. E foi assim que os estudantes que lutavam contra a ditadura militar e toda a nação comemorou o terceiro título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Jéssica – 17 de Julho de 1994

As ruas estavam pintadas com desenhos que ostentavam as cores da seleção e bandeirinhas do Brasil balançavam ao vento cobrindo todo o horizonte. A família de Jéssica era só mais uma, dentre tantos brasileiros, que naquele domingo havia se reunido para um churrasco a fim de assistir aquela que seria uma das partidas mais sofridas que o Brasil já enfrentara em uma final. Novamente a disputa era contra a Itália, apesar do palco do evento, naquele ano, ser nos Estados Unidos. O jogo fora muito tenso, truncado e nenhum dos dois lados conseguiu desenvolver o potencial que possuía, para a aflição de seus torcedores. Não houve gols em nenhum dos dois tempos nem nos trinta minutos da prorrogação. Era a primeira vez que a final de uma Copa do Mundo seria decidida nos pênaltis. Franco Baresi da Itália começou isolando a bola acima do travessão, porém o Brasil também não marcou o seu primeiro, já que o goleiro do adversário defendeu o chute de Márcio Santos. Albertini e Evani conseguiram converter para o time europeu, mas o Brasil não ficou para trás já que Romário e Branco fizeram os seus. Jéssica já estava com o coração saltando da boca quando Massaro chutou do lado esquerdo do gol e Taffarel defendeu. Logo na sequência, Dunga marcou para o Brasil e o adversário, Roberto Baggio, mandou sua bola para além do travessão, dando a vitória, mais uma vez, para a nossa nação. Brasil 3, Itália 2. E foi assim que a classe média brasileira e toda a nação comemorou o quarto título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Jorge – 30 de Junho de 2002

Os fogos já estouravam no céu do Rio de Janeiro. Jorge, ainda sonolento, estava em seu casebre deitado no sofá debaixo das cobertas. Só mesmo por um jogo da seleção que acordaria tão cedo estando de férias escolares. Os horários daquela copa haviam sido cruéis, já que a mesma se passara do outro lado do mundo, entre o eixo Coréia e Japão. Tinha cortado seu cabelo igual ao ídolo, o fenômeno, e por isso se sentia poderoso, mesmo que sua mãe odiasse o penteado. Apesar da adversária do Brasil ser a Alemanha, o primeiro tempo fora tão morno que o menino quase se entregara ao sono. Porém a emoção da segunda metade do jogo o despertara, quando Ronaldo, o fenômeno, abriu o placar aos vinte e dois minutos e logo depois, marcou de novo, aos trinta e quarto. Antes mesmo de Cafu erguer a taça, o morro todo já explodia em festa com rojões e gritos de é campeão. Brasil 2, Alemanha 0. E foi assim que a comunidade do Rio de Janeiro e toda a nação comemorou o quinto título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

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