Visita 127

A tela piscava na minha frente, estava tão cansado que nem sabia ao certo se era ela ou meus olhos que estavam pescando ocasionalmente. Balancei um pouco a cabeça e tomei mais um gole da xícara de café ao meu lado em cima da mesa. Eu tinha que terminar aquele plano, o carnaval já estava logo ai e eu nada tinha feito para me preparar para o que viria. Era verdade que da última vez todo meu planejamento fora em vão, afinal eu tinha conseguido um milagre de Natal, no último minuto do segundo tempo, depois de já ter memorizado todo o plano 126, a velha ligou avisando que não poderia vir porque um tal de tio Manoel resolvera partir desta para melhor. Nunca conhecera esse parente da minha esposa, mas eu tinha certeza que só com aquele último ato de benevolência o cara já tinha o seu lugar garantido no céu. Santo tio Manoel! Que sua alma iluminada descanse em paz. Tomei mais um gole do café e continuei, seria muita sorte para uma pessoa só ter outra morte na família assim tão rapidamente.

Ela entrou no apartamento já reclamando do motorista particular que tinha solicitado para trazê-la da estação até nossa casa, disse que o homem cheirava mal e não sabia se colocar em seu devido lugar, quase sugeri que fossemos correndo a um hospital fazer um teste de DNA porque, devido as semelhanças, as chances daquele sujeito ter algum parentesco com ela eram muito grandes. Tinha algo que não se encaixava naquela visita, apesar de todos os insultos e comentários sarcásticos de costume ela parecia levemente mais dócil. Até mesmo tinha me deixado dormir em minha própria cama! Bati a cabeça para saber o que tinha de errado, eram anos de convivência e o ser nunca tinha mudado uma vírgula de sua personalidade encantadora, o que tinha de diferente agora? No jantar daquela noite ela soltou a bomba que eu estava aguardando. Um namorado? A velha tinha conseguido arranjar um namorado? Eu sempre achei que toda panela tinha sua tampa, até conhecer minha sogra, ao primeiro contato com ela eu percebi que realmente haviam frigideiras espalhadas por esse mundão a fora das quais nem tampas possuíam, ela ter conseguido alguém naquela altura da vida realmente ia contra todas as leis da natureza. Não poderia dizer que era um santo, pois se fosse teria segurado a jararaca em sua terra natal durante o feriado, mas o coitado estava quase lá. É claro que ninguém superaria o Santo tio Manoel, este agora estava recebendo as graças eternas de um trabalho bem feito, mas o tal sujeito estava se esforçando. Ela passou os dias trancada no apartamento como uma adolescente pendurada ao telefone e, até mesmo fazia vídeo chamadas no computador ocasionalmente. Para mim, não ter o seu foco voltado a fazer da minha vida um inferno era uma grande vantagem, mesmo que sua presença constante profanasse meu recinto sagrado, mas eu sabia que seria muita sorte ser agraciado com dois milagres seguidos, então já estava esperando pela pegadinha quando ela fez seu escândalo em uma madrugada. Lúcia e eu acordamos com seus gritos desesperados, a velha desembestou a falar que nunca tinha sido tão humilhada em sua vida e que estava tudo acabado entre eles, que sua vontade era de se jogar daquela sacada, eu teria permanecido na cama se soubesse previamente do seu plano brilhante, apesar de que acabaríamos sendo multados pelo condomínio por jogar lixo em área comum se ela realmente seguisse com isso. Essa tinha sido rápida! Eu já tinha considerado a possibilidade do cara ser um interno do hospício existente em sua cidade, mas ele me parecia ser muito lúcido agora. Lúcia levou sua mãe para o quarto alegando que com uma boa noite de sono tudo se resolveria e eu fiquei olhando as duas partirem incrédulo. Inacreditável! A megera mal tinha terminado e já tinha me expulsado do meu próprio quarto.

No dia seguinte ela acordou com a corda toda, dizendo que iria aproveitar o feriado dos solteiros. Eu achei aquilo um disparate, mas ela conseguiu nos arrastar para todos os blocos de carnaval da cidade, não sabia o que ela queria de fato com isso até eu ver uma cena que me deu vontade de arrancar os olhos fora. Ela realmente estava dando em cima daquele rapaz? O moço tinha idade para ser seu neto! Eu precisava agir. Chamei um menino que carregava consigo um daqueles sprays de espuma e paguei cinco reais para que ele jogasse o jato na direção do casal. Deu certo! Assim que minha sogra foi atingida ela começou a xingar todos a sua volta e o rapaz aproveitou a oportunidade para sair de perto dela. Isso! Corra e salve-se das garras do cruel inimigo meu jovem.

Acordei com o pensamento de que iria surtar se tivesse que escutar mais uma única marchinha naquele dia, mas ao adentrar a sala vi minha sogra na porta com suas malas feitas ao lado.

– O que está acontecendo? – perguntei, acho que ainda estava sonhando.

– Eu estou voltando para casa. – Olhei incrédulo para ela, um leve sorriso querendo se formar em meus lábios.

– Tão cedo? O que aconteceu?

– Eu e meu namorado reatamos, não aguento mais ficar longe dele. – Ela me fitou por um tempo. – Não finja que está triste Leandro, sei muito bem que você não via a hora de se ver livre de mim. Tudo bem! É o fardo que tenho que carregar por sempre dizer a verdade aos outros, já estou acostumada. – Eu não tinha forças nem para responder a sua provocação, tamanha era minha felicidade. Seu celular bipou. – É o meu táxi. Dá para deixar de ser imprestável e me ajudar com as malas? Se já não bastasse não poder me dar uma carona para a rodoviária de tão tarde que acorda todo dia, ainda vai ficar parado ai que nem uma porta?

Ajudei a descer suas coisas e no caminho fiquei pensando que o danado do namorado realmente tinha conseguido reservar seu lugar no céu junto ao Santo tio Manoel.

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