Histórias de Fogueira

Era a primeira vez que os meninos iam acampar. Só conseguiam falar disso a semana toda: o que levariam, como seria, o que fariam, o que esperavam. Marisa estava se questionando se tinha tomado a decisão correta quando deixou que os filhos fossem com os amigos da escola para um acampamento de férias. Tudo bem que seria somente um feriado prolongado em um lugar fechado e monitorado 24h, mesmo assim nunca tinha deixado seus filhos ficarem tão longe assim de casa por tanto tempo e isso lhe apertava o coração. Eles colocaram as últimas malas no carro e pegaram estrada.

A placa dizia: “Recanto dos Rouxinóis”, Gustavo resmungou dizendo que aquilo não era nome de acampamento, já Fernando, que era mais novo, estava tão empolgado que nem se importou se o sítio teria nome de unicórnios, com tanto que ele estivesse logo montando sua barraca e preparando seus equipamentos de caça ao tesouro. Marisa estacionou o carro na frente do prédio principal e enquanto funcionários ajudavam a descarregar as bagagens ela conversou com um monitor responsável mais uma vez, só para se certificar de que seus filhos realmente estariam seguros naquele lugar. Depois deu um beijo na testa de cada um e partiu de volta para casa.

Durante os dias tiveram algumas lições de biologia e sobrevivência na natureza, competições como gincanas e tarefas que pontuavam para ao final saber qual time seria o vencedor do acampamento daquele ano e mais um punhado de outras coisas. À noite geralmente estavam tão cansados que acabavam todos dormindo muito cedo em suas barracas, porém em uma dessas noites resolveram acender uma fogueira e contar histórias de terror sob a luz da lua.

– E então ela se virou e viu o fantasma do tio dela, saiu correndo e correu e correu até que finalmente ela percebeu que estava sonhando e aquilo não passava de um pesadelo. – Um dos meninos do acampamento encerrou sua história com a lanterna apontada para o rosto. Passados alguns minutos de silêncio, Gustavo não aguentou e começou a rir.

– É só isso que conseguem fazer? Um bando de vampiros, lobisomens e fantasmas? Até o Fernando consegue inventar uma história melhor e olha que ele é um bebê chorão.

– Não sou um bebê chorão – Fernando disse, mostrando a língua para o irmão.

– Então prova que você consegue fazer melhor! – um dos garotos desafiou.

– É claro que consigo, não precisa de muito esforço para isso – Gustavo disse com desdém.

– Ei pessoal, calem a boca! – Fernando disse olhando para as árvores. – Estão escutando?

Um vento forte começou a bater e as folhas das árvores começaram a sacolejar. Ruídos começaram a surgir de dentro da floresta.

– Não deve ser nada, aposto que vai começar a chover – Gustavo afirmou.

Assim que o menino terminou sua frase um estrondo de um trovão ecoou do outro lado do campo seguido de um raio que caíra a poucos metros de onde estavam. Alguns pularam com o susto e outros só observaram, até que os monitores pediram para que todos entrassem em suas barracas. Mas antes que fizessem qualquer movimento, outro barulho, muito mais agudo, veio de dentro da mata chamando suas atenções. De repente, uma chuva torrencial começou a despencar do céu. Tinha algo de errado com aquela chuva, não era normal! Vários animais, de todos os tipos, começaram descer das montanhas e correr em direção ao acampamento. Os meninos, a esta altura, já corriam desnorteados de um lado ao outro gritando desesperados, com medo de serem pisoteados. Os animais continuavam a passar, levando tudo o que encontrassem em sua frente. Várias barracas foram destruídas e a fogueira virou cinzas no meio da clareira. Quando finalmente a manada cessou e eles se sentiram seguros novamente perceberam que o chão tremia. Pensaram que talvez fosse outra manada saindo de seus esconderijos, porém o solo não parava de se movimentar sob seus pés. Um terremoto? Como aquilo era possível? Mas não era um terremoto qualquer, fendas enormes estavam sendo abertas sob seus pés. Fernando abraçou o irmão quando viu que outro garoto foi engolido por uma cratera que acabara de se formar, sugando tudo o que estava a sua volta para dentro dela. O chão começou a se abrir entre os meninos também e não conseguindo mais se segurar no irmão mais velho, Fernando foi puxado para dentro do buraco. Gustavo correu e conseguiu segurar a mão do irmão tentando puxá-lo para cima novamente, enquanto o outro gritava e se debatia de medo. Ele gritou por ajuda, mas todos a sua volta também lutavam por suas vidas e o menino se viu sozinho na tarefa de salvar seu irmão. Puxou uma, duas, três vezes, mas o corpo do pequeno só pesava cada vez mais, até que em um lapso de segundo sua mão escorregou e Fernando caiu gritando dentro da fenda profunda que se formara.

 

– O que vocês ainda estão fazendo acordados? Vou descontar pontos de suas equipes se não forem para suas barracas nesse exato minuto. – Um dos monitores apareceu na borda da clareira dando bronca nos meninos que pareciam petrificados em volta da fogueira. Ele se aproximou, olhou em volta e começou o sermão novamente. – Estou falando sério, vamos, andem! Amanhã teremos atividades logo cedo.

Um a um dos meninos voltou à realidade e saiu correndo para suas barracas. Gustavo puxou o irmão pelo braço e também foi para seus dormitórios.

– O que foi aquilo? – Gustavo perguntou atônito.

– Gostou não foi? Ficou com medo não é? Todos ficaram! E você disse que eu era um bebê chorão que não sabia contar histórias.

John – 2 anos antes

O vitoriano estava a bordo de uma nave rumo à Antarius com um pequeno contingente ao seu dispor. O planeta era um dos poucos dentro do acordo que desprezava quase que completamente as regras por ele impostas, só não havia ainda sido banido porque estrategicamente ainda era mais vantajoso manter seus habitantes sob um falso controle do que realmente largá-los a deriva. Era por isso que John estava indo com uma tropa, pois toda e qualquer intervenção feita em Antarius inevitavelmente acabava em confronto. Também era por isso que não simpatizava com tais missões, pois sempre fora contra quaisquer manifestações de violência, mas ele tinha consciência de que, infelizmente, em alguns casos não tinha como evitá-la. O mais irônico de tudo era que justo ele, por ser um pilar, era um dos poucos que poderia ordenar um ataque como o que estava prestes a executar.

Pousaram suavemente nas terras vermelhas e rochosas do planeta. John foi o primeiro a descer seguido pelos seus outros cinco companheiros, uma comitiva já os aguardava do lado de fora da nave.

– O pilar em pessoa veio nos ajudar? A que devemos tamanha honra? – um dos generais espectros falou ironicamente em sua língua rudimentar.

– Não temos tempo a perder, me atualize sobre a situação no caminho. Os confrontos já cessaram? – John respondeu indiferente ao sarcasmo do outro. Tinha esperança de que sua última pergunta tivesse uma resposta afirmativa, mas sabia que seria improvável. O enorme ser que andava ao seu lado soltou uma gargalhada gutural.

– Sabe que se a situação não tivesse no limite jamais pediríamos ajuda ao conselho. – John suspirou, era exatamente o que temia.

As hordas de espectros se atacavam de forma grotesca e desordenada. Arrancavam membros, decepavam, dilaceravam. O vitoriano passou entre os seres fazendo com que os que o atacavam caíssem no chão ao seu simples contato. Essa técnica não os matava, somente os deixavam inconscientes. Aquilo lhe dava certa vantagem em batalha, pois sua habilidade exigia o mínimo de contato para invalidar o oponente, não importando qual o tamanho ou quão agressivo este fosse. Porém, como tudo na vida, isso também lhe cobrava um preço à altura e sua energia era radicalmente drenada a cada investida que fazia. Enquanto isso seus companheiros, que não tinham o mesmo benefício, lutavam de igual para igual entre os espectros. A batalha continuou por horas, o sangue espesso dos espectros banhando o solo já vermelho de sua terra. Apesar de achar estranho o modo como os espectros que tentavam lhe atacar estavam se aproximando, quase como se quisessem fazer isso deliberadamente, John continuava a invalidar um por um, e se sentia satisfeito por isso, pois acreditava que era uma vida a mais que poupava daquela atrocidade. A ferocidade da luta continuava e ele Lamentava cada perda das vidas que tinha trazido consigo para tal missão, estavam cumprindo seus papéis, mas cada um deles merecia um destino melhor do que aquele. Por mais difícil que fosse para entender, ele também olhava com pesar as mortes de cada espectro, era um despropósito o que faziam consigo mesmos. Quando já estava com a visão turva e quase desmaiando de tanta exaustão, a batalha finalmente começou a se dissipar. John se abaixou um pouco, perdendo as forças. Dois que restaram de sua tropa viram seu estado e estavam indo ao seu encontro quando um grupo de espectros os cercaram e, sem prévio aviso, os atacaram e cortaram suas gargantas. O vitoriano demorou um tempo para processar o que estava acontecendo, ele se levantou com alguma dificuldade e virou para a direção onde os últimos de sua tropa jaziam embebidos em seus próprios sangues. Dois espectros se adiantaram e o seguraram, um de cada lado enquanto o resto da horda se abriu para revelar um ser um tanto maior que os outros e mais encorpado, que estava seguindo caminho em sua direção.

– Quem diria que justo você, de todos os pilares, viria ao nosso resgate! – o soberano dos espectros disse soltando um sorriso de desdém e se aproximando de John.

– Mas o quê? – John, ainda zonzo do esforço da batalha, tentou argumentar. – Por quê?

– Temos uma conta a acertar vitoriano – o soberano disse achando graça do olhar de confusão do outro. O espectro começou a andar em círculos.  – Me pergunto o que aconteceria a Antarius se o conselho soubesse que o tão aclamado John morreu aqui. – Ele deu de ombros. – Provavelmente nada! Afinal casualidades acontecem e até mesmo você poderia perder a vida em uma missão no planeta vermelho, não é mesmo? E o conselho é sempre tão justo, como não entenderiam tal situação? – O espectro cuspiu as últimas palavras com nojo. John balançou a cabeça tentando organizar os pensamentos, mas estava tão exaurido que mal entendia o que o outro dizia, quanto mais raciocinar. O ser sorriu com a impotência de seu oponente. – Terei tempo para pensar no que irei fazer com você assim que nosso representante levar as más notícias ao conselho. – Ele se aproximou ainda mais de John e sussurrou em seu ouvido. – Aproveite sua estadia em Antarius, vitoriano! – Depois se dirigiu a seus soldados. – Acabou o teatro. Vamos, levem-no daqui!

Os dois arrastaram John pelo deserto rochoso, ele ainda tentou fazer um último esforço para se desvencilhar dos espectros, mas todas suas energias haviam se esgotado durante a batalha e a única coisa que conseguiu foi mergulhar na inconsciência.

Ela e Ele

Ela estava terminando de fazer a unha enquanto assistia a um filme que passava na televisão. Já tinha ajeitado a casa logo cedo, limpado o carro, estendido a roupa no varal e levado o cachorro para passear. Agora terminava de se arrumar para sair à noite. Ela já havia sido muito baladeira, lembrava-se de que adorava comprar sapatos de salto alto e roupas apertadas só para usar na noitada, contava os dias para o final de semana e queria morrer quando não tinha um programa legal para fazer. Hoje em dia ela não era mais assim, preferia a tranquilidade de uma reunião com os amigos ou até mesmo curtir sua própria companhia, mas uma grande amiga sua havia sido convidada para ir ao aniversário da amiga de uma amiga, sim aquelas relações bem distantes que provavelmente ninguém conhece a aniversariante, e insistira para que ela a acompanhasse, como não tinha nada de melhor para fazer, pensou: “Por que não?”.

Ele estava saindo do clube depois de uma partida de futebol com os amigos, vinham brincando e tirando sarro um da cara do outro ao longo do trajeto, até que um deles disse: “Ei, hoje tem aniversário da namorada de uns dos caras lá do escritório, alguém está afim de ir?”, alguns toparam na hora, outros recusaram, ele ficou na dúvida, era verdade que fazia tempo que ele não saia para a noitada com a galera, não que fizesse questão na maioria das vezes, nunca fora muito disso, porém havia saído de um relacionamento conturbado há alguns meses, quem sabe não seria bom para espairecer? Mesmo que esse não fosse o caso, ele não tinha nada melhor para fazer, então pensou: “Por que não?”.

A buzina toca, é sua carona, ela pega a bolsa, checa mais uma vez se não se esqueceu de nada, tranca a porta e sai de casa. Estava mais animada, a noite estava linda, seria um desperdício não aproveitá-la.

Ele parou na frente da casa do último amigo que ia buscar, seria o carona da vez, os caras não paravam de falar e dar risada, ele acabou entrando no clima e começou a ficar mais animado com a ideia.

Ela entrou, foi com sua amiga até a mesa da aniversariante e a todos se apresentou. Um dos convidados lhe chamou a atenção e no mesmo momento algo acendeu dentro dela, algo novo ou que há muito não sentia, pensou maravilhada: “Quem diria que era exatamente aqui que eu deveria estar!”.

Ele entrou, foi com os rapazes até a mesa e fez um cumprimento geral para todos os presentes. Ficou de bobeira por algum tempo até que uma mulher, que acabara de chegar com uma amiga, se apresentou a ele. Ele se interessou de imediato, não sabia explicar o porquê, só sentira que estava no lugar e na hora certa.

Eles conversaram a noite inteira. Não ficaram juntos naquela ocasião, mas nem precisaria, afinal marcaram de se encontrar no dia seguinte. O final da história? Não se sabe ainda, porém ouvir dizer que nesse encontro houve… ah, deixa para lá, isso é assunto para outra ocasião!

Matheus – mais de 5 anos atrás

Matheus estava finalizando a sua primeira semana de trabalho no Instituto. Enquanto checava alguns e-mails para verificar se estava tudo em ordem e encerrar seu expediente ele pensava em quão satisfeito estava com a sua vida naquele momento. Também pudera, tinha se formado recentemente, ganhado uma sobrinha linda e ainda conseguira um emprego dentro de uma instituição de renome dentro da área como aquela! Tudo estava caminhando como planejado. O próximo passo era ficar ali por um ou dois anos no máximo, até adquirir alguma experiência e conseguir juntar dinheiro para fazer sua pós no exterior. Depois disso trabalharia por mais algum tempo em outros lugares até fazer seu nome no mercado e conseguir ter o seu próprio Instituto. Desligou o computador, pegou sua mochila e deixou a sala. Não conversou com ninguém até chegar ao lobby do prédio, fazia pouco tempo que estava ali, mas já tinha percebido que as pessoas nutriam certa antipatia com os funcionários de seu setor, até mesmo dentro dele as pessoas não eram muito sociáveis. Isso não o incomodava, ele sempre preferiu trabalhar sozinho a ficar de politicagem para com estranhos. Uma mulher alta de cabelos até os ombros pretos com pontas onduladas andava de um lado para o outro perto da porta de saída segurando uma criança no colo enrolada em um pano cor de rosa.

– Grazi? O que está fazendo aqui? – Matheus perguntou dando o dedo para que a menininha no colo da mulher o segurasse.

– Vim te buscar! Estava por perto e resolvi te dar uma carona já que estou indo para a mamãe. – A pequena bebezinha começou a rir, esticando os braços para Matheus e abrindo e fechando as pequenas mãozinhas. – E tinha alguém aqui que estava morrendo de saudades do tio!

– Me dê ela aqui! – ele disse sorrindo para a menininha. Ajeitou a mochila nas costas e pegou a criança no colo que abriu um sorriso largo fazendo uma pequena covinha na lateral do rosto. Matheus e Grazielle caminharam até o estacionamento.

– Vocês vão mesmo viajar hoje à noite para Campinas?

– Sim, temos a confraternização da empresa do Heitor esse final de semana e ele prefere dirigir a noite. Vamos sair logo depois do jantar na casa de mamãe – Grazielle respondeu enquanto sentava no banco do motorista e Matheus ocupava o banco de trás com a criança.

– Não estou gostando disso! Por que não vão amanhã de manhã? É perigoso pegar estrada com Sophia ainda mais a noite. – A mulher riu.

– Esqueci que estava falando com o meu pai! – Matheus bufou. Sua irmã olhou pelo retrovisor e viu o vinco que se formava entre seus olhos sempre que estava preocupado. Deu a partida no carro. – É uma viagem curta, e eu até prefiro ir hoje porque assim Sophia estará dormindo. – Ela olhou de relance para o irmão e ele continuava emburrado. Deu risada novamente. – Sério Má, você parece um velho de 80 anos preso em um corpo de 22! Relaxa! O que de pior pode acontecer? – Matheus bufou novamente e não respondeu.

O telefone estava tocando incessantemente, Matheus virou de um lado para o outro, quem seria uma hora dessas? Pegou o celular, mas era um número desconhecido, depois deu uma olhada no relógio, quatro da manhã. Resolveu atender.

– Matheus Nogueira? – a mulher do outro lado da linha indagou.

– Sou eu, quem fala? – disse já despertando por completo.

– Aqui é do Hospital Geral de Campinas, recebemos a entrada de uma Grazielle Mattos há algumas horas, algum parentesco?

– Sim, é minha irmã! – Com o coração já acelerado ele se levantou da cama indo pegar suas roupas.

– Sua irmã e o marido sofreram um acidente de carro, desculpe a urgência, mas preciso que venha para cá o quanto antes!

Matheus estava com os pensamentos em outro lugar quando Cláudia entrou na sala pedindo a atenção de todos e anunciando uma de suas competições idiotas para “estimular” os funcionários. Ele só levantou para pegar o briefing da nova tarefa e voltou a se sentar em sua mesa. Estava fazendo um ano hoje que sua irmã falecera, mas ele lembrava todo dia, como se fosse ontem, dele acordando sua mãe as pressas, pegando o carro e indo parar naquele hospital. Não chegara a tempo de se despedir de Gazielle, disseram que ela chegara viva ao hospital, ao contrário de Heitor, porém não resistiu aos graves ferimentos internos. Ele cuidara de tudo: todas as papeladas, liberação e transferência dos corpos, velório e enterro. Sua mãe não teve condição alguma de lidar com essas coisas e, como sempre, ele preferiu se fazer útil a lidar com seus sentimentos. Aos 22 anos ele se viu legalmente responsável por uma menina de seis meses de idade, talvez outros vissem a situação com desespero, depois de toda a tragédia ainda mais aquilo? Mas se ele podia tirar alguma coisa boa daquela noite terrível foi o milagre de Sophia ter saído quase com nenhum arranhão daquele acidente. Pegou suas coisas junto com o briefing e foi embora para casa, mais tarde daria uma olhada naquilo. Quando estava na recepção viu um rapaz moreno e alto, de cabelos espetados, pegar algo da mão de uma menina baixinha de cabelos claros e olhos verdes. Ele saiu correndo para rua e ela correu atrás do mesmo gritando seu nome e dando risada. O que era aquilo? Estavam brincando de pega-pega no prédio do Instituto?! Que casal mais estranho! Além de serem totalmente antiprofissionais.

Já era tarde da noite quando Matheus pegou a pasta com os arquivos da tarefa recebida para dar uma olhada. Lembrou-se vagamente de Cláudia dizendo que quem conseguisse se destacar nas pesquisas com aquelas informações faria parte de um projeto muito maior no futuro. Achou estranho todos aqueles dados, de onde tinham tirado tudo aquilo? Mas deu de ombros e jogou a pasta em cima da escrivaninha indo verificar Sophia antes de se deitar. Aquele prêmio estava no papo!

Visita 125

Eu arrumava a mesa para o jantar enquanto Lúcia terminava de preparar a comida. Coloquei os talheres, ajeitei os copos, arrumei os guardanapos, os pratos, resolvi colocar aquelas flores que estavam em um vasinho perto da estante só para dar aquele toque especial. Fazia mais de 10 anos que éramos casados, porém, ainda hoje, gostava de fazer alguns mimos para deixar a relação mais gostosa. Lúcia trouxe os últimos pratos à mesa e nos sentamos para jantar. Minha esposa estava estressada com um incidente que havia ocorrido em seu trabalho e eu tentava acalmá-la, transcorrendo sobre a importância de não se deixar afetar por coisas pequenas ou externas e o quanto isso fazia mal. O diálogo fez efeito, pois ela estava mais calma ao final do jantar e acabei por sentir-me satisfeito comigo mesmo.

– Ah, esqueci de te dizer, minha mãe vem nos visitar nesse final de semana – Lúcia disse despreocupada enquanto levava os últimos pratos para a cozinha.

Meu coração começou a palpitar. O quê? Como assim? Quando? Onde? Parecia que um caminhão tinha me atropelado, não estava me sentido bem. Estava tudo tão perfeito! Por quê?! Por que ela teve que estragar a noite com esse assunto? Qual era o problema com o mundo? Por que coisas ruins aconteciam a pessoas boas? Não era justo! Por quê?

– E quando ela chega? – perguntei tentando disfarçar o pânico.

– Amanhã de manhã e volta no Domingo, eu ia te avisar antes, mas a semana foi tão corrida! Tudo bem pra você? – ela disse avaliando minha expressão.

– Claro! É sua mãe e além do mais não tínhamos nada de importante programado, não é mesmo? – A perda do meu conforto, da minha privacidade e principalmente da minha sanidade eram coisas muito importantes para mim, mas quem liga para isso hoje em dia, não é mesmo? Importante mesmo são os laços familiares! – Escuta, preciso terminar um trabalho então vou para o escritório, está bem? Não me espere acordada – disse, beijando a testa de Lúcia, que me olhou com desconfiança por um tempo, e sai da sala.

Precisava elaborar um plano para sofrer o mínimo de danos possíveis desta visita o quanto antes. Liguei o computador e acessei a pasta “Para caso de emergência”, fiz um novo arquivo intitulado “Visita 125”, 125? Aquela megera já tinha profanado o recinto sagrado de meu lar esse tanto de vezes? Era muito castigo para uma pessoa só! Não acreditava em vida passada, mas se, por um acaso, tivesse tido alguma, com certeza teria sido algo muito ruim para merecer isso agora!

A luz entrava pela janela e batia em meu rosto, virei para o outro lado tentando voltar a dormir novamente. Tive um pesadelo horrendo na noite anterior e não tinha dormido bem.

– Onde está Leandro?

– Ele foi dormir tarde, estava trabalhando. – Escutei Lúcia responder.

– Foi isso que ele te disse? Aposto que estava vendo pornô! Ainda bem que você teve uma boa criação e é alguém na vida, porque se fossem depender daquele seu marido preguiçoso…

Não fora um pesadelo, o diabo realmente estava ali e eu estava no inferno!

O dia começou com um café da manhã agradabilíssimo, onde o assunto principal fora: Leandro e todas as suas características únicas! Como eu tinha engordado! Como eu ainda não tinha conseguido um trabalho de verdade? Como eu ajudava pouco em casa. Mas não foi tudo reclamação, também recebi bons conselhos e chegamos à conclusão que eu deveria procurar um médico, pois não era possível ser normal um dedão do pé tão estranho! À tarde, fomos para um passeio ao shopping, o plano era simples: ir ao cinema e depois comer alguma coisa. O ponto alto do meu dia foi um adolescente ter expressado para a sala inteira de cinema exatamente o que eu penso há tantos anos quando gritou: “Ei! Quem foi que trouxe a velha gagá? Não dá para escutar o filme com tanto falatório!”. Lógico que tivemos que escutar um discurso interminável sobre como essa geração não presta, como as crianças são mal educadas e os pais negligentes, mas eu simplesmente achei o menino genial! Na minha humilde opinião ele merecia um prêmio, isso sim. Ah, se todos fossem como ele! O jantar foi uma experiência a parte, pois parecia que todos, inclusive cobras peçonhentas, estavam aderindo a dietas saudáveis, afinal minha sogra veio com uma história de uma tal de dieta macrobiótica e como a comida tinha que se harmonizar como o Yin e Yang. Eu, como um bom genro, mostrei que prestei atenção aos seus ensinamentos e escolhi o prato com o maior pedaço de carne vermelha possível, rodeado por batatas fritas e ainda pedi um pudim de leite de sobremesa. Não entendi quando ela bufou e se mostrou indignada com as minhas escolhas! Não era isso que eu deveria comer? Porém isso só tinha sido metade do final de semana, ainda faltava muito tempo para eu finalmente ser livre. Fui acordado às 6h da manhã no Domingo com o som da TV nas alturas. Alguns poderiam achar que isso é um exagero já que o aparelho fica na sala e eu estava no meu quarto. Não julguem sem saber os detalhes antes! Eu tinha sido expulso na noite anterior da minha cama porque aparentemente o sofá dá muitas dores nas costas, então, do meu ponto de vista, exagero foi o dela de ter colocado a televisão naquela altura com outra pessoa dormindo no mesmo ambiente. Nesse ponto eu já havia começado a contar mentalmente as horas para o momento de sua partida, isso sempre me acalmava! Contudo, eu tive que contar por muito tempo, afinal o dia tinha apenas raiado. Para minha sorte, o assunto do café da manhã não fora novamente o Leandro e como tudo era mágico a respeito desse ser maravilhoso e sim o meu relacionamento. Apesar de que o tópico do porquê ainda não termos filhos ter exigido uma leve menção aos meus soldadinhos que não funcionavam. Nem acreditei quando, 720 minutos depois, eu me vi livre daquele ser desprezível. Estava exausto! Jogos psicológicos acabam com uma pessoa.

Era final de noite, Lúcia puxou os lençóis e se deitou de seu lado da cama e eu fiz o mesmo a abraçando por debaixo das cobertas.

– Eu sei que não é fácil para você ter mamãe por aqui, mas eu fico tanto tempo sem vê-la! – ela comentou. Não era isso que minhas pastas de planos diziam!

– Que isso amor, já estou acostumado!

– Que ótimo que você não se importa, porque ela disse que vai voltar para o Natal!

Suspirei. Amanhã já teria que começar a arquitetar a visita 126.

 

 

 

Rafael – 4 anos antes

“Próxima estação Faria Lima, desembarque pelo lado esquerdo do trem.”

Rafael bocejava enquanto pedia passagem para as pessoas do vagão. O trem parou e abriu as portas, entre licenças e algumas manobras com o corpo ele tentava fazer seu trajeto para fora do vagão. Um homem alto, com fone nos ouvidos, segurava, com uma das mãos, a barra superior enquanto tamborilava na mesma seus dedos ao ritmo da música que escutava. Ele estava bem no meio do caminho, Rafael pediu-lhe passagem mais de uma vez, mas, ou ele não o escutava, ou não estava preocupado em ser educado. O metrô apitou avisando que as portas se fechariam. Sem mais paciência, Rafael se enfiou entre as pessoas, dando um leve empurrão no rapaz, que o olhou de cara feia, e chegou à plataforma. “Que droga!”, pensou. Já não tinha dormido muito bem, Iris o havia telefonado no meio da madrugada, histérica com alguma coisa, e ele não conseguiu pegar mais no sono depois disso, e agora ainda tinha que ficar aguentando gente mal educada no transporte público?

Quando ele chegou a sua sala, Iris já estava lá andando de um lado para o outro e dando pequenas palmadas para frente e para trás. Assim que ela percebeu sua presença, ela saiu correndo e o puxou pelo braço, fazendo com que ele se sentasse em sua cadeira na frente do computador enquanto ela puxava outra para se sentar ao seu lado. Rafael começou a rir, dissipando todo o mau humor de outrora, sempre achara engraçado o jeito que sua melhor amiga ficava quando estava ansiosa. Ele nem perdeu tempo a cumprimentando ou puxando qualquer assunto supérfluo, sabia que não adiantaria, eram raras as vezes que sua amiga tão cautelosa ficava assim tão empolgada, mas sabia que quando acontecia era melhor deixar que ela liberasse toda a energia acumulada de uma vez. Iris começou a mostrá-lo tudo o que havia pesquisado na noite anterior e qual era a teoria que ela pensava ter encontrado. Conforme passava pelas informações a mente de Rafael dava rodopios com tudo aquilo. Era genial! Lógico que daria certo. Como que não tinham pensado nisso antes? Já entrando de cabeça no assunto ele começou a dar sugestões e apontar algumas falhas nos estudos da amiga e logo os dois estavam em um debate acalorado sobre por onde começariam as pesquisas. Agora quem estava empolgado era Rafael. Não esperou nem terminarem a conversa, se levantou e foi solicitar a Renato uma reunião com a diretoria só para apresentar o projeto e conseguir autorização para desenvolvê-lo. Iris estava em dúvidas quanto a isso, achava que deveriam esperar mais um pouco até que tivessem mais informações, mas Rafael não quis saber de esperar, fez questão dele mesmo juntar tudo o que precisava para vender o projeto à diretoria, sabia como agradar aqueles velhotes do Instituto. Iris poderia até ser engraçada quando estava empolgada, mas Rafael era uma força da natureza quando queria algo, capaz de mover montanhas por seus objetivos.

Os dois voltaram, ao final do dia, da reunião, com sorrisos largos nos rostos. Tinham conseguido a autorização, não seria um projeto oficial, mas quem ligava para isso? Pelo menos poderiam desenvolvê-lo entre os outros trabalhos designados a eles pelo Instituto. Rafael não cabia em si, girava o móbile do sistema solar que tinham pendurado em um canto da sala com uma das mãos e depois o rodava para o lado oposto com a outra, perdido em seus pensamentos. Até que parou, pegou uma caneta em sua mesa e posicionou a mesma sob uma das esferas e ficou fazendo pressão.

– O que está fazendo? – Iris perguntou percebendo o estranho comportamento do amigo.

– Vida nova Iris, vida nova! Plutão nem é mais um planeta de verdade, por que é que ele ainda continua aqui? – Iris começou a rir e foi até o amigo.

– Eu te ajudo! – ela disse já puxando a pequena esfera do móbile enquanto Rafael continuava a pressionar com a caneta.

Quando o pequeno planeta anão se soltou os dois bateram as palmas em um cumprimento e começaram a rir. Rafael foi até onde o objeto tinha rolado e o pegou.

– Não! – Iris gritou quando viu que ele estava prestes a jogar a esfera fora.

– O que foi? – Ele virou-se para ela assustado.

– Não jogue fora! Talvez a gente precise dele um dia – ela respondeu e Rafael dando de ombros, foi até sua gaveta e colocou o pequeno planeta dentro.

– Pronto, nosso Plutão está são e salvo! Agora vamos logo ao que interessa e começar com essas pesquisas. – Iris soltou um sorriso e sem mais demora os dois começaram a trabalhar.

O Homem do Espelho

Essa é a história de um homem, uma pessoa comum, que fora registrada ao nascer como qualquer outra, porém havia uma única peculiaridade em sua vida, desde sempre, a cada dia que se olhava no espelho ele via alguém diferente. E é esse fato inusitado que faz com que não precisemos saber seu nome, pois ele era único, mas também era muitas pessoas ao mesmo tempo. Ora era um homem bem sucedido de meia idade, ora era uma criança frágil e curiosa, ainda descobrindo o mundo a sua volta, tinha dias que era uma delicada mulher, em outros um bruta montes ignorante, e havia ainda as ocasiões em que era um velho senhor, com muita sabedoria e muitos problemas de saúde também.

Ele já era acostumado com sua condição, sempre fora assim, não se importava realmente com isso, todo dia de manhã se olhava no espelho e via qual seria sua personalidade do dia e assim levava sua vida. Não era algo fixo, haviam dias que ele tinha que se olhar várias vezes no espelho, pois a mudança ocorria mais de uma vez, e tinham momentos em que uma única entidade permanecia por um período maior de tempo. Fosse como fosse, ele sempre soubera lidar com a situação, pelo menos até conhecer Tatiana. Ela era diferente, ou melhor, ela era igual a todo mundo, mas muito diferente dele. Tinha um sorriso marcante, era firme com aquele tom de jovialidade, era decidida, aventureira, tinha características marcantes, mas sempre as mesmas, tinha um nome.

Sabia que as pessoas não viam as mudanças físicas, só ele conseguia. Mesmo assim ficou com receio, pois ela o conheceu quando era um homem bem sucedido, Tatiana ainda gostaria dele quando fosse a jovem criança ou o velho cheio de doenças? Pela primeira vez em sua vida ele foi buscar ajuda, para o que até então, não considerava um problema. Consultou-se com o primeiro profissional que lhe disse que eram os nervos, depois foi ao segundo que tinha certeza que era algum distúrbio psicológico, um terceiro até lhe recomendou uma casa de repouso por algumas semanas. Mas nenhum dos remédios, exercícios ou mesmo o repouso receitados fizeram algum efeito, todo dia ele ainda encontrava com uma pessoa diferente no espelho. Até que resolveu tentar outro especialista. Ele não estava muito certo sobre isso, já não acreditava mais que alguém pudesse ter uma solução para seu problema, porém a médica lhe foi tão bem recomendada que o homem pensou: “por que não?”. E foi o que fez. Entrou no consultório, sentou e contou toda sua vida para a jovem doutora de cabelos dourados, que o escutou com muita atenção e cuidado. Depois de todo o longo relato, houve um minuto de silêncio, onde o homem pensou: “acho que ela também não sabe como me ajudar!”. A médica olhou o rapaz com cautela e disse simplesmente:

– Por que tem que ser pessoas diferentes? Por que não pode ser todas você?

O homem saiu do consultório estupefato. Nenhum remédio, nenhuma internação, somente um pequeno questionamento. Como era possível que somente aquilo pudesse curar o seu problema? Passou a noite inteira pensando sobre o assunto e custou a dormir. Quando acordou se olhou no espelho como de costume, mas o que viu o impressionou, era uma pessoa completamente diferente. Um homem com seus quase quarenta anos, sorriso jovial, os olhos refletindo alguma sabedoria e até alguns traços mais delicados. Quem diria? Todos em um. Foi então que se reconheceu, era Lucas, esse era seu nome.