Azar no ar

Muitos consideram a sexta-feira treze um dia de azar. E você, também é um deles? Antes de acreditar na superstição, já se perguntou quantas vezes, efetivamente, houve má sorte em seu caminho neste dia? Inúmeras pessoas acreditam na crença, porém poucos conhecem sua origem.

Ao citar a data, logo vem a mente um cara com máscara de hóquei e uma motosserra na mão, não é mesmo? E não é para menos! Afinal, a franquia do filme que virou um dos ícones de terror é extensa, contando com mais de trinta anos de existência, doze filmes e arrecadando mais de 500 milhões de dólares. Porém não é por isso que a sexta-feira treze é considerada um mau agouro, talvez os próprios produtores tenham se inspirado nas crendices populares quando deram vida ao personagem. Então, de onde veio esse mito?

Não se sabe ao certo, mas tudo indica que o costume surgiu com duas lendas nórdicas.

A primeira delas descreve uma festa muito pomposa com um banquete de dar água na boca na morada celestial das divindades, Valhalla, e para tal feito foram convidados doze Deuses. Tudo estava indo muito bem até que Loki apareceu de penetra no evento e armou uma confusão daquelas que resultou na morte de Balder, o qual era ninguém menos do que um dos favoritos. Estabeleceu-se, então, que convidar treze pessoas para o jantar era símbolo de azar.

A segunda já toma lugar na era do cristianismo, pois quando os nórdicos se converteram a religião a Deusa do amor e da beleza, Friga, fora transformada em bruxa. Para se vingar de tal feito, a mesma uniu-se a onze outras bruxas e ao próprio Satanás, e todas as sextas-feiras os treze juntavam-se a fim de rogar praga para toda a humanidade. A superstição de que o dia da semana trazia má sorte se espalhou por toda a Europa, transformando a sexta-feira em um dia de azar.

Tais crenças foram reforçadas até mesmo na bíblia. A Santa Ceia aconteceu um dia antes da morte de Jesus Cristo, a qual se deu em uma sexta-feira, e o banquete contava com treze pessoas à mesa. Contudo, não foi somente esse relato que destacou o dia como lugar para desastres. Eva ofereceu a maçã a Adão em uma sexta-feira e advinha quando o grande dilúvio teria começado?

Todas essas crendices, passadas de geração a geração, fizeram com que a sexta-feira treze fosse, e ainda seja, temida por muitos. Eu particularmente gosto delas, afinal, assim como Jason, nasci no dia treze e, justamente, neste dia da semana. E você? Ainda acha que elas trazem azar? Se a resposta for afirmativa, melhor tomar cuidado ao passar por este treze de julho, já que estamos precisamente em uma sexta-feira.

Pula Fogueira

Assim como minhas comemorações irmãs, Natal, Carnaval e Páscoa, eu sou antiga e minhas origens são além do cristianismo. Festas juninas, apesar de carregarem outros nomes, já eram muito comuns em grande parte do hemisfério norte. A época do solstício de verão na região sempre fora motivo de celebração, pois com a promessa de dias mais longos e quentes, era tempo de pedir por fertilidade e fartura nas colheitas. Mesmo com a ascensão do cristianismo na Europa, eu não perdera minha força e, não querendo entrar em confronto com o que era popular, a igreja acabou me incorporando em seu calendário, homenageando assim, os três santos de sua crença dentro do mês: Santo Antônio, São João Batista e São Pedro.

Cheguei ao Brasil junto com os jesuítas portugueses, mas o mais curioso foi ver que os indígenas que aqui habitavam já faziam comemorações muito parecidas com as minhas na mesma época, mesmo que estas, no hemisfério sul, marcassem o início do inverno. As tradições fundiram-se e foi por isso que uma festa onde se celebra santos católicos acabou tendo em sua composição comidas tão típicas da região. Outra característica importante em minhas festas a qual surgiu nesse mesmo período foram as vestimentas caipiras, pois eram roupas comuns da época, já que a grande maioria da população brasileira de meados do século XX morava nos campos. Hoje, as minhas maiores comemorações concentram-se no nordeste do país, com destaque para as cidades de Caruaru – PE e Campina Grande – PB.

Na verdade eu sou uma festa de muitas misturas, alguns dos meus mais tradicionais rituais vieram de diferentes partes do mundo. A quadrilha, por exemplo, teve a influência das contradanças francesas de salão do século XVII. Apesar das minhas festas mais remotas já contarem com danças e cantos, os passos em pares com uma sequência coreografada se popularizou tanto que acabou sendo incorporado as festas juninas, tornando-se o que vemos hoje. As fogueiras já eram presentes nas celebrações pagãs e indígenas, porém as mesmas também receberam uma explicação cristã, pois Santa Isabel, mãe de um dos aniversariantes do mês, João Batista, disse a Maria que acenderia uma fogueira quando o mesmo nascesse para avisá-la e assim foi feito. A tradição de soltar balões, assim como os fogos, veio da China; e há tantas outras de outros lugares que nem me lembro mais. Hoje tenho variações de acordo com a região onde sou comemorada, porém continuo mantendo sempre as minhas raízes.

Então prepare a pipoca, o bolo de fubá, o amendoim e a paçoca. Aqueça o quentão e o vinho quente. Acenda a fogueira e pendure as bandeirinhas. Vista-se ao melhor modo caipira e coloque o seu chapéu. Chame seu par para dançar e solte o som da sanfona, pois já é época de comemorar minhas festas juninas.

Nação Verde Amarela

José – 29 de Junho de 1958

A pequena cidade do interior de Pernambuco estava em festa. O prefeito havia colocado um rádio gigante no pátio do colégio, onde José e todos da cidade se reuniram, naquele domingo, para ouvir a partida. O jovem senhor estava aflito, já que o Brasil enfrentaria nada menos do que a anfitriã do evento naquele ano, Suécia. Mesmo desgostoso por saber que a seleção jogaria com o uniforme azul e isso, com certeza, traria azar; José cantou o hino como nunca antes e esperou, com o coração acelerado, que o juiz apitasse o começo do jogo. Com quatro minutos a Suécia abriu o placar. Ele sabia que daria nisso, onde estava o amarelo canarinho? Porém a aflição durou pouco, já que Vavá cinco minutos depois acabou empatando tudo e antes mesmo de terminar o primeiro tempo tinha virado o placar. O ginásio foi ao delírio, quando Pelé fez seu gol de chapéu aos dez minutos do segundo tempo. Aos vinte e três, Zagallo marcou mais um. A Suécia até tentou alcançar o Brasil fazendo seu segundo gol aos trinta e cinco, porém Pelé carimbou a vitória com mais um dele ao finalzinho. Brasil 5, Suécia 2. E foi assim que o interior de Pernambuco e toda a nação comemorou o primeiro título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Patrícia – 17 de Junho de 1962

A partida foi no Chile, porém era no Clube Hebraica em São Paulo que as famílias mais notórias da cidade estavam reunidas em frente ao televisor para assistir a final do campeonato. Patrícia nunca fora ligada em futebol, entretanto aquela competição havia chamado sua atenção e isso acabou fazendo com que ela acompanhasse, de perto, todos os jogos com o seu marido. Pelé havia deixado a seleção já no segundo jogo por causa de uma contusão, mas isso não abalou a confiança do time, o qual seguiu em frente com Garrincha fazendo a vez do grande ídolo e tornando-se assim, tão lendário quanto o próprio. O Brasil entraria em campo no uniforme amarelo e jogaria contra a Tchecoslováquia, a qual nem esperou quinze minutos de jogo para fazer o seu primeiro ponto. Mas para o deleite da plateia, Amarildo balançou a rede apenas dois minutos após o gol da adversária e fez com que toda a compostura pomposa da elite presente no clube se quebrasse com gritos de êxtase. Depois disso, não deu mais para o país europeu. Zito fez o segundo aos vinte e nove e Vavá, o terceiro, aos trinta e três do segundo tempo. Brasil 3, Tchecoslováquia 1. E foi assim que a alta sociedade de São Paulo e toda a nação comemorou o segundo título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Márcio – 21 de Junho de 1970

Apesar de toda a turbulência política em que o país se encontrava, Márcio e seus amigos deixaram, somente por aquele domingo, os movimentos por democracia de lado e reuniram-se em frente à TV a fim de assistir a partida da Copa do Mundo que se passava no México. O grito verde e amarelo já ecoava por todo o país pedindo por liberdade, e agora a cor vestia também a seleção no futebol. Pelé iniciou o placar logo aos dezoito minutos do primeiro tempo, porém, por um erro da zaga, a Itália empatou aos trinta e sete. A situação poderia desanimar qualquer torcedor, mas o time sul americano estava longe de desistir. E foi por isso que Gerson acabou balançando as redes mais uma vez aos vinte e um do segundo tempo com um tiro certeiro. Logo em seguida, Jairzinho, de falta, somou mais um gol ao placar da seleção. Para o delírio dos estudantes ali reunidos, no finalzinho do jogo ainda houve o gol de Carlos Alberto, o qual, nos anos seguintes, seria lembrado como o mais bonito da história das Copas, já que não faltaram invertidas da esquerda para direita as quais encerraram-se no passe preciso de Pelé. Brasil 4, Itália 1. E foi assim que os estudantes que lutavam contra a ditadura militar e toda a nação comemorou o terceiro título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Jéssica – 17 de Julho de 1994

As ruas estavam pintadas com desenhos que ostentavam as cores da seleção e bandeirinhas do Brasil balançavam ao vento cobrindo todo o horizonte. A família de Jéssica era só mais uma, dentre tantos brasileiros, que naquele domingo havia se reunido para um churrasco a fim de assistir aquela que seria uma das partidas mais sofridas que o Brasil já enfrentara em uma final. Novamente a disputa era contra a Itália, apesar do palco do evento, naquele ano, ser nos Estados Unidos. O jogo fora muito tenso, truncado e nenhum dos dois lados conseguiu desenvolver o potencial que possuía, para a aflição de seus torcedores. Não houve gols em nenhum dos dois tempos nem nos trinta minutos da prorrogação. Era a primeira vez que a final de uma Copa do Mundo seria decidida nos pênaltis. Franco Baresi da Itália começou isolando a bola acima do travessão, porém o Brasil também não marcou o seu primeiro, já que o goleiro do adversário defendeu o chute de Márcio Santos. Albertini e Evani conseguiram converter para o time europeu, mas o Brasil não ficou para trás já que Romário e Branco fizeram os seus. Jéssica já estava com o coração saltando da boca quando Massaro chutou do lado esquerdo do gol e Taffarel defendeu. Logo na sequência, Dunga marcou para o Brasil e o adversário, Roberto Baggio, mandou sua bola para além do travessão, dando a vitória, mais uma vez, para a nossa nação. Brasil 3, Itália 2. E foi assim que a classe média brasileira e toda a nação comemorou o quarto título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Jorge – 30 de Junho de 2002

Os fogos já estouravam no céu do Rio de Janeiro. Jorge, ainda sonolento, estava em seu casebre deitado no sofá debaixo das cobertas. Só mesmo por um jogo da seleção que acordaria tão cedo estando de férias escolares. Os horários daquela copa haviam sido cruéis, já que a mesma se passara do outro lado do mundo, entre o eixo Coréia e Japão. Tinha cortado seu cabelo igual ao ídolo, o fenômeno, e por isso se sentia poderoso, mesmo que sua mãe odiasse o penteado. Apesar da adversária do Brasil ser a Alemanha, o primeiro tempo fora tão morno que o menino quase se entregara ao sono. Porém a emoção da segunda metade do jogo o despertara, quando Ronaldo, o fenômeno, abriu o placar aos vinte e dois minutos e logo depois, marcou de novo, aos trinta e quarto. Antes mesmo de Cafu erguer a taça, o morro todo já explodia em festa com rojões e gritos de é campeão. Brasil 2, Alemanha 0. E foi assim que a comunidade do Rio de Janeiro e toda a nação comemorou o quinto título verde e amarelo em uma Copa do Mundo.

Vida de Solteira – Dia dos Namorados

“Não! Não pode ser! O dia dos namorados chegando e eu aqui sozinha? Como isso foi acontecer?!”, Valentina lamentava enquanto contorcia-se na cama olhando o calendário. Suspirou. Era frustrante, afinal, nos últimos tempos, ela tentara de todas as maneiras trocar o status de solteira para relacionamento sério. Porém, suas experiências haviam sido desastrosas, dignas de uma comédia romântica sem um final feliz. Ninguém poderia dizer que não havia feito nada a respeito do assunto. Entretanto, o resultado estava claro, estampado em sua testa; uma alma solitária no dia em que tantos outros estariam celebrando o amor. Decidiu que não mais ficaria nessa depressão, chamaria algumas amigas e juntas sairiam para curtir a noite. Afinal, era somente uma data, nada mais que isso.

E não era que, no final, acabou empolgada? Valentina estava em um bar com mais três amigas o qual, naquele 12 de junho, celebrava o Dia dos Solteiros, com correios elegantes e bebidas duplas de graça. Como nunca soubera desses eventos antes? Que lindo seria se justamente naquela noite encontrasse sua alma gêmea. Iniciou bem; estava com suas amigas, conversou, deu risada, bebeu algumas tequilas e até deu umas paqueradas. Mas, em dado momento, as coisas começaram a ficar estranhas. Uma das meninas havia sumido, outra já estava se engraçando com um cara, trocando empolgada com o mesmo correios elegantes; restara somente Valentina que, sem pronunciar uma única palavra, olhava a amiga da amiga sentada à sua frente e desejava desesperadamente que esta também não se arranjasse, afinal ela não poderia ser a única a sobrar.

O garçom parou ao seu lado e entregou-lhe um papelzinho colorido, sinal de que recebera uma mensagem. Empolgada agradeceu seu salvador e abriu o pequeno bilhete: “Olá gatinha, você vem sempre aqui?”. “Nossa, essa é mais velha do que minha vó!”, pensou. Mesmo assim resolveu responder, afinal sua falta de criatividade para puxar uma conversa talvez fosse um ato esporádico, como, quem sabe? Timidez. “Primeira vez! Quem é você? Mande um sinal ou fale um pouco mais ao seu respeito. Quer me encontrar pessoalmente?”. Não demorou muito para que o funcionário da casa viesse novamente com outro papelzinho colorido. “Que ótimo! Encontre-me em 20 minutos no espaço perto dos camarotes, garanto que não irá se arrepender! Procure por “Cupido da Paixão”.”. Valentina achou aquela mensagem estranha e ao mesmo tempo excitante, afinal o pequeno jogo de esconde-esconde era um tanto quanto interessante. “Pois bem, então seria a “Gladiadora de Corações”.”, pensou e começou a rir. Levantou-se, olhando com piedade para a amiga da amiga, estava com dó de largá-la sozinha, mas nessa guerra só poderia haver uma derrotada e antes a desconhecida do que ela. Passou no banheiro a fim de arrumar o cabelo e verificar roupa e maquiagem antes de encontrar com o seu misterioso querubim. Deu risada consigo mesma. Só poderia estar maluca para empolgar-se com algo assim! Quando se deu por satisfeita, saiu do recinto e foi até o lugar combinado. Era estranho, o espaço manteve-se vazio a noite toda, mas justamente naquele momento estava lotado de mulheres. O tal rapaz ainda não estava lá, então resolveu esperar. Mais e mais mulheres se aglomeravam no diminuto lugar, talvez fosse começar alguma atração programada da casa. O misterioso querubim já estava há uns bons vinte minutos atrasado e Valentina começou a indagar se o rapaz havia desistido. Sentindo-se desconfortável com o amontoado de gente, resolveu perguntar à menina sentada ao seu lado se ela sabia o motivo de tal afobação.

– Não sei! Estou aqui para encontrar com alguém. – Riu consigo mesma. – Mandou chamá-lo de “Cupido da Paixão”.

Valentina olhou ao redor e reparou que todas as mulheres presentes tinham um correio elegante na mão e pareciam esperar por alguém. “Ele levou a sério o papo de cupido!”, pensou irritada. Assim que se levantou a fim de voltar a sua mesa um holofote acendeu-se no meio do ambiente, destacando um rapaz musculoso vestido com apenas uma sunga branca e asas enormes em suas costas.

– Para àquelas que não encontraram seu amor hoje, apresento o “Cupido da Paixão”! – o DJ anunciou, tocando uma música agitada e fazendo com que o rapaz em destaque começasse a dançar.

Valentina indignou-se. Por que só ela havia recebido o convite para o show se não estava sozinha na mesa? E a amiga da amiga? Passou no bar e pediu uma cerveja. “Não precisava daquilo!”, pensou consigo mesma. E conformou-se, pelo menos ainda lhe restara a companhia da desconhecida. Nem precisou chegar à mesa para perceber que a mesma estava vazia. Valentina olhou para os lados, todas haviam se arranjado. Não era que o cupido, desde o início, sabia que aquele seria seu fardo? Tomou um grande gole de sua bebida e respirou fundo, retornando para o show que havia abandonado. Não encontrou o seu príncipe encantado, mas seu querubim a aguardava.

A Palavra

Sou o idioma que você fala todo dia; desde o “Bom Dia” ao acordar até o “Boa Noite” quando vai se deitar. A primeira palavra do seu filho, a expressão que acalenta nos momentos mais difíceis e também aquela que fere nos rompantes de ira. Mesmo não pronunciada, estou em sua rotina, seja em placas, livros, e-mails ou mensagens. Faço parte de sua vida, mas você sabe como começou a minha?

Surgi há muito tempo com o latim vulgar, idioma levado pelos soldados romanos às áreas conquistas pelo Império. Porém, isso era somente a semente, afinal só me tornei oficial muito mais tarde. Com as sucessivas transformações sofridas pela expansão do Império, o latim começou a ser substituído por vários dialetos. Nesta época, muitas línguas surgiram: francês, espanhol, italiano, sardo, provençal, rético, franco-provençal, dálmata e romeno; de todas minhas irmãs eu sou a caçula, já que só vim oito séculos mais tarde. Passei por grandes mudanças desde o meu nascimento e só fui me estabilizar com a unificação de Portugal, onde finalmente me tornei língua oficial.

Com as grandes navegações acabei estendendo meus braços ao mundo. Fui levada dentro das grandes Caravelas, Naus e Galeões portugueses para quase todos os continentes. Minha voz se espalhou por Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tome e Príncipe, além de, é claro, o Brasil. Sou segunda língua de alguns países da África, América, Macau e Goa. Dentro de todas as novas terras sofri novamente a influência dos dialetos locais; inclusive, na nação verde e amarela, há palavras bem diferentes das que estou acostumada, as quais são de origem indígena ou negra. E mesmo dentro do país sou pronunciada de diversas maneiras; o que dizem no norte, não é igual ao nordeste, nem ao centro-oeste, ou sul e sudeste. Afinal, em um lugar com tanta diversidade cultural era de se esperar que uma mesma raiz tuberosa fosse chamada de mandioca, macaxeira ou aipim dependendo de onde você procurar.

Meu dia é comemorado na minha pátria mãe em 10 de Junho, assim como o Dia de Portugal e aniversário de morte de Luís de Camões. Contudo, também tenho uma data internacional a ser celebrada, já que faço parte de outros países, e esta é em 05 de Maio, mesmo dia do nascimento de Rui Barbosa.

Hoje, presente em quatro continentes, sou usada por cerca de 230 milhões de pessoas e o oitavo idioma mais falado no planeta. Passei por algumas reformas ortográficas e a última delas serviu para que unificassem as regras gramaticais nos países onde faço parte. Se você leu este texto até aqui, com certeza já sabe quem sou e, se ainda houver alguma dúvida, basta procurar pelo meu conteúdo naquele livrinho muito antigo e grosso que tem em casa, pois com certeza irá me encontrar; o tal chamado Dicionário da Língua Portuguesa.

Série profissões: O Ascensorista

A vida de José era subir e descer o dia inteiro dentro daquele cubículo. Já havia passado por outros empregos ao longo de sua existência, porém, fora ali, naquele ambiente minúsculo, que escolhera terminar os seus dias como empregado. Era um prédio antigo, com toda a pompa e luxo que só uma construção do século passado consegue oferecer. E ele agradecia por isso já que sua profissão era algo em extinção, afinal, quem é que precisa de ascensor para apertar um botão?

Há quem diga que isso não é vida, ficar o dia todo para baixo e para cima carregando pessoas desconhecidas. Porém, era justamente disso que José mais gostava. Famílias inteiras moravam ali. Com seus filhos, netos, bisnetos, amigos, esposas, maridos, amantes e tantos outros conhecidos passando por aqueles elevadores noite e dia. Sabia de suas histórias e emoções; coisas que eram contadas ou que ficavam subentendidas.

A mãe solteira do terceiro andar que saia cedo para deixar sua filha na escola antes de ir para a empresa; o senhor do quinto, o qual sempre reclamava que estava cansado, mas toda manhã lá estava ele, vestido em seu terno para ir trabalhar; a jovem senhora do segundo, que todas as terças e quintas-feiras saia à tarde para suas atividades no clube da terceira idade. Crianças que desciam para brincar e jovens a fim de namorar. Havia o garoto do oitavo, o qual todos diziam ser vagabundo, pois ninguém o via sair para trabalhar, mas todos o escutavam voltar de suas noitadas. Contudo, José sabia, que na verdade, o rapaz passava suas noites desenvolvendo o ofício de segurança em uma boate a fim de juntar dinheiro para pagar sua faculdade. Era tanta gente em seus vaivéns que alguns poderiam se tornar indiferentes, mas não aquele ascensorista.

– Bom dia, Sr. José! Como vai a família?

– Muito bem, obrigado, Dona Maria.

Era noite na cidade e José finalmente havia chegado em casa, depois de um longo dia de trabalho. Abriu a porta da frente e seu cachorro correu fazer festa para recebê-lo. Acariciou e brincou um pouco com o danado, antes de ir à cozinha fazer sua refeição. Após o jantar, se acomodou em sua poltrona para assistir um pouco de televisão. Fora o som do aparelho, tudo estava em silêncio. Acabou pegando no sono e, quando foi ver, quase passou no assento até o amanhecer. Levantou-se e foi para o quarto. Antes de voltar a dormir, pegou o porta-retratos           com a foto de sua falecida esposa na cômoda ao lado da cama.

– Boa noite, minha querida!

Mas que ironia! Por passar o tempo subindo e descendo sem parar, José conhecia a todos que no prédio moravam. Porém, mesmo que estivesse sempre no mesmo lugar, poucos sabiam sobre sua vida mencionar.

Ela e Ele – Um encontro mais

Ela chegou do trabalho e foi correndo tomar um banho. Estava ansiosa. Não era o primeiro, e nem o segundo encontro, porém a empolgação continuava a mesma. Já sabia que roupa vestir, que sapato usar, que maquiagem fazer. Desta vez quem tinha escolhido o programa fora era. Um cinema, um jantar e talvez, depois, beber alguma coisa. Simples, mas não se importava, pois qualquer evento com ele era animado.

Ele deixou que ela passasse para sentar-se e depois fez o mesmo. O filme escolhido não era muito seu estilo, mas quem se importava? No final acabaria sendo bom de qualquer jeito! Só por estar com ela. Subiu o braço da poltrona, abraçou a moça e fez com que ela se acomodasse em seu ombro. Colocou o balde pipocas em seu colo e se preparou para as duas horas de filme em sua companhia.

Ela sabia que ele iria adorar o restaurante, pois, apesar de não estarem há tanto tempo juntos, já havia aprendido alguns de seus gostos. Entrada, prato principal e sobremesa; fora tudo maravilhoso! Melhor ainda foram as horas de conversa que tiveram. Sempre tão interessantes e produtivas! Ainda ficava sem jeito em alguns momentos, mas, agora, na grande maioria das vezes, já conseguia ser ela mesma, pois sua confiança na relação crescia a cada dia.

Ele já não precisava de mais nada, mas aceitou ir a um barzinho com ela só para que a noite não acabasse tão cedo. Pediu uma cerveja para ele e um drink para sua companhia. Tinha quase certeza que ela adoraria aquela bebida. Um rapaz com um violão enchia o ambiente com suas melodias. Era engraçado vê-la se controlar, e falhar, para não cantar junto com suas músicas preferidas. Era ainda mais fascinante descobrir quais eram essas canções!

Ela admitia que, talvez, tivesse bebido um pouco mais do que devia. Mas, se não fosse assim, quiçá não tivesse tido coragem de fazer o convite que tanto queria. Estava com ele a caminho de um lugar mais reservado para passarem a noite juntos. Tinha borboletas na barriga. Parecia que era a primeira vez que fazia aquilo e, de certo modo, até era. Afinal, nunca havia vivenciado um sentimento como aquele que o rapaz sentado ao seu lado lhe despertava. Não via a hora de chegar! Queria muito que ele fosse dela e vice-versa.

Ele entrou no quarto e esperou alguns minutos até que ela se sentisse confortável. Estava nervoso, mas isso era porque nunca teve tanta certeza do que queria como naquele momento. Começou a beijá-la e deixou que o sentimento os levassem até onde quisessem. Não teve pressa ou anseio, mesmo com todo o fogo que sentia naquele instante. Mais do que saciar o desejo, queria sentir aquele momento ao lado dela. Ela seria dele e ele dela.

Eles ainda terão muitos encontros e desencontros pela frente. Momentos tão bons quanto este e alguns não tão agradáveis assim. Contudo, ali abraçados naquela cama, a certeza de que tudo sairia perfeitamente bem lhes preenchiam. Pois exalavam a paz que só os amantes mais promissores conseguem ter.